Rugas
Ó, minha amada,
És tão linda!
Mas juro que quero
Que o tempo passe.
Juro: Quero ver tuas rugas.
Será difícil, eu sei,
Porque sempre que olhar-te,
Verei a linda jovem que foste, és, e sempre serás.
Quero ver tuas rugas. Verdade!
Porquanto sei que até nelas
Haverá a tua beleza.
Quero, sim, ver tuas rugas,
Pois tenho tamanha certeza
De que o tempo te fará uma mulher
Ainda mais formidável do que já és.
Repito (e não duvide): Quero ver tuas rugas!
Pois sei que se conhecê-las,
Será porque passei ao teu lado
A vida inteira.
Fique
Fique
Mas não
Fique pouco
Fique muito
Fique
Tanto faz
Amizade
Ou namoro
Fique
Em minha vida
Permaneça
Seja
Permanente
Fique
Não fique
Ausente
Seja
E esteja
Presente
Filho
Mãe, seu filho
Não é mais seu
Agora é filho
Do mundo
Adotivo, claro
Mas sempre
Que ele sai
Volta apenas
Para um lugar:
A casa sua
Cuide-me
Quando sair
Acolha-me
Quando voltar
A visão de quem senta na janela
A vida passa pela janela
Eu sentado e a vida passando
Na estrada, as linhas traçadas ao chão nunca terminam
Elas mudam de cor, de tamanho e de forma
Como as outras pessoas desta rodovia
Já nem sei quantas passaram por mim
Muitas parecidas
Todas diferentes
Cada uma com o seu destino
Ao contrário das linhas dessa estrada,
Elas têm um começo e um fim.
Eu escrevo.
Eu escrevo, eu penso, eu digo, eu sou.
Já chorei ao escrever.
Já chorei por não ter escrito.
Escrevo porque penso.
Escrevo porque quero dizer sem que seja dito.
Escrevo para aqueles que não acreditam no que ouvem,
Mas acreditam no que leem.
Escrevo para todos e recito para os que não veem.
Eu escrevo, eu me descrevo.
Sejobem
Veja bem:
Independente
Do que queira ser
Seja pelo bem
Se quer ser um raio
Que seja para iluminar
O céu que anoitece
Não para partir
Meu coração
Se quer ser o ar
Seja a brisa que afaga
Não o vento que arrasta
Se quer ser a água
Que seja aquela que hidrata
Não a maré que devasta
Se quiser ser o fogo
Não seja aquele que queima
Mas aquele que aquece.
Repouso
De hoje em diante
Meu coração tem lugar
Não sairá pra passear
Da última vez
Voltou com arranhões
Agora precisa repousar
Talvez ele tome jeito
Daqui pra frente
Não sairá mais do peito
Para não se machucar
Loucura, loucura...
"- Ele é poeta. É louco."
Já ouvi isso
E não foi pouco.
Realmente,
Estar são
É fazer bombas
Ou derrubar um avião.
E (claro!)
Eu, poeta,
É que estou doente.
Bem-te-vi
Se fosse um passarinho
Queria ser um bem-te-vi
Para que bem-me-visses
Como bem-vejo-a-ti
Ou, então, um beija-flor
Para que minha vida
Dependesse de te dar um beijo
E de todo o teu amor
Saber sofrer
Sofro aos poucos
Morro lentamente...
Sofro de forma consciente
Consciente, aos poucos, morro
Sofrer faz parte de viver
É preciso saber sofrer
É preciso sofrer lentamente
Sofrer aos poucos
De forma consciente.
Diminuta.
Eu sustenido,
Você bemol.
Encontremo-nos em um tom,
Seja Lá ou cá,
Talvez em Sol.
Eu maior,
Você menor.
Será minha terça?
Procuro-lhe nas escalas
Por favor, apareça!
Eu grave,
Você aguda.
Nota que eu não encontro.
Talvez diminuta
Ou nota muda?
Vida poética
E se tudo fosse poético?
E se a vida fosse poesia?
Poetizaria ao dar-lhe “Bom dia!”
Muitos diriam: “Patético”
Mas estes são só ignorantes
Seres demasiado falantes
Porém, pouco pensantes
E se tudo fosse poesia?
Haveria um grande progresso
Caso transformássemos tudo em verso
Sei que ao olhar para a vida, sorriria
E se tudo fosse poesia?
Imagino quão bela a vida seria
E os ignorantes com baldes de água fria
Para combatê-los, rimaria
Tentarão esfriar as vidas
Mas graças à poesia
Não esfriarão a minha.
Réu
Dizem que as pessoas felizes
Foram condenadas a ver
Tudo de cabeça para baixo
Então percebi que,
Deste crime, sou réu
E que não voava baixo
Mas andava no céu
Pagamento
Carrego algumas culpas no bolso
Não por meu gosto
Estou livre deste sentimento
Tem gente que cobra o amor
Que cobra chegada e saída
E só aceita este pagamento