Frase de Miguel Chiyo Tomás
CARTA I: A Condenação Eis que a multidão estava tão agitada como as ondas do mar, e exclamavam — homens e mulheres, jovens e idosos — com tom azedo: — Heeee! Heeee! Matem-no! Matem-no! — Deem-no de comida aos cães! — Rebelde! Rebelde! Rebelde! Rebelde! Então condenaram-me por agir indiferente à multidão. Apedrejavam-me antes mesmo que eu lhes revelasse os seus pecados. Queriam silenciar-me antes que o karma e a justiça testemunhassem por mim. Houve alguns que se ofereciam como escravos às mãos que tiranizavam a nação; outros reduziam-se a servos daqueles que dissipavam os poucos fragmentos de dignidade ainda existentes entre nós. Por recusar servi-los e por negar-me a participar das suas práticas imundas, sentiram-se confrontados pela minha posição. Antes que me lançassem à masmorra, arrastaram-me com cordas diante de nomes pomposos. E, no cemitério da minha esperança, apenas tumbas se formavam. As crianças riam; os velhos zombavam de mim. E os meus próximos… esqueceram que eu existia. Diante deles fui visto como vento: invisível, intangível. Aliás, o vento ainda é perceptível; infelizmente, para mim, ninguém me percebia. A minha presença, para eles, reduzia-se a números, diminuindo pouco a pouco, até que não restasse unidade alguma. Fui abandonado e entregue pelos meus próprios amigos, vizinhos e parentes, que também vociferavam pela minha sentença ao lado da multidão: — Condenai-o! Condenai-o! — Enforquem-no! Enforquem-no! — Joguem-no ao calabouço! Joguem-no ao calabouço! Uns até debochavam, dizendo: — Não és tu o herói? Então por que não ages contra nós? Onde está a tua coragem? E soltavam gargalhadas em tom agudo: Hahahahaha! Hahahahaha! Hahahahaha! Outros cuspiam-me no rosto, enquanto os opressores falavam: — Não sabes tu que não deves ir contra as leis da sociedade? Então respondi-lhes: — De que servem as leis se não visam proteger os fracos dos poderosos? De qualquer maneira, este julgamento não busca a verdade; apenas ratifica a culpa de quem é vítima. Eles insistiram: — Todos estamos subordinados às normas da sociedade. O que te dá o direito de desobedecê-las? E eu respondi: — Seja qual for a resposta — satisfatória ou não — o resultado será o mesmo: condenação. A lei está ao vosso serviço, não vós ao serviço dela. Novamente perguntaram: — Quem pode estar acima das normas? Por acaso não são elas que nos orientam? Então respondi-lhes: — As normas não podem estar acima da vida. Somos nós que as criamos; nunca elas que nos criam. Somos nós que as instituímos para que nos orientem. Furiosos com a minha resposta, disseram: — Desgraçado! Como te atreves a desrespeitar-nos? Já que não queres submeter-te, far-te-emos arrepender deste dia. A multidão, cega e incauta de esclarecimento, apoiava veementemente os opressores. Não conseguiam distinguir o certo do errado; o puro do impuro; o joio do trigo; a tartaruga do cágado; o leopardo do guepardo. E eu olhava para eles como um bando de jumentos sem direção. Então perguntei-lhes: — Se a lei não condenasse os mais vulneráveis, vós temeríeis as tropas que vos deviam proteger? Não ousaríeis confrontar o que vos oprime? Não teríeis o direito de exigir que vos tratassem com justiça? Não protestaríeis contra aqueles que vos governam? Os lordes, temendo que tais perguntas despertassem o povo e que, conscientes da verdade, pudessem rebelar-se, imediatamente ordenaram que me conduzissem à prisão de Kakanda, para que, dentro de dois dias, se realizasse o meu julgamento. Durante esse intervalo, não comi nem bebi. Dois dias depois daquela agitação diante dos lordes, organizaram um banquete para celebrar o meu julgamento e rir-se do meu atrevimento. Estavam presentes homens de todas as classes — nobres e plebeus — reunidos para assistir ao meu juízo. "E, enquanto brindavam à minha sentença, eu era conduzido às trevas do calabouço." In Cartas de Um Condenado. ✍️
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