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Frases de Lúcio Cardoso

34 frases

[Canção da Revolta] ...E se piedade vos sobrar, tende piedade vossa
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[Canção da Revolta] ...E se piedade vos sobrar, tende piedade vossa que não sois assim tão poderoso. Que vossos filhos são degenerados, porque não soubestes ser pai e eles se perverteram. Tende piedade vossa que cometestes erro ainda maior: Aprisionastes almas de poetas em corpos de homens. Tende piedade vossa que os feitos à vossa semelhança são vampiros insaciáveis. Tende piedade vossa que há gente com fome, gente com medo, gente com sede e frio, e um dia essa fome se transforma em ódio, esse medo vai se defender e atacar, essa sede vai ser de vosso sagrado sangue, esse frio vai querer se aquecer no calor da revolta. E se mais piedade vos sobrar, tende piedade vossa que não sois o deus carinhoso com que eu sonhei Que sois mal e vingativo, que castigais quando devíeis perdoar. E se piedade vos sobrar tende piedade vossa, que necessitais muito mais de pena do que nós, míseros sofredores.

"O amigo justo estará presente como árvore que floresce e anoitece.-Porque o amigo passa não como amigo,mas na perfeição do seu intento.
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"O amigo justo estará presente como árvore que floresce e anoitece.-Porque o amigo passa não como amigo,mas na perfeição do seu intento. Se um amigo for mais do que a palavra diz, for o aprendizado no seu signo de grandeza,o aprendizado no poder permanecer."

Mas você tem a certeza que é a Deus que nós amamos? Se Ele existe é um dever - e a verdade é que amamos tão pouco os nossos deveres! Por que como pode haver amor onde existe obrigação? Ele pode nos dizer que somos livres, que é do nosso Livre Arbítrio... Mas nós sabemos que não t…
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Mas você tem a certeza que é a Deus que nós amamos? Se Ele existe é um dever - e a verdade é que amamos tão pouco os nossos deveres! Por que como pode haver amor onde existe obrigação? Ele pode nos dizer que somos livres, que é do nosso Livre Arbítrio... Mas nós sabemos que não temos por onde escolher: o que nos compete é a obrigação. Por que quem, conscientemente, escolherá a liberdade contra o castigo eterno

...já se acostumara ao parco quinhão que lhe era destinado, e empurrava as horas, os dias e as semanas com a indiferença e o tédio com que um preso se acostuma à sua prisão. Acordar, pensar em ser realmente feliz, em chegar à janela do seu cárcere e olhar a paisagem, era quase um…
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...já se acostumara ao parco quinhão que lhe era destinado, e empurrava as horas, os dias e as semanas com a indiferença e o tédio com que um preso se acostuma à sua prisão. Acordar, pensar em ser realmente feliz, em chegar à janela do seu cárcere e olhar a paisagem, era quase uma violência que a fazia estremecer toda...

Ah,o que ela ignorava é que todo ato de violência, desde que seu gesto se cumpra, é um ato interior; o que ela estranhava, não era o ambiente, mas o que nela era estranho - o que se rompera no seu íntimo com aquilo que praticara, era a dose de vontade que despertara seu espírito…
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Ah,o que ela ignorava é que todo ato de violência, desde que seu gesto se cumpra, é um ato interior; o que ela estranhava, não era o ambiente, mas o que nela era estranho - o que se rompera no seu íntimo com aquilo que praticara, era a dose de vontade que despertara seu espírito do letargo imposto pelo hábito, a raiz viva da consciência que, boa ou má, começava a aflorar acima das contingências banais da existência.

