Pular para o conteúdo

Frases de MANOEL DE ALMEIDA ( Copyright 2010 - Direitos Autorais Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro, RJ)

23 frases

DOR NO CORPO E NA ALMA Mais uma noite de insônia, Uma noite comprida,
Continuar lendo

DOR NO CORPO E NA ALMA Mais uma noite de insônia, Uma noite comprida, Uma noite doída, Afirmo sem cerimônia! É que as horas não passam E a mente e a alma não cansam! Dói o corpo extenuado, cansado De tanto virar na cama De um lado pro outro lado. Dói a alma - o tempo parado, Como um mágico cruel, Traz-me à lembrança o ser amado Deixando-me o gosto amargo de fel Por ter e não ter quem amo e me ama: Só a tenho na lembrança – que a chama! Mas a quero em meus braços – na cama!!

SER SUBLIME Por detrás dos olhos baços, Daquele andar de passo em passo,
Continuar lendo

SER SUBLIME Por detrás dos olhos baços, Daquele andar de passo em passo, Naquele corpo já bastante lasso – Uma Alma de distinta nobreza, Carrega o fardo, a cruz de aspereza, Que Deus lhe concedeu, com certeza, Como última missão desta natureza! Pelas formas honrosa e majestosa Com que, dia a dia, cumpre zelosa, Sua parte, gênios de todo tipo de arte, Especialistas dos mais variados ofícios, Sob o comando de Jesus – sem sacrifício, Ergue, à Alma distinta – um Ninho de Luz. Quem será esse Ser angelical? Não deduz? Minha mãe! Honra-te de conhecê-la, aqui, Porque, lá, junto a Jesus, banhada em luz, Só alma de sua estirpe dirá: eu a conheci !

INVERNO: ESPERANÇA E TRISTEZA Todo ano, quando chega o inverno, Vem-me à memória o inverno anterior!
Continuar lendo

INVERNO: ESPERANÇA E TRISTEZA Todo ano, quando chega o inverno, Vem-me à memória o inverno anterior! Ou melhor, vem à memória a esperança E o desejo que sinto todo ano – no inverno, De não estar sozinho no inverno posterior! Ano após ano, o inverno cada vez mais frio, E minha esperança e meu desejo – não se cumpriu! Fico a sonhar como seria uma noite de inverno Sentindo o aconchego da pessoa amada, Com ela abraçado, sentido o frio vento na face, E o calor do amor aquecendo a alma – apenas sonho! Não sei por que, no inverno, sinto tanta solidão. É como se fosse saudades de um distante inverno, No qual fui muito feliz por dormir aconchegado Nos braços de quem muito hei amado! Solidão e saudades de alguém que perdi Num distante passado – mas que esta aqui, Dentro do meu coração triste e magoado! Quando se aproxima o inverno, dentro de mim, hiberno! Fico introspectivo, em meio à tristeza, uma esperança acesa: Este ano não estarei só, encontrarei minha amada, com certeza, E dormirei com ela abraçado, esquecerei os invernos passados, Finalmente serei feliz, terei meu sonho realizado! Mas, como já estou acostumado – mais um inverno só – meu fado! E começa em minh’alma esperançosa o sonho do próximo inverno, Passo o ano acalentado desejo de, com meu amor, dormir abraçado! Este ano, frio inverno, olho no espelho, dizem-me, minhas cãs brancas Que o tempo voa, que solidão é o preço que pagarei nesta encarnação!

INEXPLICÁVEL AMOR Que é o amor? Tem existência concreta,
Continuar lendo

INEXPLICÁVEL AMOR Que é o amor? Tem existência concreta, Na abstração dos sentimentos? É algo tão leve, Que um sopro de vento leve? É um fardo tão pesado Capaz de deixar esmagado O coração de quem ama E de quem é amado, Quando algo sai errado? Ou será um mistério Para sempre guardado? Ou um enigma Jamais desvendado? Se todos já o dizem ter sentido, Essas dúvidas não fazem sentido! Mas, justo por tê-lo sentido, Nenhuma explicação faz sentido!

INCONSTANTE, MAS PERSEVERANTE Por onde passo Ora vacilante passo
Continuar lendo

INCONSTANTE, MAS PERSEVERANTE Por onde passo Ora vacilante passo Ora firme compasso No que sinto No que faço Ora sou instinto Ora espírito distinto Ora sou bagaço Ora puro aço Ora arregaço Ora sou palhaço No tempo, no espaço Passo a passo... Passo, passo...

O INIMIGO VIVE COMIGO Há algum tempo minh’alma Ansiosa, agita-se se calma,
Continuar lendo

O INIMIGO VIVE COMIGO Há algum tempo minh’alma Ansiosa, agita-se se calma, Como a querer me fazer Seus sentimentos, escrever! Ora vislumbra-me por inteira Ora esconde-se sorrateira! Sim, falo de minha própria alma, Que na verdade sou eu mesmo! É que às vezes, escondo-me de mim mesmo, Outras vezes, mostro-me todo, a mim mesmo! Uma parte de minh’alma ao Mundo quer se mostrar, Outra parte querer do Mundo se esconder! Sinto minh'alma carente de amor, de afeto! Levo a vida sentindo-me um Ser incompleto! Meu desejo de amar, só meus poemas a me consolar! Mas essa dor em minh’alma insiste em me maltratar! Triste sina essa minha, tenho tanto afeto a oferecer, Porém, há uma estranha força impedindo acontecer A aproximação de alguém que posso meu frio coração Aquecer! E quando alguém chega, eu, algoz de mim mesmo, Atrapalho-me, erro, falho,... Sim, sou algoz de mim mesmo!

