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Frases de JWPapa

86 frases

<Sobre (os) viventes (daqui)> Esquivava-se na curva dos olhos das dores e da má vontade,
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<Sobre (os) viventes (daqui)> Esquivava-se na curva dos olhos das dores e da má vontade, desviando-se dia a dia de bala perdida e da morte certa nas esquinas de seu bairro. Seguia firme sem se preocupar com seu karma, mesmo em liberdade assistida (legado de seu passado escravo) marca tatuada pra sempre em sua pele negra, eternizada pra sempre em sua já tão maltratada carne. Com a malícia da juventude e inacreditável habilidade, seguia vencendo suas guerras pessoais, todos os dias segurava as pontas sem se sentir um covarde e caminhava pisando firme o chão de terra vermelha de sua comunidade. Da janela de sua casa admirava o esgoto a céu aberto que se misturava com o filete de água limpa da mina, nascente que abundava sob a pedra onde coaxava o sapo (única paisagem natural restante) depois que decidiram “urbanizar” o bairro. Com o corpo esguio e nariz para o alto seguia em frente sem se empoderar de arrogância ou outro sentimento similar, com o corpo ereto e rijo rompia o vento, de peito aberto e coragem latente e sangue gotejando dos olhos. A essa altura de sua vida, já nem se esquivava mais de coisa alguma, batia de frente e quase sempre sobrevivia.

<O menino quase invisível> De tão leve naquela noite, parecia voar por entre os carros... Bailava pelo asfalto feliz, como se estivesse no teatro municipal.
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<O menino quase invisível> De tão leve naquela noite, parecia voar por entre os carros... Bailava pelo asfalto feliz, como se estivesse no teatro municipal. Seu corpo parecia flutuar pelas calçadas manchadas de dores e silêncios enormes. Marchando solene pela madrugada seguia calado, silenciado, parecendo cansado de estar sempre em modo repetição... Exausto! Era como se sentia quando se deitou na porta da padaria naquela noite. Assim como fez praticamente todos os dias de sua vida até ali, (treze insólitos dias), com as mãos trêmulas e sujas do pó do asfalto, arrastou-se lentamente, e rastejando puxou para o seu lado uma latinha de metal encardida (dessas de refrigerante) que qualquer criança compra na vendinha da porta da escola. Acendeu com dificuldade o isqueiro, que por diversas vezes naquela noite o aqueceu. Rodou a carretilha do isqueiro como quem brinca de roleta russa. Riscou a pedra do isqueiro como quem puxa o gatilho de uma arma na direção da própria cabeça. Aquele projétil foi o último. Aquela pedra foi a última. Quando voltou do transe o trânsito já estava complicado... Buzinas, carros por todos os lados, pessoas caminhando apressadas e o olhando atravessado como se ele fosse um bicho e prestes a atacá-las. Ainda meio sem saber aonde estava, espreguiçou-se lentamente, por duas vezes seguidas. Logo após isso, deitou-se novamente sob a marquise. E apesar de ser ainda uma segunda-feira nem se importou! Não teria mesmo de ir para a escola. E antes que pudesse voltar a sonhar novamente, foi enxotado às turras e a vassouradas pelo dono da padaria, que além de uma caneca de água fria, atirou-lhe também dois ou três pães dormidos. A sua sorte era tudo o que lhe restava. Tomara que só lhe atirassem pão e água; paz, cama e teto ele já tinha desde a inauguração daquela padaria, há uns três ou quatro anos atrás. E só pra constar... as vassouradas diárias do dono da padaria era a sua

<Coca-Cola com veneno de rato e limão capeta> Morri aos quinze anos de idade. Não me lembro muito bem do motivo da minha morte na ocasião.
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<Coca-Cola com veneno de rato e limão capeta> Morri aos quinze anos de idade. Não me lembro muito bem do motivo da minha morte na ocasião. Na noite daquele fatídico domingo, abraçado com a enorme dor que me consumia, saltei umas dez vezes do cume mais escuro da minha existência. Enquanto eu caía, pude sentir as dores nas vozes gritadas e o sofrimento nas distorções das guitarras insensíveis e frias que ressoavam tristes enquanto vibravam e reverberavam através dos meus fones de ouvido. Os mesmos fones que me protegeram em vida e que se espatifaram mudos na solidão do meu travesseiro, na agonia da minha jornada de pesadelos madrugada adentro, até o desembocar na segurança da manhã seguinte, quando o sol veio me consolar. De todas as dores sentidas à época, a de segunda-feira, dia seguinte ao incidente, foi a mais dolorida. Mais até do que a dor da véspera, em tom de despedida. Pareceu-me a morte, pareceu-me que não pararia, pareceu, parecia... Nada comparado às feridas de agora, é claro, nem à escuridão de ontem. E pra minha infelicidade, duas décadas depois, o meu corpo ainda está em queda livre. E a escuridão que me habitava as noites, jamais se fez luz, um diazinho sequer. Pior... Agora dá expediente também durante o dia. Hoje, faz vinte e um anos que morri pela primeira vez, e desde a minha última partida, essa é a primeira vez que comemoro em vida.

