Libertino
Minha elegância de maneiras
oculta desejos impuros
por prazeres carnais
obscenos
Tenho um jeito lascivo de amar
um jeito devasso de possuir
sem pudor e decência
libertino
Homem ao mar
Homem ao mar
é saudável e não sabe nadar
é forte e não sabe nadar
é inteligente e não sabe nadar
é sensível e não sabe nadar
não submerge
desvaneceu-se
fundiu-se à própria imagem
refletida no espelho do mar
amálgama de cânticos
as sereias fizeram adormecer a criança
embalam-na
acalentam-na da seiva luz
dos seios nutridos do ocaso
Tejo
Me despeço, mas não vou embora
essa é minha eterna morada
subo as escadas, mas não chego até lá
se avanço, fogem de mim
se recuo, descem ao meu encontro
não me calo
meu silêncio grita
trago notícias de lá, dos desertos ermos
trago notícias de lá, doutros tempos
minha incumbência é o adeus, a saudade
sou detentor das memórias
um cristal em movimento
o perigo, a vida e a morte
dentro de mim não respiram
apagam, morrem, desaparecem
na minha beleza habitam almas e monstros
devoradores de corpos
que não sobrevivem fora de mim
vomito aquilo que rejeito
e devolvo aos homens a sua podridão, o seu lixo tóxico
me engasgo com ossos, mas não digiro o que não vive
renasço das alturas
da limpidez dos cristais
do meu espelho se mira a profundidade
de lugares submersos e sem retorno
onde vivem os meus titãs
acorrentados em caravelas
Premonição
Um homem repousa em labaredas
acalmado como um anjo
tem o coração cálido
não pelo fogo, mas de esperança
dogmas, resignação
não recue, vejo flocos de neve
premonição
os andares se queimaram
restam fuligens
em breve saraivas
como diamantes polidos
Comigo
Não me desperte do meu silêncio
não me prive dos meus sentidos
dilato meus poros e minha pupila
me recolho no direito à contemplação
estreito meu nexo, o fora
isco o vazio
o nada me apetece
esse momento não me alimenta
lamento por eles
passo desapercebido, gélido,
não existo fora de mim!
Concebimento
Um touro com crista de galo
um galo com penas de pavão
um pavão com pés de homem
caminham solitários num só
harmoniosos martirizam o pensar
ela tem que nascer, gritar, ser gente
ouve-se passos, murmúrios
olhares capturam a imagem invertida
abstenção
ninguém se aproxima
apercebem-se
são três corpos a ponderar
Inquietude
A espera é distante
resmunga um homem em seu leito
a ansiedade roubou-lhe o sono
mas não tirou-lhe a esperança
suplício
outra procela está por vir
tem pesadelos desperto
silenciosos tormentos
seu olhar perdeu a avidez
empalideceu febril
adormece
FLOR MORENA
Vá flor morena, vá!
Embala-te nos abraços
da mulher que te gerou
E nana!
Nana flor morena, nana!
São Cosme e São Damião
hão de vigiar o teu sono
E sonha!
Sonha flor morena, sonha!
Pois a candura dos seus sonhos
tem a beleza de um Querubim
CARÊNCIA
A carência
é uma correnteza de desafetos
que serpenteia por entre a vida
arrastando os homens
para abismos recônditos
e obscuros
Pudera eu,
ser uma ilha abraçada pelo mar
e pudesse estreitar
nos meus braços
o calor do ocaso poente
A premência de afeto
é algo que fragiliza
a natureza do nosso ser!
ESBOÇO INACABADO
Se me perguntarem
o que é ser um homem
de meia idade
eu direi: não sei
De fato não sei
Mas sei que na minha idade
o homem se torna o que é
Um esboço inacabado
de uma obra dele todo
O JARDIM DOS BADEN
Acalentado pelo outono
o jardim do Palácio de Karlsruhe
exala o seu último suspiro
antes de invernar
O outono resguarda-o
tece-lhe um manto de folhas
em tons vívidos e harmoniosos
como as sinfonias de Beethoven
Sublime por realeza
o jardim do marquês de Baden
será abrigado das nevadas
até o alvorecer da primavera
Desejar
Quanto tempo ainda me resta?