“SEGUINDO A CORRENTE ...” De encontro à vida, Fatal acidente causando ferida.
Continuar lendo

“SEGUINDO A CORRENTE ...” De encontro à vida, Fatal acidente causando ferida. Ao da encontro vida, Ação inteligente, normal incidente . Nas duas opções, Sob quaisquer condições, São distintas as lições: A primeira, ir contra a corrente da vida, Revoltando-se ante as provas sofridas, Só aumenta a dor da ferida E não se aprende com a lição vivida, Que, no futuro poderá ter de ser repetida! A segunda, o ser pensante,a dor, não abstante, Segue a corrente da vida numa luta constante, Sem revolta e aprendendo a todo instante! Ao encontro da vida uma decisão inteligente.

ONDE VIVE MEU AMOR? Todo amor que tive, foi-se, Não sei por onde anda ou se vive!
Continuar lendo

ONDE VIVE MEU AMOR? Todo amor que tive, foi-se, Não sei por onde anda ou se vive! O amor que não tive, nunca se foi, Eu sei por onde anda e que vive! Todo amor que tive foi comensal Da mesa farta dos meus sentimentos! Locupletávamo-nos com a fartura de nossas energias, Que de pouco em pouco, reduziam-se em migalhas frias! O amor que não tenho, mas que um dia tive, Eu sei por onde anda e que vive: Sinto seus passos doídos em meu coração, Ouço sua voz no mais recôndito de minh’alma! Transmutamos energias sutis, que alimentam nosso sonho, Enquanto, neste Mundo, trilhamos unidos e distantes, O caminho no qual um dia nos reencontraremos – suponho, Pois, creio que o Grande Juíz da Vida não é cruel nem medonho!

DESABAFO Quero da vida A brisa suave
Continuar lendo

DESABAFO Quero da vida A brisa suave Que me acalente O cansaço De viver ao relento. Trago minh’alma cansada De uma longa jornada, Trago cicatrizes profundas De uma vida errante Que outrora vivi. Estou cansado Da truculência da vida, De pessoas que, sem ter consciência, Glorificam a violência, Depois choram as conseqüências. Quero viver Em outras paragens Onde seja normal Viver sem o mal, Onde não se tenha De sofrer tanta dor Em nome do amor. Quero fugir desta selva De lobos famintos Em devorar sentimentos, De pessoas vazias Que dia após dia Vivem sua real hipocrisia Como se fosse simples fantasia.

DESENCANTO Meu quarto outrora, Habitava sonhos encantados – hoje,
Continuar lendo

DESENCANTO Meu quarto outrora, Habitava sonhos encantados – hoje, Pesadelos (sombras de sonhos não realizados) São meus anfitriões, aguardando-me No limiar do meu sono de desencanto. Meus pensamentos, que outrora Deslizavam audazes e intrépidos Através de minha boca, Hoje se recolhem e só viajam Por suas confidentes estradas secretas. O que me constitui transformou-se Numa silenciosa montanha Aguardando a passagem do tempo, Na certeza de que forças ocultas corroem-lhe a base, Preparando-lhe a queda final. O que guardo de belo em mim São flores de cacto na aridez Do deserto em que me tornei, Castigado por “fenômenos climáticos” Das minhas experiências de vida. O que ainda me alenta É a possibilidade de ter sido inventado, E vivido e sofrido e usado, Por um engenhoso e mágico inventor Que saiba e queira e recicle Os farrapos que sobraram de mim, Quiçá até queira dar brilho novo À luz que outrora Fulgurava em meus olhos

DEUSA DA MINHA NATUREZA Quando a vi – na hora, Pensei: Ah! Se ela me quisesse agora!
Continuar lendo

DEUSA DA MINHA NATUREZA Quando a vi – na hora, Pensei: Ah! Se ela me quisesse agora! Como o mito de Zéfiro e Flora, De bruto que sou, Eu me transformaria Em suave brisa d’aurora. Mas, diferentemente do mito de outrora, Só eu me encantei por minha deusa Flora, Ela nem me percebeu – Passou e foi-se embora.

EVOCAÇÃO Vem a mim, ó alegria! Quero escrever-te em poesia.
Continuar lendo

EVOCAÇÃO Vem a mim, ó alegria! Quero escrever-te em poesia. Vem a mim, ó felicidade! A tristeza já vai tarde. Vem a mim, ó otimismo! Dei um basta no velho pessimismo. Vem a mim, ó esperança! Quero fazer-te música para dança. Vem a mim, ó fé! Viver na dúvida não dá pé.

RELEVO SENTIMENTAL Às vezes, sou um abismo tão profundo, Que, ao olhar para dentro de mim,
Continuar lendo

RELEVO SENTIMENTAL Às vezes, sou um abismo tão profundo, Que, ao olhar para dentro de mim, Sinto vertigem – caindo-me nas entranhas do mundo. Às vezes, sou uma planície tão extensa, Que, ao olhar para dentro de mim, Perco-me num horizonte vago – sem fim. Às vezes, sou um deserto tão escaldante, Que, ao olhar para dentro de mim, Não sei se paro ou sigo adiante. Às vezes, sou um planalto tão irregular, Que, ao olhar para dentro de mim, Embrenho-me em depressões cheias de espinhos e cipoal, Cercadas de montanhas difíceis de escalar. No mais das vezes, apraz-me ser este relevo, Pois, ao olhar para dentro de mim, Sou nova paisagem a cada dia, Não conheço monotonia: Se hoje sou depressão; Amanhã, sou majestosa montanha, Com meu olhar otimista, Olhando o mundo a perder de vista; Depois de amanhã, sou verdejante colina. Com flores, pássaros e rios de água cristalina –, Sou vida que não conhece rotina.