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Frases de Geórgia Lira

16 frases

Entrelinhas Rainha, princesa, anjo, donzela! (Escrava patética, louca égua sem cela).
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Entrelinhas Rainha, princesa, anjo, donzela! (Escrava patética, louca égua sem cela). Meu bem, tratarei-te como flor (ao desestruturar-te, perderás vida-cor) e te amarei para sempre, não importa como for! (De mim tu não escapas, sou teu senhor). Adoro-te e apenas quero teu bem (obedeça-me se não quiser sofrer além); por isso, sou capaz de tudo para te proteger (daqueles que conspiram contra tua submissão-dever). Escuta-me, deixa-me penetrar no teu cérebro e mostrar-te o que meus olhos veem (a implorar por piedade, tua figura célebre) afim de que percebas a beleza que tens (os berros teus pelos vida-vermes).

Boneca de Pano Que tal ficarmos na nossa? Que tal fingirmos tudo?
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Boneca de Pano Que tal ficarmos na nossa? Que tal fingirmos tudo? Será que fazer vista grossa vai silenciar o sofrimento não-mudo? Sou marionete num jogo adulto, vejo cordas a sufocar corações em luto. Enceno a peça teatral perfeita onde não sei pra que fui feita. Todas vezes que o vigário traiu fui atriz secundária; a principal foi ilusão em navalha e, a mensagem, mera falha. Mas me libertarei. Despedaço, destruo, desintegro o frágil pano do qual me criei.

Caminhante Do negro céu e prateada lua, do leve ar soprante de árvores nuas
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Caminhante Do negro céu e prateada lua, do leve ar soprante de árvores nuas cujos reflexos enfeitam a cidade crua; de azul fala embalada pela mente tua, faz-se tu, Caminhante destas ruas. Mais vermelho que sangue, rojador de desespero; mais celeste que veia, pulsante em cheia, é teu paradeiro. Oh Caminhante de mim, ao passo que o dia chega ao fim e no silêncio me encontro enfim, teu melódico caminhar acalma meu confim. Sinto teu andar pelas artérias e, antes que possa duvidar, tu já decompõe a matéria, outrora solitária miséria. Numa casinha amarela tu se instala, neste lírico vilarejo cardíaco que descrevo enquanto tu desfaz a mala, Caminhante do meu corpo físico e onírico.

Areia Quero adormecer numa rosa, abraçada numa abelha.
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Areia Quero adormecer numa rosa, abraçada numa abelha. Quero escrever poesia, cansei de prosa. Já desfiz a viscosa teia. Meu corpo é minúsculo. Tenho mãos preenchidas por grãos de pólen e vazias de pulso, por isso o busco nessa composição. Meu corpo é grão de areia, sou aquele farelo numa praia cheia que compõe a vista feia onde as ondas do mar se baseiam. Adentro a onda sonora, este é o Agora dum Outrora que se faz eterno na caminhada amarela ácida e docemente azulada.

Tons de Marrom Caminho por aí, ainda que permaneça aqui. Gelado vento, congeladas palavras.
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Tons de Marrom Caminho por aí, ainda que permaneça aqui. Gelado vento, congeladas palavras. Parado momento, como aflição em garrafa. Encho-me até que transbordo. Corro e pulo, saltito correndo. Tons de marrom, amarelo e vermelho. Sou tão preenchida que vivo vazia. Sou tão grandiosa que me torno pequena. Eu sou eu mesma, coisa óbvia a se dizer. Eu sou eu mesma, complicada de ser. Borboletas pairam no ar como se estivessem a anunciar algo tão belo e incompreendido, a morte de algo querido. Deseja-se tanto que se perde no tempo, este de fato mal interpretado. Tons de marrom e rosa. Sou como o tempo: imortal prosa.

Pesadelo Acordo suada com coração acelerado.
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Pesadelo Acordo suada com coração acelerado. A porta está lacrada e, o medo, ao meu lado. Tudo que vejo é nada; nada é tudo que vejo. Vejo apenas nada, sinto apenas medo. Cavo com dedos já sangrentos o teto onde piso. Estou presa num cubo e lento é meu movimento não-liso. A escuridão me consome, luto, agonio, rejeito, atrofio; mas o vazio preto me come, na podridão me crio.