Pergunto-me às vezes
Que a vida é efêmera e findável
Isso eu tenho consciência
E diante disso não há o que fazer
Se não, desejar
Desejar que o dia outro
não seja monótono e vão
Desejar que o amigo outro
não seja apático e desleal
Desejar que o amor outro
não seja tépido e fugaz
Desejar que o poeta outro
não seja falsídico e indolente
Desejar que o desejo outro
não seja nefando e ominoso
Não há mais volta
Lá se foi mais um dia
e com ele tarefas e aspirações minhas
que já não parecem fazer-me sentido
o que eu tinha a fazer foi feito
Já não há mais volta
Lá se foi mais um dia, redigo
e com ele alegrias e angústias minhas
que mesmo não esquecidas se foram
o que eu tinha a sentir foi sentido
Já não há mais volta
Entrego-me ao sono e descanso
Se o alvorecer me suscitar inspiração
escrevo um poema ou uma canção
exaltando os dias que se foram
Pois já não há mais volta
Atenas
O sopro lírico de Éolo
avança o propileu da Acrópole
e encontra eco entre as colunas dóricas
do grandioso Pártenon
Ode em honra de Dionísio!
Exclamou o guardião dos ventos
Ao pé da colina rochosa
sustentáculo do Templo de Atena
abanquei-me para ouvir os poetas
do Odeão de Herodes Ático
Ode em honra de Dionísio!
Entoou alto e bom som o Corifeu
E ao som suave da Lira
o coro grego, em uníssono
compôs a récita poética
em louvor a Dionísio
Minh’alma, embriagada
encheu-se de júbilo
Bracara Augusta
Tuas ruas e vielas
retém estórias remotas
que a pobre posteridade
jamais conhecerá
Estórias desprezadas
porém, resguardadas
de glórias e maldizes
da gente desse lugar
Bracara Augusta
coração do Minho
se teus espectros sibilassem
as estórias que tem pra contar
Teus Sacro-Montes
rogariam aos poetas
para que grafassem em versos
as estórias desse lugar
Temor
Viver no temor do fracasso
no temor da miséria
e no temor da morte?
Que sensação penosa
agravar o fardo
do bem viver
Sou senhor
do meu destino
e árbitro da minha sorte
Temor é algo
que só existe
onde não há bom senso
Subsistir
Uma parte de mim
abriga sonhos desfeitos
esperanças vazias
e incertezas
Sentimentos nefastos
de insatisfação
de descrença
e temor
Não obstante subsisto
resistindo ao tempo
ao sofrimento
e à morte
Pois a paixão pelo viver
é a seiva que me nutre
que me faz forte
e audaz
Minhas mãos
Ao contemplar minhas mãos
de súbito, senti um ardor de sentimentos
Meu Deus! Exclamei em voz branda
Estas mãos são a condição de tudo
são elas que afagam, que cuidam
que abençoam, que semeiam
que criam e que lutam
Instantaneamente uma emoção
contundente e imprevista
preencheu-me por inteiro
fiquei atônito, estacado
com o olhar pensante e sensível
Meu único desejo era captar
a essência daquele momento
Mais um
Minha solidez de caráter
esconde sob aparências enganosas
a vulnerabilidade do meu ser
Reconheçais como verdadeiro
minha natureza não é assim tão forte
como vós dizeis
Sou apenas mais um a tentar
mais um a tentar
mais um
Chagas
Seja cauteloso,
advertiu a minha intuição
E vencido pelo desejo,
num ímpeto irrefreável,
afundei-me no lodaçal da perversão
Resguarde-se,
advertiu a minha consciência
E fazendo-me surdo a ela,
num êxtase irreprimível,
lancei-me no abismo das sensações
O agravo de um ato bestial
são as chagas que
uma ação incontida
pode nos causar
Momento fugaz
Espelho d´alma
de ardil transparência
invólucro sensível
do finito tempo
penetra, magoa
o âmago do meu tormento
tudo parece fugaz
o tempo
o aqui
o agora
Lirismo
A lua reluz ardente
por um jovem pescador
que nas noites de lua cheia
é poeta trovador
A lua se desnuda da noite
para esposar o pescador
e corpo-a-corpo, enlaçados
trocam juras de amor
Alvorecer
Conceição...
que esta se transforme em bem maior!
Exclamou o homem
A senhora do sol talhou uma fenda
Nas sombras habitam almas em expiação
na luz os homens de fé e razão
Conceição…
pela sacratíssima paixão!
Exclamou o homem
A senhora do sol entalhou um anjo
Nas trevas habitam demônios
na luz os arcanjos e serafins
Ouve-se revoadas de pássaros
os pardais entoam cânticos
para o primeiro alvor do dia
Conceição sorri, o homem sorri junto