<Evolui dai e voa! Voa daí e evolui! Voa, evolui daí> A vida moldou-me na pancada, tornei-me plástico, maleável, flexível!
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<Evolui dai e voa! Voa daí e evolui! Voa, evolui daí> A vida moldou-me na pancada, tornei-me plástico, maleável, flexível! - Não manipulável. Adaptei-me e evolui, na medida em que a vida me sovava feito pão. Depois de um tempo nesse estado, parecia falar outra língua. Algumas coisas pareciam tão distantes para os que não podiam ver o mundo de onde o via, tudo parecia distante daquele mundo ínfimo que fui um dia tudo era tão iminente, que parecia uma catarse uma inevitável catarse, mais dia ou menos dia. Nadava na lama e era tão feliz, que podia enxergar além dali além daquele pequeno mundo, fechado e sem mobilidade àquela altura, já era alguém além dali, livre de ser igual a todos nem melhor nem pior, mas podia ver antes de todos muito além da superficialidade que corrompia o intelecto de todos ali. Em meio a toda aquela lama, a voz na consciência que gritava todos os dias: - Evolui dai e voa! Voa daí e evolui. Voa, evolui daí. Aprendi a ser tolerante, sendo tolerante e a respeitar, respeitando não haviam outras opções na ocasião, desde muito cedo, ou era assim ou era assim. E se hoje sou capaz de enxergar a alma das pessoas e ver nelas o que nelas há de melhor, mesmo que isso não pareça tão evidente num primeiro olhar é porque a vida evoluiu-me a ponto de tal. Depois de estar tanto tempo fechado em si mesmo, não é tão difícil sair, na verdade é um grande prazer sair e encontrar o mundo escancarado, ofertando tantas possibilidades de ser o que se quiser ser. E apesar de ser bom estar dentro, é ainda muito melhor do lado de fora. Evolui dai e voa! Voa daí e evolui! Voa, evolui daí.

<Misofonia> Até os teus mínimos ruídos me irritam... Mastigas de um jeito tão irritante estas tuas palavras inconclusas
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<Misofonia> Até os teus mínimos ruídos me irritam... Mastigas de um jeito tão irritante estas tuas palavras inconclusas e respiras tão arrogantemente o ar que te faz palpitar as veias do pescoço, que até o farfalhar das folhas secas caindo do pé de osso de morcego - (fruta roxa roída a exaustão), me traz mais sossego do que esta tua sinfonia de retalhos sonoros. O som da bandinha de rua nos teus olhos; o som do teu sorriso doce, encabulado e quieto; o som do teu silêncio... Ah, o som do teu silêncio! Sendo quebrado pela língua áspera lambendo o sal dos lábios e da inquietude da tua alma em desalinho, até o som da minha própria saliva seca tentando lubrificar a boca, tentando não explodir em ódio, me inquietam. Apavoro-me, apavora-me a orquestra que o cerca. Estou enlouquecendo com tamanho barulho! E agora esse maldito pássaro metido a Pavarotti... Por que não te calas maldito? Por que não te calas, pássaro idiota.

Última parada - Estação Brumadinho - A serra ruída e os destroços deixados pelo caos... O cobertor de lama arregalado sobre todos
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Última parada - Estação Brumadinho - A serra ruída e os destroços deixados pelo caos... O cobertor de lama arregalado sobre todos e a montanha descendo voraz morro abaixo, lá embaixo os gritos emudecidos dos sujeitos silenciados dentro da tumba de rejeitos do concreto duro e frio que pelo caminho foi se perfazendo o barro. A dor de quem viu tudo ruir, o terror de quem estava lá pela segunda vez chorando o Rio doce, o Paraopeba, possivelmente até o São Francisco. Os animais soterrados, sufocando sob toneladas de lama e a cama dura, agora leito das vítimas dessa realidade cruel. Personagens de histórias brutalmente interrompidas. A crueldade da trama de quem despejou a sua lama no quintal do vizinho: - Nos inúmeros terreiros e quintais inundados e que deixaram de existir. - Nas hortas, lavouras e roças inteiras que não serão mais cultivadas. E no leito sujo dos rios, os passos encravados no barro, das pessoas enrijecidas na fuga, congeladas de tanto pavor. Rompeu-se em Mariana a Barragem do Fundão. Em Brumadinho arrepiaram-se todos ao ver se esvair a sua maior promessa de riqueza, no Complexo do Feijão, a sua maior empresa transbordou-se num mar de lama e em inundação jamais vista pelo volume e devastação, acabou com o conto de fadas da inocência da extração mineral sustentável.