'Deus' - e pela primeira vez uma vaga de temor perpassou pelo seu coração. Se Deus existisse, decerto a estaria vendo naquele momento, empurrando aquela cadeira de rodas numa estrada poeirenta de Minas. Se Deus existisse, seu olhar se conf rangeria, pois saberia qual era o ocult…
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'Deus' - e pela primeira vez uma vaga de temor perpassou pelo seu coração. Se Deus existisse, decerto a estaria vendo naquele momento, empurrando aquela cadeira de rodas numa estrada poeirenta de Minas. Se Deus existisse, seu olhar se conf rangeria, pois saberia qual era o oculto desígnio que ela levava no fundo do coração. Mas era difícil para Donana de Lara acreditar em Deus naquela ora com o sol brilhando tanto, e as pessoas ostentando ar tão despreocupado. O sol, a muda placidez das coisas são inimigos de qualquer noção do sobrenatural. A palavra 'Deus' vindo como um toque de sino, ecoou no espírito de Donana, e perdeu-se como um eco arrastado pelo vento. 'Deus existe' - murmurou ela - 'mas não me vê, nem se importa com o que eu faço'. E dura, ia empurrando a cadeira de rodas.

Mas para Zeca, para sua alma eternamente imatura, alguma coisa acabara de suceder, e era tão grave, tão decisiva como se lhe fosse outorgada uma maturidade postiça, e ele, a quem a infância fôra dada como destino, viesse bruscamente a perceber o equilíbrio e o tempo, pois o que s…
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Mas para Zeca, para sua alma eternamente imatura, alguma coisa acabara de suceder, e era tão grave, tão decisiva como se lhe fosse outorgada uma maturidade postiça, e ele, a quem a infância fôra dada como destino, viesse bruscamente a perceber o equilíbrio e o tempo, pois o que sentira, mais do que vira ou percebera, fôra uma emoção fund a e desgarradora, uma certeza sem palavra, sem nome, sem classificação, sem nada que pudesse admití-la ou revelá-la, de que a vida existia - essa coisa infrene, cega, voluptuosa e azul, que do outro lado, com um poder sobrenatural erguia a paisagem e a sustinha em seus luminosos alicerces. Descobrindo a vida, Zeca ao mesmo tempo descobrira a si mesmo e aos outros - e tudo o que ele não identificara durante aquele tempo, Donana, o homem ensanguentado, a cortina, as vozes, aquela flor que sustinha na mão - tudo, todas essas realidades - rapidamente encaminharam-se para seus lugares, ocuparam os nichos vazios, deram consistência, cor e veracidade ao mundo. E descobrindo tudo isto, Zeca havia descoberto a morte.

Pensava no mistério das relações humanas, naquele “mistério” que o perseguia sempre, como uma chave para situações difíceis. Começava a compreender que um dos princípios dessa idéia era uma espécie de incapacidade de realização em todos os sentidos que se pretendiam. Assim, nada…
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Pensava no mistério das relações humanas, naquele “mistério” que o perseguia sempre, como uma chave para situações difíceis. Começava a compreender que um dos princípios dessa idéia era uma espécie de incapacidade de realização em todos os sentidos que se pretendiam. Assim, nada se realizava integralmente, nem o ódio, nem o amor, nem os outros movimentos de menor intensidade. Só seria admitida a possibilidade de um sucesso completo, caso a natureza obscura desse “mistério” fosse revelada. Podia ser que então o equilíbrio pudesse ser tentado. Mas dentro das manifestações informes desse enigma, entre o temor e a angústia, achava-se estabelecido o próprio centro negativo de repulsão, que não permitia senão um amor incompleto e um ódio sem conhecimento das suas próprias forças.

“Onde estava, que paisagem era aquela? Criação de um Deus impotente para arrastar suas criaturas até a luz plena, ali jaziam os destroços de sua visão, consciências vivas e visionárias cerceadas de todos os lados pela doença, pela fome, pel o tédio, pelo vício e pela morte. Não,…
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“Onde estava, que paisagem era aquela? Criação de um Deus impotente para arrastar suas criaturas até a luz plena, ali jaziam os destroços de sua visão, consciências vivas e visionárias cerceadas de todos os lados pela doença, pela fome, pel o tédio, pelo vício e pela morte. Não, nenhum Deus ousaria ter levantado semelhante caos. O homem nasce do chão, vem da poeira e da terra escura como as plantas, é uma força desenraizada e cega, uma pobre árvore solta na imensidão. Não há destino, nem missão a cumprir. Duramos, como os objetos mortos duram. Apoiei-me a um alto muro de pedras, e com mãos sequiosas, ardentes, apalpei as fendas e as protuberâncias, como se temesse que até mesmo aquela última realidade me fugisse. Que era o mundo, que significavam aqueles sinais? Estrela solta, erosão sem significado, esboços de um grande sonho fracassado? Aquela monstruosa paisagem, cheia de formas sem sentido, não atestava a favor de outra experiência, perdida entre os dedos sem forças do homem?”

