Medo do medo
Eu tenho medo
medo do apego e da desafeição
medo do outro e da solidão
medo do sim e do não
Eu tenho medo
medo de ficar e de pôr-me a caminho
medo da certeza e do mau êxito
medo da bravura e da dor
Eu tenho medo
medo de que a vida seja um abismo
escarpado e profundo
encoberto de desilusões
Eu tenho medo
medo de que as belezas da terra
como a essência dos sonhos
não passem de mera utopia
Eu tenho medo
medo de que o medo
por ser tão capcioso
tiranize a minha existência
Eu tenho medo
medo do medo do medo
Fênix negra
Os olhos vítreos e bacentos
tomaram a forma de um escudo
pupilas contraídas de morte
o homem vai ser possuído
Tem o rosto empalidecido, cadavérico
seus pulmões empedrados
assassinaram sua alma humanizada
o homem vai ser possuído
A criatura renasce
ressurge das próprias entranhas
traz a força de mil demônios
Isolamento
Entressonhos, desvarios virginais
também existe beleza em tudo
que é indecoroso e causa espanto
Nas incertezas, nos temores e medos
em tudo aquilo que apavora
e que só pela imaginação se pode alcançar
Escancaro as portas do meu cativeiro
as janelas do meu cárcere domiciliar
para que a luz do mundo possa entrar
e tingir de candura a minh’alma
Rir é algo que me apraz
Rio-me de figuras excêntricas
de comportamentos inusitados
de imitações grotescas
de chacota sobre acontecimentos correntes de histórias engraçadas
de piadas e de caretas
Rio-me de mim mesmo
da minha seriedade
da minha confiança em minhas certezas da minha fraqueza
da minha mediocridade imaginativa
dos meus erros
Rio-me quando me divirto
quando danço, canto e brinco
numa festa, num velório, num motel em qualquer lugar
Algumas vezes rio-me de tristeza, de medo
de raiva e de desespero
outras vezes rio-me da miséria
do sofrimento e da morte
Porque rir é algo que me apraz
O cativo
O homem de pés agrilhoados
galga as paredes mucosas da cripta
Efêmero casulo de morte
catacumba dos infortunados
Traz na tez da sua face
a palidez dos aflitos
No seu rosto desfigurado
as cicatrizes das lutas travadas
Marinheiro
Homem ao mar!
É marinheiro mas não sabe nadar
Imergiu-se, desvaneceu-se,
fundiu-se à própria imagem
refletida no espelho d’agua
Amálgama de cânticos
As sereias fizeram-no adormecer
Acalentam-no na seiva luz
dos seios nutridos do ocaso
Vidas transitórias
Chegará o dia em que meus olhos
ofuscados pelo nevoeiro da morte
já não perceberão pela vista
o lacrimar dos ausentes
aguardando o exalar
do meu último suspiro
Chegará o dia em que meu rosto
regelado pelo sopro da morte
já não perceberá pela tez
as mãos cálidas dos ausentes
aguardando a despedida
da minha última existência
Chegará o dia em que minha memória
viverá nas lembranças fugazes
na efemeridade dos sonhos
dos ausentes mortais
aguardando o seu tempo
que também há de cessar
E quando esse momento chegar
eu terei desvanecido
para a eternidade
Adormecer
Cerro os olhos
e entro em estado de inércia
O cansaço roubou-me o tempo dos vivos
e a consciência do tempo de agora
Quero distanciar-me do meu eu desperto
e adormecer sobre papoulas
Quero distanciar-me da existência
e assombrar os meus sonhos oníricos
Quero distanciar-me das minhas memórias
e mergulhar no abismo do esquecimento
Quero distanciar-me do grito do mundo
e penetrar no vácuo do silêncio
O jogo da vida
A vida é um jogo irresoluto
cujos objetivos e desafios
impõem tensão, medo
e incertezas
Neste prélio sem regras
vencedor é sempre aquele
que aposta nas leis
do acaso
No espetáculo do existir
a serenidade é a peça-chave
que fortalece quem
a alberga
Lembranças
Sou sensível às minhas lembranças
do mesmo modo como sou sensível
às belezas e misérias da vida
Lembranças!
Jubilosas e dolentes lembranças
Lembranças de momentos
cuja brevidade assemelha-se à
efemeridade dos amores adolescentes
Lembranças de lugares
de rostos, de olhares
de sorrisos e de afagos
Lembranças de ausências
de perdas, de perigos
de fome e de dor
Lembranças!
São tudo o que vai nos restar
O tempo
Digno de figurar um poema
o relógio recita amiúde
o instante sem pressa
do célere tempo
Tic-tac, tic-tac, tic-tac
repetidamente
laborioso
Pudesse eu,
inverter o sentido destro dos ponteiros
que ascendem para a finitude
da fugaz existência
Pudesse eu,
resvalar pela espiral do tempo
para o abraço carinhoso
da mulher que mais me amou
Pudesse eu,
fazer parar o tempo
o tic-tac do relógio
e a dor da saudade