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Frases de Gabriel Parice Lopes

75 frases

veneno. Sei como ele desce pela garganta e como parece ficar preso no meio do peito antes de chegar no estômago. No começo é quase nada, só um gosto amargo na boca. Depois vem o calor. A barriga começa a apertar, como se tivesse alguma coisa se espalhando por dentro, queimando d…
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veneno. Sei como ele desce pela garganta e como parece ficar preso no meio do peito antes de chegar no estômago. No começo é quase nada, só um gosto amargo na boca. Depois vem o calor. A barriga começa a apertar, como se tivesse alguma coisa se espalhando por dentro, queimando devagar. Eu sei que ele está ali porque começo a pensar diferente. Qualquer coisa ganha outro peso. Uma coisa pequena fica grande. Um silêncio parece esconder alguma coisa. Uma ausência começa a incomodar. Uma conversa que eu nem ouvi parece ter mil possibilidades dentro dela. E eu fico tentando descobrir o que aconteceu sem ter como saber. Quanto mais eu penso, mais ele queima. Quanto mais tento entender, mais parece que preciso entender outra coisa antes. Eu volto para os mesmos pensamentos, lembro de coisas que já aconteceram, misturo com coisas que poderiam acontecer e, quando percebo, já estou sentindo no corpo alguma coisa que ainda nem aconteceu de verdade. Minha boca fica seca. A respiração muda. O estômago fecha. Fica aquela sensação quente e ruim, como se eu tivesse engolido alguma coisa que meu corpo sabe que não deveria estar ali. E eu não sei exatamente do que tenho medo. Eu tenho medo do que não conheço, do que não consigo ver, do que acontece quando não estou perto. Tenho medo das coisas que não consigo controlar e das coisas que não consigo perguntar sem parecer que estou procurando um problema onde talvez não exista nenhum. Mas o corpo não entende muito de talvez. Ele sente primeiro. Sinto, eu. Sinto mesmo quando uma parte de mim sabe que pode não significar nada. Sinto mesmo quando não tenho uma resposta concreta. Sinto porque existem coisas que já vivi, coisas que ficaram em mim de algum jeito, e quando alguma coisa toca nesse lugar o gosto do veneno volta. Eu não escolho sentir isso. Queria conseguir simplesmente olhar para alguma coisa e deixar passar. Não ficar imaginando, não procurar significado, não sentir aquela pressão no estômago. Só que eu não consigo mandar a sensação embora só porque sei que ela pode estar errada. Eu sei o quanto esse veneno pode me fazer mal, mas não sei se vou conseguir impedir que ele entre. Porque não é só uma coisa que eu penso. Eu sinto no corpo. Sinto a garganta fechar um pouco, o peito pesar, a barriga queimar. Sinto vontade de me afastar, de ficar quieto, de não falar enquanto tento entender o que está acontecendo dentro de mim. Guerra interna e é só dentro que acontece tudo. Eu não quero viver assim. Não quero transformar tudo que não conheço em alguma coisa que preciso temer. Não quero que o medo faça com que eu enxergue perigo onde talvez exista apenas uma coisa que eu ainda não entendo. Mas também não consigo fingir que não sinto. Então acho aue é isso que eu ainda não sei fazer, sentir o gosto do veneno sem deixar que ele me convença de que tudo ao redor está contaminado. Porque algumas vezes ele vai voltar. E eu ainda não sei quanto tempo vou levar para aprender a sentir a queimação sem precisar descobrir de onde ela veio.

efervescência. Uma estação meteorológica no meio do oceano passa os dias registrando o que acontece ao redor dela, embora ninguém esteja realmente ali para olhar. Ela fica sozinha, recebendo vento, chuva, mudança de pressão, correnteza, e mandando números para algum lugar muito…
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efervescência. Uma estação meteorológica no meio do oceano passa os dias registrando o que acontece ao redor dela, embora ninguém esteja realmente ali para olhar. Ela fica sozinha, recebendo vento, chuva, mudança de pressão, correnteza, e mandando números para algum lugar muito distante, onde alguém provavelmente olha para aqueles dados tentando descobrir se o que está acontecendo no meio do mar vai chegar até a costa. Gosto de imaginar que, em algum momento, alguém começou a perceber pequenas alterações nos registros e passou a acompanhá-las com mais atenção do que deveria, não porque houvesse uma tempestade, mas porque havia alguma coisa diferente acontecendo e a diferença, quando a gente não entende de onde veio, costuma ser suficiente para ocupar mais espaço do que deveria. Por isso que eu tenho tanta facilidade para me perder em pequenas coisas. Não é preciso que o céu fique preto ou que o mar se levante para eu começar a prestar atenção, as vezes basta uma mudança tão pequena que ninguém mais percebe, uma direção diferente do vento ou uma nuvem que parece estar se formando mais longe do que de costume, e de repente aquilo que era apenas parte da paisagem começa a parecer uma mensagem que eu ainda não consegui decifrar. Eu sei que existe uma diferença enorme entre observar e interpretar, mas quando alguma coisa importa de verdade parece que o cérebro esquece dessa diferença e começa a tratar qualquer detalhe como se tivesse sido colocado ali especialmente para ser encontrado. O curioso é que, quando a gente está longe, tudo parece maior do que realmente é. Um barco se transforma num ponto no horizonte e, justamente por ser pequeno demais para enxergar direito, passa a carregar todas as possibilidades que a distância permite. Você não sabe quem está dentro, não sabe para onde vai, não sabe se está indo embora ou apenas seguindo uma corrente que você não consegue ver, e mesmo assim existe uma vontade de continuar acompanhando aquele ponto até que ele desapareça, como se olhar por tempo suficiente pudesse finalmente revelar alguma coisa. Eu acho que é aí que começa a confusão, porque não existe nada de errado em querer entender o que está diante dos olhos, mas existe alguma coisa profundamente cansativa em sentir que só consegue ficar tranquilo depois de entender tudo. A pessoa passa a observar o próprio pensamento como se estivesse tentando encontrar uma rachadura numa parede, e quanto mais procura, mais pequenas imperfeições aparecem. Uma palavra que poderia ter sido dita de outro jeito, um intervalo que poderia ter sido menor, uma mudança que talvez nem tenha acontecido, e tudo isso vai sendo colocado lado a lado até formar uma imagem que parecia não existir antes. Depois vem aquela sensação desagradável de ter ido longe demais, e eu queria que fosse diferente. Queria conseguir deixar certas coisas simplesmente existirem sem precisar acompanhar o tempo inteiro, porque existe uma maturidade muito bonita em quem consegue confiar no que não está vendo e continuar vivendo sem transfomar a distância numa ameaça. admiro isso nas pessoas. Essa capacidade de deixar uma janela aberta sem precisar passar a noite inteira verificando se ainda está aberta, de saber que existe um mundo acontecendo fora do próprio campo de visão e não sentir que precisa conhecer inteiro para permanecer em paz. Ainda estou aprendendo essa parte, porque existe uma coisa muito estranha em perceber que, as vezes, a vontade de proteger alguma coisa começa a se parecer com a vontade de apertá-la. É parecido com uma sutura que você fica examinando porque está preocupado com a cicatrização e, sem perceber, passa a mão perto demais, encosta onde não devia, sente aquela queimadura fina que vem de dentro e imediatamente quer mexer outra vez para descobrir se está tudo bem. Só que a pele não entende preocupação como a gente entende. Ela só entende que foi tocada antes da hora, e aquilo que estava fechando começa a reclamar. pode ser que, certas partes de nós funcionem assim também. A gente sente uma coisa, tenta descobrir de onde veio, volta nela, procura outra explicação, encontra uma terceira, e quando percebe já está cansado de uma história que começou pequena demais para merecer tudo aquilo. O que torna tudo pior, porque ninguém gosta de admitir que passou tempo demais olhando para uma nuvem tentando descobrir se ela significava chuva quando talvez ela estivesse apenas passando. Eu gostaria de conseguir fazer diferente sem precisar deixar de sentir. Não quero me tornar alguém indiferente, porque acho que a indiferença seria uma solução muito fácil para um problema que não deveria precisar de solução. O que eu quero é aprender a não transformar aquilo que sinto em uma obrigação de agir, aprender que uma inquietação pode existir dentro de mim sem precisar virar pergunta, investigação ou resposta, e que nem toda coisa que queima precisa ser aberta para descobrir por que está queimando. E seja isso que o tempo faça quando finalmente consegue trabalhar sem a nossa interferência, ele pega aquilo que parecia impossível de deixar quieto e, pouco a pouco, ensina o corpo a não procurar mais a ferida. Enquanto isso, a estação continua no meio do oceano registrando o vento, a pressão e a temperatura, mandando seus números para algum lugar que não consegue enxergar o mar inteiro de uma vez. Alguém recebe aqueles registros e passa horas tentando descobrir o que eles significam, talvez alguém simplesmente arquive tudo e espere a próxima medição. O oceano continua existindo nos dois casos, indiferente à quantidade de atenção que recebe, e talvez haja alguma paz escondida justamente nisso, em entender que nem tudo precisa ser acompanhado para continuar sendo verdadeiro. Eu ainda olho para o horizonte mais vezes do que gostaria, ainda existe uma parte de mim que tenta encontrar formas nas nuvens e imaginar o que existe depois delas, mas estou começando a entender que crescer talvez não seja deixar de olhar. E sim olhar e conseguir permanecer onde estou, sem transformar aquilo que não alcanço em alguma coisa que preciso possuir, explicar ou impedir. E, quem sabe, depois de algum tempo, o céu volte a ser apenas céu, o mar volte a ser apenas mar e aquilo que hoje parece tão urgente consiga finalmente passar por mim sem deixar a mesma queimadura.

te contemplo. Se a vejo, o mundo perde a compostura, e tudo ao redor parece recuar
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te contemplo. Se a vejo, o mundo perde a compostura, e tudo ao redor parece recuar meu olhar, que antes buscava alguma altura, encontra nela um modo de pousar. Não sei que espécie de feitiço encerra o gesto mais simples que ela faz sem ver mas há qualquer beleza sobre a terra que só me parece inteira ao lhe pertencer. Eu poderia olhá-la por mil anos, sem que o encanto aprendesse a terminar; como se o tempo, cúmplice dos enganos, também quisesse um pouco contemplar. E se me perguntam onde eu me perdi, não foi no mundo, foi diante dela que eu me vi.

a parte mais bonita de mim. Eu não sei em que momento você deixou de ser apenas alguém que eu amava e passou a ser um lugar. Talvez tenha sido aos poucos, como essas coisas importantes costumam acontecer, primeiro na maneira como sua presença mudava o peso dos meus dias, depois…
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a parte mais bonita de mim. Eu não sei em que momento você deixou de ser apenas alguém que eu amava e passou a ser um lugar. Talvez tenha sido aos poucos, como essas coisas importantes costumam acontecer, primeiro na maneira como sua presença mudava o peso dos meus dias, depois na falta que fazia quando não estava, até chegar ao ponto em que já não era possível distinguir saudade de vontade, lembrança de esperança, passado de alguma coisa que ainda insistia em nascer. Existem amores que chegam como tempestade. O nosso nunca me pareceu assim. O nosso sempre teve mais a ver com a luz entrando devagar pela janela de manhã, com aquela paz estranha de encontrar alguém e sentir que, por alguns minutos, o mundo finalmente parou de exigir alguma coisa. Você tinha esse efeito sobre mim. Não precisava fazer nada extraordinário. Bastava existir perto o suficiente para que as coisas comuns ganhassem outro tipo de beleza. É o que mais me assusta. Porque eu poderia esquecer uma conversa, uma data, uma tarde específica. Poderia até tentar convencer a memória de que determinados momentos não foram tão importantes assim. Mas como se esquece a sensação de ter encontrado alguém diante de quem a própria alma parecia descansar? Eu te amo também nas pequenas coisas. No silêncio que não precisava ser preenchido. No jeito como eu imaginava seus olhos encontrando os meus depois de um dia difícil. Na vontade de te contar alguma coisa quando acontecia, mesmo que fosse absolutamente insignificante. No desejo de dividir contigo não apenas as grandes conquistas, mas também as partes mais complicadas da vida, o cansaço, a preguiça, uma música, uma rua bonita, uma noite qualquer. Porque amar você nunca foi somente querer você. Foi querer a vida quando ela tinha você dentro. E talvez por isso tenha existido tanta gratidão. Gratidão por ter conhecido uma pessoa capaz de despertar em mim uma ternura que eu nem sabia que ainda possuía. Gratidão pelos momentos em que o mundo parecia pequeno o bastante para caber entre duas pessoas. Gratidão por cada instante em que eu olhei para você e pensei, quase sem perceber como pode alguém ser tão bonita quando simplesmente está sendo ela mesma? Eu não precisava de uma versão perfeita sua. Nunca precisei. Queria que você se enxergasse pelos meus olhos... Queria justamente aquilo que não podia ser ensaiado, seus defeitos, suas contradições, seus dias bons e seus dias difíceis, o que você escondia e o que deixava escapar sem perceber. Queria conhecer aquilo que existia por trás daquilo que todo mundo conseguia enxergar. Porque há uma intimidade maior do que tocar alguém. É ser autorizado a conhecer seus lugares inacessíveis. E eu teria ficado ali. Mesmo quando você não soubesse o que dizer. Mesmo quando o mundo pesasse demais. Mesmo quando você duvidasse de si. Eu teria querido ser aquela presença que não exige que você seja forte o tempo inteiro. Aquela espécie de abrigo silencioso onde você pudesse simplesmente existir. A fita de amar alguém é isso, olhar para uma pessoa e, em vez de desejar que ela se torne aquilo que você imaginou, desejar que ela tenha liberdade suficiente para continuar sendo aquilo que é. E ainda assim permanecer. Ainda assim escolher. Ainda assim olhar. Porque algumas pessoas não são apenas desejadas. São reconhecidas. Como se alguma parte nossa dissesse, antes mesmo que a razão consiga explicar, é você. E eu reconheci você. Reconheci na primeira vez e reconheceria em outras vidas, em outras cidades, em outros nomes, sob outras versões de nós mesmos. Reconheceria sua maneira de existir mesmo que tudo ao redor mudasse. Talvez porque certas coisas não sejam guardadas pela memória, mas por uma região muito mais profunda da gente. Por isso, se um dia tudo aquilo que fomos virar apenas uma lembrança distante, eu ainda vou considerar bonito o fato de ter existido. Não porque tenha sido perfeito. Mas porque foi verdadeiro enquanto aconteceu. E se o amor tiver mesmo alguma forma de eternidade, talvez ela não esteja em permanecer para sempre ao lado de alguém. Talvez esteja em conseguir carregar uma pessoa dentro de si sem precisar aprisioná-la. Então eu não quero transformar o que senti em posse. Quero transformar em permanência. Daquelas que não fazem barulho. Que continuam existindo numa música qualquer, numa noite silenciosa, numa lua cheia, numa vontade repentina de olhar para o céu e lembrar que, em algum lugar do mundo, alguém já fez você enxergar beleza onde antes havia apenas escuridão. E se algum dia você se perguntar se foi amada de verdade, espero que a resposta encontre você antes mesmo da pergunta terminar. Porque houve alguém que olhou para você e não viu apenas uma pessoa bonita. Viu casa. Viu oceano. Viu a parte mais delicada de si mesmo refletida em outros olhos. E, por um instante raro e inexplicável, teve a sensação de que finalmente tinha encontrado aquilo que tantas músicas tentam descrever quando falam sobre amor. Não tô falando do amor que grita. Não tô falando do amor que prende. Mas aquele que simplesmente olha para alguém e pensa se for para existir alguma coisa bonita neste mundo, que seja o tempo que eu tiver ao seu lado.

