O vicio regenerado posto sob o pedestal da virtude. O cálice abominável guardando um avental púbico exige que a noite ouça mais um desabafo das nossas bexigas, e as plantinhas recebam a chuva urinária daquilo que melhor soubemos preparar. Não podemos lavar as mãos, as torneiras não existem por aqui. Seca-se o rosto na vaga sensação da agonia. Vingar a intempérie do nosso juízo talvez fosse uma boa maneira de começar um auto de penitência. Seria uma “mea culpa”? Acho que está mais para uma “máxima culpa” e choramos depois de mijar na relva. Ainda bem! Torço pra não chegar o dia em que eu ouçamos o choro e sintamos o mijo.
Presenteado pelos abraços de mãos provocadoras e oferecendo meu ombro na forma de um abrigo de palpitações eu me vi sem reação. A explosão do movimento ressoava como fogos que anunciam um bom ano-novo. Quis pedir para o mundo congelar seu giro, matar seu tempo e estacionar sua viagem.
Não é apenas seu corpo, esse desnudo espaço que pranteio no universo, palco das minhas alucinações, mas também sua alma, que compartilha com a minha, a versão mais ardente de uma paixão que pode ser sentida pelos poros da pele que eu insisto em querer beijar. Decorar cada aspecto da sua superfície, me deliciar nas encostas que reclinam sobre meu dorso, especular cada pedaço dos seus tecidos, e provar faminto cada sentença do seu gosto.
Demos um beijo, nossas bocas selaram o acordo. Apresentamos nossas almas, nos despedimos, mas sem saber, naquele momento eu levava um tanto de você e deixava outro tanto de mim. Logo iria atrás de você para buscar meu eu que faltava, devolver seu eu que levava e sem perceber me deixaria contigo mais uma vez! Até que chegou o dia em que percebemos que nos levávamos completos um no outro, e que meu corpo levava seu espírito e seu corpo levava minha vida. Prometemos então cuidar dos nossos corações que não mais sabiam a quem pertenciam, pois misturamos nosso suor, nossa carne e nosso amor. Sentia sede de você, sinto sede de você e mato a minha sede na sua saliva.
E nós, que sempre tivemos medo da felicidade notamos juntos que não havia mais o que temer. Ela deixara de ser uma quimera e se tornara a realidade que compartilhamos todas as manhãs. Quando estou longe de você, desde o instante que digo tchau até vê-la outra vez, a maior presença que sinto é a sua ausência.
Nada poderia ser dito para dizer como nos deliciamos com a presença de nós mesmos. Não precisamos de mais ninguém nesse espaço remoto e litúrgico onde os poemas deixam de ser escritos e passam a descrever o que experimentamos.
Envolvo cada pedaço seu e alivio a dor da ausência com a memória da existência de que vamos nos encontrar. Seu beijo é vivo e o calor da sua ausência me consome. Quero-te na intensidade de um olhar, te quero na manhã de um despertar, te espero para saborear o mel trazido pelo gosto gostoso que é beijar você.
Sentado nos bancos do meu carro eu só ouvia o raspar dos pneus no asfalto frio, a rudeza das rodas que saiam. Odor de rosas, vinho vigoroso perseguiam minha prosa, traziam a poesia para meu dorso.
Ali, entre inúmeros ombros fantásticos, conheci aquele descoberto e escondido corpo. Rimava com o débil tempo dos elásticos e com os meus sapatos fizeram coro doloroso.
Sempre soubemos exibir o melhor um para o outro, e o mundo que ficasse com aquela superficialidade desconhecida que nunca fizemos questão de manter.
Precisamos de alguns minutos para saber que nos conhecíamos há anos. Precisamos de um instante para provar o sabor de uma vida! O que seria do tempo se não pudéssemos esgotá-lo constantemente com a certeza de que ele nunca acaba? Com você aprendi que não sou imortal! Passei a amar a vida, por querer saboreá-la calmamente como aquele sorvete que tomamos em nosso reino. Larguei tudo que me matava para poder morrer de amor só por você.
