Todas as minhas angústias deveriam se resumir em uma única ferida
A ferida que sangra a ausência de um amor que nunca veio
Uma saudade que machuca e corroe o coração
Que dilacera a minha alma em busca desse algo que deveria me preencher
Esse vazio é sufocante... doe como navalha na carne
Em vão eu luto para fugir e me livrar dessa angústia
Corro contra o vento e ao encontro de um novo tempo
Fugir talvez seja o remédio que alivia, mas temo que ao fugir
Aproxime-me mais ainda desse nada que é meu tudo
E assim vou vivendo meus dias na incansável busca do que
A vida inteira procurei, mas jamais encontrei
Hoje eu queria que o tempo passasse arrastado...
Assim... Sem pressa...
Só pra ficar com você ao meu lado
Sentindo o teu cheiro e o teu gosto
Saboreando cada sorriso seu
Brincando com os teus olhos...
Ouvindo as batidas do teu coração
Como melodia mágica e suave
Mas o tempo é assim
Quando a coisa é boa ele voa
Quando ruim parece não ter fim
Como dói desejar você e tê-lo tão longe de minhas mãos e meu corpo.
Como dói essa ausência e essa distância
Vivemos algo que desconhecemos
A necessidade me faz controlar meus desejos e minha fome
Neste instante você é o ar que eu respiro.
Quero saber de você, onde está com quem está o que está fazendo
Caminho por uma estrada que escolhi e luto pra aceitar que não o terei
É cortante, como navalha, essa ânsia por ouvir a tua voz
Busco no mais profundo do meu ser a luz que me livrará dessa paixão
Paixão... Como é fácil e ao mesmo tempo difícil admiti-la
Você não é meu e nunca o será... Senão em meus sonhos
Sonhos que me encontram na noite sedenta de ti
Sonhos que me deixam úmida pelo desejo do seu toque
É quando o sol bate a minha porta que te vejo tão longe
Longe dos meus afagos
Longe dos meus beijos
Longe dos meus braços
Longe da minha vida
Como dói desejar-te tanto
Como dói...
Vislumbrei teu lindo rosto no espelho da minha memória
Teus olhos brilharam e teus lábios, doces como mel
Penetraram minha alma
A cada passo, rumo ao teu olhar
Tua luz iluminava meu caminho
Senti o frio e o calor da tua voz
Flutuei na imensidão da agonia
Mergulhei na espera
Como fumaça... Você se desfez no ar
Quando na madrugada errante me desnudasse o sonho
Compreendi o lirismo do tempo presente
Entreguei-me sem pudores as horas que,
Como companheiras, pararam em harmonia
E quase que abandonadas tilintavam em doce melodia
Da rósea aurora
Num vôo imaginário de ilusões férteis
Caí no vazio e dancei com o vento
Livre de amarras e fios
Em um segundo viajei no tempo
Abriguei meus doces pensamentos
Bem longe da minha realidade
Que, como a vermelha flor
Desabrocha em mais um nascer do dia em verdade.
Complicado esse tal de coração, de repente quer tudo que deseja, de repente bate aquela angústia, uma tristeza,
de repente tudo é tão fácil, de repente tudo é tão confuso. Ansiedade, impaciência, solidão, euforia.
Uma turbulência de sentimentos me atordoam, não sei o que fazer e nem pra onde ir... e ao mesmo tempo o caminho é tão claro, que é impossível não seguí-lo.
E ela cuidou da dor
como criança ainda no colo
Acariciou, limpou, alimentou
Enquanto adormecida
A dor era quase inexistente
Mas ela soube suportar
Na exasperação de momentos
À quietude morna
E assim quando ela percebeu
A dor havia crescido e partido
E em repouso ela adormeceu
Agora ela estava livre
E poderia, enfim, apropriar-se
Do que realmente era seu
O corpo descansa na maciez da sombra
Ora e outra brinca com a luz que
Toca-lhe em pequenos segredos
O olhar apagado e a face sem forma
Revelando o que não se permite
Escondendo o que é um total
Despindo-se da máscara do dia
Na certeza perdida por frestas de luz
Que desenha o imaginário em face do real
Sombra e luz tecem a roupa
Que recobre o corpo e liberta a alma
O corpo despido de vazios
E preenchido de histórias
Tantas vezes transformado em memórias.
O coração segue os pés
E vai lenta e delicadamente
Seguindo rastros
Não se apega a obstáculos
Sofre um baque aqui outro ali
Mas é linha que não se desfaz
E juntos, ora a frente, ora atrás
Coração e pés seguem o mesmo caminho
Saboreiam o doce e o amargo
Desse nosso incansável destino.