reamar. Enterro o que fomos sem negar o que fomos, deixo o antigo amor repousar sem pesar
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reamar. Enterro o que fomos sem negar o que fomos, deixo o antigo amor repousar sem pesar há coisas que morrem para que, entre os escombros, duas mãos diferentes se possam tocar. Não quero o retorno do mesmo começo, nem repetir promessas que o tempo desfez se ela vier, que eu saiba encontrá-la de novo, como quem conhece e descobre outra vez. Imagino nós dois numa mesa qualquer, ela contando alguma coisa e eu distraído, não pelo que diz, mas pelo jeito de dizer como se o amor tivesse enfim aprendido que amar não é saber quem o outro será, é ter curiosidade de vê-lo mudar. E talvez, quando a tarde cair sobre nós, eu perceba, sorrindo, uma coisa singela não foi o tempo que trouxe de volta a nós, foi o que aprendemos enquanto faltava ela. Porque ainda seremos estranhos em certas manhãs, ainda haverá perguntas que não saberemos fazer e eu quero justamente essas partes humanas: descobrir sua nova maneira de ser. Que ela também me encontre sem me procurar, nas versões antigas que um dia conheceu. Eu não quero que ela volte para o homem de lá, quero que ela conheça o homem que o tempo me deu. E se algum dia estivermos, sem perceber, em qualquer canto do mundo, sem nada especial, eu quero olhar para ela e finalmente entender o nosso amor não voltou. Ele começou de novo.

nossa liturgia. Entre nós há uma distância que nenhum mapa saberia medir,
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nossa liturgia. Entre nós há uma distância que nenhum mapa saberia medir, porque não se mede em léguas o que duas almas precisam conter quando nasceram querendo se encontrar. Há cidades entre nossos passos, noites inteiras entre nossas mãos, e uma espécie de silêncio que aprendemos a chamar de prudência para não chamar de paixão. Tu sabe. Eu sei. E talvez seja justamente isso o que torna tudo tão difícil não há dúvida que nos salve, nem inocência que nos proteja. Há apenas essa certeza mútua, quieta e quase cruel, de que se fosse fácil, nós já teríamos vivido tudo. Porque há um amor reprimido morando no intervalo das palavras, um incêndio educado pela distância, uma vontade que baixa os olhos toda vez que o desejo ameaça dizer seu nome. E quando penso em ti, não penso somente no encontro. Penso naquilo que viria depois dele a demora dos dedos, o repouso da cabeça junto ao peito, o abraço que não teria pressa de acabar, como se nossos corpos finalmente descobrissem uma língua que a boca jamais aprendeu. Talvez nossas mãos já se procurem sem que saibam. Talvez, em alguma noite distante, quando o sono demora e o quarto se cala, tu também imagine minha presença chegando devagar, como quem atravessa a escuridão sem querer acordar a saudade. E eu te imagino fazendo o mesmo. Dois desejos separados por quilômetros, dois corações fingindo serenidade, duas vontades absurdamente próximas vivendo em geografias diferentes. É estranho amar assim. Ter alguém tão perto do pensamento e tão longe da pele. Saber o caminho até os olhos, mas não poder percorrê-lo. Conhecer a curva do sorriso, mas não poder guardar o rosto entre as mãos. Querer dizer fica quando tudo ao redor insiste em dizer longe. E talvez seja por isso que nosso amor pareça tão pequeno por fora e tão imenso por dentro. Porque aquilo que poderia ser vivido precisa ser imaginado. O beijo se torna hipótese. O abraço, memória de um futuro. O toque, uma espécie de oração que ambos fazemos em silêncio. Mas há uma coisa que a distância não conseguiu levar a vontade. Ela permanece. Permanece quando conversamos, quando nos despedimos, quando fingimos que certas palavras não carregam segundas intenções. Permanece naquela fração de segundo em que nossos olhos se encontram e ninguém sabe muito bem quem desviou primeiro. E se um dia a distância ceder, se o acaso for gentil conosco, se as estradas finalmente resolverem terminar no mesmo lugar, não haverá muito o que explicar. Talvez apenas silêncio. Porque depois de tanto tempo reprimindo o que sentimos, o primeiro toque dirá tudo. E haverá nos nossos corpos a estranha familiaridade de quem esperou demais por algo que sempre soube reconhecer. Então talvez descubriremos que não era exagero, nem carência, nem fantasia. Era somente amor sem espaço suficiente para acontecer. E quando houver espaço, quando não houver mais quilômetros entre a tua mão e a minha, não haverá pressa. Haverá fome de presença. Haverá o abraço demorado de quem finalmente pode tocar aquilo que passou tanto tempo amando de longe. E talvez seja essa a nossa tragédia não nos falta amor.

elegia à lua Amei-te como a lua ama o mar, de longe, mas inteira em seu encanto
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elegia à lua Amei-te como a lua ama o mar, de longe, mas inteira em seu encanto sem nunca precisar de o alcançar, fazendo da distância o próprio canto. Teus olhos tinham luz de madrugada, um brilho que nenhuma estrela imita e havia neles qualquer coisa sagrada, dessas que a alma reconhece e acredita. Eu te guardei nas margens do pensamento, como quem guarda o verão depois da chuva e mesmo quando veio o esquecimento, teu nome permaneceu onde a saudade atua. Talvez amar seja isso, afinal ser mar quando o outro é lua distante saber que o impossível pode ser real quando um olhar transforma tudo num instante. E se algum dia o oceano se calar, e a lua perder seu brilho sobre a areia, ainda haverá em mim um lugar onde a tua luz, silenciosa, incendeia. Porque há amores que o tempo não desfaz, nem a distância consegue levar eles apenas aprendem a viver em paz no espaço entre a lua, o céu e o mar. E se me perguntarem onde te encontrei, direi: num lugar que não sei explicar entre tudo aquilo que um dia sonhei e tudo aquilo que ainda quero amar.

o dom de me apaixonar por você outra vez. O mais estranho é que eu nunca terminei de me apaixonar por você. Eu apenas fui mudando o jeito.
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o dom de me apaixonar por você outra vez. O mais estranho é que eu nunca terminei de me apaixonar por você. Eu apenas fui mudando o jeito. No começo, bastava pouco. Um olhar demorava um segundo a mais e alguma coisa dentro de mim já encontrava morada. Uma conversa se estendia pela noite e eu descobria que gostava da maneira como você ocupava o tempo. Gostava do seu jeito, da sua presença, das pequenas coisas que, naquele momento, pareciam pequenas demais para saber que um dia seriam enormes. Depois veio outra versão sua. E eu me apaixonei de novo. Não pela lembrança do que você tinha sido, mas por aquilo que você estava se tornando diante dos meus olhos. Algumas coisas mudaram. Outras permaneceram exatamente onde estavam. E eu descobri que também sabia amar suas mudanças. Me apaixonei pela mulher que você se tornou. Pelas novas manias. Pelas novas palavras. Pelos novos silêncios. Pelo jeito diferente de olhar para determinadas coisas. Me apaixonei pelo que aprendi sobre você e, principalmente, pelo que ainda não sabia. Depois me apaixonei outra vez. E outra. E outra. É quase engraçado pensar que eu poderia conhecer alguém tão profundamente e, ainda assim, continuar encontrando lugares desconhecidos. Como se você tivesse sido escrita em capítulos que o tempo insiste em reescrever. Eu volto para a mesma pessoa e encontro outra paisagem. O mesmo sorriso, mas com outra história por trás. Os mesmos olhos, mas carregando coisas que antes não carregavam. A mesma voz, dizendo coisas que eu nunca tinha escutado daquele jeito. E eu me apaixono. De novo. Não porque esqueci o que senti antes. Justamente porque lembro. Lembro de cada versão de você que passou por mim e percebo que nenhuma delas precisou morrer para dar espaço à próxima. Elas ficaram. Ficaram em mim. E talvez seja por isso que o meu amor nunca pareceu uma linha reta. Ele se parece mais com uma espiral volta ao mesmo ponto, mas nunca exatamente na mesma altura. Eu volto para você e sinto coisas que não sentia antes. Presto atenção em detalhes que antes passavam despercebidos. Entendo gestos que um dia não compreendia. Encontro beleza em coisas que antes sequer sabia observar. E penso que me apaixonar por você novamente não significa repetir o que já vivi. Significa viver de outro jeito aquilo que ainda continua sendo você. Eu me apaixono pela sua força. Depois pela sua delicadeza. Pelo que você mostra. Depois pelo que guarda. Pela sua presença. Depois pela falta dela. Pelo que você foi comigo. Pelo que é agora. Pelo que ainda está aprendendo a ser. E continuo descobrindo maneiras. Essa é a parte que mais me impressiona. Eu poderia passar anos tentando explicar o que sinto e, ainda assim, bastaria você mudar uma pequena coisa no jeito de existir para eu encontrar uma palavra nova. Um sentimento novo. Uma forma nova de ficar. Meu amor por você não precisou ser recuperado porque nunca foi embora. Ele só ficou quieto em alguns lugares. Esperou outras fases. Aprendeu outras formas de respirar. E quando você apareceu de novo, ele não precisou ser chamado. Reconheceu você. Como se soubesse exatamente onde estava. E foi assim que aconteceu mais uma vez. Eu me apaixonei. Sem precisar esquecer das vezes anteriores. Sem precisar escolher qual versão sua amar. Amei a que chegou. Amei a que mudou. Amei a que permaneceu. Amei a que eu conheci por acaso em pequenos detalhes. E sigo amando a que ainda estou descobrindo. Porque o que sinto por você não parece ter sido feito para caber numa única experiência. Ele se repete sem ser repetitivo. Volta sem ser o mesmo. Recomeça sem ter acabado. E toda vez que penso que finalmente entendi como é amar você, alguma coisa acontece. E talvez não, com certeza, eu esteja muito ocupado sendo seu para me apaixonar por outra pessoa* Você sorri de um jeito diferente. Diz alguma coisa que eu nunca tinha ouvido. Me olha por alguns segundos a mais. E pronto. Lá estou eu outra vez. Me apaixonando por você. Pela mesma pessoa. Pelo mesmo amor. Por uma versão que eu ainda não conhecia. Assim mesmo, redundante como sou, e mesmo sendo. E, pela primeira vez, não quero descobrir onde isso termina. Quero descobrir quantas vezes ainda vou conseguir me apaixonar por você antes de perceber que, no fundo, nunca parei.

