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Frases de Manuel Bandeira

97 frases

Quer livres, quer regulares, abrem sempre os teus cantares como flor de quintanares .
Chama e fumo Amor - chama, e, depois, fumaça... Medita no que vais fazer:
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Chama e fumo Amor - chama, e, depois, fumaça... Medita no que vais fazer: O fumo vem, a chama passa... Gozo cruel, ventura escassa, Dono do meu e do teu ser, Amor - chama, e, depois, fumaça... Tanto ele queima! e, por desgraça, Queimado o que melhor houver, O fumo vem, a chama passa... Paixão puríssima ou devassa, Triste ou feliz, pena ou prazer, Amor - chama, e, depois, fumaça... A cada par que a aurora enlaça, Como é pungente o entardecer! O fumo vem, a chama passa... Antes, todo ele é gosto e graça. Amor, fogueira linda a arder! Amor - chama, e, depois, fumaça... Portanto, mal se satisfaça (Como te poderei dizer?...) O fumo vem, a chama passa... A chama queima. O fumo embaça. Tão triste que é! Mas...tem de ser... Amor?...- chama, e, depois, fumaça: O fumo vem, a chama passa.

Vou-me Embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero
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Vou-me Embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-d'água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar — Lá sou amigo do rei — Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada.

Noite Morta Noite morta. Junto ao poste de iluminação
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Noite Morta Noite morta. Junto ao poste de iluminação Os sapos engolem mosquitos. Ninguém passa na estrada. Nem um bêbado. No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras. Sombras de todos os que passaram. Os que ainda vivem e os que já morreram. O córrego chora. A voz da noite... (Não desta noite, mas de outra maior.)

Cantiga de Amor Mulheres neste mundo de meu Deus Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
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Cantiga de Amor Mulheres neste mundo de meu Deus Tenho visto muitas — grandes, pequenas, Ruivas, castanhas, brancas e morenas. E amei-as, por mal dos pecados meus! Mas em parte alguma vi, ai de mim, Nenhuma que fosse bonita assim! Andei por São Paulo e pelo Ceará (Não falo em Pernambuco, onde nasci) Bahia, Minas, Belém do Pará... De muito olhar de mulher já sofri! Mas em parte alguma vi, ai de mim, Nenhuma que fosse bonita assim! Atravessei o mar e, no estrangeiro, Em Paris, Basiléia e nos Grisões, Lugano, Gênova por derradeiro, Vi mulheres de todas as nações. Mas em parte alguma vi, ai de mim, Nenhuma que fosse bonita assim! Mulher bonita não falta, ai de mim! Nenhuma porém, tão bonita assim!

Canção do vento e da minha vida O vento varria as folhas, O vento varria os frutos,
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Canção do vento e da minha vida O vento varria as folhas, O vento varria os frutos, O vento varria as flores... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De frutos, de flores, de folhas. O vento varria as luzes, O vento varria as músicas, O vento varria os aromas... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De aromas, de estrelas, de cânticos. O vento varria os sonhos, E varria as amizades... O vento varria as mulheres. E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De afetos e de mulheres. O vento varria os meses E varria os teus sorrisos... O vento varria tudo! E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De tudo.

Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval Paixão Ciúme
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Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval Paixão Ciúme Dor daquilo que não se pode dizer Felizmente existe o álcool na vida e nos três dias de carnaval éter de lança-perfume Quem me dera ser como o rapaz desvairado! O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas e gritava pedindo o esguicho de cloretilo: - Na boca! Na boca! Umas davam-lhe as costas com repugnância outras porém faziam-lhe a vontade. Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados Dorinha meu amor... Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro: _____________________________________[- Na boca! Na boca!

⁠Bacanal Quero beber! Cantar asneiras No esto brutal das bebedeiras
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⁠Bacanal Quero beber! Cantar asneiras No esto brutal das bebedeiras Que tudo emborca e faz em caco… Evoé Baco! Lá se me parte a alma levada No torvelim da mascarada, A gargalhar em douro assomo… Evoé Momo! Lacem-na toda, multicores, As serpentinas dos amores, Cobras de lívidos venenos… Evoé Vênus! Se perguntarem: Que mais queres, além de versos e mulheres? – Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!… Evoé Baco! O alfange rútilo da lua, Por degolar a nuca nua Que me alucina e que não domo!… Evoé Momo! A Lira etérea, a grande Lira!… Por que eu extático desfira Em seu louvor versos obscenos, Evoé Vênus!

⁠Poema de Finados Amanhã que é dia dos mortos Vai ao cemitério. Vai
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⁠Poema de Finados Amanhã que é dia dos mortos Vai ao cemitério. Vai E procura entre as sepulturas A sepultura de meu pai. Leva três rosas bem bonitas. Ajoelha e reza uma oração. Não pelo pai, mas pelo filho: O filho tem mais precisão. O que resta de mim na vida É a amargura do que sofri. Pois nada quero, nada espero. E em verdade estou morto ali.

⁠Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova — O gesso muito branco, as linhas muito puras — Mal sugeria imagem de vida
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⁠Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova — O gesso muito branco, as linhas muito puras — Mal sugeria imagem de vida (Embora a figura chorasse). Há muitos anos tenho-a comigo. O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja. Os meus olhos, de tanto a olharem, Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico. Um dia mão estúpida Inadvertidamente a derrubou e partiu. Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava. E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina... Hoje este gessozinho comercial É tocante e vive, e me fez agora refletir Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.