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Frases de Lúcio Cardoso

34 frases

"E nunca soubera com tanta certeza como naquele instante que, enquanto existisse, proclamaria de pé que o gênero humano é desgraçado, e que a única coisa que se concede a ele, em qualquer terreno que seja, é a porta fechada. O resto, ai de nós, é quimera, é delírio, é fraqueza.…
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"E nunca soubera com tanta certeza como naquele instante que, enquanto existisse, proclamaria de pé que o gênero humano é desgraçado, e que a única coisa que se concede a ele, em qualquer terreno que seja, é a porta fechada. O resto, ai de nós, é quimera, é delírio, é fraqueza. Tudo o que eu representava, como uma ilha cercada pelas encapeladas ondas daquele mar de morte, admitia que a raça era desgraçada, condenada para todo o sempre a uma clamorosa e opressiva solidão. A ponte não existe, jamais existiu: quem nos responde é um Juiz de fala oposta à nossa. E sendo assim, desgraçada também a potência que nos inventou, a perpétua vigília por trás desse cárcere de que só escapamos pelo esforço da demência, do mistério ou da confusão."

Compreendia bem que era preciso renunciar – ainda mesmo que isto lhe custasse a vida. Que fundo cruel encontrava de repente naquele jardim? Imaginou os pés secos, as corolas murchas, a desolação dominando. Para que toda a maravilha daquela noite, se o seu amor não se realizava, s…
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Compreendia bem que era preciso renunciar – ainda mesmo que isto lhe custasse a vida. Que fundo cruel encontrava de repente naquele jardim? Imaginou os pés secos, as corolas murchas, a desolação dominando. Para que toda a maravilha daquela noite, se o seu amor não se realizava, se aqueles lugares apenas lhe sugeriam possibilidades de momentos felizes que decerto ela nunca teria? Sem dúvida a ideia de renúncia nascera daí: por que não se desligar de todos os laços, romper na própria carne todas as fibras que a ligavam a Pedro, readquirir a liberdade que perdera? Renunciar!

“Haveria de incutir em todas as fibras da sua alma a noção desesperada dessa liberdade que eu tanto amei. À custa de palavras marteladas durante o dia inteiro, aprenderia que miserável comédia representa a existência neste mundo, que sonho de escuridão e obscenidade é o caminho d…
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“Haveria de incutir em todas as fibras da sua alma a noção desesperada dessa liberdade que eu tanto amei. À custa de palavras marteladas durante o dia inteiro, aprenderia que miserável comédia representa a existência neste mundo, que sonho de escuridão e obscenidade é o caminho do homem sobre a terra. Não, nossa única obrigação é sermos fortes, intratáveis, selvagens na satisfação dos nossos desejos e fantasias. Mas agora me sopram alguma coisa ao ouvido e eu sorrio: bem sei que não passo de um triste fracassado, bem sei que estes planos serviriam apenas para fazerem arder a minha imaginação de solitário, bem sei que apesar dos meus esforços, não consegui burilar senão uma tosca imagem do príncipe que idealizei – mas, santo Deus, desta vez com este dútil barro nas minhas mãos, não levantaria um fantoche inútil, um ser marcado somente pelas ambições fracassadas e vontade aniquilada.”

Não acredito, jamais acreditei numa possibilidade de se reviver. A eternidade não existe. Ela aí está, morta, miseravelmente morta, tão morta que a seu respeito não é possível pensar nada, senão que é lixo, um monte de coisa a que se dá com o pé, como esterco de bicho. Isto, Deus…
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Não acredito, jamais acreditei numa possibilidade de se reviver. A eternidade não existe. Ela aí está, morta, miseravelmente morta, tão morta que a seu respeito não é possível pensar nada, senão que é lixo, um monte de coisa a que se dá com o pé, como esterco de bicho. Isto, Deus, é o que somos? Tua efígie, como ensinam que representamos, é um disfarce do podre? Somos esta hora marcada, este medo de derreter e não ser nada? Ah, é injusto. Não há piedade, e, sem piedade, como imaginar Deus, o poder de Deus, o respeito de Deus?

O que não podia suportar era aquele estado vulgar das coisas, aquela sufocante apatia que lhes dava um ar de seres que se consomem num lento aniquilamento. Por momentos, parecia esquecer-se de tudo. Mas eis que de repente, a um golpe ou a um ruído, a angústia voltava a obsedar-lh…
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O que não podia suportar era aquele estado vulgar das coisas, aquela sufocante apatia que lhes dava um ar de seres que se consomem num lento aniquilamento. Por momentos, parecia esquecer-se de tudo. Mas eis que de repente, a um golpe ou a um ruído, a angústia voltava a obsedar-lhe a alma. Ele não tinha sentidos senão para sofrer e desejar inutilmente. Cansado das suas lutas estéreis, recostara a cabeça e, cerrando os olhos, procurava sufocar o tumultuoso transbordamento do coração.

“...a solidão. Sempre me agitara, impedindo que ela se aproximasse de mim. Sempre vivera ruidosamente, rindo e assoviando, para que esse lençol de morte e esterilidade não me envolvesse no seu triste sudário. Ah! Como somos tolos em correr tanto, em acreditar que realmente nos a…
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“...a solidão. Sempre me agitara, impedindo que ela se aproximasse de mim. Sempre vivera ruidosamente, rindo e assoviando, para que esse lençol de morte e esterilidade não me envolvesse no seu triste sudário. Ah! Como somos tolos em correr tanto, em acreditar que realmente nos agitamos e esquecemos tudo: dentro de nós é que está a invisível neblina, e caminha conosco e se junta ao nosso corpo, abraçada ao nosso coração como uma amiga insidiosa. E ali pesa, até poder surgir aos poucos, solene e vitoriosa, derramando-se desde a cama de ferro até o velho lavatório, escorrendo dos objetos de uso cotidiano, formando a vasta teia líquida e sem cor que absorve o mundo em que vivemos, que nos devolve os objetos agudos e desconhecidos, autônomos, verdadeiras ilhas que jamais se incorporarão ao nosso triste destino.”

"Sentia crescer também uma enorme piedade por si mesmo, compreendendo que aqueles dois seres giravam num mundo à parte, onde ele jamais penetraria. Ali não existia a companhia permanente dos frascos de remédio, nem a sombra morna e sufocante dos quartos fechados, nem a silenciosa…
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"Sentia crescer também uma enorme piedade por si mesmo, compreendendo que aqueles dois seres giravam num mundo à parte, onde ele jamais penetraria. Ali não existia a companhia permanente dos frascos de remédio, nem a sombra morna e sufocante dos quartos fechados, nem a silenciosa tirania dos relógios, dos cobertores, de tudo aquilo que compunha sua vida."

Ser intransigente e perseverante. Não abafar a alma, não sufocar a vida, não esconder Deus, não cultivar o ressentimento ou elaborar a falsidade, não estrangular a poesia, a sinceridade, a grandeza. Fugir do medo e da superstição. Teimar. Deixar o sentimento ir tão longe quanto…
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Ser intransigente e perseverante. Não abafar a alma, não sufocar a vida, não esconder Deus, não cultivar o ressentimento ou elaborar a falsidade, não estrangular a poesia, a sinceridade, a grandeza. Fugir do medo e da superstição. Teimar. Deixar o sentimento ir tão longe quanto possível. Apenas num clima assim livre, crítico e intransigente é que posso admitir que brote a religião. [Lúcio Cardoso, in Diários]