A lama Mar de lama que trouxe a destruição e nos arrebatou a todos fortemente A barragem que implodiu a paz e inaugurou um novo tempo
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A lama Mar de lama que trouxe a destruição e nos arrebatou a todos fortemente A barragem que implodiu a paz e inaugurou um novo tempo Reapresentando a dor e todos os antigos lamentos “já esquecidos” Insidiosa indústria de extração mineral Algures estrada caminho onde se equilibra o bem e o mal N’algum sítio de minério onde operam maquinário bruto antes nunca visto Assolando o solo fazendo-o tremer em explosões múltiplas e desgaste desmedido. Brumadinho... Paraíso encravando logo ali, ladeado a Mario Campos. Minas Gerais... Das inúmeras minas que lhe facultaram o nome e que agora lhe envergonham e causam a todos largo espanto. Paraopeba, Rio Doce, São Francisco, Córrego do Feijão... Ambos agonizam. Romperam com a nossa paciência, reinaugurando a nossa indignação Óbitos múltiplos Xisto pedra em verdes folhas, dólares Indústria torpe em vil revide Minas matam e matam por dinheiro As vítimas nem se dão conta que a conta mais cara será paga por eles. Assoreamento dos córregos, canais e cursos d’água Depósito de sedimentos e esterilização da vida local Memórias de uma vida inteira enterradas na lama Morte no leito do rio transmitida ao vivo pela televisão Perplexidade estampada no rosto incrédulo dos sujeitos perdidos Dispersos em seus sentidos e assolados pelo banzo coletivo que aflige a multidão.

FOGO AMIGO Da escuridão à quase luz ao flagelo que não se encerra
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FOGO AMIGO Da escuridão à quase luz ao flagelo que não se encerra da amarga palavra que reluz tornando os teus corpos à terra. Dos ataques kamicazes nas madrugadas à velha guerra psicoemocional em voga ao arsenal de agressões já retrógradas às decepções desnecessárias que sempre evoca. No ventre no vão mais profundo do útero o último laço que os une e os reemenda das mágoas trazidas à tona de modo abrupto ao silêncio profundo que agora os desorienta. Chega! Vai chegar mais dia menos dia e o fim será logo ali na esquina dos lábios se insistir por este caminho mãe e filho o destino será cada um para o seu lado. O perdão é um caminho extenso e sem volta há que ser sincero e caloroso no abraço pois a palavra que acolhe, ameniza e renova também magoa, encerra e promove embaraço. chega de autossabotagem e de agir como ilha vida nova, casa nova e o passado sempre obscuro não haverá no presente convívio em família se daqui para frente não enxergarmos somente o futuro. Vamos curtir o momento sem ataques ou fogo amigo e colocar um sofá enorme no banheiro vai ser deslumbrante dar a volta por cima e eu digo independente se na cor rosa, branco, cinza ou vermelho.

ODE ÀS MÃES Conciso, cirúrgico e eficaz é o remédio que oferta as mães aos filhos
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ODE ÀS MÃES Conciso, cirúrgico e eficaz é o remédio que oferta as mães aos filhos para cessar-lhes as dores e trazer-lhes a paz enquanto resilientes elas se equilibram sobre trilhos. Aos olhos da mãe cada filho é filho único mimável ao extremo e jovem demais para voar cada destino tem brilho próprio e mesmo lúdico o amor por maior que seja também faz errar. Abraço enlace que ecoa aconchego e bondade e adere ao outro feito laço apertado intransponível que acalma a alma e enche o mundo todo de felicidade fazendo transbordar a força descomunal desse ser incrível. Desenhada pela mão divina é a maravilha número zero mãe é coisa sagrada, condição rara, feita para encantar das criações do mundo foi a que melhor soou no violoncelo e apreendê-la é condição mínima para encontrar o caminho do mar. Em dia de enorme desassossego criou Deus todas as mães e ao perceber seu grande feito, pôs-se a admirar sua obra prima que de tamanha perfeição assemelhou-se às grandes definições das mais nobres, colossais e vitais de toda a criação divina.

