Pular para o conteúdo

Frases de Miguel Chiyo Tomás

40 frases

PERGUNTAS — PARTE 1 Quem... 1. Quem melhor compreenderia a ilusão do amor senão aquele que foi consumido pela dor e descobriu que amar é apenas vestir a carência com poesia?
Continuar lendo

PERGUNTAS — PARTE 1 Quem... 1. Quem melhor compreenderia a ilusão do amor senão aquele que foi consumido pela dor e descobriu que amar é apenas vestir a carência com poesia? 2. Quem reconheceria a falsidade da paz senão aquele que sentiu a guerra pulsar nos ossos e percebeu que o conflito é a única constante da existência? 3. Quem enxergaria o fracasso da amizade senão aquele que atravessou a desilusão e concluiu que todo laço é interesse disfarçado de afeto? 4. Quem definiria a confiança senão aquele que sentiu a lâmina da traição cravada pelas mesmas mãos que antes o acolhiam? 5. Quem compreenderia o absurdo da companhia senão aquele que encontrou na solidão a forma mais lúcida de existir? 6. Quem entenderia o peso do desejo senão aquele que, ao renunciar, percebeu que a vontade é um ciclo inútil que se alimenta de si mesmo? 7. Quem interpretaria a verdade senão aquele que viveu da mentira e descobriu que o silêncio vale mais do que qualquer discurso? 8. Quem conheceria a fome senão aquele que foi ignorado até pelo pão mais simples? 9. Quem compreenderia o racismo senão aquele que o praticou e viu, no próprio ódio, o reflexo cru da condição humana?

Poesia Cantada — Corrupção do Gênero Humano Desde o nomadismo até o sedentarismo // O homem foi escravo do seu próprio fetichismo //
Continuar lendo

Poesia Cantada — Corrupção do Gênero Humano Desde o nomadismo até o sedentarismo // O homem foi escravo do seu próprio fetichismo // Mudou de paisagem, mas não de abismo // Saiu da caverna, mas levou consigo o cinismo // Criou o pauperismo, progressismo, vários ismos // Cada nova doutrina só mudou o mecanismo // Mudaram os nomes, não mudou o organismo // Toda civilização foi só cadáver com verniz fino // Mais tarde as “cracias” dominaram o expansionismo // E cada império chamou saque de heroísmo // Cada rei chamou massacre de patriotismo // Cada Estado chamou medo de civismo // Ergueu governos frágeis sob despotismo // Povos ajoelhados sob autoritarismo // Veio a monarquia, pariu o imperialismo // E o trono foi apenas a cadeira do egoísmo // Surgiram preconceitos, conceberam tribalismo // Estereótipos raciais deram forma ao racismo // O Holocausto só mostrou com requinte e formalismo // Que o homem é laboratório do próprio sadismo // — Miguel Chiyo Tomás

CARTA I: A Condenação Eis que a multidão estava tão agitada como as ondas do mar, e exclamavam — homens e mulheres, jovens e idosos — com tom azedo: — Heeee! Heeee! Matem-no! Matem-no!
Continuar lendo