sobre amar e ser livre. A luz atravessa a janela sem pedir passagem. O cheiro da chuva permanece no ar mesmo depois que o céu se abre. Uma música termina, mas, por algum motivo, continua acontecendo dentro de mim.
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sobre amar e ser livre. A luz atravessa a janela sem pedir passagem. O cheiro da chuva permanece no ar mesmo depois que o céu se abre. Uma música termina, mas, por algum motivo, continua acontecendo dentro de mim. Talvez ela pertença a essa mesma categoria. Não porque seja distante, mas porque existe nela alguma coisa que não pode ser alcançada pela matéria. Eu posso conhecer seus hábitos, saber o que ela gosta, reconhecer sua voz em meio a outras, decorar suas pequenas manias. Posso conhecer os caminhos que ela percorre, os silêncios que prefere, as palavras que costuma escolher. E, ainda assim, existe uma parte dela que permanece intocável. Uma espécie de território sem mapa. É justamente essa parte que mais me interessa. Não aquilo que ela oferece ao mundo, mas aquilo que existe quando ninguém está olhando. A pessoa que permanece depois que todas as expectativas desaparecem. O pensamento que ela não diz. A versão dela que não precisa ser compreendida para continuar sendo verdadeira. Talvez seja ali que ela realmente more. Não em uma casa, nem em uma foto, nem nas lembranças que consigo organizar. Mas naquele lugar estranho onde ela se tornou uma influência silenciosa sobre mim. Ela não precisa estar perto para existir em mim. E isso não tem nada de tristeza. É quase o contrário. Existe uma beleza imensa em descobrir que ela pode atravessar minha vida sem precisar ocupar todos os meus espaços. Como uma constelação, distante, impossível de tocar, mas capaz de mudar a maneira como atravesso a noite. Talvez eu goste dela justamente porque nunca consigo terminar de entendê-la. Existe alguma coisa muito bonita em não possuir a explicação completa de alguém. O mistério não está naquilo que ela esconde. Está naquilo que, mesmo quando revela, continua profundo. E talvez seja esse o tipo de amor que eu aprendi a reconhecer nela, aquele que não tenta transformá-la em propriedade, certeza ou destino. Um amor que olha para ela e pensa eu não preciso ter todas as respostas para reconhecer o que isso significa. Porque o que sinto por ela não pede conclusão. Pede que, por alguns instantes, eu pare de tentar definir o que sinto e simplesmente permaneça diante daquilo. Como quem observa o oceano sabendo que jamais poderá carregá-lo. Ainda assim, entra na água. Ainda assim, fica. Talvez porque eu tenha entendido que o valor de certas coisas nunca esteve na possibilidade de possuí-las. O céu não é menos bonito porque não posso guardá-lo. A lua não me pertence porque a contemplo todas as noites. E ela também não precisa ser minha para ser profundamente minha em algum lugar que a linguagem não alcança. Existe uma parte dela que não é minha. Nunca foi. E talvez seja exatamente por isso que eu a ame tanto. Porque não posso tocá-la. Não posso prendê-la. Não posso pedir que permaneça exatamente onde a encontrei. Só posso reconhecê-la quando aparece. Na maneira como ela existe. Naquilo que ela desperta. Na pequena alteração que acontece dentro de mim quando o mundo, por alguma coincidência, me devolve alguma coisa que lembra ela. Talvez amar seja aprender essa delicadeza: saber que ela é livre, e ainda assim escolhê-la. Saber que ela pode ir, e ainda assim não transformar o amor em uma prisão. Saber que não tenho o direito de possuir seus caminhos, seus pensamentos, seus silêncios ou qualquer parte dela que queira permanecer somente dela. E talvez exista uma liberdade ainda maior em amar assim. Não porque eu queira amá-la de longe. Mas porque quero que, quando ela estiver perto, seja porque escolheu estar. Quero sua presença sem precisar da sua obrigação. Seu carinho sem precisar da sua promessa. Sua permanência sem precisar segurá-la pelos braços. Quero que ela possa continuar sendo inteira, mesmo quando estiver comigo. Porque, no fim, talvez amar alguém seja justamente isso: não tentar diminuir o tamanho do mundo dela para caber dentro do meu. É olhar para ela sabendo que existe um universo inteiro acontecendo por trás dos seus olhos e, em vez de querer possuir esse universo, sentir admiração por poder conhecê-lo. Algumas coisas foram feitas para permanecer conosco sem jamais permanecerem ao nosso alcance. E, ainda assim, eu escolho olhar. Escolho sentir. Escolho ficar alguns segundos a mais diante dela, diante de tudo aquilo que não posso segurar. Porque, no fim, talvez o que realmente permanece nunca seja aquilo que consigo possuir. Seja aquilo que, mesmo depois de partir de todos os lugares possíveis, continua existindo em mim. E talvez amar e ser livre seja exatamente isso eu não preciso prender ela para querer que fique. Não preciso chamá-la de minha para saber o quanto ela significa para mim. Não preciso ter posse sobre nada que exista nela para reconhecer que, entre tantas coisas que a vida poderia ter colocado diante dos meus olhos, foi ela quem conseguiu permanecer dentro deles. E talvez seja essa a forma mais bonita que encontrei de amá-la: deixando a porta aberta, não porque eu queira que ela vá, mas porque quero que ela saiba que, se ficar, será livre para ficar.

a níveis cósmicos Talvez algumas pessoas não voltem para a nossa vida. Talvez elas nunca tenham realmente saído.
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a níveis cósmicos Talvez algumas pessoas não voltem para a nossa vida. Talvez elas nunca tenham realmente saído. A gente só aprende a conviver com a distância. Aprende a seguir a rotina, conhecer outras pessoas, ocupar os espaços vazios e fingir que certas histórias ficaram para trás. (receio de parecer redundante) E funciona. Até o dia em que a gente se encontra de novo. Então acontece uma coisa simples demais para ser ignorada, parece que nada precisou ser recuperado. A conversa volta ao lugar onde parou. A risada ainda tem o mesmo efeito. Os apelidos continuam fazendo sentido. É como se o tempo tivesse passado para todo mundo, menos para nós dois. Talvez seja isso que torna algumas pessoas tão difíceis de transformar em passado. Porque, com elas, o passado nunca parece completamente encerrado. A gente pode passar meses tentando ficar longe, convencendo a si mesmo de que é melhor seguir caminhos diferentes. Mas, quando estamos no “mesmo lugar”, existe uma familiaridade que não precisa ser chamada. Ela simplesmente aparece. Como se alguma coisa dentro de mim dissesse “Ah. Era aqui.” E tudo volta a funcionar. Não de um jeito perfeito, mas natural. A conversa se desenrola sem esforço. Uma piada puxa outra, um assunto qualquer vira uma conversa de horas e, quando percebo, estou falando de coisas que COM CERTEZA não contaria para mais ninguém. Com você, eu não preciso escolher tanto as palavras. Existe um idioma que construímos sem perceber. Você sabe onde tocar para me fazer rir, entende meus silêncios, reconhece minhas manias e percebe qual versão de mim está aparecendo. Talvez essa seja uma das formas mais profundas de intimidade, não precisar reaprender alguém. A gente já se conhece. Só precisou se reencontrar. E é aí que tudo fica estranho. Quando estamos longe, parece possível seguir em frente, colocar cada coisa no seu lugar e aceitar que algumas histórias pertencem ao passado. Mas, quando estamos juntos, o mundo parece discordar. As cores ficam mais vivas. As coisas pequenas ganham importância. Uma conversa qualquer parece suficiente para salvar o dia. Um problema enorme perde o tamanho, não porque foi resolvido, mas porque estamos ali. Você não melhora a minha vida como quem chega para consertá-la. Você me faz lembrar de como é gostar dela. Não precisa trazer respostas, prometer que tudo vai dar certo ou mudar alguma coisa. Basta estar. E alguma coisa em mim descansa. É como se meu corpo reconhecesse uma casa que minha cabeça passou muito tempo tentando esquecer. Talvez por isso eu tenha a sensação de que nos conhecemos há mais tempo do que deveríamos. Como se a nossa história tivesse começado antes da primeira página que consigo lembrar. E existe uma coisa ainda mais difícil de explicar mesmo quando a distância vence, alguma parte de mim parece continuar orientada na sua direção. Não é pensamento. Não é exatamente saudade. É uma espécie de insistência silenciosa. Como se os olhos ainda soubessem procurar você antes mesmo de eu perceber que estou procurando. Como se meu corpo tivesse guardado, em algum lugar que a razão não alcança, uma noção muito particular de onde você está. Talvez seja por isso que, entre tantas pessoas, tantos lugares e tantos caminhos possíveis, existe sempre alguma coisa estranhamente familiar quando o caminho termina em você. Como se certas conexões não dependessem de proximidade para continuar existindo. A gente pode até tentar ficar longe, mas distância não é o mesmo que ausência. Distância é quando não estamos juntos. Ausência é quando a pessoa deixa de existir dentro da gente. E você nunca chegou a esse lugar. Não é que eu precise de você para existir. Nós dois conseguimos viver separados. Mas, quando existe a possibilidade de compartilhar a vida, aparece uma vontade maior do que a lógica. Ela não pergunta se é conveniente. Não calcula a distância, não consulta o calendário nem faz uma lista de motivos. Apenas olha para tudo que está no caminho e pergunta “Tá. Mas como a gente faz?” Os obstáculos continuam existindo. Só deixam de parecer maiores do que a vontade. A distância vira um detalhe. O tempo pode ser atravessado. O medo vira conversa. O passado deixa de ser uma sentença e passa a ser apenas parte da história. Porque existe alguma coisa entre nós que não se repete. Não é só química, saudade ou carinho. É reconhecimento. É olhar para alguém que eu já conheci de tantas formas e ainda encontrar algo novo. É saber quem você é e, mesmo assim, continuar querendo descobrir quem está se tornando. É ter história suficiente para entender o silêncio e curiosidade suficiente para continuar perguntando. E talvez seja justamente isso que torna tudo tão difícil de explicar, há coisas que a gente entende sem saber dizer como. Um olhar que encontra o outro no meio de uma sala. Uma presença que o corpo percebe antes da cabeça. A sensação de que, mesmo depois de tantos caminhos diferentes, existe uma espécie de direção que nunca deixou de existir. Não sei se algumas pessoas ficam gravadas na memória. Talvez fiquem em lugares mais profundos do que isso. Quando compartilhamos a vida, mesmo que por pouco tempo, existe uma paz difícil de explicar para quem olha de fora. Ninguém entende completamente as nossas piadas, os apelidos, os silêncios ou o motivo de uma frase qualquer fazer nós dois rirmos daquele jeito. E talvez nem precise entender. Algumas coisas ficam mais bonitas quando não podem ser traduzidas. Existem relações que podem ser explicadas e existem relações que só podem ser vividas. A nossa parece pertencer a segunda categoria. É por isso que nada se compara. Não porque não existam outras pessoas incríveis, mas porque nenhuma delas é você. Nenhuma carrega exatamente a nossa história, conhece a nossa língua ou sabe chegar naquele lugar específico dentro de mim. O que mais me impressiona é que nós já tentamos ficar fora da vida um do outro. E, ainda assim, quando voltamos a compartilhá-la, tudo parece fazer sentido rápido demais. Como se, apesar de todos os caminhos diferentes, alguma parte de nós ainda soubesse voltar. E talvez o mistério não seja entender por que continuamos sendo puxados um para o outro. Talvez seja perceber o que acontece quando paramos de resistir. O mundo fica mais leve. A conversa acontece. A vontade vence algumas distâncias. Os problemas diminuem de tamanho. A gente volta a falar aquela língua que só nós dois conhecemos. Por algumas horas, não existe passado, futuro ou necessidade de definir nada. Existe você. Existe eu. E existe a sensação quase inacreditável de que, entre todas as possibilidades da vida, estamos exatamente onde deveríamos estar. Quando estamos juntos, não parece que estamos começando de novo. Parece que, depois de tanto tempo tentando ficar longe, finalmente paramos de lutar contra algo que sempre soubemos juntos, existe paz. Existe paz quando abraçamos as nossas crianças internas, um refúgio. E talvez você não faça a minha vida parecer melhor. Talvez você faça a vida parecer o lugar certo.

