deixo descabelar. aprendi depois de muita energia desperdiçada. eu era inquieta demais diante de qualquer bagunça, não fazia ideia de como conviver com o caos. tudo precisava estar milimetricamente no lugar. roupa desamassada, cabelo bem penteado. odiava os dias de vento, vê se pode? agora deixa ventar. deixo me virar do avesso, deixo bagunçar — o cabelo, a roupa, a vida toda. sorrio no meio da brisa leve e aprendi sorrir em meio algumas tempestades. a chuva não me assusta mais, mas ainda não gosto de raio e trovão. me percebo cada dia mais dente-de-leão: tão leve, tão me deixo levar. e me levo.
(do livro: A menina que desatava nós)
Em algum momento, entre os excessos de pertencimento, deixei de caber. Vi destoar as expectativas, assisti, lentamente, cada palavra morrer. Eu tagarelava, n’outros tempos, mil verdades em entrelinhas que me denunciavam inteira; quando me despia das vontades alheias e me enxergava nua & vulnerável; dizendo mais do que ousava sentir; sentindo mais do que arriscava ser.
Hoje se amontoa.
Vezenquando deixo escapar.
Vez em sempre tento esconder…
vezenquando tento me vestir
da mulher que quero ser.
tem dias que a rotina
engole um pouco mais &
ainda assim, me apaixona.
houve um tempo
que eu não sabia equilibrar os sonhos
que, hoje, carrego firme
na palma das mãos…
viver
é deliciosamente
caótico
EU TE PEÇO, POR FAVOR, SE OLHA COM CARINHO.
Não queira só ver a vida passar, sabe? Então te peço, por favor, se cuida. Não se deixe escapar nessa rotina maluca, não se deixe perder a essência nem se diminua a cada dia. Seja mais você. E se dê a chance de se descobrir - e te descobrirem - sempre.
Não me deixa solta; eu tenho alma de pipa.
Aprendi a passarinhar quando a vida me tirou as gaiolas, mas gosto de entender qual ninho me espera de volta; qual colo tem para descansar. Minhas asas são grandes e meus sonhos maiores: espero que isso encante ao invés de assustar.
Vivo no lá e no cá; percorrendo histórias que me cabem ser.
Entendi minhas migrações como necessárias para viver. Sei de onde vim e onde quero chegar; sei os caminhos que não quero voltar e quais ainda vibram intensos.
Precisei ser forte e encarei tempestades que me forçaram crescer.
Amadureci na marra; na garra; na urgência. Vi meus medos agigantarem diante dos meus olhos...
Nunca fui tão menina.
Vem cá e me diz quais são os porquês que te paralisam os sonhos.
Quando foi que você deixou de sonhar tão grande?
Em qual gaveta você se escondeu? Em qual gaveta você se esqueceu?
Quem foi que deixou você rotular “improvável” naquilo que era possível?
Quem te fez acreditar nas desculpas que você inventa?
Quanto mais você vai deixar para lá aquilo que antes era motivo de riso?
Vem cá e me diz,
Quais são os porquês
Que te fizeram crer
Para te deixar de lado?
Dia desses esbarrei no amor. Ele brotava no meio do concreto; um tanto envergonhado de frio. Tinha o corpo mirrado, mas florescia mesmo sendo outono, mesmo sendo vento, mesmo sendo do avesso à ordem natural das coisas tantas. Fiquei sentada, ali, na calçada, abraçando meus joelhos tortos, olhando para a improbabilidade desses amores impossíveis, pensando em como racionalizamos demais todas as coisas; esquecendo que elas são fluidas. Pensar demais enrijece o ser humano, não é?
A vida é uma sucessão de rotinas. Dia após dia repetimos ações e vamos empurrando os dias da melhor maneira possível. É até ok, mas falta aquele frisson, sabe? Não dá pra simplesmente deixar a rotina nos envolver e só sobreviver. É preciso pulsar, se entregar, sentir-se vivo. Vira e mexe me vem a pergunta na cabeça: quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez? Esses 'algos' são as quebras na rotina que dão sentido à vida, sabe? Eu venho buscando novas primeiras vezes e a sensação é indescritível…
Gosto da mansidão dos dias cinzas que me abraçam úmidos. A garoa fina que cai nesse outono invernal pinica a ponta do meu nariz que, sem pudor, enrubesce. Caminho sem pressa nessa rotina que me agita e me engole as horas... Tem sido bom viver agridoçura do cotidiano, meio caos, meio manso -- nunca morno.
Treinei meus olhos para perceber cosinhas: essas bonitezas simples do dia-a-dia que, tão costumeiras, quase ninguém mais vê. É o que tem me desacelerado o peito e acalmado ansiedades: respiro tranquila enquanto vejo o dia passar, devaneando na fumacinha que sobe do café recém coado, percebendo a pressa das pessoas fugindo da chuva, dançando, sozinha, enquanto espero o semáforo esverdear.
Absorvo risadas como se fossem música. Deixo meu riso fazer coro às felicidades alheias. Abraço quem cruza meu caminho, espantando o frio pelo tato. Aprendi a aguçar meus ouvidos biônicos e ouvir atentamente tudo que me chega aos ouvidos. É bonito viver o presente, estar no agora. Exercício bonito deixar o amanhã para a sua devida hora...
Não se doe à quem te dói. Não aceite migalhas de amor. Você merece mais do que isso.
Vamos parar? Na boa, as coisas não são desse jeitinho que você pinta e borda. Não entenda como uma crítica, menina, eu só estou aqui para estender uma mão e fazer você enxergar a vida de um jeito mais leve e livre, como você merece. Você precisa entender (e eu torço mesmo para que entenda) que você não precisa tolerar esse amor que vive só por puro comodismo. Há um hiato gritante, menina, entre tolerância e reciprocidade. Daqui dá para ver o tudo que você tolera. Mas, e o amor recíproco, menina? Você vai deixar guardado na gaveta por quanto tempo?
Não sei lidar com a hipocrisia desumana de gente que pega o amor, desdenha e põe num lixo qualquer. Não sei lidar com pessoas que demonizam tudo aquilo que foi bonito, transformando o sentir num caos que machuca. O amor vira calo e as memórias uma faca de dois gumes. Apaga-se o sorriso. Qualquer resquício de sentimento, parece errado e cruel. Ninguém se reconhece. As pessoas que mudaram ou mostraram quem realmente são? Seriam máscaras que caíram aos meus pés? E o amor, estilhaçado, desdenhado, rejeitado... como é que fica?
Sou moça querendo ser mais miúda, pequenina, cabendo na palma da mão. Esconderijo. Moça que não espera que a sua vida a sorte surta efeito, prefere ser autora dos seus feitos, dar a eles seu feitio e fazer deles mais que enfeites. Poder fazer desfeitas, porque tem defeitos, mas não buscando o perfeito — apenas o seu inteiro. Há de ser moça também feita de fases e de frases: um sujeito com seus jeitos, objetos e objetivos, apostos e opostos, travessões e travessias, linhas e ladainhas, vírgulas e virtudes. Garotinha-mulher que prefiro ser, ainda me conservo e sou secreta por natureza
Houve um dia que eu parei e escutei meu coração. Não parei porque quis, mas porque, simplesmente, meu coração gritava implorando por atenção. Não era a primeira que eu o ouvia, mas foi a primeira vez que cedi àquilo que ele implorava. Eu dei asas ao sonho dele e a vida se encarregou do resto. Dizem por aí que quando a gente põe amor naquilo que faz, é só questão de tempo que tudo realiza. O resultado é estampado num sorriso. E esse riso, meus amigos, não tem tempo nem aflição que desfaça não.