Pipa amarela
Era uma vez um menino
Que era muito sonhador
Trocaria a sua pipa
Seu brinquedo favorito
Por um cargo de doutor
O menino então cresceu
Teve o sonho realizado
Tornou-se executivo
Profissional respeitado
Mas um dia aquele homem
Sentiu no peito uma dor
Ao abrir sua janela
Viu pairando no horizonte
Seu brinquedo favorito
Era uma pipa amarela
Era uma vez um homem
Que era muito sonhador
Trocaria seu destino
Pelos tempos de menino
Dor
Como passa o passarinho
Passeando pelo jardim
A dor também é passageira…
Pode acreditar em mim!
Dissipando-se a cada passo
Logo se torna passado…
Se ela tem o seu começo
Também há de ter seu fim
Serenidade
Vi um casal caminhando
Cá em solo brasileiro
Pelo jeito e sotaque
Era gente do estrangeiro
No colo da mãe dormia
Um bebê, despreocupado,
Sem jamais imaginar
O que se passava ao seu lado.
O marido, cabisbaixo reclamava
A esposa, entristecida murmurava…
Nada estava dando certo
Para aquela jovem família
Pois no ar se percebia
Desalento e agonia.
Talvez longe de sua terra,
Sem emprego ou sem dinheiro,
O casal sentisse incerto
Seu futuro e paradeiro
Mas no colo de sua mãe
No final daquele dia
O bebê, bem sossegado,
Serenamente dormia…
E ao olhá-lo mais de perto
Percebi que até sorria.
Quem dera este nosso mundo
Tão antigo e tão moderno
Pudesse ser, tão somente,
Um suave colo materno.
GAROA
Pois há gente que labuta
Por toda uma eternidade
Sonhando, algum dia,
Alcançar a felicidade.
Confunde tal sentimento
Com vitória ou com sucesso
Sem perceber que ele é parte
E não o fim de um processo
Ser feliz é desfrutar
Das gotinhas da garoa
Ao invés de esperar
Um temporal pra se encharcar
Você é seu próprio juiz
Então, decida ser feliz!
Prece aos filhos
E a cada passo
Uma prece eu faço:
“Meu Deus, protegei o destino
Desse cativante menino!”
E a cada passo
Uma prece eu faço:
“Meu Deus, protegei, sim, a sina,
Dessa fascinante menina!”
Amém.
Hospedagem
Viver é chegar…
Então se hospedar
E depois partir.
Chegada
Hospedagem
Partida…
Fases integrantes da mesma jornada
Mas o coração não se esquece:
Aquele que chega e nele se hospeda
Mesmo quando parte, ali permanece.
Divagação
Devagar… Eu divago.
E buscando respostas pra tudo
Eu encontro apenas o nada…
E o nada é tudo o que eu desconheço…
E tudo o que eu conheço é nada…
Nada mais do que isso
Divago buscando respostas concretas
de um mundo abstrato…
Divago buscando respostas abstratas
de um mundo concreto…
E em meio a tudo, só encontro o nada…
E tudo é tão vago, tal como esta minha
divagação.
Devagar… Eu divago.
Benção
“A sua benção, papai!
A sua benção, mamãe!”
“Meu filho, Deus te abençoe!”
É pena que hoje pensem
Que esse tempo já se foi…
Pois a benção de uma mãe…
Pois a benção de um pai…
É benção que não se esquece!
É benção que sempre aquece!
É benção que permanece!
É benção que não se vai.
PENSAMENTO
Não posso respirar
Lá no fundo do mar...
Mas meus pensamentos
Mergulham por horas
No oceano profundo
Da minha existência
Não posso ficar
Flutuando no ar...
Mas meus pensamentos
Mergulham por horas
No horizonte infinito
Da minha existência
Como é bom poder pensar!
Pensando eu viajo ao fundo do mar
Ao topo do céu
A qualquer lugar!
Sem saber quando parar
Sem ter pressa pra voltar
Nunca deixe alguém ceifar
A tua liberdade de pensar
E de se manifestar...
O pensamento é um direito
Que merece e exige respeito.
LIMONADA
Era um azedo limão
Que foi cortado e espremido...
Mas após tal aflição
Tornou-se doce limonada
Deixando uma rica lição.
Era uma pedra bruta
Que após bem lapidada
Transformou-se em escultura
Com tamanha formosura
Por todos admirada
Assim ocorre com a gente.
Após serem as dificuldades
Superadas com paciência
Surgem os bons resultados
Esta é a chamada “resiliência”.
Daí nasceu a expressão
Por tantos utilizada:
“Transforme o azedo limão
Numa doce limonada”.
Seu doce colo
Sonhei que voltei no tempo
E realizei meu maior desejo…
Deitei-me em teu doce colo
E recebi um beijinho teu…
E apenas sussurrei: “Minha mãe!”
De repente, duas lágrimas de felicidade
Escorreram de meus olhos…
Acordei, voltando ao meu tempo…
Não mais senti o teu doce colo,
Não mais senti o beijinho teu…
E apenas sussurrei: “Minha mãe!”