por que é proibido pisar na grama?. Talvez essa seja uma das proibições mais estranhas que inventamos. Uma placa fincada no chão, algumas letras vermelhas dizendo “PROIBIDO PISAR NA GRAMA”, e de repente um pedaço de terra deixa de ser apenas terra. Aquele lugar que poderia ser…
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por que é proibido pisar na grama?. Talvez essa seja uma das proibições mais estranhas que inventamos. Uma placa fincada no chão, algumas letras vermelhas dizendo “PROIBIDO PISAR NA GRAMA”, e de repente um pedaço de terra deixa de ser apenas terra. Aquele lugar que poderia ser atravessado vira fronteira. O caminho mais curto passa a ser o caminho errado. E ninguém precisa mais construir um muro, porque basta ensinar as pessoas a terem medo de ultrapassar uma linha que, na verdade, só existe porque alguém decidiu que ela deveria existir. Vezes me pergunto se não fizemos o mesmo com certas pessoas. Talvez você seja a minha grama. Não porque exista alguma placa dizendo que não podemos nos encontrar, mas porque existem tantas pequenas proibições invisíveis entre nós. O que vão pensar? O que aconteceu antes? E se voltarmos para um lugar que doeu? E se as nossas vidas já tiverem seguido por caminhos que não combinam mais? E se aquilo que um dia foi tão bonito não couber mais nas pessoas que nos tornamos? E então ficamos parados na calçada. Olhando. Tão perto. Com vontade de atravessar. Mas esperando alguém nos dizer que pode. É curioso como a gente aprende a obedecer antes mesmo de entender a regra. A gente cresce acreditando que algumas coisas simplesmente não podem ser feitas. Que certas portas não devem ser abertas novamente. Que alguns lugares pertencem ao passado. Que determinadas pessoas precisam permanecer onde as deixamos, mesmo quando alguma coisa dentro da gente ainda reconhece o caminho até elas de olhos fechados. Mas quem decidiu isso? Quem disse que a felicidade precisa pedir autorização? Quem determinou onde eu posso pisar para viver aquilo que sinto? E, principalmente, por que eu deveria ter medo de uma placa colocada por alguém que nunca sentiu o que eu senti? Talvez seja esse o maior problema da vida confundimos limite com verdade. Nem tudo que nos disseram que era proibido realmente era. As vezes era apenas perigoso. As vezes era apenas difícil. As vezes alguém antes de nós se machucou naquele mesmo lugar e, por isso, decidiu que ninguém mais deveria pisar ali. Mas a grama continuou crescendo. Verde, silenciosa, bonita. Como se não soubesse que alguém havia transformado aquele pedaço de mundo em território proibido. E talvez seja isso que mais me incomode. Porque a grama não tem culpa da história que aconteceu sobre ela. Ela não sabe das nossas dores antigas. Não sabe dos erros, das despedidas, das coisas que não foram ditas. Não sabe quem éramos quando estivemos ali pela primeira vez. Ela só continua crescendo no mesmo lugar, esperando que algum dia alguém tenha coragem de atravessá-la novamente. E talvez nós sejamos exatamente isso. Duas pessoas olhando para o mesmo lugar onde um dia foram felizes, com medo de descobrir que ainda existe alguma coisa ali. Com medo de pisar. Com medo de lembrar. Com medo de não sentir nada. Com medo de sentir tudo. Talvez exista uma vida inteira entre uma calçada e outra. Uma nova versão de mim. Uma nova versão de você. Outras pessoas, outras histórias, outras cicatrizes. Talvez nossas vidas já não se encaixem como antes. Talvez não exista mais espaço para aquilo que fomos. Mas e se existir? E se a gente estiver deixando uma possibilidade morrer apenas porque alguém nos ensinou que voltar é sempre um erro? Eu não quero romantizar aquilo que machucou. Não quero fingir que o passado não existiu. Não quero apagar as consequências das coisas que fizemos ou das coisas que fizeram conosco. Só não quero transformar o passado em uma sentença. Porque existe uma diferença enorme entre voltar para o passado e reencontrar alguém que também conseguiu sair dele. Talvez pisar na grama não seja esquecer a placa. Talvez seja simplesmente entender que ela nunca teve autoridade sobre os nossos sentimentos. E talvez seja por isso que eu ainda olhe para aquele lugar. Porque a grama é bonita. Porque foi ali que alguma parte da nossa história aconteceu. Porque, entre tantos lugares possíveis no mundo, foi justamente aquele que nos encontrou. E talvez ela seja sagrada não porque ninguém possa pisar nela, mas porque foi testemunha de algo que ninguém mais viu. Então, por que é proibido pisar na grama? Talvez porque alguém tenha medo de que ela seja destruída. Talvez porque seja mais fácil proteger alguma coisa mantendo todos afastados do que permitir que alguém descubra como caminhar sobre ela sem machucá-la. Mas eu não sei se quero viver assim. Não quero passar a vida inteira olhando para lugares onde poderia estar. Não quero deixar que o medo dos outros escolha o caminho dos meus pés. Se eu sentir vontade de atravessar, talvez eu atravesse. Não porque tenha certeza de que do outro lado existe felicidade. Mas porque, pela primeira vez, quero que a escolha seja minha. E se você estiver do outro lado da grama, talvez eu não precise prometer que tudo será como antes. Talvez eu só precise perguntar: você ainda quer caminhar comigo? Porque talvez liberdade seja isso. Não fazer tudo que queremos sem consequências. Mas ter coragem de escolher aquilo que queremos, mesmo sabendo que algumas escolhas podem nos assustar. E talvez amor seja ainda mais simples. É olhar para uma placa dizendo “proibido pisar na grama”, olhar para a pessoa que você ama do outro lado e finalmente perceber que algumas regras foram feitas para manter desconhecidos separados. Não pessoas que ainda se reconhecem. E então, por um instante, antes de pensar no passado, no julgamento, no medo ou na vida que mudou, existe apenas a grama entre nós. Verde. Linda. Intocada. Esperando. E talvez tudo o que sempre quiséssemos fosse descobrir se ainda existe um caminho entre duas pessoas quando ninguém mais está dizendo onde elas podem pisar.

favorita. Sabe quando a gente cai na real que aquela é a nossa pessoa favorita no mundo? Não que fosse um mistério. Não que eu não soubesse antes. É mais como se, em algum momento, a vida começasse a apresentar as confirmações necessárias, as provas cabais de uma coisa que, no…
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favorita. Sabe quando a gente cai na real que aquela é a nossa pessoa favorita no mundo? Não que fosse um mistério. Não que eu não soubesse antes. É mais como se, em algum momento, a vida começasse a apresentar as confirmações necessárias, as provas cabais de uma coisa que, no fundo, a gente já sabia. Como se o quebra-cabeça complexo que somos nós finalmente encontrasse uma peça que sempre pareceu ter sido feita exatamente para aquele espaço. E o mais bonito é que essas confirmações nunca vêm em grandes acontecimentos. Elas vem nas coisas mais simples do mundo. Vem no cotidiano, naquele lugar onde ninguém está tentando impressionar ninguém, onde o amor não precisa fazer discurso porque está ocupado demais existindo. Vem numa mania que só aquela pessoa tem, numa maneira específica de rir, em uma frase que ela sempre fala, no jeito incomparável de enxergar alguma coisa. Vêm nos defeitos que, de tão únicos, acabam deixando de parecer defeitos. Naquelas pequenas particularidades que poderiam passar despercebidas para qualquer pessoa, mas que, para quem ama, se tornam quase uma impressão digital. Você é assim pra mim. E talvez seja justamente por isso que eu tenha tanta certeza. Porque você costuma ter vários endereços. Está sempre em constante mudança, e não necessariamente geográfica. A vida te move, te transforma, te leva para lugares diferentes, muda algumas versões suas, acrescenta outras, tira algumas pelo caminho. Você pode estar na rua Joaquim de Paula 1129, na rua Matias Perez 183, na nossa própria Jorge Leite Vieira Home, ou até mesmo em alguma cidade perdida da Terra da Rainha. E ainda assim, de algum jeito, continua sendo você. Continua sendo aquela menina que eu aprendi a amar. Não uma versão congelada no tempo, não alguém que precise permanecer exatamente como eu conheci para continuar sendo especial. Mas você, com todas as suas únicas e ímpares qualidades e defeitos. Até os defeitos eu amo. Talvez porque amar alguém de verdade seja justamente perceber que a pessoa não é uma coleção de características perfeitas, mas um conjunto inteiro, indivisível, de coisas que fazem dela quem ela é. E acho que foi no cotidiano que eu mais entendi isso. O momento que eu mais senti amor por alguém foi no cotidiano. Foi ao acordar e ter café pronto. Foi cozinhar junto ouvindo música. Foi depois de limpar a casa inteira e deitar pra assistir. Foi naquela sensação quase boba de olhar para o lado e pensar que, entre todas as possibilidades do mundo, era justamente aquela pessoa que estava ali comigo, dividindo uma manhã qualquer, uma cozinha qualquer, uma sala qualquer, uma música qualquer. E talvez seja essa a maior prova de todas. Porque grandes momentos podem ser confundidos com euforia. Viagens podem ser confundidas com felicidade. Declarações podem ser confundidas com paixão. Mas o cotidiano não mente. TUDO TUDO que é amor nasce no cotidiano e tudo que não é amor, se desfaz no cotidiano. É ali que a gente descobre quem realmente quer por perto. Quando não existe viagem marcada, quando não existe ocasião especial, quando não existe nada para comemorar. Só existe uma terça-feira qualquer, uma casa para arrumar, alguma coisa para comer, uma música tocando baixo e duas pessoas dividindo o mesmo espaço. É ali que o amor deixa de ser uma ideia bonita e vira presença. E talvez seja por isso que você consiga estar em tantos lugares sem deixar de ser a mesma pessoa para mim. Porque eu não aprendi a amar um endereço. Eu aprendi a amar você. E endereço nenhum consegue mudar isso. Pode mudar a rua, a cidade, o país, a distância, a rotina, os planos, os mapas. Você pode estar em qualquer canto do mundo, construindo novas versões de si mesma, aprendendo coisas que eu ainda nem conheço, vivendo dias que eu talvez nunca veja. Ainda assim, existe alguma coisa em você que permanece reconhecível para mim. Aquela menina. A menina das pequenas coisas. Aquela que existe nos detalhes que ninguém mais percebe. A pessoa que, sem fazer esforço, conseguiu ocupar um espaço que parecia ter sido desenhado para ela dentro de mim. E talvez seja isso que significa encontrar a nossa pessoa favorita no mundo. Não é descobrir alguém perfeito. É descobrir alguém cuja imperfeição parece familiar. Alguém que você reconhece mesmo quando ela muda. Alguém que poderia atravessar o mundo inteiro, trocar de endereço quantas vezes quisesse, aparecer em outra cidade, em outro país, em outra fase da vida, e ainda assim fazer você pensar: “É ela.” Não porque você nunca teve dúvidas. Mas porque, depois de tantas pequenas confirmações, você simplesmente não precisa mais delas. Você sabe. E se algum dia alguém me perguntasse onde exatamente mora a pessoa que eu aprendi a amar, talvez eu não soubesse responder. Por isso eu vivo me perguntando porque é proibido pisar na grama? Mas, no fundo, eu saberia que nenhum desses endereços seria suficiente. Porque você não mora em nenhum deles. Você mora no cotidiano. Na memória do café pronto. Na música enquanto a gente cozinha. Na casa limpa depois de um dia inteiro de esforço. No sofá onde duas pessoas simplesmente deitam e assistem alguma coisa sem precisar que o mundo aconteça. E talvez seja justamente por isso que, não importa onde você esteja, eu continue sabendo exatamente quem você é para mim. Minha peça. Do meu quebra-cabeça complexo. Minha pessoa favorita no mundo. Aquela que a vida pode levar para qualquer endereço, mas que, de algum jeito, continua sempre encontrando o caminho de volta para o mesmo lugar. Aqui