Fumaça Tudo sei, tudo conto; nada sinto, nada vivo.
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Fumaça Tudo sei, tudo conto; nada sinto, nada vivo. Sou apenas corpo a dançar pelo trilho. E o trem vem chegando, apitando apressado. Meu rodopio é longo e desengonçado. E me assusta quando apita E me angustia quando apita E me corrói ao apitar porque não tenho como escapar.

Composição dum Nada Ao som da orquestralma, que solenelucida nossa antiga caosciladora descida,
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Composição dum Nada Ao som da orquestralma, que solenelucida nossa antiga caosciladora descida, subimos agora escada avulsa e comprida. Tal como composição por aglutinação, tornamo-nos um. Para isso, perdi-me em ti, que te perdeste em mim. Por tanto, perdemo-nos em nada. Por quê? Somos um, somos nada. Ser que me envolve e tem, ancião tu és de mim. Já que sou tu, me chame pelo teu nome; já que és eu, fogo cru, chamarei-te pelo meu. Porque te necessito assim como ar. Porque te almejo assim como andar. Porém estou sufocada por esse nada e paralisada por aglutinação indesejada.

São Ninguém Não espero muito de ti. Apenas quero que sejas quieta,
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São Ninguém Não espero muito de ti. Apenas quero que sejas quieta, mas fala o que pensas. Aqui te faze amarela, mas também apoeta. Porque poeta só sofre e obrigo-te a sorrir. Não me importa o que, em teu coração-cofre, estejas a sentir. Sou tua garantia de vida! Ordeno-te que conte as sílabas de tuas frases. Guria atrevida, difícil de ser lida, nada puro atrairá. Afinal, anjo, quero teu bem. Sê sedosa mas não brilhe. Sê belíssima feiura, submissa a, em ti, confiar. Sê céu, sê terra. Sê fogo e sê ar. Sê amor e sê medo. Sê tu mas sê tredo. Sê digna torpitude. Não espero muito de ti pois já a fiz um tudo. Todos sabemos que tudo-mudo nada mais é que tu: nada.

Almardente Trinta cavalos a galopar, quarenta colmeias a zumbinar.
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Almardente Trinta cavalos a galopar, quarenta colmeias a zumbinar. Cem cães de caça a uivar, cinquenta hienas a debochar. “Como é o dia perfeito?” Frívolo, furibundo, frio. “Afinal, o que define algo bem-feito?” Tudo aquilo que, em minh’alma, crio. Duzentos violinos a orquestrar este macambúzio imortal. Ora, ora! Que abuso! Tu só sairás quando eu mandar. Tempestade, queime alegremente tudo aquilo que era frio. Faça-o quente! Dessa forma, em minha face surgirá sorriso demente pois renascerá minh’almardente. “Afinal, o que é uma alma?” É tudo que compõe tua anticalma, é sentimento alógico justaposto com adama. Ensurdece-te com a frequência alucinante que toca na minha cabeça. Rasteje. Berre. Implore. Trevo ser, suma! E, por mim, ore.

Capa de chuva num dia ensolarado porque, no altar, forte é a tempestade. De acordo com o combinado,
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Capa de chuva num dia ensolarado porque, no altar, forte é a tempestade. De acordo com o combinado, os membros todos vestidos de ambiguidade. Na igreja eles rezam, rudimentam-se e roem suas próprias vísceras. Comida não há e a sanidade os destrói. As portas de madeira, lacradas. Lá no céu, os portões enferrujaram. “O altar está em chamas! Socorro! Não quero morrer tido como louco!” “A água benta evaporou! Deus, me perdõe mas para o inferno sei que vou!” E berram até perderem a voz aqueles que não desmaiaram de pavor. Morrerão, sim, todos. Nós assistiremos tal sacro-divertimento sem respingo de dor.