Balada dos desempregados Nem vivo nem morto, em estado catártico. O desemprego àquela altura os imobilizava completamente.
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Balada dos desempregados Nem vivo nem morto, em estado catártico. O desemprego àquela altura os imobilizava completamente. Muitos de seus planos já haviam sido abandonados. Deixados de lado. Simplesmente. A frustração e o sentimento de impotência invadiam seus corpos, tomando-os de assalto por completo. A insônia, a impaciência, a desesperança já eram uma constante em suas noites/dias. A escuridão que lhes afagava a face, também os confundia um tanto. Face a face com a versão mais cruel de suas vidas, via o número de iguais se multiplicarem dia a dia: - Por todo o bairro, por toda a cidade, muitos desocupados, precarizados, sambando pra desenrascar o feijão com arroz e o leite das crianças antes de o sol se por. Dia após dia. Muitos ainda não haviam apreendido o real tamanho do problema que, feito um iceberg tendo apenas uma pequena parte à mostra, despontava de forma aterradora. Mais de quatorze milhões de desempregados... Greves múltiplas. Revolta nas ruas. Educação na UTI. Saúde em total colapso. A população da periferia sendo dizimada pela criminalidade e pelas drogas. E o país imobilizado. Desgraçados... Há de haver punição pra tanta maldade, se não aqui na terra, em algum lugar há de haver uma mão pesada o suficiente pra parar essa gente que não sente empatia por qualquer um que seja. O filhinho da minha vizinha morreu ontem de sarampo. SARAMPO. Pois é... Inacreditável não é mesmo? O vizinho da rua de cima se enforcou. Não aguentou o acúmulo de tantas dívidas e por isso se matou. Aqui no bairro não é novidade ver gente mendigando alguma coisa pra comer. A fome como todos pensavam também não foi erradicada. Por aqui parece epidemia. O alcoolismo quadruplicou. Os andarilhos e moradores de rua são inúmeros. Pequenos e constantes furtos aos comerciantes são frequentemente relatados, repetidas vezes os poucos comerciantes que ainda resistem de pé são vítimas de espertalhões que não querem se enquadrar na dinâmica cruel de agora. Pelas ruas do bairro tem gente vendendo de tudo: - Ovos, picolé, cigarros do Paraguai, abacaxi, vassouras, panelas, produtos de limpeza, balas e doces, derivados de milho, amendoins torrados, pizza de dez... A vida está difícil mesmo. Os preços aumentaram muito. Nos supermercados as sacolas estão quase sempre vazias. Até o macarrão instantâneo e o milho para pipocas de micro-ondas foram reajustados em mais de trinta por cento em menos de uma semana. O preço do botijão de gás é hoje praticamente um assalto a mão armada. O que fazer com tanta desesperança senhor prefeito? O que fazer senhor governador? Senhores deputados? Senhores senadores? O que fazer senhor presidente? Acabou o milho, acabou a pipoca. É isso?

O Bem e o Mal Vibre o bem, por que quando ele ressoa, não há mal capaz de frear o teu ímpeto. Vibre sempre na dimensão do bem, por que conheço intimamente o mal e todo o seu potencial destruidor e reconheço também a sua força sobre as pessoas quando e se elas abrem a guarda. A v…
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O Bem e o Mal Vibre o bem, por que quando ele ressoa, não há mal capaz de frear o teu ímpeto. Vibre sempre na dimensão do bem, por que conheço intimamente o mal e todo o seu potencial destruidor e reconheço também a sua força sobre as pessoas quando e se elas abrem a guarda. A vibração positiva emanada de consciências positivas atrai para si o melhor das pessoas e quase sempre o melhor e o pior das pessoas está na energia com que as relações sociais são evidenciadas ao se desenrolarem. O mal está em nós tão intrinsecamente impregnado quanto o bem e compõe indistintamente apenas mais uma das tantas faces que nos torna bicho ou homem.