morango. Morango tem uma coisa curiosa, parece frágil, mas nunca passa despercebido. Talvez seja a cor. Aquele vermelho vivo, quase exagerado, como se tivesse sido feito para chamar atenção mesmo quando está perdido no meio de tantas outras frutas. Talvez seja o contraste entre…
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morango. Morango tem uma coisa curiosa, parece frágil, mas nunca passa despercebido. Talvez seja a cor. Aquele vermelho vivo, quase exagerado, como se tivesse sido feito para chamar atenção mesmo quando está perdido no meio de tantas outras frutas. Talvez seja o contraste entre o doce e o azedo, entre aquilo que parece delicado por fora e aquilo que permanece na boca depois da primeira mordida. Eu nunca gostei de morango. E talvez seja justamente isso que torne tudo mais bonito. Porque, antes de você, morango era só uma coisa que eu não gostava. Não fazia questão, não procurava, não sentia falta. Se estivesse na minha frente, provavelmente eu deixaria para lá. Até você aparecer e, de algum jeito, me fazer gostar. Não sei exatamente quando aconteceu. Talvez tenha sido aos poucos, como quase tudo que realmente muda a gente. Um dia eu provei. Depois outro. E, quando percebi, aquilo que antes eu não gostava já tinha se tornado uma das pequenas coisas que eu gostava. E agora eu gosto de morango. Só que existe um problema nisso. Eu gosto de morango e lembro de você. E talvez você tenha percebido hoje. Ou talvez não. Porque eu passei o dia inteiro falando de morango para você. Morango pra cá. Morango pra lá. Uma hora era sobre comer morango, outra era sobre gostar de morango, outra eu simplesmente dava um jeito de colocar morango no meio da conversa. E você não entendeu. Achou que eu estava falando de morango. E eu estava. Mas não estava só falando de morango. Esse era o jogo. Você funciona assim pra mim, como o morango hoje. E o morango? Ai vem na cabeça o morango, falo sobre o morango, penso no morango, o morango hoje como foi pra você. É como se o morango tivesse instalado numa parte lá, e fica chato, repetitivo, e porque você tá falando do morango o dia inteiro? porque você escreve sobre o morango o dia inteiro? nem você mesma se fosse um morango iria querer ouvir falar do morango o dia inteiro. Imagina como deve ser para as pessoas que me ouvem falar de morango. A graça estava justamente em deixar a palavra passar pela sua frente o dia inteiro sem explicar por que ela estava ali. Eu queria ver se, em algum momento, você perceberia que eu estava tentando dizer alguma coisa sem realmente dizer. Porque, para qualquer outra pessoa, era só uma fruta. Para mim, era você disfarçada de fruta. E talvez seja engraçado pensar que eu passei o dia inteiro te falando de morango sem falar de você nenhuma vez. Ou melhor, falando o tempo inteiro. Penso nas coisas que você gosta, nos pequenos detalhes que talvez nem perceba que deixou pelo caminho. Na maneira como certos sabores parecem ter sido feitos para você, nas pequenas preferências que foram ficando conhecidas por mim quase sem perceber. E morango acabou entrando nesse lugar. Talvez porque tenha a mesma contradição que você carrega. Uma coisa bonita, doce, quase delicada, mas que também sabe ser intensa. Que não precisa fazer esforço para ocupar espaço. Que basta aparecer para mudar alguma coisa ao redor. E existe uma parte engraçada nisso tudo. Porque eu posso olhar para um morango hoje e pensar que é só um morango. Posso cortar, comer, deixar de lado. Mas em algum momento vou lembrar que existe uma pessoa que fez aquela fruta significar alguma coisa diferente. Você me fez gostar de uma coisa que eu nunca gostei. E talvez você nem saiba o tamanho disso. Porque algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam fotos. Outras deixam frases. Outras deixam lugares. Você deixou tudo isso, incluindo gostos novos. Deixou pequenas preferências espalhadas em mim, como se tivesse colocado um pouco de você em coisas que continuam existindo mesmo quando você não está. E talvez, se algum dia ler essas palavras, vá entender imediatamente. Talvez você entenda e finalmente perceba que eu estava tentando te contar uma coisa. Que quando eu dizia morango, eu queria que você pensasse em você. Que quando eu insistia em morango, talvez estivesse esperando que você percebesse a coincidência. Que eu nunca gostei de morango. Mas você me fez gostar. E agora eu gosto de morango. E por gostar de morango, eu lembro de você. Talvez seja justamente por isso que eu não precise dizer seu nome. Porque morango já basta. Você sabe. Eu sei. E, no fim, existem coisas que só fazem sentido para duas pessoas. O resto do mundo pode olhar e enxergar uma fruta vermelha, bonita, doce, comum. Eu olho e vejo tudo aquilo que, de alguma maneira, ficou associado a você. O gosto. A cor. As coisas que você gosta. E aquela brincadeira que você não entendeu . Talvez agora entenda. Talvez tenha entendido e só tenha fingido que não. Mas tudo bem. Alguns jogos são melhores quando a outra pessoa demora para descobrir a resposta. E a minha resposta foi simples: morango. Porque eu nunca gostei de morango. Até você. E agora, toda vez que eu gosto de morango, eu lembro de você.

utopia? Tem dias em que acordar parece menos um começo e mais uma conferência. Antes mesmo de levantar da cama, existe uma lista invisível esperando por ele. Não são grandes sonhos escritos em papel, nem promessas bonitas feitas para o futuro. São necessidades pequenas, quase r…
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utopia? Tem dias em que acordar parece menos um começo e mais uma conferência. Antes mesmo de levantar da cama, existe uma lista invisível esperando por ele. Não são grandes sonhos escritos em papel, nem promessas bonitas feitas para o futuro. São necessidades pequenas, quase ridículas quando colocadas lado a lado, mas que juntas dizem muito sobre quem ele se tornou. Precisa de dinheiro. Não pelo dinheiro em si, mas pela tranquilidade que ele promete. Precisa guardar, investir, construir alguma coisa que permita olhar para a velhice sem sentir que o futuro é uma ameaça. Existe uma vontade cada vez maior de sair do lugar onde está, conhecer outro país, aprender outra língua, começar de novo em algum canto onde ninguém saiba seu nome. Precisa ser forte também. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis. Porque existe uma contradição nele que ninguém vê de primeira. Por fora, aprende a ser durão. Engole certas palavras, segura algumas vontades, finge que determinadas coisas não doem. Mas por dentro continua sendo sentimental demais. Ainda se importa. Ainda espera. Ainda sente falta. Ainda consegue transformar uma conversa pequena em alguma coisa enorme dentro da cabeça. Precisa falar com alguém. Não necessariamente para ser aconselhado. Às vezes, só precisa encontrar alguém que também esteja cansado de guardar coisas dentro de si. Alguém que não tenha medo do silêncio depois da conversa. Alguém que entenda que existem sentimentos que não querem solução, só companhia. Precisa escrever também. Talvez seja por isso que transforma tanta coisa em texto. Porque quando não consegue dizer, escreve. Quando não sabe para quem falar, escreve. Quando alguma lembrança insiste em voltar, escreve. Como se cada palavra colocada no papel fosse uma maneira de impedir que alguma parte dele desaparecesse. Precisa de uma vitória do Palmeiras, dessas que fazem o mundo parecer menos complicado por algumas horas. Precisa de uma música certa no momento certo. Precisa de uma noite em que o celular fique virado para baixo e a cabeça finalmente fique quieta. Precisa rir de alguma coisa idiota. Precisa encontrar motivos pequenos para continuar acreditando que a vida não é feita apenas das coisas que deram errado. Precisa cuidar da família. Precisa cuidar de si. Precisa ter fé, mesmo quando não entende muito bem o que está esperando. E, principalmente, precisa de carinho. Talvez esse seja o item mais difícil de admitir. Porque dinheiro se procura. Trabalho se conquista. Uma passagem pode ser comprada. Um idioma pode ser aprendido. Um carro pode ser trocado. Uma cidade pode ser deixada para trás. Mas carinho não funciona assim. Carinho precisa vir de alguém. E talvez por isso ainda exista, em algum canto dele, aquela pergunta que não sabe morrer, será que alguém ainda gosta dele? Será que alguma pessoa ainda pensa nele quando uma música toca? Será que alguém sente vontade de mandar uma mensagem e desiste? Será que existe alguém passando pela mesma rua, no mesmo horário, carregando uma saudade que ele desconhece? Ele não precisa necessariamente de uma resposta. Precisa apenas saber se ainda existe alguma coisa esperando por ele do outro lado. E é curioso perceber que, no meio de tantos planos grandes, ele ainda se pega querendo entender coisas pequenas. Por que o coração insiste justamente onde a razão já colocou uma placa dizendo para não entrar? E, no fim, talvez seja essa a maior contradição da vida adulta, a gente passa anos tentando descobrir como construir um futuro, enquanto continua fazendo perguntas que parecem ter sido inventadas na infância. Ele quer dinheiro, uma casa, uma vida em outro lugar, estabilidade, conquistas, viagens, histórias. Mas também quer ser compreendido. Quer alguém para conversar. Quer alguém para amar. Quer alguém que olhe para toda essa confusão e, em vez de perguntar por que ele é assim, simplesmente diga que entende. Talvez seja isso que ele esteja procurando. Não uma vida perfeita. Só uma vida em que suas necessidades não pareçam exageradas. Uma vida em que possa ser forte sem precisar esconder que sente. Em que possa ir embora sem sentir que está fugindo. Em que possa construir o futuro sem precisar abandonar tudo o que ainda sente. E talvez, no fundo, ele tenha acordado naquela manhã apenas para descobrir que ainda precisa de muita coisa. Mas também descobriu uma coisa importante ainda existe vontade. E enquanto houver vontade de conhecer o mundo, ganhar dinheiro, escrever, amar, cuidar, acreditar, viajar, torcer, recomeçar e entender por que certas coisas são proibidas sem que ninguém saiba explicar direito… ainda existe vida acontecendo. Mesmo que, as vezes, ela pareça apenas uma longa lista de coisas que ele ainda precisa.

julie. Há uma menina que ainda não existe no mundo, mas que, de alguma forma, já existe dentro de mim. O nome dela vai ser Julie.
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julie. Há uma menina que ainda não existe no mundo, mas que, de alguma forma, já existe dentro de mim. O nome dela vai ser Julie. Eu ainda não sei quando ela vai chegar. Não sei se será daqui a alguns anos, se a vida vai demorar para colocá-la nos meus braços ou se o destino ainda está decidindo se nossos caminhos realmente precisam se encontrar. Talvez ela nem saiba que eu já penso nela. Talvez, enquanto eu escrevo isso, ela esteja em algum lugar que eu jamais poderia imaginar, vivendo uma vida que ainda não tem nenhuma relação com a minha. Mas eu já a amo. E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas sobre o amor de um pai. Ele pode começar antes mesmo de existir um rosto para olhar. As vezes eu me pego imaginando os olhos dela. Não sei exatamente como serão, mas já consigo imaginar a maneira como eles vão me procurar quando ela estiver assustada, quando precisar de colo ou simplesmente quando quiser encontrar o pai no meio de uma multidão. Imagino o sorriso, o jeito de falar, as manias que provavelmente vão me tirar do sério e, ainda assim, fazer com que eu queira guardar cada uma delas para sempre. Imagino seus primeiros passos pela casa. Imagino a voz me chamando de pai. E acho que é nesse momento que eu percebo que existe uma versão de mim que ainda não conheço. O pai da Julie. Talvez ela transforme completamente a minha vida sem sequer perceber. Talvez eu passe a dirigir mais devagar, a olhar o relógio com mais frequência, a pensar duas vezes antes de tomar certas decisões. Talvez minhas preocupações deixem de ser apenas sobre mim. Talvez eu descubra que existe alguém capaz de ocupar um espaço dentro de mim que eu nem sabia que estava vazio. Eu imagino uma menina pequena segurando meu dedo com a mão inteira. E acho que, naquele instante, eu entenderia que faria qualquer coisa por aquilo. Não porque ela teria feito alguma coisa para merecer. Não porque ela precisaria me devolver alguma coisa. Mas simplesmente porque seria minha filha. Esse é o amor que ainda não conheço, mas que já consigo sentir chegando de longe. Um amor que não pede reciprocidade, que não depende de respostas, que não precisa ser escolhido todos os dias porque já nasceu decidido. Um amor que provavelmente vai me ensinar que existem pessoas pelas quais você não pensa duas vezes antes de colocar o mundo inteiro nas costas. Eu penso na Julie crescendo. Na primeira vez que ela cair e olhar para mim esperando que eu diga que está tudo bem. Na primeira vez que ela chegar em casa chorando porque alguém machucou seu coração. Na primeira vez que ela quiser sair sozinha e eu precisar aprender que protegê-la também significa deixá-la ir. Talvez eu seja aquele pai meio bobo que vai querer saber onde ela está, com quem está, se chegou bem. Talvez eu seja exageradamente protetor. Talvez eu precise aprender, todos os dias, que ela não nasceu para viver dentro das minhas mãos, mas para construir a própria vida. E mesmo assim, em algum lugar dentro de mim, sempre vai existir aquele homem olhando para uma menina pequena e pensando: "Como pode alguém tão pequena significar tanto?" Eu não sei como serão os olhos dela. Não sei se ela vai gostar de música, de livros, de filmes, de desenhar ou de qualquer coisa que eu imagine hoje. Não sei se ela vai parecer comigo. Não sei se vai torcer para o Palmeiras(mas deveria) Não sei se vai herdar meu jeito, minhas manias ou se vai ser completamente diferente de mim. E talvez seja justamente isso que torne tudo tão bonito. Porque eu não amo uma pessoa que conheço. Eu amo a possibilidade dela. A possibilidade de um dia abrir uma porta e encontrar uma menina correndo na minha direção. A possibilidade de ouvir uma voz dizendo "papai". A possibilidade de segurar alguém nos braços e perceber que, depois daquele momento, minha vida nunca mais vai ser somente minha. Julie ainda não sabe se vem. Eu também não sei quando. Mas, se um dia ela vier, espero que encontre em mim um lugar seguro para voltar. Espero que ela saiba que pode errar sem deixar de ser amada, cair sem ter vergonha de pedir ajuda, crescer sem medo de me perder. Espero que, quando ela for grande o suficiente para entender essas coisas, saiba que antes mesmo de existir para o mundo, já existia em meus pensamentos. Que antes de eu conhecer seu rosto, eu já imaginava seus olhos. Antes de ouvir sua voz, eu já imaginava como seria escutar "papai". E antes de poder segurá-la no colo, eu já sabia que, se a vida me desse a oportunidade de ser o pai dela, eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que ela nunca duvidasse do quanto é amada. Talvez esse seja o maior sonho que eu ainda não vivi. Uma menina chamada Julie. A menina do papai. Uma pequena pessoa que ainda não chegou, mas que já ocupa um pedaço enorme de um coração que nem sabia que estava esperandp por ela. E quando ela finalmente chegar, se chegar, talvez eu olhe para aqueles olhos que passei tantos anos imaginando e perceba que eu estava errado sobre uma coisa. Porque talvez eu tenha passado a vida inteira tentando imaginar como seria amar minha filha. Quando na verdade, bastaria conhecê-la