"E ela não fizera durante esse tempo nada mais que reatar em si os mesmos laços, não pudera fazer mais do que se iludir, apoiada em lembranças que só existiam na sua imaginação. O seu encontro com a realidade era pois de uma dolorosa dificuldade, adquirindo as formas de um néscio…
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"E ela não fizera durante esse tempo nada mais que reatar em si os mesmos laços, não pudera fazer mais do que se iludir, apoiada em lembranças que só existiam na sua imaginação. O seu encontro com a realidade era pois de uma dolorosa dificuldade, adquirindo as formas de um néscio ludíbrio, sem que ela soubesse fugir a esse desencanto. Sim, sim – o seu trabalho seria o de destruir esses falsos laços, de rompê-los a todo custo, um a um, ainda que isto custasse um preço maior do que o que ela pagava agora. Todo aquele clima, criado pela sensibilidade em torno de uma situação por si mesma insustentável, morria agora pela ausência de uma vitalidade real. Ela tinha a impressão de que se agitava num charco e o lodo sufocava-a, rompendo de todos os lados como de um corpo apodrecido."

“O eco das palavras do padre ainda vibrava na sua consciência: ‘habitar continuamente uma miragem criada pela nossa obstinação’. E não era assim que ela vivia, encerrada dentro daquela atmosfera de ódio, incapaz de se libertar dos fantasmas criados pela sua fantasia? Que pior mal…
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“O eco das palavras do padre ainda vibrava na sua consciência: ‘habitar continuamente uma miragem criada pela nossa obstinação’. E não era assim que ela vivia, encerrada dentro daquela atmosfera de ódio, incapaz de se libertar dos fantasmas criados pela sua fantasia? Que pior maldição poderia existir além daquela, que pior castigo poderia receber das mãos de Deus?”

"Mas... levantar-se? A lembrança daquele sol queimando as folhas e os caminhos, a mesma terra em que o seu corpo nu pousara, dava-lhe uma incrível lassidão. Um calor delicioso adormecia as suas veias - era bom conservar-se assim, os olhos f echados, sem nenhum movimento. E insen…
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"Mas... levantar-se? A lembrança daquele sol queimando as folhas e os caminhos, a mesma terra em que o seu corpo nu pousara, dava-lhe uma incrível lassidão. Um calor delicioso adormecia as suas veias - era bom conservar-se assim, os olhos f echados, sem nenhum movimento. E insensivelmente, ela foi levada a pensar na sua infância, como quem cede a um desejo há muito oculto na sua alma. Sorria quase: há tanto tempo... então? Como veria ela as coisas por essa época, a natureza, os homens? Decerto não era do mesmo modo que agora... Uma vez, quando quebrara no jardim um ramo carregado de rosas encarnadas, sentira de repente o gesto de infância – era assim, quase sem sentido direto, como quem vive num sonho ou numa fantasia que não se acaba. Não existia nenhuma separação com os outros objetos – era ela mesma árvore ou rosa aproveitando o sol ardente como aproveitam as árvores, as rosas – e nunca poderia imaginar a fonte calma sem o seu riso, nem o seu riso sem o sussurro da água humilde entre as folhas escuras. Não havia a distância nem o isolamento. Era o campo, com o seu céu azul e as suas tardes limpas, onde os risos das crianças soavam sempre e as andorinhas passavam cada vez mais ligeiras, cada vez mais distantes.. Tudo tinha uma misteriosa correspondência com a sua vida, não eram simples andorinhas que passavam, mas seres conhecidos a quem ela amava e a quem era preciso dizer adeus a cada estio morto ou esperar, na curva do barranco, a cada inverno que findava.... Ela recebia as suas mensagens de terras longínquas – e quando se banhava, era com os olhos fitos no céu, para saber se alguma chegava atrasada, ruflando na grande calma as asas cansadas e solitárias. Eis que de repente tudo passava... Caminhos, caminhos que a sombra ia engolindo aos poucos, gestos que iam perdendo toda a beleza e rompiam as suas misteriosas comunicações, para se tornarem insuportavelmente hostis e individuais... Ah! para as almas morbidamente sensíveis como a sua, aquele rompimento forçado pelo tempo era alguma coisa profundamente dolorosa, que arrastaria sempre pelos dias tristes, com os olhos cegos voltados para os lugares que deixara... A vida não seria apenas a ameaça do tempo e o desejo de voltar? Ah! caminhos! caminhos por onde passara e por onde não poderia mais passar... E a sua dor foi tão súbita e tão intensa que abriu os olhos de novo, inundados de lágrimas.”