Seis tiros, uma pistola e esse sol careta dos trópicos Olhou para o céu como se tentasse ver o que enxerga a alma seus olhos marejados e oprimidos pelo sal do suor que escorria da testa
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Seis tiros, uma pistola e esse sol careta dos trópicos Olhou para o céu como se tentasse ver o que enxerga a alma seus olhos marejados e oprimidos pelo sal do suor que escorria da testa fazia festa ao fitar o sol, piscava o sol em sua face rôta beliscando a testa e os seus olhos mochos. Aos trinta e poucos já sem sal e sem graça, parou de olhar para o céu armou a pistola, engatilhou-a e como se não temesse mal algum apertou seguidas vezes o gatilho (seis vezes ao todo) mas foi um único disparo que lhe tirou o sossego da vida inteira. E até hoje ele se arrepende de ter errado aquele tiro.

Guerra invisível "Foi declarada guerra mundial ao indizível, ao imponderável, ao terrível coronavírus. Estamos em guerra contra um inimigo invisível, que segue invencível do lado de lá do front.
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Guerra invisível "Foi declarada guerra mundial ao indizível, ao imponderável, ao terrível coronavírus. Estamos em guerra contra um inimigo invisível, que segue invencível do lado de lá do front. E de nada adianta o nosso poderio bélico, econômico, político, diplomático... Se estamos em guerra contra um inimigo tão insensível, que cada vez mais forte, segue a nos espreitar nas ruas e esquinas. Imprevisível vírus que acomete o mundo e impiedoso assalta os nossos corpos impondo o pavor e o medo a todos sem distinção. De nada adianta nossa arrogância, prepotência alguma ou soberba. A guerra é global. Precisamos nos unir e reagiar, agora é a hora de lavarmos as mãos. Estamos perdendo essa guerra nas ruas, nos mercados, nos bares, nos restaurantes, nas fábricas... E tudo isso por causa da nossa inconsequência e teimosia. Precisamos nos abrigar em casa, longe das pessoas que amamos. Precisamos adotar técnicas elaboradas de autopreservação e depreender de todos os cuidados de higiene por mais primários que pareçam. Nada de apertos de mãos e abraços calorosos ou beijos e caricias aos domingos em fins de tarde. As nossas bombas atômicas e mísseis intercontinentais não adiantam de nada agora contra inimigo tão poderoso, que zomba de nossa cara e voa abaixo do radar, fora de nosso alcance. Continuamos em guerra e a procura da cura para o mal que nos assola. Não chore! Não chora. Talvez devêssemos lançar uma contraofensiva biológica ou um ataque químico... Ou quem sabe uma vacina criada a partir da inversão do vírus, ou alguma espécie de antídoto que reverta o feitiço contra o feiticeiro... Um cavalo de troia com longa e esvoaçante crina negra, imbatível, imprevisível e sorrateiro feito a peste grega. Estamos em guerra... Por isso, se abrigue e aguarde a poeira abaixar. O tempo é senhor de tudo e em breve cuidará de por cada coisa em seu lugar. Preserve-se e sobreviva, fique em casa e cuide de si mesmo e de sua família. Estamos em guerra contra um inimigo invisível que apesar de aparentemente invencível, não tarda a quedar".

Tempificar O tempo, esse ingrato a quem eu clamo por mais um dose, não do tempo do relógio, mas do tempo da atenção e do cuidado. Nesse mundo corrido e sem tempo, há de haver mais tempo, pra gente passar um tempo juntos e sem se importar com nada.
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Tempificar O tempo, esse ingrato a quem eu clamo por mais um dose, não do tempo do relógio, mas do tempo da atenção e do cuidado. Nesse mundo corrido e sem tempo, há de haver mais tempo, pra gente passar um tempo juntos e sem se importar com nada. E ficar só vendo o relógio tempificar a vida que, passa ligeira e despercebida e ao mesmo tempo bem devagar, bem diante dos nossos olhos. Nossa... Faz tempo que a gente não fica um tempo assim, só jogando conversa fora sem se preocupar com o início, meio ou fim.

Canção à Inoportuna Morte e Vida se encontram em trechos convergentes de uma mesma história,
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Canção à Inoportuna Morte e Vida se encontram em trechos convergentes de uma mesma história, eu te amo e te odeio vida, eu te amo e te odeio morte. Com sorte é a paz que encontrarás nas lembranças que nos acalentam a alma. Há de haver esperança nessa trama que se desvela a vida, enquanto vagueia a mente perdida, sopra sombrio o vento que nos conforma a sorte. Um adeus aos entes queridos que se foram, que se vão de forma inesperada todos os dias. As vezes de forma trágica, morna e ou inoportuna ( uma paixão não correspondida, uma vida cheia do mais absurdo vazio, uma queda da própria altura...). Há de haver luz que robustença as nossas memórias, há de haver conforto nessas tão insuportáveis horas. Eu te odeio e te amo vida, eu te odeio e te amo morte, e apesar de tanta ira em teus olhos, aguardo-te ansioso inoportuna sorte. Na derradeira hora venha me buscar cerimoniosa e, não se atrase. Também não precisa acelerar demais! Quero ouvir-te chegando lentamente, passo a passo pisando o chão duro que me servirá de leito na noite mais escura. Mas vá com calma! Por que a minha alma está encomendada ao universo e o meu corpo já nem é lá grande coisa.