autobahn. Não tenho GPS, mas, de tanto memorizar filmes, me parece que estou na Autobahn. A música alta quase não deixa escutar o ronco do carro em que estou pilotando. Acho que estou ficando maluco, porque fechei os olhos, abaixei o volume e continuo dirigindo esse carro que, p…
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autobahn. Não tenho GPS, mas, de tanto memorizar filmes, me parece que estou na Autobahn. A música alta quase não deixa escutar o ronco do carro em que estou pilotando. Acho que estou ficando maluco, porque fechei os olhos, abaixei o volume e continuo dirigindo esse carro que, por algum motivo, deve ser meu. Sem me guiar pela visão, apenas pelo barulho reconhecido do motor, já devo estar batendo uns cento e noventa por hora. Como eu vim parar aqui? Nem precisei sair da minha cidade. Talvez tenha saído apenas da minha sanidade. Quero sentir que o perigo que estou correndo de morrer vai queimar mais nas minhas veias com a junção do que está tocando ao fundo, porque talvez seja onde eu consiga chegar mais perto daquela sensação. Quero me afogar nesse sentido. O que fizeram comigo? Você é alguma espécie de droga? Porque eu não consigo parar. Talvez seja isso que uma droga faça. Não necessariamente aquilo que entra no corpo, mas aquilo que entra na cabeça e começa a convencer a gente de que, por alguns segundos, viver no limite é melhor do que viver normalmente. A pista continua. Ou talvez seja a minha cabeça que continue inventando uma pista. Não vejo placas. Não vejo outros carros. Não vejo nada além daquele pedaço de estrada que minha imaginação decidiu construir para mim. E, ainda assim, tudo parece tão real que consigo sentir o volante vibrando nas minhas mãos. Talvez eu esteja tentando fugir. Engraçado. Passei tanto tempo querendo ir embora daqui que agora nem sei mais se estou dirigindo para algum lugar ou apenas tentando chegar longe de mim. A cidade ficou para trás. As pessoas também. Os planos, as promessas, os nomes que um dia significaram alguma coisa. Tudo parece pequeno quando visto pelo retrovisor, até desaparecer completamente. A música muda. Por alguns segundos, eu não reconheço a próxima faixa. E isso me assusta mais do que a velocidade. Porque eu sempre reconheci as músicas. Sempre soube qual vinha depois. Sempre soube qual música ouvir quando alguma coisa doía, como um médico que receita exatamente o remédio para onde você precisa resolver a dor, qual colocar quando precisava lembrar de alguém, qual deixar tocar quando queria fingir que estava tudo bem. Mas agora não reconheço. Talvez eu esteja finalmente chegando em algum lugar que nunca conheci. Acelero. Não porque quero morrer. Isso seria fácil demais de explicar. Acelero porque quero sentir alguma coisa que não seja essa espécie de vazio educado que me acompanha todos os dias. Quero que o coração bata por alguma razão que não seja ansiedade. Quero que minhas mãos tremam porque estou vivo, não porque estou tentando entender por que ainda me importo com certas coisas. Quero um motivo físico para sentir aquilo que já não sei explicar por dentro. E então percebo que talvez eu tenha confundido intensidade com vida. Talvez tenha passado tanto tempo procurando alguma coisa que me fizesse sentir que comecei a aceitar qualquer coisa que doesse o suficiente. É por isso que você parece uma droga. Porque eu sei que não deveria precisar de você. E mesmo assim, quando você aparece, tudo fica mais alto. As músicas. As lembranças. As vontades. Até o silêncio. Você não precisa fazer nada. Basta existir em algum canto da minha cabeça para que eu volte a ser aquele idiota que acredita que talvez dessa vez seja diferente. Talvez seja por isso que eu estou nessa estrada. Não estou fugindo da cidade. Estou fugindo da possibilidade de que a minha vida tenha se acostumado demais com a ausência de certas coisas. E talvez eu tenha vindo parar aqui porque precisava de um lugar onde ninguém pudesse me perguntar para onde estou indo. Porque eu não sei. Não sei onde termina essa estrada. Não sei quem colocou essa música. Não sei por que o velocímetro continua subindo. Não sei por que ainda estou segurando o volante. Só sei que, pela primeira vez em muito tempo, existe alguma coisa dentro de mim gritando. E eu acho que estava com saudade de ouvir minha própria voz. Então diminuo. Não paro. Apenas diminuo. O suficiente para ouvir o motor. Depois o vento. Depois minha respiração. E, por último, aquilo que eu vinha tentando calar desde o começo. Meu próprio pensamento. Talvez eu não precise morrer para descobrir que estou vivo. Talvez eu só precise parar de correr como se a vida estivesse sempre alguns quilômetros à minha frente. Olho para a estrada. Dessa vez, com os olhos abertos. E ela continua. Longa, escura, absurda. Como quase tudo que ainda não sei resolver. Mas, pela primeira vez, eu não tenho tanta pressa de chegar. Porque talvez o destino nunca tenha sido a parte mais importante, E sim…

seus olhos. Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, eu já tinha encontrado alguma coisa nos olhos dela que não sabia explicar. Eu falava dos olhos porque era a maneira mais fácil de falar do que acontecia comigo quando olhava para ela. Pareciam ter profundidade suficie…
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seus olhos. Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, eu já tinha encontrado alguma coisa nos olhos dela que não sabia explicar. Eu falava dos olhos porque era a maneira mais fácil de falar do que acontecia comigo quando olhava para ela. Pareciam ter profundidade suficiente para esconder tudo aquilo que eu não conseguia dizer. E talvez fosse exatamente por isso que eu gostasse tanto de mergulhar neles. Porque havia dias em que o mundo parecia fundo demais. As coisas lá fora tinham aquele peso que a gente tenta fingir que não sente. A vida seguia, as pessoas continuavam falando, os dias continuavam passando, mas existiam momentos em que tudo parecia difícil de levar. E então eu encontrava aqueles olhos. Era como cair no mar sem ter medo de afundar. Eu não precisava saber nadar. Não precisava saber para onde estava indo. Bastava entrar. Talvez seja isso que algumas pessoas fazem com a gente. Elas não resolvem necessariamente aquilo que está quebrado, não apagam os problemas, não tornam o mundo mais fácil. Elas apenas conseguem fazer com que, por alguns instantes, a gente não precise lutar contra ele. Ela era esse intervalo. Eu podia passar horas tentando organizar dentro de mim aquilo que não tinha nome e, ainda assim, bastava olhar para ela para alguma coisa se aquietar. Havia um tipo de silêncio naqueles olhos que não era vazio. Era abrigo. Um lugar onde eu podia deixar todas as coisas que carregava sem precisar explicar por que elas pesavam tanto. E talvez eu tenha amado também essa sensação. A de ser recebido por alguém sem precisar chegar inteiro. Eu acreditava que amar era isso: oferecer alguma coisa de si e perceber que, de alguma forma, aquilo também fazia o outro respirar melhor. Cada gesto pequeno parecia carregar uma energia que não precisava ser anunciada. Um cuidado aqui, uma presença ali, uma tentativa de estar perto quando o mundo ficava difícil. Como se amar fosse construir, aos poucos, um lugar onde dois poderiam descansar. E eu queria ser esse lugar para ela também. Talvez por isso a distância sempre tenha parecido tão cruel. Porque quando alguém se transforma em refúgio, a ausência deixa de ser simplesmente ausência. Ela começa a parecer uma porta fechada para um lugar onde você costumava conseguir respirar. E ainda havia a saudade. Aquela espécie de presença que continua existindo mesmo quando a pessoa não está. As lembranças permanecem vibrantes, ocupando espaços inesperados, aparecendo no meio de uma música, de uma noite, de um pensamento qualquer. Você percebe que algumas pessoas conseguem permanecer dentro da gente mesmo quando já não estão ao nosso lado. Foi assim que ela ficou em mim. Não como uma foto parada no passado, mas como uma paisagem que ainda aparece quando fecho os olhos. E talvez seja por isso que aquela imagem do mar sempre tenha feito tanto sentido. Porque eu não mergulhava apenas nos olhos dela. Eu mergulhava naquilo que sentia quando estava ali. Na tranquilidade que encontrava. Na versão de mim que aparecia quando não precisava me defender de nada. Na sensação de que, por alguns minutos, eu estava exatamente onde deveria estar. Ao lado dela. E talvez algumas pessoas sejam mesmo obra de alguma força que a gente não entende. Não necessariamente porque foram feitas para ficar para sempre, mas porque, em algum momento da nossa história, precisavam existir. Ela existiu. E me ensinou que existem olhos capazes de ser oceano. Que existem abraços que parecem margem depois de muito tempo à deriva. Que existe amor que não chega fazendo barulho, mas vai preenchendo os espaços vazios até a gente perceber que já não sabe exatamente onde termina a nossa solidão e começa a presença do outro. Hoje, talvez eu entenda que mergulhar nos olhos dela nunca foi apenas sobre olhar. Era sobre confiar. Sobre fechar os olhos para o mundo por alguns segundos e acreditar que, se eu afundasse, alguém me encontraria. E talvez seja essa a coisa mais bonita e mais dolorosa sobre amar alguém profundamente: às vezes, a pessoa se torna o mar onde você aprendeu a respirar. E quando ela vai embora, você passa um tempo tentando descobrir como voltar a superfície. Mas algumas profundidades não desaparecem. A gente apenas aprende a carregá-las. E eu ainda carrego aqueles olhos comigo. Como quem um dia caiu no mar e, em vez de ter medo da profundidade, descobriu nela um lar.

catching lightning Eles não avisam quando vem. Você pode passar uma vida inteira olhando para o céu e nunca estar no lugar certo, na hora certa, com os olhos voltados para cima. Pode ouvir trovões de longe, assistir tempestades pela janela, ver o céu se partir em luz durante al…
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catching lightning Eles não avisam quando vem. Você pode passar uma vida inteira olhando para o céu e nunca estar no lugar certo, na hora certa, com os olhos voltados para cima. Pode ouvir trovões de longe, assistir tempestades pela janela, ver o céu se partir em luz durante alguns segundos e ainda assim nunca tocar naquilo. Porque ser atingido por um raio não é apenas difícil. É quase absurdo. E talvez seja por isso que algumas pessoas parecem tempestades. Elas chegam sem pedir licença, iluminam alguma coisa dentro da gente que estava há muito tempo no escuro e, quando a gente percebe, já não sabe mais se estava procurando por elas ou se apenas teve a sorte improvável de estar olhando para o céu no instante certo. Foi assim que algumas histórias começaram. Não com grandes promessas. Não com a certeza de que durariam para sempre. Às vezes começaram apenas com dois desconhecidos em uma festa aleatória, numa química absurda descobrindo que conseguiam conversar por horas, rir das mesmas coisas, encontrar abrigo um no outro e, sem perceber, transformar dias comuns em lembranças que o tempo teria dificuldade de apagar. E então veio a parte que ninguém conta nas histórias de amor. O futuro. Porque amar alguém enquanto tudo está dando certo é quase fácil. Difícil é continuar acreditando quando a vida começa a colocar quilômetros, silêncio, mudanças e versões diferentes de vocês mesmos no caminho. É aí que a dança começa. Não aquela dança perfeita dos filmes, em que ninguém erra o passo e os dois sabem exatamente para onde ir. A verdadeira. Aquela em que um avança enquanto o outro hesita. Em que às vezes alguém pisa no pé. Em que uma mão se solta por alguns segundos e, ainda assim, existe alguma coisa dentro dos dois procurando o caminho de volta. Então te pergunto “Can I have this dance?” Nunca foi apenas sobre uma dança. É quase como perguntar Você ainda segura minha mão mesmo sem saber onde isso termina? Você ainda confia em mim quando a música muda? Se eu tropeçar, você fica? E talvez a resposta mais bonita não seja uma promessa de eternidade. Talvez seja simplesmente: eu não sei. Mas ainda quero dançar. Porque ninguém sabe. Ninguém que ama de verdade recebe um mapa mostrando onde aquela história vai terminar. Não existe garantia de que duas pessoas permanecerão iguais enquanto a vida acontece ao redor delas. Não existe contrato contra a distância, contra o tempo, contra os erros ou contra aquilo que cada um ainda precisa aprender sozinho. Existe apenas a escolha de continuar dando um passo. Depois outro. E outro. Até perceber que, de alguma maneira, os dois já atravessaram uma parte enorme da música. Talvez por isso encontrar alguém seja tão raro. Não raro como encontrar alguém bonito. Não raro como encontrar alguém que goste das mesmas músicas, tenha os mesmos planos ou consiga preencher perfeitamente os espaços vazios. Raro como um raio. Porque existem bilhões de pessoas. Milhares de encontros possíveis. Centenas de histórias que poderiam ter acontecido. E, entre todas essas possibilidades, duas pessoas específicas precisam nascer na mesmo época(4 ANOS NÃO É NADA), cruzar os mesmos caminhos, dizer certas palavras, estar disponíveis naquele instante, olhar uma para a outra de determinada maneira e reconhecer alguma coisa que talvez nem saibam explicar. A probabilidade de ser atingido por um raio é pequena. Mas menor ainda talvez seja a chance de encontrar alguém que, depois de tudo, ainda consiga fazer você olhar para trás e pensar “Como é que, entre tanta gente no mundo, foi justamente você?” E é aí que a história deixa de parecer coincidência. Não porque o destino tenha garantido um final. Mas porque algumas pessoas são importantes demais para serem explicadas apenas pela estatística. Talvez algumas apareçam para ficar. Talvez outras apareçam para ensinar. Talvez algumas precisem ir embora para que a gente compreenda o tamanho do espaço que ocupavam. E talvez existam aquelas histórias que não cabem em nenhuma dessas categorias. Histórias que terminam sem realmente parecer terminadas. Que continuam existindo em pequenas coisas: uma música, uma lembrança, uma frase, uma cidade distante, uma noite qualquer em que o passado bate a porta sem avisar, você sabe que eu não mordo, né? E então a gente entende que o tempo não apaga tudo. Às vezes ele apenas muda a maneira como carregamos. Eu não sei onde essa música termina. Talvez ninguém saiba. Mas existe alguma beleza em admitir isso. Porque talvez amar alguém nunca tenha sido sobre saber se chegaremos ao último acorde. Talvez tenha sido sobre olhar para a pessoa ao lado, estender a mão e perguntar novamente, mesmo depois de tudo: “Can I have this dance?” E se ela aceitar, não importa quantos passos já foram errados. Não importa quantas vezes a música tenha parado. Não importa quantos quilômetros existam entre um lugar e outro. A gente começa de novo. Devagar. Sem prometer que nunca vamos cair. Apenas lembrando que, quando duas pessoas realmente querem continuar dançando, elas não precisam conhecer o próximo passo. Precisam apenas confiar que, quando ele chegar, haverá uma mão esperando pela outra. E talvez seja isso que torna algumas histórias tão improváveis. Não o fato de terem acontecido. Mas o fato de, entre todos os raios que poderiam nunca ter caído, um ter escolhido exatamente aquele pedaço do céu.