[Poesia da Derrota na Revolta] ... E se piedade vos sobrar, Senhor tende piedade de mim.
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[Poesia da Derrota na Revolta] ... E se piedade vos sobrar, Senhor tende piedade de mim. Tende que eu estou sozinho, que eu vos recusei como Judas que vos traiu. Tende que eu sou cego e levantei minha mão contra vós. Tende,- chega de eu mesmo tentar me tapear – que eu preciso realmente de piedade, que não sou forte. Que sou apenas um perdido vos procurando, curioso e ansioso. Tende piedade que me separei de meus irmãos e já não compreendo mais sua linguagem. Mas... tu me entendes, Senhor?!

Aprendera a conhecer, através da sua própria experiência, esses constantes movimentos do amor, que se alternam entre a esperança de um esquecimento e a silenciosa angústia da impossibilidade, atenuando-se, reaparecendo de tempos a tempos, como a chama que se alastra e se inclina…
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Aprendera a conhecer, através da sua própria experiência, esses constantes movimentos do amor, que se alternam entre a esperança de um esquecimento e a silenciosa angústia da impossibilidade, atenuando-se, reaparecendo de tempos a tempos, como a chama que se alastra e se inclina ao jugo do vento.

Nenhuma realidade tangível – atravessara todos esses momentos como uma sombra, movia-se solitária no fundo daquele quarto, reunindo dolorosamente fibra por fibra desse passado que nunca morria inteiramente, que estava sempre pronto a voltar ao primeiro apelo, a sangrar ao primeir…
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Nenhuma realidade tangível – atravessara todos esses momentos como uma sombra, movia-se solitária no fundo daquele quarto, reunindo dolorosamente fibra por fibra desse passado que nunca morria inteiramente, que estava sempre pronto a voltar ao primeiro apelo, a sangrar ao primeiro choque com o mundo... Era sua única alegria - mas a consciência do tempo é uma alegria envenenada. Talvez partisse dali todo o seu sofrimento – não saber supor a realidade senão paralela à curva do tempo – não aceitar a vida, senão sorrindo amargamente pela constatação do que não se realizou... linhas paralelas que se chocam e se ferem por vezes – não era exatamente esta a visão que tinha do seu destino, sempre preso à nostalgia e à memória? Agora, desejava fugir, esquecer a outra linha, viver a realidade. Mas como? Como? Desesperara, implorava no quarto silencioso, enquanto a noite avançava.

“Oh! Por que viver eternamente criando laços que não podiam existir? Por que fermentar em torno de si um ambiente que não podia durar, um clima que não resistiria aos embates da vida? Por que se apegar tão encarniçadamente a pessoas que só lhe poderiam fazer sofrer mais? Que misé…
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“Oh! Por que viver eternamente criando laços que não podiam existir? Por que fermentar em torno de si um ambiente que não podia durar, um clima que não resistiria aos embates da vida? Por que se apegar tão encarniçadamente a pessoas que só lhe poderiam fazer sofrer mais? Que miséria, a de se ter um coração feito para o amor...”

