Imaginando, eu provei dos lábios que despertaram minha fome, e saudável, esperei o milagre da minha cura. Senti desaparecer aquilo que não tive e me encontrei navegando no deserto das possibilidades, queimando no inferno das intenções. Troquei seus olhos pelo poço dos mistérios soltos. Venerei seu corpo dentro da sua mente, almejei tocá-lo dentro dos pensamentos meus e sei que isso tudo faz parte de você também.
Pego a caneta como quem busca uma arma para atirar. Quero derrubar os corpos diante da angústia da minha tinta! Quero manchar as ruas com as letras da solicitude vasta. Despejar o caldeirão das críticas nos pratos das crianças traumatizadas. Empurrar o paralítico na descida e gritar sorrindo que o freio quebrou. Quero infestar a consciência com as ideias que destruíram minhas ideologias.
Numa madrugada sem amanhecer visitei seu sonho. Sorrateiro aguardei seu adormecer para possuir cada parte da sua imaginação. Não esperei pelo convite, pois sonhos normalmente são invadidos, é assim que se tornam tão curiosos e intensos. Sob a proteção da noite pude ler seu corpo e revivê-lo a cada lembrança que enobrecia ainda mais seus detalhes. Nesse conjunto de formas, cheiros e gostos eu a construo todos os dias. Na distância dos nossos corpos eu constato a proximidade das nossas sensações. Roubo da sua boca o desejo de um beijo meu, e permaneço entre seus lábios das formas mais absurdas e incandescentes. Sequestro seu fôlego e faço refém a sua vontade.
Entre o fogo do desejo cobramos o preço de um beijo, e enquanto todos corriam passando por nós, aguardávamos numa estrada, nesse caminho a sós! Ouvi sua respiração, senti o seu suor. Ouvi seu coração quando me aproximei o bastante para perceber que nos unimos na batida certeira de um compasso exato.
O telefone tocou você me disse para onde ir. A porta se abriu e então foi possível prosseguir. Uma volta pelas luzes, um passo reto na escuridão. Você soube como sair daquele mundo e assim começamos a correr. Como era bom te ver de novo ali! Como Dante poderia dizer: "A vida é uma só, um corpo, uma alma, um sol, um universo em ti e um frágil coração"! Não sei quem será o universo e quem será o frágil coração. Nós dois fomos o mundo, nós dois submetemos a razão! Para as loucuras eu peço um nova chance, mas não a chance do perdão. Quero a morte sem ser perdoado se eu tiver a dádiva da repetição.
A música tocava a uma distância difícil de decifrar. O rádio jaz esquecido, e o volume das suas notas jaz desprezado. O vazio e escuro espaço se fez sentir, e o nervosismo juvenil invadiu os dois corpos que ali estavam dividindo lembranças de um momento que já experimentaram. Provaram dos beijos quando estavam longe, provaram dos beijos na proximidade de uma sensação, provaram dos beijos na estampa de uma novidade, provaram as duas bocas enquanto o corpo estava são. Viveram a intensa forma da reciprocidade.
Desprezo a ignorância dos imberbes que se auto-proclamaram senhores do universo. Só se for um universo de diamantes de vidro, de soluços intelectuais e cultura saboreada numa refeição digna de uma hiena. No universo deles eu cago e vomito palavrões. Afogo o último verso do poema nas minhas inquietudes para não correr o risco de ver a poesia e a prosa cometendo suicídio ao passar pelas bocas porcas que nada tem a dizer.
Estamos sentados à beira do caminho das nossas vidas. Muito mais que uma estrada, ele mesmo é a experiência das lembranças. Somos as únicas testemunhas da nossa ânsia pela virtude da prudência. Como dois construtores, edificamos nossas linhas, criamos a nossa folha, e agora escrevemos nossa história, buscando o equilíbrio da maldade para enobrecer o desejo que nos ocupa mais do que deveria. Transborda em nossas vozes a força do coração palpitantes. Gritos falam alto, mas é preciso apenas um sussurro para ouvirmos tudo que precisamos um do outro.