dona. Há músicas que a gente escuta. E há aquelas que parecem ter guardado uma parte da nossa vida dentro delas.
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dona. Há músicas que a gente escuta. E há aquelas que parecem ter guardado uma parte da nossa vida dentro delas. Talvez seja por isso que, quando essa música toca, eu não escute apenas uma melodia. Eu escuto uma voz. A sua voz. Como se o tempo, por alguns minutos, esquecesse de continuar e devolvesse aquilo que um dia foi nosso. Você cantava pra mim. E talvez você nunca tenha percebido o tamanho disso. Porque enquanto você cantava, eu não estava apenas ouvindo uma música. Eu estava vivendo uma pequena eternidade. Havia alguma coisa naquele momento que fazia o mundo parecer menos urgente. As coisas podiam esperar. A noite podia durar um pouco mais. E, por alguns instantes, parecia que nós dois éramos suficientes para preencher tudo aquilo que existia. A música fala sobre sermos donos do amanhã se estivermos juntos. E eu acho bonito pensar que, naquela época, nós realmente acreditávamos nisso. Não porque éramos iguais, nunca fomos. Talvez justamente porque não éramos. Havia diferenças demais entre nós, distâncias demais, caminhos que às vezes pareciam apontar para lugares completamente diferentes. Mas existia uma coisa estranha e bonita mesmo sem sermos iguais, conseguíamos dividir o mesmo idioma, os mesmos sonhos. As mesmas noites. As mesmas ruas. Os mesmos silêncios. E, principalmente, a mesma história. Hoje eu entendo que algumas pessoas entram na nossa vida como quem chega a uma cidade desconhecida e, sem perceber, começa a colocar placas nas ruas. Depois de um tempo, você já não sabe mais onde termina a cidade e onde começa a pessoa. Você esteve em muitos lugares da minha. Talvez seja por isso que lembrar de você nunca tenha sido simplesmente lembrar de alguém. É lembrar de uma época. De quem eu era. De quem você era. Daquilo que acreditávamos que seríamos. E de tudo que ainda não sabíamos que perderíamos. A vida, depois, colocou seus dragões na nossa frente. Vieram as distâncias, os erros, as palavras que deveriam ter sido ditas e não foram, as verdades que demoraram a chegar, os caminhos que se separaram sem pedir licença. E nós fizemos o que quase todo mundo faz quando precisa sobreviver, seguimos andando. Mas algumas histórias não desaparecem quando terminam. Elas apenas mudam de lugar. Deixam de morar no presente e passam a morar em algum canto silencioso da memória, onde continuam existindo sem exigir nada. Você ficou ali. Não como uma promessa. Não como uma espera. Mas como parte daquilo que fui. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de amar alguém que já não caminha ao nosso lado, aceitar que a pessoa pode deixar de pertencer a nossa vida sem deixar de pertencer a nossa história. Porque você foi história. E algumas histórias não precisam continuar para terem sido verdadeiras. Às vezes eu penso naquela frase sobre a lua dançar. E penso que talvez a lua tenha visto tudo. Tenha visto duas pessoas jovens demais para entender a dimensão do que estavam vivendo, acreditando que algumas noites nunca terminariam. Tenha visto você cantar para mim enquanto eu guardava aquilo sem saber que um dia sentiria falta até da sua voz dizendo coisas que, naquele momento, pareciam tão simples. Hoje, se eu pudesse voltar aquela noite, eu não pediria para mudar nada. Nem os erros. Nem o fim. Nem aquilo que machucou. Eu apenas ficaria mais alguns minutos. Prestaria mais atenção. Olharia para você enquanto cantava. Porque existem momentos que só descobrimos que eram eternos depois que se tornam passado. E você foi um desses momentos. Talvez eu nunca mais encontre exatamente aquilo que existia entre nós. Não porque tenha sido perfeito, mas porque era nosso. E coisas verdadeiramente nossas não possuem substitutos. Podemos amar novamente. Podemos sorrir novamente. Podemos construir outras histórias. Mas nunca conseguimos voltar a ser exatamente aquelas duas pessoas que dividiram aquelas noites, aquelas ruas e aqueles sonhos. E tudo bem. Talvez crescer seja aprender que algumas pessoas não ficam. Algumas pessoas nos atravessam. E você me atravessou. Deixou marcas que o tempo não apagou, apenas tornou mais silenciosas. Por isso, quando essa música tocar, talvez uma parte de mim ainda procure a sua voz no meio dela. E talvez eu sorria. Porque um dia você esteve aqui. Porque um dia nós fomos jovens, fomos intensos, fomos imperfeitos e fomos felizes de um jeito que só conseguimos compreender depois. E se existe alguma coisa que eu gostaria de brindar hoje, não é ao que poderíamos ter sido. É ao que fomos. A nossa história. As noites que ninguém pode nos devolver, mas também ninguém pode nos tirar. E, principalmente, a menina que um dia cantou essa música para mim e, sem saber, fez com que ela deixasse de ser apenas uma música. Ela virou memória. Virou saudade. Virou um pedaço de céu guardado dentro de uma canção. E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos caminhos, quando eu ouço aquelas palavras, ainda existe uma pequena parte de mim que olha para a lua e pensa: que bom que, em algum momento da vida, você esteve aqui. Nossa história. Nossa história. E, onde quer que o tempo tenha levado cada um de nós, essa parte ninguém consegue apagar. Você fez eu gostar mim, Dona. Dona do meu pensamento. Você. Nossa história. e se puder, me faça tocar o céu, Lua... venha sorrir de novo pra mim.

fantasma oficial. Ela tem um jeito estranho de fazer o mundo parecer menos barulhento. Não sei exatamente quando comecei a perceber isso. Talvez tenha sido antes mesmo de admitir que estava olhando diferente para ela. Porque algumas pessoas chegam na nossa vida fazendo presença…
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fantasma oficial. Ela tem um jeito estranho de fazer o mundo parecer menos barulhento. Não sei exatamente quando comecei a perceber isso. Talvez tenha sido antes mesmo de admitir que estava olhando diferente para ela. Porque algumas pessoas chegam na nossa vida fazendo presença, ocupando espaço, querendo ser notadas. Ela não. Ela simplesmente existe, e de algum jeito isso já basta para mudar o ambiente inteiro. É como se houvesse alguma coisa nela que não precisasse pedir atenção, porque a atenção simplesmente vai até ela. E eu gosto de olhar para ela. Não daquele jeito apressado de quem olha só para admirar. Eu gosto de olhar como quem tenta entender. Como se houvesse alguma coisa escondida atrás dos olhos dela que eu ainda não consegui alcançar completamente. E talvez seja justamente isso que me prende. Ela não parece inteira na superfície. Existe sempre alguma coisa acontecendo por dentro, mesmo quando ela não diz nada. Às vezes eu fico pensando no quanto alguém pode caber dentro de um olhar. Porque quando olho para ela, não vejo só o rosto que eu gosto, o sorriso que me desmonta ou os pequenos gestos que talvez ela nem perceba que faz. Eu vejo uma história. Vejo tudo aquilo que ela precisou ser para chegar até aqui. Vejo a parte doce, a parte cansada, a parte que ainda acredita nas coisas mesmo depois de ter motivos suficientes para não acreditar mais. E talvez eu goste dela justamente por enxergar essas contradições. Ela consegue ser forte sem parecer dura. Consegue ser doce sem parecer frágil. E existe alguma coisa nisso que me faz querer ficar perto. Não para consertá-la, porque eu nunca achei que ela precisasse ser consertada. Talvez seja o contrário. Eu só queria conhecer as partes dela que quase ninguém conhece. As coisas que ela pensa quando está sozinha. O que passa pela cabeça dela quando o mundo fica quieto. Os medos que ela esconde atrás de um sorriso. As coisas pequenas que fazem o coração dela ficar leve. Queria saber o que ela vê quando olha para o céu sem motivo. Queria saber qual lembrança ainda mora nela mesmo depois de tantos anos. Queria saber quais sonhos ela abandonou pelo caminho e quais ainda guarda em segredo. Porque gostar dela, para mim, nunca foi simplesmente gostar da presença. É querer atravessar a superfície. E talvez esse seja o perigo. Quanto mais eu olho, mais fundo parece. É como se eu mergulhasse nos olhos dela sem perceber que estava deixando a margem para trás. E quando percebo, já não estou mais tentando entender quem ela é. Estou apenas ali, dentro daquele sentimento estranho de querer conhecer alguém sem precisar transformar isso em posse. Eu não quero que ela seja minha porque eu não acho que pessoas devam pertencer umas às outras. Eu quero que ela escolha ficar. E existe uma diferença enorme nisso. Porque se um dia ela olhar para mim e decidir permanecer, eu quero que seja porque encontrou em mim um lugar onde não precisa diminuir nenhuma parte de quem é. Quero que ela possa chegar cansada, confusa, feliz, perdida, exagerada, silenciosa, e ainda assim sentir que pode ser exatamente quem é. Talvez seja isso que eu sinto quando penso nela. Não é só vontade. Não é só saudade. Não é só encanto. É uma espécie de paz inquieta. Como se alguma parte de mim tivesse encontrado alguma coisa que não estava procurando. E talvez eu nunca consiga explicar exatamente o que existe nela que me faz sentir assim. Talvez algumas pessoas simplesmente não sejam feitas para serem explicadas. São feitas para serem sentidas. E ela é assim para mim. Eu olho para ela e, por alguns segundos, esqueço que existe um mundo inteiro acontecendo do lado de fora. Talvez porque, quando mergulho nos olhos dela, eu não esteja procurando uma saída. Estou procurando o fundo. E, pela primeira vez, não tenho pressa nenhuma de voltar à superfície.