Lira do herói renegado "Não se faz educação com ódio, desprezo ou subjugando os sujeitos envolvidos no processo. O ato educativo, todo ele, é constituído de amor, amor puro e cristalino. E a usurpação, apesar de ser prática usual e recorrente das ações reducionistas de governos…
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Lira do herói renegado "Não se faz educação com ódio, desprezo ou subjugando os sujeitos envolvidos no processo. O ato educativo, todo ele, é constituído de amor, amor puro e cristalino. E a usurpação, apesar de ser prática usual e recorrente das ações reducionistas de governos e governantes, não pode e não deve constituir em si um impeditivo para que os atores alunos, professores e educadores protagonizem na cena o espetáculo da educação. Os professores são heróis, os vilões são outros. E eles são tão bons no que fazem que você se sentirá motivado a pensar-se maior e ou melhor do que eles, após passar por eles. A educação vai te alçar a patamares tão elevados que talvez você se perca pelo caminho e ou se esqueça de suas raízes. A educação vai te dar asas e libertar a sua mente, o arrebatamento será tremendo, depois você estará por conta própria e, talvez, lá na frente, será necessário olhar para trás, olhar para o lado, para o alto ou para baixo, você decidirá em que direção seguir e por qual caminho se aventurar e com a autonomia de quem lê, escreve, conta e interpreta o mundo. A educação vai salvar você, mas você ainda não sabe disso".

Liga, desliga! Aparentemente me consome a vida, enquanto se aproxima o fim
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Liga, desliga! Aparentemente me consome a vida, enquanto se aproxima o fim em cerimoniosa sorte. E ao que parece, caminha de braços enlaçados com a loucura. Quem é que diz ao cérebro chega ou rouba dos sujeitos o sopro vital? Quem é que dá a ordem de liga ou desliga e sopra dos corpos já moribundos os últimos resquícios existentes de vida? Quem é que ensina ao cérebro a hora de parar antes que venha a vertigem, a ânsia e a tontura ou libera a alma do corpo pra ocupar outros corpos e ou viver outros carmas? Ao que parece, tripudia a vida da minha miserável sorte, enquanto me consome e violenta, afaga-me e acaricia descaradamente a face que, fria e pálida, já nem disfarça tanto descontentamento.