"Há uma época em que as desilusões, o cansaço da luta e uma íntima convicção de que afinal a vida não vale tão grandes esforços convertem-se, para determinados espíritos, numa nuvem que aumenta aos poucos, até obscurecer todo o horizonte. O jogador sente então que a partida está…
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"Há uma época em que as desilusões, o cansaço da luta e uma íntima convicção de que afinal a vida não vale tão grandes esforços convertem-se, para determinados espíritos, numa nuvem que aumenta aos poucos, até obscurecer todo o horizonte. O jogador sente então que a partida está definitivamente perdida e examina, sem saber o que fazer delas, as cartas que ainda lhe restam nas mãos. Não é exatamente este o sentimento dos velhos, ou melhor, daqueles que lutaram a vida inteira por uma tranquilidade que sempre se sentiram cada vez mais distantes? [...] Só um deserto se abria agora ao seu olhar, não um deserto como o que trazem em si aqueles que envelhecem felizes, mas uma longa e triste extensão sem alma e sem calor para ser relembrada."

Apesar de tudo, poderia ainda contar os seus esforços, medir todas as suas tentativas fracassadas, sorrir de tédio ante o vazio que se estendia implacavelmente sobre tudo. Quantas vezes não forçara esse encontro, quantas vezes não se lançara à aventura e voltara rota, marcada ind…
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Apesar de tudo, poderia ainda contar os seus esforços, medir todas as suas tentativas fracassadas, sorrir de tédio ante o vazio que se estendia implacavelmente sobre tudo. Quantas vezes não forçara esse encontro, quantas vezes não se lançara à aventura e voltara rota, marcada indelevelmente por outras decepções maiores, sangrando em toda a sua sensibilidade ferida, disposta a sufocar os seus movimentos na mais resignada sombra? Não desejavam dela senão aquilo de que precisavam – para ela não possuíam nada, ignoravam tudo e no máximo cediam com um sorriso complacente... Que fazer, pois, do calor da sua alma, da vida que pedia campo para se libertar: Que fazer, Deus do céu? E Madalena começava a odiar o seu isolamento, a desejar, por muito impossível que fosse, esse alguém que a conheceria um dia. Onde estancar a sede de ternura?"

Ela se sentia sem forças para lutar – o seu amor, a sua vida apareciam de repente sem nenhum interesse, como se fossem coisas colocadas fora do seu ser, e ela, uma figura sem contornos, se movendo no fundo de um espelho. Recusava-se a sofrer mais. Parada no alto da escada, tendo…
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Ela se sentia sem forças para lutar – o seu amor, a sua vida apareciam de repente sem nenhum interesse, como se fossem coisas colocadas fora do seu ser, e ela, uma figura sem contornos, se movendo no fundo de um espelho. Recusava-se a sofrer mais. Parada no alto da escada, tendo diante de si o jardim aberto, sentia uma amplidão a que não estava habituada – e aspirava com força, desejando talvez que aquele ar saturado de essências penetrasse na sua alma, encerrada na umidade dos dias sombrios e amargos.

Não podia explicar esse furioso desejo de sentir alguém vivo junto de si, uma âncora que o retivesse junto a essa vida que parecia revolvê-lo constantemente ao seu lugar de espectador. Sim, como pudera imaginar que conseguiria viver de um modo diferente, como ousaria acreditar qu…
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Não podia explicar esse furioso desejo de sentir alguém vivo junto de si, uma âncora que o retivesse junto a essa vida que parecia revolvê-lo constantemente ao seu lugar de espectador. Sim, como pudera imaginar que conseguiria viver de um modo diferente, como ousaria acreditar que seria possível romper os limites traçados ao seu destino? Deus do céu, como ousara reclamar o que não lhe é devido? E José Roberto escondeu o rosto nas mãos, ofuscado pela vergonha que lhe queimava o rosto. Que ao menos Deus lhe desse humildade suficiente para nada desejar, para se confundir com as coisas mais obscuras, mais privadas do calor humano.”