napoli. Eu ainda não conheço Napoli. E talvez seja justamente por isso que Napoli tenha conseguido existir tanto dentro de mim.
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napoli. Eu ainda não conheço Napoli. E talvez seja justamente por isso que Napoli tenha conseguido existir tanto dentro de mim. Antes de conhecer uma cidade, a gente inventa uma versão dela. Junta fotos, histórias, músicas, filmes, partidas de futebol, prédios antigos, ruas que nunca atravessou e um mar que só conhece pela tela. Vai montando, aos poucos, um lugar que talvez nem exista exatamente daquele jeito. Mas existe Napoli. Pelo menos a Napoli que eu imagino. Napoli, para mim, começa antes do avião pousar. Começa naquele instante em que eu imagino sair de algum lugar e simplesmente caminhar sem saber direito para onde estou indo. Napoli sendo o nome das placas, o idioma nas conversas, as roupas penduradas entre os prédios, o barulho das pessoas atravessando uma rua estreita enquanto alguma janela permanece aberta. Eu imagino Napoli assim. Imperfeita. Viva. Um pouco suja, um pouco caótica, um pouco triste. Bonita justamente porque não parece estar preocupada em ser. Napoli não é uma foto que eu quero visitar. É uma sensação que eu quero descobrir se existe. Eu penso em Napoli e penso no Vesúvio. Não pelo vulcão em si, mas pela ideia de uma cidade inteira vivendo diante de alguma coisa que poderia destruí-la e, ainda assim, acordando todos os dias para continuar. Isso me fascina. Talvez porque eu goste de lugares que carregam uma ameaça sem precisar falar sobre ela. Napoli parece ter alguma coisa disso. Uma cidade que sabe que o chão pode tremer, que o passado pode voltar em forma de cinzas, que o mar pode guardar histórias demais, mas que ainda assim existe café pela manhã, futebol à tarde e gente voltando para casa à noite. É assim que eu imagino Napoli. Não como um paraíso. Como um lugar humano. Eu imagino o futebol em Napoli quase como uma religião antiga. Imagino o nome de Maradona ainda atravessando paredes, camisas, conversas, crianças que talvez nem tenham nascido quando ele jogava, mas cresceram ouvindo que houve um homem que fez uma cidade acreditar em alguma coisa. E talvez seja isso que eu procuro quando penso em Napoli. Não uma cidade perfeita. Uma cidade que acredita. Napoli acredita no futebol. Napoli acredita no mar. Napoli acredita na própria história. Napoli acredita até nas próprias contradições. E talvez eu queira acreditar também. Às vezes penso em como seria estar em Napoli sem ter nada para fazer. Sem roteiro. Sem obrigação. Sem aquela pressa de transformar cada lugar em foto. Só estar. Sentar em algum lugar e observar uma cidade que eu passei tanto tempo imaginando finalmente existir na minha frente. Talvez eu olhasse para o Vesúvio. Talvez para o mar. Talvez para uma rua qualquer. E provavelmente pensaria: "Então era isso que eu estava tentando imaginar." Mas existe uma coisa ainda mais bonita em não conhecer Napoli. Eu ainda posso sonhar. Ainda posso colocar em Napoli tudo aquilo que procuro no mundo. A possibilidade de recomeçar. A sensação de estar longe o suficiente para ouvir meus próprios pensamentos. A liberdade de ser desconhecido. A melancolia de perceber que uma vida pode caber em outro lugar. Eu não sei se Napoli é assim. Talvez não seja. Talvez eu chegue lá e descubra que algumas das coisas que inventei nunca existiram. Talvez o café seja apenas café. Talvez as ruas sejam mais barulhentas do que bonitas. Talvez o Vesúvio não pareça tão imenso. Talvez Napoli não tenha nada da Napoli que eu criei. E tudo bem. Porque existe uma beleza estranha em desejar um lugar antes de conhecê-lo. Você começa a construir uma casa dentro de uma cidade onde ainda não colocou os pés. Napoli é essa casa, por enquanto. Uma casa imaginada. Um nome repetido. Napoli. Napoli. Napoli. Como se repetir fosse uma maneira de aproximar. E talvez um dia eu chegue… Talvez eu desça do avião, respire aquele ar pela primeira vez e perceba que a cidade real é completamente diferente da cidade que construí na cabeça. Mas talvez, no meio de alguma rua qualquer, com o Vesúvio aparecendo ao longe e o mar existindo onde eu só conhecia por fotos imaginárias, eu entenda uma coisa Alguns lugares a gente visita pela primeira vez duas vezes. A primeira é quando chega. A segunda é quando percebe que passou anos sonhando com aquele momento. E quando esse dia chegar, eu não vou querer que Napoli seja exatamente como imaginei. Vou querer apenas olhar para ela e pensar: Napoli. Então era você. A cidade que eu conheci antes de chegar.

suspicaz. Cheguei em casa e não acendi a luz. Não porque estivesse com medo.
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suspicaz. Cheguei em casa e não acendi a luz. Não porque estivesse com medo. Era só que, depois de certo tempo, você começa a perceber que algumas coisas ficam mais nítidas no escuro. Deixei a chave sobre a mesa, tirei o relógio, sentei no sofá e fiquei ali. Sem música. Sem televisão. Sem aquela necessidade moderna de preencher cada segundo com alguma coisa. Naquela noite, entendi uma coisa estranha: ninguém tinha armado uma tocaia para mim. Eu mesmo tinha armado. Durante anos, desconfiei de todo mundo. Li segundas intenções onde talvez só existissem palavras mal colocadas. Esperei a mentira antes da verdade. Guardei sentimentos como quem guarda munição. Quando alguém se aproximava demais, eu já imaginava a distância que teria de atravessar depois. Chamava aquilo de experiência. Era medo com um nome bonito. O problema de viver esperando o tiro é que, depois de um tempo, você começa a atirar primeiro. Não necessariamente nos outros. Às vezes, atira em coisas que poderiam ter dado certo. Em conversas que poderiam ter sido honestas. Em pessoas que talvez tivessem ficado. Em versões de mim mesmo que ainda sabiam confiar. Percebi isso sentado no escuro. A pior tocaia não é aquela preparada por quem quer te derrubar. É aquela que você prepara para impedir alguém de chegar perto o suficiente para fazer isso. E então veio a parte difícil. Não havia vilão para culpar. Não havia mensagem escondida, traição conveniente ou monstro esperando atrás da porta. Havia apenas eu. Um homem cansado, segurando a própria vida com tanta força que já não sabia se estava protegendo alguma coisa ou impedindo que ela respirasse. E talvez essa tenha sido a primeira vez em muito tempo que eu não tentei fugir dessa conclusão. Fiquei sentado. Olhei para o escuro. E deixei que ela doesse um pouco. Porque talvez eu tenha passado tanto tempo tentando descobrir quem poderia me machucar que nunca parei para perceber quantas coisas eu estava machucando sozinho. Na manhã seguinte, saí de casa. Não estava curado. Não estava transformado. Não tinha aprendido nenhuma grande lição. Só deixei a porta destrancada. Talvez fosse pouco. Mas, para alguém que passou tanto tempo construindo armadilhas para não ser ferido, aquilo já parecia quase uma revolução. Porque talvez confiar não seja acreditar que ninguém vai me machucar. Talvez seja simplesmente aceitar que, se eu passar a vida inteira tentando impedir qualquer possibilidade de dor, também vou acabar impedindo qualquer possibilidade de amor. E eu já não queria viver assim. Não queria mais confundir distância com segurança. Nem silêncio com controle. Nem medo com experiência. Naquele dia, não prometi que nunca mais teria medo. Só prometi que, da próxima vez que alguém chegasse perto, eu tentaria não preparar a tocaia antes de abrir a porta.

não me importa quanto tempo vai levar. Talvez o problema nunca tenha sido falta de amor. Talvez tenha sido excesso de certeza.
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não me importa quanto tempo vai levar. Talvez o problema nunca tenha sido falta de amor. Talvez tenha sido excesso de certeza. Aquela certeza perigosa de quem acredita que algumas pessoas não precisam ser escolhidas todos os dias porque, de algum jeito, elas já escolheram ficar. E foi assim que ele aprendeu uma das coisas mais caras sobre amar alguém, não basta sentir. É preciso perceber. Perceber quando uma conversa está sendo adiada demais. Quando um abraço deveria durar mais alguns segundos. Quando alguém está tentando dizer alguma coisa sem encontrar coragem para usar as palavras. Porque o amor raramente acaba como nos filmes. Posso me basear no Diário de Uma Paixão, mas Não existe sempre uma última frase, uma porta batendo ou uma despedida perfeita. Às vezes ele vai ficando menor em detalhes tão insignificantes que ninguém percebe. Uma mensagem que não foi respondida direito. Um encontro que poderia ter acontecido. Um "depois a gente conversa". Um orgulho que parecia tão pequeno naquele momento. E, quando você percebe, já está tentando lembrar em qual dessas pequenas coisas começou a perder alguém. Ele demorou para entender isso. Achava que amar era uma coisa grandiosa. Que precisava de declarações, planos impossíveis, promessas que coubessem em anos. Mas descobriu que talvez o amor more justamente no contrário. Em prestar atenção. Em lembrar de uma coisa que a pessoa disse semanas atrás. Em perguntar como foi o dia e realmente querer saber. Em escolher ficar mais cinco minutos quando seria mais fácil ir embora. Em olhar para alguém e pensar: eu não quero descobrir o valor disso depois. Talvez maturidade seja isso. Não saber amar perfeitamente, porque ninguém sabe. Mas aprender a reconhecer aquilo que não deveria ser tratado como garantido. Porque existe uma diferença enorme entre ter alguém e continuar tendo alguém. A primeira coisa pode acontecer por acaso. A segunda exige presença. E talvez seja por isso que algumas pessoas só entendam o tamanho de um amor quando já não podem mais alcançá-lo com a mesma facilidade. Não porque eram ruins. Não porque não sentiam. Mas porque confundiram sentimento com permanência. E permanência nunca foi promessa. Naquela noite, ele não queria voltar no tempo. Queria apenas ter tido os olhos que tinha agora quando ainda havia tempo. E talvez essa seja a parte mais bonita de tudo: nem todo arrependimento precisa terminar em tristeza. Alguns servem como mapa. Mostram onde erramos para que, quando a vida colocar outra pessoa diante de nós, não precisemos aprender a mesma lição duas vezes. Porque talvez o amor não esteja procurando alguém que nunca erre. Talvez esteja procurando alguém que, quando finalmente encontrar algo verdadeiro, tenha coragem de não deixar para amanhã aquilo que merece ser vivido hoje. E talvez, no fim das contas, seja disso que aquela velha frase realmente fale. Não sobre esperar alguém voltar. Mas sobre perceber que, enquanto houver tempo, ainda existe uma escolha. E algumas escolhas são simples: olhar. ficar. dizer. tentar. amar. Antes que o amor precise partir para finalmente ser compreendido. Porque as vezes ainda não é tarde demais. Só é preciso parar de agir como se fosse cedo demais.

won’t live here reference Eu sei que existe coisa em mim que talvez você nunca consiga entender. Talvez nem eu consiga.
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won’t live here reference Eu sei que existe coisa em mim que talvez você nunca consiga entender. Talvez nem eu consiga. Eu tenho meus defeitos, meus impulsos, meus dias em que parece que tudo dentro de mim escolhe o caminho errado. Eu sei que nem sempre sou fácil de amar. Sei que existem momentos em que minhas intenções chegam quebradas antes de chegarem até você, e aquilo que eu queria fazer certo acaba parecendo exatamente o contrário. Mas eu preciso que você olhe além disso. Porque eu nunca quis ser o homem que te machuca. Nunca quis que minhas falhas fossem maiores do que aquilo que eu sinto. Existe uma diferença entre ser bom e acertar sempre. Eu descobri isso tarde. Às vezes alguém pode querer fazer o bem e ainda assim fazer tudo errado. Pode amar de verdade e ainda não saber demonstrar. Pode ter o coração no lugar certo e as mãos completamente perdidas. E talvez eu seja isso. Alguém tentando aprender a ser aquilo que ainda não conseguiu ser. Por isso, quando você acordar e me encontrar ao seu lado, quando olhar para mim sem nenhuma das desculpas que eu poderia inventar, eu só queria saber uma coisa: o que você ainda enxerga em mim? Você vê os meus erros primeiro? Vê o homem que eu fui nos dias em que não soube cuidar? Ou consegue enxergar também aquele que está tentando? Porque eu ainda estou aqui. Não pronto. Não perfeito. Não acabado. Mas tentando. Eu não quero que você decida quem eu sou pelo pior momento que teve comigo. Não quero que uma versão minha seja a sentença de todas as outras que ainda podem existir. Eu sei que palavras não consertam tudo. Sei que prometer mudança é fácil quando a mudança ainda não aconteceu. Por isso eu não estou te pedindo para acreditar cegamente. Só não fecha a porta antes de descobrir quem eu posso me tornar. Eu ainda tenho muito para aprender. Ainda vou errar. Ainda vou precisar reconhecer coisas em mim que talvez doam. Mas eu não quero permanecer igual. Eu quero crescer para dentro daquilo que nós poderíamos ser. Quero aprender a amar sem transformar amor em peso. Quero aprender a cuidar sem precisar ser lembrado. Quero que um dia você olhe para mim e perceba que aquele homem que tantas vezes não soube o que fazer finalmente entendeu. Não porque alguém o obrigou. Mas porque amar você fez ele querer ser maior do que aquilo que sempre foi. Então não me veja como terminado. Eu ainda estou sendo construído. Ainda estou aprendendo meu próprio nome dentro daquilo que significa ser homem, ser companheiro, ser alguém em quem outra pessoa possa descansar. Talvez hoje eu ainda não seja esse homem. Mas eu estou indo na direção dele. E, se existe alguma coisa que eu gostaria que você soubesse antes de desistir de mim, é isso eu não estou pedindo que você ame aquilo que eu fui. Estou pedindo apenas a chance de você descobrir aquilo que eu ainda posso me tornar.