De repente duas lágrimas de saudade
Escorreram de meus olhos…
SABIÁ-LARANJEIRA
Quão belas são as lembranças
Lá dos tempos de criança...
Sendo um bom homem do campo
Meu pai tinha antigos pios.
E tal como a brincar
Ficávamos a imitar
Dos pássaros, os assobios.
Qual era a nossa emoção
Quando os pássaros nos ouviam!
E, então, retribuíam
Com uma linda canção!
E ontem, ao entardecer,
Sem querer voltei no tempo...
Ouvi um doce assobio
Vindo de uma paineira.
E mal pude acreditar
Lá estava a cantarolar
Um sabiá-laranjeira.
Revivendo meu passado
Eu ouvi, maravilhado,
Seu impecável assobio.
Desta vez fiquei calado
E com os olhos marejados
Eu não dei sequer um pio.
Barraca
Naquela grande cidade
Embaixo do viaduto
Havia uma barraca …
Quem ali moraria?
Teria tido alguma vez?
Teria tido alguma voz?
Qual seria o seu nome?
Teria sede ou talvez fome?
E quanto à sua família,
Por onde é que ela andaria?
Naquela grande cidade
Embaixo do viaduto
Havia tantas barracas…
Naquela grande cidade
Quantos viadutos havia?
Pai e Filho
Conforme fogem os dias
A vida também se esvai…
Mas há graças que não passam
Como a bênção de ser filho
Como o dom de ser um pai
Pense só por um momento
Como é bom ser pai e filho
Pois Deus, com todo o seu brilho,
É os dois ao mesmo tempo!
Expressão da Alma
Um dia me perguntaram:
“O que é a poesia?”
E eu então respondi:
“É a expressão da alma
Em forma de melodia.”
E daí me questionaram:
“Você se sente um poeta?”
Foi quando esclareci:
“Sou simplesmente mineiro.
Todo mineiro é poeta…
Tal qual cada brasileiro.”
NINHO VAZIO
Dois bonitos passarinhos
Que voavam por aí
Um dia se encontraram
E logo se apaixonaram
Construíram um belo ninho
Simples, mas aconchegante
Então vieram os filhotinhos
Felizes e esfuziantes
A família aumentou
E a trabalheira também…
Ter comida e segurança
Não é fácil pra ninguém
O casal de passarinhos
Com integral dedicação
Transmitiu aos seus filhinhos
Respeito e educação
E assim, dia após dia,
Numa luta sem parar
Os pequenos filhotinhos
Aprenderam a voar
Mas em uma tarde voaram
E já não voltaram mais…
Foram construir seus ninhos
Seguindo os próprios caminhos
Como um dia, lá atrás,
Também o fizeram seus pais
Então, assim de repente
O ninho aconchegante
Que era tão quente e seguro
Ficou triste, escuro e frio
Tornou-se um ninho vazio
E o casal de passarinhos
Lá na varanda do ninho
Hoje fica a murmurar
Esperando que numa tarde
Os filhotes reapareçam...
E que voltem pra ficar.
Fé
Religião não se discute,
Mas vou dizer no que eu creio:
“Religião não é o fim,
É tão somente um meio.”
Várias são as religiões,
E com tantas diferenças...
Mas há algo em comum
Em todas as grandes crenças.
Independente do credo
Os seus fiéis acreditam
Que a vida tem uma sequência
Após esta existência.
A isso chamamos FÉ
E sua força é fenomenal.
Se há um Deus onipotente
Basta seguirmos em frente.
Desculpe o meu desajuste...
Religião não se discute.
Renascer
O sol nasce… Mas se põe
O sol se põe… Mas renasce
Ele sempre faz assim.
Talvez seja o destino
Deste ancião-menino…
Este é o seu ciclo sem fim.
A lua nasce e então cresce
Vê-se plena e vai minguando…
Mas depois rejuvenesce
Ainda com mais vigor
Ela sempre faz assim.
Talvez esta seja a sina
Desta anciã-menina…
Este é o seu ciclo sem fim.
Não tenho o fulgor do sol
Nem o esplendor da lua
Mas quem dera eu possa ter
Esse dom de renascer.
Gaiola
Fico só a imaginar
Pássaros que vêm e vão…
Quanto a mim, aprisionado,
Há anos nesta gaiola
Não sei mais sequer voar
E nem se um dia irei embora
Sinto as asas já ceifadas
Sem forças para mais nada
Só me resta, no momento,
Suportar tal punição
Com os restos do coração
E as sobras do pensamento
Meu crime foi ser tão belo
Além de ter suaves penas
E ser tão bom cantador
Enquanto cumpro a dura pena
Eu entoo este poema
Pra amenizar tamanha dor.
SONHO
Sonhei que houve uma guerra
cujas armas eram flores
As explosões espargiam
pétalas, néctar, olores,
esperança em tom de cores
As pessoas alvejadas
Com flores também reagiam…
E o sonho acabou assim
com o mundo se transformando
em um florejante jardim