CARTA I: A Condenação Eis que a multidão estava tão agitada como as ondas do mar, e exclamavam — homens e mulheres, jovens e idosos — com tom azedo: — Heeee! Heeee! Matem-no! Matem-no! — Deem-no de comida aos cães! — Rebelde! Rebelde! Rebelde! Rebelde! Então condenaram-me por agir indiferente à multidão. Apedrejavam-me antes mesmo que eu lhes revelasse os seus pecados. Queriam silenciar-me antes que o karma e a justiça testemunhassem por mim. Houve alguns que se ofereciam como escravos às mãos que tiranizavam a nação; outros reduziam-se a servos daqueles que dissipavam os poucos fragmentos de dignidade ainda existentes entre nós. Por recusar servi-los e por negar-me a participar das suas práticas imundas, sentiram-se confrontados pela minha posição. Antes que me lançassem à masmorra, arrastaram-me com cordas diante de nomes pomposos. E, no cemitério da minha esperança, apenas tumbas se formavam. As crianças riam; os velhos zombavam de mim. E os meus próximos… esqueceram que eu existia. Diante deles fui visto como vento: invisível, intangível. Aliás, o vento ainda é perceptível; infelizmente, para mim, ninguém me percebia. A minha presença, para eles, reduzia-se a números, diminuindo pouco a pouco, até que não restasse unidade alguma. Fui abandonado e entregue pelos meus próprios amigos, vizinhos e parentes, que também vociferavam pela minha sentença ao lado da multidão: — Condenai-o! Condenai-o! — Enforquem-no! Enforquem-no! — Joguem-no ao calabouço! Joguem-no ao calabouço! Uns até debochavam, dizendo: — Não és tu o herói? Então por que não ages contra nós? Onde está a tua coragem? E soltavam gargalhadas em tom agudo: Hahahahaha! Hahahahaha! Hahahahaha! Outros cuspiam-me no rosto, enquanto os opressores falavam: — Não sabes tu que não deves ir contra as leis da sociedade? Então respondi-lhes: — De que servem as leis se não visam proteger os fracos dos poderosos? De qualquer maneira, este julgamento não busca a verdade; apenas ratifica a culpa de quem é vítima. Eles insistiram: — Todos estamos subordinados às normas da sociedade. O que te dá o direito de desobedecê-las? E eu respondi: — Seja qual for a resposta — satisfatória ou não — o resultado será o mesmo: condenação. A lei está ao vosso serviço, não vós ao serviço dela. Novamente perguntaram: — Quem pode estar acima das normas? Por acaso não são elas que nos orientam? Então respondi-lhes: — As normas não podem estar acima da vida. Somos nós que as criamos; nunca elas que nos criam. Somos nós que as instituímos para que nos orientem. Furiosos com a minha resposta, disseram: — Desgraçado! Como te atreves a desrespeitar-nos? Já que não queres submeter-te, far-te-emos arrepender deste dia. A multidão, cega e incauta de esclarecimento, apoiava veementemente os opressores. Não conseguiam distinguir o certo do errado; o puro do impuro; o joio do trigo; a tartaruga do cágado; o leopardo do guepardo. E eu olhava para eles como um bando de jumentos sem direção. Então perguntei-lhes: — Se a lei não condenasse os mais vulneráveis, vós temeríeis as tropas que vos deviam proteger? Não ousaríeis confrontar o que vos oprime? Não teríeis o direito de exigir que vos tratassem com justiça? Não protestaríeis contra aqueles que vos governam? Os lordes, temendo que tais perguntas despertassem o povo e que, conscientes da verdade, pudessem rebelar-se, imediatamente ordenaram que me conduzissem à prisão de Kakanda, para que, dentro de dois dias, se realizasse o meu julgamento. Durante esse intervalo, não comi nem bebi. Dois dias depois daquela agitação diante dos lordes, organizaram um banquete para celebrar o meu julgamento e rir-se do meu atrevimento. Estavam presentes homens de todas as classes — nobres e plebeus — reunidos para assistir ao meu juízo. "E, enquanto brindavam à minha sentença, eu era conduzido às trevas do calabouço." In Cartas de Um Condenado. ✍️

"Cartas de Um Condenado" Prólogo — O Condenado fala pela primeira vez Condenaram-me apesar da minha inocência; e, na inópia dos incorruptíveis, os inescrupulosos vangloriavam-se de sua afluência. Tiraram-me a liberdade, indiferentes à verdade. Fustigaram-me diante da multidão q…
Continuar lendo