A Revolução dorme na Periferia Revolução nasceu na periferia, magrela e desdentada mal podia chorar. Não teve forças pra mamar pela primeira vez no peito murcho e já quase seco de sua (ama de leite), vizinha de parede, que havia parido alguns meses antes uma dupla de desajustado…
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A Revolução dorme na Periferia Revolução nasceu na periferia, magrela e desdentada mal podia chorar. Não teve forças pra mamar pela primeira vez no peito murcho e já quase seco de sua (ama de leite), vizinha de parede, que havia parido alguns meses antes uma dupla de desajustados (como fez saber alguns anos depois a escola). Ela, Revolução, cresceu em uma rua de terra agitada no bairro mais violento da Zona Norte, onde até o medo tinha medo de estar. Lá não tinha nada (parques, praças, quadras, ruas asfaltadas, essas coisas), mas também não tinha nada de mais, era um lugar comum, feito qualquer um, feito outro lugar qualquer. Era lugar onde se podia encontrar a mais variada gente, onde a alegria vivia cercando as pessoas e a vida pulsava em uma intensidade diferente. De fato, lá tudo era mais intenso! Os sorrisos, o choro, o cheiro de frango frito, a catinga da cachaça no hálito seco e duro dos bêbados quase mortos caídos na calçada de qualquer jeito e o cheiro da erva, da pedra e da dor que ecoava da tristeza dos olhos da mãe resoluta, sem saber o que fazer diante do excesso que a intensidade do lugar propiciava. Lá democracia era na (b) fala de quem pudesse se impor e, o silêncio, a primeira lição aprendida já ao nascer. Lá buraco era buraco mesmo, fundo, bem fundo! E cavava-se até não ter mais como continuar e quando o buraco já estava mudo, criando impossibilidade de se continuar, cavava-se ainda um pouco mais até o fundo escondido abaixo do fundo que existia no buraco, antes desse se tornar cova. O que não era incomum! De Revolução só se sabe os sonhos que contava baixinho ao pé dos ouvidos da professora, única pessoa que ela confiou até hoje. Uma senhorinha bem velha, com hábitos estranhos e vestes (alternativas), que contava com orgulho ter pegado em arma nos tempos de escola, durante o período da ditadura militar, onde se reunia com suas colegas durante a noite dentro de uma manilha abandonada na Rua Um (primeira rua a ser pavimentada no bairro), e lá tramavam subversivamente contra os desmandos do governo golpista. Revolução lembra-se dos limões que chupava pra matar a fome e do nó nas tripas que sentia sem poder gritar, lembrava-se dos amigos e amigas que morreram mudos e também dos que conseguiram a liberdade, ainda com pouca idade, na mão de algum salafrário abusador. Revolução reconhecia naquela senhorinha a sua única saída, se espelhava nela e em sua filosofia de vida; a Educação tanto falada pela professora tornou-se seu hino da mudança, sua única esperança de evoluir, já que tudo ali parecia fadado a murchar. As manchas brancas e a pele áspera de Revolução eram dos vermes e das lombrigas adquiridas no contato com a água podre que corria sob sua casa. Revolução cresceu faminta, lambendo os beiços enquanto assistia o frango rodar na ilha de assar exposta no passeio da padaria de seu bairro, onde aprendeu desde muito cedo a se virar. Aos treze anos, Revolução se perguntava por quem todos ali morriam? E perguntava-se também, porque morriam tantos ali todos os dias? Revolução era feliz, apesar de tudo! Talvez procurasse algo, talvez não soubesse ainda o quê, tateando sempre no escuro era mesmo difícil de saber. Revolução já dava sinais de cansaço e andava meio sonolenta nas aulas, já não se importava com as revoltas nas ruas, nem se revoltava com as incursões da polícia na favela, nem com a iminência da morte de seus amigos subindo e descendo vidrado(s) feito soldados, nos becos e nas vielas, nem com o cheiro de pó e pólvora que impregnavam as suas narinas e oprimiam seus olhos. Revolução incrédula olhava pela janela e sem poder acreditar via a vida diferente. Mas não sabia explicar o que estava vendo ou sentindo! De repente, tudo que foi sempre torto parecia ter se endireitado, parecendo fazer algum sentido. Revolução sentia as juntas doerem e parecia ter os sentidos alterados, as pernas reclamavam o peso de seu corpo e os enjoos e náuseas acentuavam. Já sem paciência, Revolução curvou seu corpo franzino e em meio ao sangue que jorrava angustiante por entre as suas pernas juvenis, pariu gêmeos. Caída no chão da cozinha e sozinha no barraco, nem lamentar podia. E se lhe perguntassem quem era o pai... O que ela diria! Os dois filhos de Revolução foram criados pela professora e cresceram e viveram até a vida adulta e, apesar da culpa, todos entenderam a importância da luta daquela mulher. Filhos (bem sucedidos) da Revolução nasceram do ventre estreito de sua genitora, mirrados, sem esperança e famintos, foram acolhidos pela professora; e apesar do karma em seus (DNA’s) cresceram argutos, espertos, astutos e hoje lutam pra que outros também possam revolucionar. Lutam para que outros vivam, para que outros não se calem, nem sejam silenciados. E se hoje vivem, é para servir de exemplo, ser espelho da Revolução que na periferia ocorreu... Preta, catadora de lixo e guerreira que nos pariu e morreu. Revolucionária do dia a dia que viveu e morreu um dia de cada vez, que cresceu ouvindo a professorinha dizendo que quem luta e não se cala, cala a fala de muitos e muda a forma que o mundo conforma quando distribui a sorte e desenforma a forma que o deus dos brancos escolheu. Cresceu ouvindo a professorinha dizendo que: - “Quando a periferia tomar consciência de sua importância para a sociedade verá, nesse dia, o desencadeamento da maior revolução da história do Brasil”. E de tanto ouvir a professora falar moveu seu mundo e mudou o rumo de tudo, revolucionando o rumo que a vida preestabeleceu, seguiu em frente orgulhosa enquanto o futuro moldava o presente de toda aquela gente que o passado estranhamente esqueceu. Hoje dorme na memória revolucionária da periferia que na história dos livros ninguém leu.