Não fui o mesmo naqueles instantes, cavei a sensação naqueles momentos. Procurei suas imagens nas gavetas e encontrei a ocasião perdida de um beijo. Sinto que valeu a pena, sinto que a saudade me encontra num lugar. Até onde seu sorriso me chamava? Até onde eu poderia lhe buscar? Rodei por estradas sentindo seu perfume em minhas mãos, guardando seu cheiro para que eu soubesse onde lhe encontrar. Senti vontade de congelar o mundo em alguns momentos, como em alguns momentos nos incendiamos com um olhar!
Bebemos as nossas necessidades como um sedento se satisfaz num Oasis após uma jornada seca, onde até seus ossos estiveram ameaçados de se esfacelar. Minha garganta só grita as frases que ela aprendeu durante sua história. Enquanto os sonolentos dormem, é no meu palco que as apresentações acontecem. O show arranca suspiros, leva multidões a um delírio entorpecente de espasmos e contrações. O rosto se desmancha nocivo num balde de alívio que provoca consternações. Meu amigo está na hora de parar.
Estive contigo por uma noite nas areias da praia. Estive contigo onde as gotas de fogo ardiam sob as águas e se confundiam com o doce daquela imensidão! Era selvagem o prazer do sorriso e foi bom contar as histórias que o céu queria nos dizer através das constelações. Senti seu abraço, a peguei em meus braços e por pouco não nos pusemos a rodar! Como ramos agitados pelo mesmo vento, e como raízes que se unem numa mesma força, escrevemos cada segundo daquele momento e guardamos os sonhos todos da mesma forma!
Âncora de rodas, despojada no cais. Lanço-me sobre sua tristeza e faço você correr para longe dali. Para longe da tristeza, jamais para longe de mim. Quando você vai eu vou contigo. Quando eu vou, levo você comigo. Jamais ficamos sós.
Cai a noite lenta. Abraça-a uma neblina forte. A terra molhada deixa brotar seu cheiro de fim de tarde. Jardins irrigados na calma do espírito. Anjos batem suas asas. Brisa santa. Eleva-se às alturas. O perfume celeste traz-nos o divino.
Minhas páginas voltadas, meu livro escrito, minhas bordas recheadas e meu caminho aflito! Tudo isso deixo do lado da estrada, quando sorrateiro pela madrugada sei que ouve a chuva comigo! Ela realmente parece uma canção de ninar. Ela embala nossos corpos e canta a nós sua satisfação em existir. Versos da passagem, poesia de uma viagem e eu aconteço antes mesmo do porvir.
A chuva se vai.... Mas sua ausência dura o exato tempo da clemência, quando implorando, pedimos para ela voltar e acompanhar o canto dos pássaros e invocar mais gotas de eternidade para nos banhar!
Salgada era a água que escorria pelo meu corpo e doce era o gosto da sua boca, assim descobrimos a fórmula perfeita do soro que nos hidratou, tratando de encurtar o caminho que talvez demorássemos muito tempo pra seguir. Como saber? De uma hora pra outra o errado virou certo, o oculto se tornou notório, as omissões foram confissões e no intervalo de uma hora iniciamos a história que já tinha quase uma vida de duração.
Palavras adiantam o nosso encontro que guarda ansioso o brinde da felicidade. Copos transbordando frutos proibidos. Seu corpo, sua libido. Pintaria o mundo de vermelho e saborearia o encontro prazeroso de nossos corpos por todo o tempo permitido. São desejos desejosos dos desejos que tenho. Desencontros entre a realidade de agora e a lembrança de ontem, antes de ontem, dias anteriores e tudo mais.
Amamo-nos! Em cada desentendimento bobo, uma promessa de amor que nunca deixa de ser cumprida, por nunca termos deixado de nos amar. Em cada ofensa proferida um sorriso sincero e a vontade de dizer que foi sem querer. Nos lábios que se abrem para nossa alegria afiamos o fio da nossa espada, cortando nossos corações em pedaços pequenos, nos alimentamos de todo amor que a terra pode oferecer.
Nessas horas tenho vontade de sentir você deitada perto de mim. De ver seu sorriso perdido e seu jeito fechado que resiste em falar. Interpretar você sempre foi um desafio que enfrentei com muito prazer. Pensar que passamos dias em paz, afastado de tudo e do mundo, criando um mundo que só nós conhecíamos e somente nós sabemos onde está.