"Cartas de Um Condenado" Prólogo — O Condenado fala pela primeira vez Condenaram-me apesar da minha inocência; e, na inópia dos incorruptíveis, os inescrupulosos vangloriavam-se de sua afluência. Tiraram-me a liberdade, indiferentes à verdade. Fustigaram-me diante da multidão que suplicava a minha execução. Lançaram-me ao calabouço e, sob a sombra do meu silêncio, despiram-me da minha intrepidez, enquanto eu escrevia o meu último suspiro numa carta. Atormentavam-me o espírito com correntes tenebrosas; ataram-me à desgraça da minha vergonha e entoaram canções horrorosas. Foram eles que me incriminaram por pura cobiça. Houve quem recuasse; poucos, porém, ousaram agir para que eu saísse em liberdade. Escrevo-vos com a última gota do meu fôlego, com o resto do suor da força que ainda me sobra; sem esperança de voltar a aquecer-me ao sol, sem certeza de tornar a ver o mar. Escrevo com medo de deixar de respirar e de que, com o tempo, os vossos rostos se apaguem da minha memória, e eu já não consiga recordá-los. E, se alguém vos perguntar de quem é esta carta, respondei-lhes: é de um Condenado. Cujo paradeiro hoje é desconhecido; cujo espírito vagueia, importunado pelo grito dos ímpios; cuja alma procura descanso na sofrência dos justos. Não procurem o resto da minha sobrevivência: os ratos já o roeram, as baratas devoraram os meus olhos; os vermes encheram-se nas minhas fossas nasais, e os insetos consumiram as minhas entranhas. Se vos escrevo, não é por tendência, mas por agonia; se penso, é por sobrevivência; se me movo, é por sacrifício. Redijo para que, caso alguém encontre esta carta, conheça quem foi o homem que habitou esta masmorra e por que foi trazido para cá. Quando o barulho dos tolos não consegue discernir o ritmo da dança, tendem a perseguir a música dos sábios. Não houve quem me visitasse, quem chorasse, quem perguntasse por mim ou quem desejasse ver-me pela última vez. Como a relva da terra fui pisado; esmagaram-me como a uma formiga e recusaram-me o direito ao oxigénio. Roubaram-me o direito à liberdade e entregaram-me, indecorosamente, a uma morte apoquente.

PRÓLOGO: À PROCURA DO SER HUMANO Havia muita gente na rua... Os cônjuges passeavam de mãos dadas; jovens congregavam-se à sombra de uma mulembeira, discutindo a literatura africana dos séculos XVIII e XIX; outros, mais curiosos, discorriam sobre a ascensão do Iluminismo e a Rev…
Continuar lendo