E fui deixando pedaços pelo caminho
Um olhar distraído, perdido na beleza
Um afago no coração aquietado
Vesti-me com a leveza dos sonhos
Compartilhei carinho
Na manhã ensolarada
Ou no entardecer silencioso
Regozijei-me em agradecimento
Descalcei os pés e senti o poder da terra
Mergulhei no espaço esquecida do tempo
Na encruzilhada do caminho
Escolhi o menos gasto
Fechei os olhos da carne
Enxerguei com os olhos da alma
Tão longa a viagem
Tão curto o tempo
Enquanto realidade fui apenas fantasia
Enquanto sonho desabroxei minha verdade
E no despertar do augusto dia
Dei asas a minha liberdade.
É chegada a hora
Hora de fazer balanços, deletar lixos, apagar histórias mal resolvidas...
Hora de preparar a terra para semear novas histórias
Limpar a poeira do tempo e organizar prioridades
Hora de deixar no armário do fundo o que ainda pode vir a ser usado
Lançar fora o que nunca serviu direito
Abrir a janela dos olhos e limpar a vidraça embaçada
Dos medos e inseguranças que nunca foram necessários
A hora se faz nesse resto de tempo que ainda resta.
E da dor me transformo em flor
Metamorfose ausente de pudor
Do líquido espesso e sem rigor
Essa mistura de corpo e flor
Se vê viva ao se expor
Não há qualquer resquício de rubor
Não se compra, não tem valor
É mulher
É flor
[independente de amor]
Mas se amor flor for
Me despetalo ao seu dispor
Uma coisa eu tenho que dizer
Não há outro igual a você
Ninguém até hoje
Bagunçou minha vida assim
Desarruma tudo, deixa uma confusão
E saí de fininho como se não tivesse intenção
Me deixa largada, desamparada
Recolhendo os pedaços no chão
Não olha para trás, e eu fico vagando
Não sei se te enfrento ou sigo te amando
Não decifro seu sorriso, ou seu olhar angustiado
Você é uma mistura, uma pintura abstrata
Pincelada em tons diversos
Tem ranhuras, mas não me permiti tocá-las
O destino nos propôs um reencontro
O mais inútil ou intenso de todos,
Mas você não me deixa chegar perto
Não sei se choro, se sofro
Ou se dou muita risada
Histeria ou mero desabafo
Não estamos juntos, o que é um alívio
De tão diferentes somos iguais
Te sinto até quando não o percebo
E é nessa ilusão realista
Fábula de poetisa
Que sinto em todos os meus poros
Amor que não pede troca
Você é essa estrela distante
Fonte de meus devaneios constantes
Um tic tac ao longe lembra que o tempo passa
Lento, constante e ritmado
No abrigo da noite, na companhia
Do copo, da pena, do papel
Devaneio na madrugada
O gosto amargo é doce no final
Me consola como beijo
Deixado na espera da noite passada
Lamentos de horas vãs
Transcritos em versos desconexos
Palavras que dançam à minha frente
Como bailarinas desprovidas de rima
Criaturas noturnas despertam
E se deixam comigo compartilhar
Risos soltos, afagos e sentidos
Noite alta, estou absorvida pela magia da escrita
Alma alerta, desprendida
Um sorriso me vem e sorrio de volta
Nessas voltas um encontro
[entre tantos desencontros...]
Sentimentos enevoados
Deixados ao lado, cobertos, recobertos
Último gole... Dourado
Bolhas de sabor explodem na boca
Anúncio de finitude
De tempo necessário...
Quando um corpo feminino é violentado brutalmente
É certeza que falta humanidade numa sociedade
Viciada, hipócrita e que se safa impunemente
Homens que representam a podridão
O descaso, o desrespeito, o esvaziamento
Porque se sentem no direito de machucar
Denegrir, ofender e humilhar
Seres desprezíveis que caminham livremente
Assediam, "brincam", diminuem, batem
E consideram normal, porque são homens
São miseráveis escrotos, débeis criaturas
Habitando um corpo racionalizado
Agindo como bicho irracional
Não é o que vestimos, dizemos, fazemos
Não é o meu comportamento que dá permissão
O NÃO é imperativo sempre
O que uma mulher é
Homem nenhum tira
Mesmo machucada, humilhada
Consegue ser muito mais forte
Do que qualquer homem
Talvez por isso estejam despertando
Tanto medo e insegurança
Em uma grande parcela masculina
Que ao não reconhecer seu empoderamento
Buscam através da crueldade seu desmerecimento
É preciso viver bem na diversidade
Não existe melhor ou pior, existe o diferente
Homens e mulheres, juntos, com direitos iguais
Livres para serem o que desejarem
Para ir e vir como quiserem
Não há perdão para a desrazão
Uma sociedade humana e decente
Só se fará através da educação
Romper
Permanência do ser
Distorção sentimento corpo
corpo
Ilusão fantasia escuridão
Ausência que se faz luz
luz
Nudez de pele de carne
Pudor de vestes reforço
esforço
Na tua minha imagem
Desenho que se funde
Finge
Já não sou o que ontem fui
Mas flui
Perturba castiga aflige
Imaterial intocável
Inefável