Frase de Miguel Chiyo Tomás
Pai, Viemos Ver Luanda. Hoje, convidei o meu pai a sair da sala, a desligar o mundo plástico, e a calçar os pés da verdade. Convidei-o a conhecer as ruas. “Vamos, Pai. Vamos ver as paisagens que os ecrãs escondem. Vamos passear pela cidade que a televisão não mostra.” E fomos… Caminhámos por avenidas onde a esperança já não mora, por vielas onde a infância morre sem nome, onde crianças brincam com a fome, e senhoras mendigam migalhas para alimentar a última faísca de um amanhã incerto. “Então, Pai… o que achaste da nossa bela Luanda?” Ele calou-se. E no seu silêncio, a cidade gritou. Seus olhos marejados não cabiam no peito das notícias oficiais. E eu disse-lhe: “Esta é a graciosidade que ninguém exibe. Mortes prematuras, abandonos precoce, corações descartados como lixo.” Venham todos. Venham ver Luanda com os próprios olhos. Não com os olhos que vos emprestam. Venham vestir a camisola de Angola, não a do orgulho cego, mas a do luto ativo, do olhar que se revolta. Ganhem coragem. Desçam das vossas salas refrigeradas. O solo está quente de lágrimas. As ruas estão sedentas de testemunhas. Venham ver o que é ser angolano fora da publicidade.
No pensador.ai desde