PRÓLOGO: À PROCURA DO SER HUMANO Havia muita gente na rua... Os cônjuges passeavam de mãos dadas; jovens congregavam-se à sombra de uma mulembeira, discutindo a literatura africana dos séculos XVIII e XIX; outros, mais curiosos, discorriam sobre a ascensão do Iluminismo e a Revolução Científica e Tecnológica; alguns, do outro lado do ocidente, ostentavam vaidosamente aquilo que vestiam e consumiam... Havia ainda aqueles que se entregavam a pelejas por nada menos do que pecúnia. Talvez, à primeira vista, isso pareça fútil, inclusive para um Miserável como eu... irrisório de se dizer e absurdo de se ouvir. Cheguei a cogitar interceder; não obstante, como estava apenas de passagem, pouco desejava o meu íntimo que assim o fizesse. Fui-me embora. Segui adiante como segue o vento: sem olhar para trás. Pensei se a minha atitude seria passível de apreciação por parte da sociedade. Por outro lado, temia igualmente que ela me censurasse por ter permitido que o meu subconsciente se recusasse a interceder em favor daqueles incompatíveis. Ponderei, afinal, que a vida se assemelha a um cemitério, onde as tumbas já foram preparadas para nós há muito tempo. Daí que aquilo a que chamamos viver seja, de facto, um belo enterro. Enfim... Achei melhor abandonar tais reflexões e prosseguir a viagem de forma tranquila e solene. Enquanto caminhava pelas terras da Humpata em direção à Chibia, já com a garganta ressequida pela longa jornada, deparei-me, de forma inesperada, com um viajante mukubal. Apressei-me, então, a saudá-lo: — Graça e paz, amigo viajante. O que o traz a estas terras longínquas? Então, respondeu-me: — Estou à procura do ser humano. Pois, de onde venho, existem poucos. Perplexo ante o que acabara de ouvir, tornei a inquirir: — Afinal, amigo viajante, que tipo de ser humano procuras especificamente? Em tom metafórico e exaurido pelo cansaço, replicou: — Daquele que não deseja afirmação, mas perdão. Daquele que não quer possuir o céu, mas apenas ser digno de habitá-lo. Estarrecido com as palavras do nômade, ensimesmei-me a refletir: Que estranho... De que tipo de ser humano se trata? Não somos todos nós humanos por natureza? Afinal, o que nos distingue daquele que ele tanto procura? Permaneci aturdido diante das minhas próprias indagações e concluí que talvez tudo não passasse de um delírio do viajante mukubal; que o excesso de fadiga o tivesse levado a proferir tais afirmações aparentemente absurdas. Enquanto monologava com o meu subconsciente, o viajante mukubal disse-me imediatamente: — Não penses demasiado, filho. Sabes, houve um tempo em que este mundo era habitado por pessoas verdadeiramente humanas. Pessoas de coração benigno. Zelavam umas pelas outras; faziam de tudo para resguardar a paz e a harmonia social; auxiliavam-se mutuamente, unidas por um único propósito: o bem-estar comum. Não obstante, com o passar do tempo e com a descoberta dos minerais e de outros recursos naturais — ouro, diamantes, carvão, ferro e tantos mais —, bem como, mais tarde, do petróleo, da energia, das grandes invenções tecnológicas e, por conseguinte, da bomba atómica, esses humanos foram-se dissipando. Na verdade, o amor tornou-se exótico nos últimos tempos. O ego, por seu turno, erigiu-se como a suprema afirmação do homem. Cada indivíduo passou a buscar a própria exaltação perante os demais. Converteram-se em amantes da guerra. Possuídos pela febre da opulência. Famintos de poder. Endividados pela ignorância. Dominados pela ganância. Obnubilados pela ausência de lucidez. Sepultados na desgraça e engendrados pela cobiça. É desse ser humano que estou à procura, filho. Por acaso, viste algum por aí?

Pai, Viemos Ver Luanda. Hoje, convidei o meu pai a sair da sala, a desligar o mundo plástico,
Continuar lendo

Pai, Viemos Ver Luanda. Hoje, convidei o meu pai a sair da sala, a desligar o mundo plástico, e a calçar os pés da verdade. Convidei-o a conhecer as ruas. “Vamos, Pai. Vamos ver as paisagens que os ecrãs escondem. Vamos passear pela cidade que a televisão não mostra.” E fomos… Caminhámos por avenidas onde a esperança já não mora, por vielas onde a infância morre sem nome, onde crianças brincam com a fome, e senhoras mendigam migalhas para alimentar a última faísca de um amanhã incerto. “Então, Pai… o que achaste da nossa bela Luanda?” Ele calou-se. E no seu silêncio, a cidade gritou. Seus olhos marejados não cabiam no peito das notícias oficiais. E eu disse-lhe: “Esta é a graciosidade que ninguém exibe. Mortes prematuras, abandonos precoce, corações descartados como lixo.” Venham todos. Venham ver Luanda com os próprios olhos. Não com os olhos que vos emprestam. Venham vestir a camisola de Angola, não a do orgulho cego, mas a do luto ativo, do olhar que se revolta. Ganhem coragem. Desçam das vossas salas refrigeradas. O solo está quente de lágrimas. As ruas estão sedentas de testemunhas. Venham ver o que é ser angolano fora da publicidade.