Já venci o sono para saber de você, um pouco mais do que você queria me dizer! Já venci distâncias para poder te levar, pegar em sua mão e tatear um sorriso num rosto que se abria para minha imaginação. Minha cabeça dormiu contigo um sono carinhoso, sono de uma noite inteira! Enquanto a escuridão da terra nos ocultava, enquanto a lua só era vista porque eu voltava, esse imenso planeta girava com seus vivos e seus mortos na cabeceira! No meio de uma frase um beijo, no meio desse beijo uma alucinação. Perguntei se aquilo de fato era verdadeiro ou seu meus braços que rodeavam sua cintura, estavam envolvidos por devaneios!
Um abraço que não era mais esperado, um conforto que não buscava mais satisfação, um olhar disperso e vago que já foi sinônimo de comoção.
Um cheiro ainda atraente, mas expulso das narinas que não querem um perfume nostálgico trazido em sinal de adoração. Tiro as mãos do meu rosto e seguro o volante para prosseguir. Esqueço você nessas horas, apago sua imagem dos meus sonhos para que você possa dormir!
Como um rio que corre naturalmente para o mar, algumas coisas estão destinadas a acontecer. Não sabemos ao certo o destino, mas seguimos o mesmo caminho. Somos iguais nas imperfeições e perfeitos nas distrações, quando sem querer imaginamos cenas que ainda não vivemos e nos entregamos aos desejos censurados no mundo real.
Eu beijei a lua um milhão de vezes e nunca deixei a terra sob meus pés. Seu sorriso sempre foi o motivo da minha perdição e nossos jogos sedutores me fazem sonhar, eu admito. Afastei-me da distância exata me perdendo em números irreais.Criei fórmulas sem nexo só para poder divagar nas minhas segundas, terceiras e quartas intenções. Senti o labirinto da sua boca roçando meu rosto e nos cantos de um beijo busquei o centro do seu sabor. Sentei aos pés de uma árvore e provei o mel que se rendia diante da surpresa da sua companhia! E a voz me dizia sempre pra pular, fechar os olhos e voar!
Você dorme meu amor! Você descansa num sono único que eu jamais teria coragem de incomodar. Você dorme! Lembro-me das vezes em que meus olhos despertaram nas madrugadas. Eles sempre despertam nas madrugadas. É difícil eu entender que acordei, pois ao ver você dormindo tenho a nítida impressão de sonhar!
Dancei com os anjos em meus pensamentos e senti o encaixe dos quadris no absurdo da sensação. Dois corpos se rendendo ao calor de uma mesma vontade. Examinei cada centímetro das suas linhas e as descrevi repetidamente para mim, isolando qualquer possibilidade de esquecimento. Era uma imagem gravada, uma fotografia posta no álbum das seduções que guardei. Ali, naquele mundo onde as nuvens tem sabor, onde as cores ganham cheiro e o corpo é um imenso universo para explorar eu vigiei meus pensamentos mas não consegui afastá-los da vontade que tinham de recordar você
Fosse uma fábula, fosse uma mágica, fosse um sonho que trouxesse a realidade com o despertar. Mas a cidade já está acordada, ela nunca sonha porque ela nunca se põe a dormir. Como poderia então almejar algo mais surrealista do que a própria experiência concreta de seus braços que escondem abraços sob o cansaço de quem a desafia?
Poderia desejar a sensualidade exalando seu perfume que seria a vitória secreta do cheiro bom, poderia desejar seu corpo se correspondendo com o meu em quadris compassados pelo ritmo da libido em profusão, poderia morder suas costas em cada pedaço que me ofertasse a sensação. Tudo eu poderia fazer, se já não o fizesse em todos os instantes nos quais me presenteio com o sabor da sua carne jovial.
O homem conta seus sonhos pelo ponteiro do relógio, mede sua vida pela quantidade de seus bens e desvia seu olhar das florestas vivas para os prédios que arranham os céus, como se quisessem provocar a ira de Deus. Nessa perdição cosmopolita, o charme se desmancha no ar, e a fumaça dos canos automotores só desperta a ansiedade por saber que se esquece de onde vem, e não se sabe para onde vai.
Os corpos despertam na disciplina regrada de um encontro despercebido. Suaves na calma da sua santidade. Abençoados por uma mão que inocenta todas as atitudes pensadas ou não. O pecado não existe mais e não há mais também um tempo para despedida. Ficamos atônitos ao lembrar de que um beijo selou nosso destino e contou para o mundo quem realmente éramos. Trocamos olhares e esperamos pelo abraço matinal.