Absoluto Tu Pela ponte, pelo rio, pelo trem, pela rua.
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Absoluto Tu Pela ponte, pelo rio, pelo trem, pela rua. Pela casa, pelo quarto, pelo país, pela lua. Por tudo e em tudo está a inquietude do mudo querer-te. Teu sufocante som vocal a embalar minha alma fragmentada. Com graciosidade, meu descanso ponha-te a cantar. Não bebo água, não como cenoura. Não respiro nem guardo mágoa porque tu é tudo que guardo. Agoura alma, tu te tornou minha fonte vital. Venha, vá. Volte para cá. Fuja! Fique! Faça-me chique: cubra-me com carinho, caso queira descansar. Dormir, despertar. Morrer e voltar. De ti, nunca me verei livre visto que tu estás em tudo e meu coração é teu lar-veludo.

Pseudomoda Fácil seria se tu me odiasses, mas não tenho a coragem necessária
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Pseudomoda Fácil seria se tu me odiasses, mas não tenho a coragem necessária para adotar outras faces. Te quero bem perto e bem longe, emoção hilária esta! Tu já estás imersa em meu ser e canta numa distância saudosista. O que adianta te querer como quero, se essa mista vontade-amor-dor já é finalista nesse concurso de identidades não-santas? Berrantes, eufóricas, barrocas, eu-fora do eu-dentro. Adentro o pseudo-eu que sou eu mesma. Perco-me nesse desfile cruel, frio, pegajoso, estridente. Pois não sou nada, mas sou todas concorrentes.

Coleira José é dono de Kiwi e o nutre com rações de qualidade.
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Coleira José é dono de Kiwi e o nutre com rações de qualidade. Embora custe caro, a felicidade recompensa enquanto amor tiver. Tudo certo, tudo indo até que Kiwi não consiga mais respirar. O carinho mútuo permanece infindo, assim como a dor de José, que investe saúde mental de dez vidas, e o cachorro nem consegue ficar de pé! Kiwi morre, José desidrata de tanto se lamentar: “pobrezinho do bichinho!” Agora tu vira-lata é, senhor. Fareja teu ex-lar afim de te encontrar. Os dois eram um. Eram, no passado, porque agora José é nenhum e Kiwi tornou-se alado.

Nodo norte e nodo sul. Já fui morte, já fui ao azul nublado e à dourada estrela
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Nodo norte e nodo sul. Já fui morte, já fui ao azul nublado e à dourada estrela enquanto ardia em chamas púrpuras. Treda sou, a verdade eu prego. Neste planeta ou em outro, não importa. Pra sempre eu serei horrivelmente bela, magnificamente torta. Tu bem sabes que não adianta mentir pra ti mesmo. Nesta vida e em outras, tal mania te trará autodesemprego: vazio de ti, teu não-ser comandante do caos orquestral. “Corre, e vê se acelera! Te apressa que essa chance única é escorregadia. Tu não merece nada além disso, vadia!” E, assim, a lúdica ilusão te encarcera.

Pela Lei Eu não tenho que falar contigo. Não me chama de amor.
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Pela Lei Eu não tenho que falar contigo. Não me chama de amor. Compreendi mas não me importo com tua dor. Tu nunca mais serás possível abrigo. Te odeio. Tu mentiu! Não escutarei nada que disser pois me causará febril estado de ser. Te anule e nem assim me importarei. Só quero que cale a boca e suma! Sou a inquebrável lei e, tu, frágil pluma. Enferma Não vou voltar! E, se voltar, não vou ficar. Não, não, não. Tu pinicas minha pele, como enfermidades finitas. Se caso me curar, longe de ti quero estar. Tortura Não sei porque te aguento, nem como. Pra que serve minha diminuição-lamento? Tu diz me amar mas quando teu sange ferve me torno tudo aquilo que não presta. É falta de consideração o jeito que me tratas. Agora a fresta fresca aberta nas vísceras minhas dói feito as ardentes palavras por ti proclamadas.