A Folha Aquela folha amarelada e já castigada por pragas não veio trazida pelo vento, foi o meu cão quem trouxe. Na face da folha já moribunda os buracos feitos pelas lagartas e a marca de ferrugem gravada em sua pele devido à ação do tempo. Sinal da vida se esvaindo por entre o…
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A Folha Aquela folha amarelada e já castigada por pragas não veio trazida pelo vento, foi o meu cão quem trouxe. Na face da folha já moribunda os buracos feitos pelas lagartas e a marca de ferrugem gravada em sua pele devido à ação do tempo. Sinal da vida se esvaindo por entre os dedos e da morte se aproximando e se fazendo perceber. Em minhas mãos a percepção da dor e do lamento na alma, por entender a importância daquela simples folha e às inúmeras fotossínteses a que ela se prestou ao longo de toda a sua vida. É mais uma estação que se encerra e mais uma folha que cai e ao sabor do vento é levada. Nos olhos do meu cão o pedido de socorro: Salve-a, por favor!

E daí? Ao fingir demência se esquiva e não se curva, nem se ressente de tanto ódio e ou maldade. E daí? Ele diz. Praguejando a dor do povo oprimido nas ruas, pobre ou rico.
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E daí? Ao fingir demência se esquiva e não se curva, nem se ressente de tanto ódio e ou maldade. E daí? Ele diz. Praguejando a dor do povo oprimido nas ruas, pobre ou rico. Alguém grita: - Mais de cinco mil mortos e já superamos a China. E ele metralha em seguida, armando o polegar e o indicador em riste na direção da seita completamente possuída que cega, desajuizada e ou entorpecida comemora a morte de seu semelhante, feito comemoram nos jogos as torcidas.

E se faltar feijão, a gente come os livros... "Não esquenta, por que se faltar feijão, a gente come os livros e se farta de conhecimento. Com o cérebro plástico e a mente cheia de possibilidades, serão tempos sombrios para os oportunistas de plantão que vivem de explorar a inocê…
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E se faltar feijão, a gente come os livros... "Não esquenta, por que se faltar feijão, a gente come os livros e se farta de conhecimento. Com o cérebro plástico e a mente cheia de possibilidades, serão tempos sombrios para os oportunistas de plantão que vivem de explorar a inocência e a ignorância do povo mais humilde. Vai ser cada vai se ferrar diferente, que vai dar gosto de ver a cara de espanto deles".

A Travessia A travessia é um campo verde em densa mata localizada em meio ao nada, na área rural, protegida pelo breu noturno da roça e recoberta pela bruma da madrugada. É escura e incerta, feito o medo que nos cerca e que faz tremer as nossas pernas, em razão do frio que cort…
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A Travessia A travessia é um campo verde em densa mata localizada em meio ao nada, na área rural, protegida pelo breu noturno da roça e recoberta pela bruma da madrugada. É escura e incerta, feito o medo que nos cerca e que faz tremer as nossas pernas, em razão do frio que corta o corpo nos ventos perenes em rajada e na coragem que de súbito nos faz crer no reencanto de nossa alma, há muito desencantada. A travessia se estende por todo o caminho ao longo do que se pode alcançar em visagem, lá do alto da encosta que margeia esse lugar o céu é enorme e as estrelas brilham na imensidão do firmamento em um tom azulcintiloprateado capaz de encantar a qualquer um que se prestar a olhar. Ao mirar o horizonte que se agiganta à nossa frente adquirindo dimensão de infinito, veem-se claramente as constelações estelares em formações que se conta aos milhares ou aos milhões. Os pontinhos reluzentes, encantadores e extremamente viciantes são minúsculos ao serem observados daqui e ao reluzirem encantam e fazem aflorar os meus mais profundos, sinceros e bonitos sentimentos. Nesse sítio onde as estrelas abundam no céu, também faz morada a lua, tímida e reservada, a lua dourada que pinta os nossos sonhos de emoção, clareia o mato alto e a copa das árvores em espetáculo digno de aplausos. Na travessia pelo ponto mais alto da encosta, a experiência de quase todos os dias é um sincero e caloroso abraço da vida, um afago da lua mais bonita que eu já vi e um sentimento que eu nem ouso tentar explicar com palavras. É preciso sentir com o corpo inteiro a poesia que é estar lá enquanto a natureza dá o seu show.