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Frase de Gabriel Parice Lopes

a níveis cósmicos Talvez algumas pessoas não voltem para a nossa vida. Talvez elas nunca tenham realmente saído. A gente só aprende a conviver com a distância. Aprende a seguir a rotina, conhecer outras pessoas, ocupar os espaços vazios e fingir que certas histórias ficaram para trás. (receio de parecer redundante) E funciona. Até o dia em que a gente se encontra de novo. Então acontece uma coisa simples demais para ser ignorada, parece que nada precisou ser recuperado. A conversa volta ao lugar onde parou. A risada ainda tem o mesmo efeito. Os apelidos continuam fazendo sentido. É como se o tempo tivesse passado para todo mundo, menos para nós dois. Talvez seja isso que torna algumas pessoas tão difíceis de transformar em passado. Porque, com elas, o passado nunca parece completamente encerrado. A gente pode passar meses tentando ficar longe, convencendo a si mesmo de que é melhor seguir caminhos diferentes. Mas, quando estamos no “mesmo lugar”, existe uma familiaridade que não precisa ser chamada. Ela simplesmente aparece. Como se alguma coisa dentro de mim dissesse “Ah. Era aqui.” E tudo volta a funcionar. Não de um jeito perfeito, mas natural. A conversa se desenrola sem esforço. Uma piada puxa outra, um assunto qualquer vira uma conversa de horas e, quando percebo, estou falando de coisas que COM CERTEZA não contaria para mais ninguém. Com você, eu não preciso escolher tanto as palavras. Existe um idioma que construímos sem perceber. Você sabe onde tocar para me fazer rir, entende meus silêncios, reconhece minhas manias e percebe qual versão de mim está aparecendo. Talvez essa seja uma das formas mais profundas de intimidade, não precisar reaprender alguém. A gente já se conhece. Só precisou se reencontrar. E é aí que tudo fica estranho. Quando estamos longe, parece possível seguir em frente, colocar cada coisa no seu lugar e aceitar que algumas histórias pertencem ao passado. Mas, quando estamos juntos, o mundo parece discordar. As cores ficam mais vivas. As coisas pequenas ganham importância. Uma conversa qualquer parece suficiente para salvar o dia. Um problema enorme perde o tamanho, não porque foi resolvido, mas porque estamos ali. Você não melhora a minha vida como quem chega para consertá-la. Você me faz lembrar de como é gostar dela. Não precisa trazer respostas, prometer que tudo vai dar certo ou mudar alguma coisa. Basta estar. E alguma coisa em mim descansa. É como se meu corpo reconhecesse uma casa que minha cabeça passou muito tempo tentando esquecer. Talvez por isso eu tenha a sensação de que nos conhecemos há mais tempo do que deveríamos. Como se a nossa história tivesse começado antes da primeira página que consigo lembrar. E existe uma coisa ainda mais difícil de explicar mesmo quando a distância vence, alguma parte de mim parece continuar orientada na sua direção. Não é pensamento. Não é exatamente saudade. É uma espécie de insistência silenciosa. Como se os olhos ainda soubessem procurar você antes mesmo de eu perceber que estou procurando. Como se meu corpo tivesse guardado, em algum lugar que a razão não alcança, uma noção muito particular de onde você está. Talvez seja por isso que, entre tantas pessoas, tantos lugares e tantos caminhos possíveis, existe sempre alguma coisa estranhamente familiar quando o caminho termina em você. Como se certas conexões não dependessem de proximidade para continuar existindo. A gente pode até tentar ficar longe, mas distância não é o mesmo que ausência. Distância é quando não estamos juntos. Ausência é quando a pessoa deixa de existir dentro da gente. E você nunca chegou a esse lugar. Não é que eu precise de você para existir. Nós dois conseguimos viver separados. Mas, quando existe a possibilidade de compartilhar a vida, aparece uma vontade maior do que a lógica. Ela não pergunta se é conveniente. Não calcula a distância, não consulta o calendário nem faz uma lista de motivos. Apenas olha para tudo que está no caminho e pergunta “Tá. Mas como a gente faz?” Os obstáculos continuam existindo. Só deixam de parecer maiores do que a vontade. A distância vira um detalhe. O tempo pode ser atravessado. O medo vira conversa. O passado deixa de ser uma sentença e passa a ser apenas parte da história. Porque existe alguma coisa entre nós que não se repete. Não é só química, saudade ou carinho. É reconhecimento. É olhar para alguém que eu já conheci de tantas formas e ainda encontrar algo novo. É saber quem você é e, mesmo assim, continuar querendo descobrir quem está se tornando. É ter história suficiente para entender o silêncio e curiosidade suficiente para continuar perguntando. E talvez seja justamente isso que torna tudo tão difícil de explicar, há coisas que a gente entende sem saber dizer como. Um olhar que encontra o outro no meio de uma sala. Uma presença que o corpo percebe antes da cabeça. A sensação de que, mesmo depois de tantos caminhos diferentes, existe uma espécie de direção que nunca deixou de existir. Não sei se algumas pessoas ficam gravadas na memória. Talvez fiquem em lugares mais profundos do que isso. Quando compartilhamos a vida, mesmo que por pouco tempo, existe uma paz difícil de explicar para quem olha de fora. Ninguém entende completamente as nossas piadas, os apelidos, os silêncios ou o motivo de uma frase qualquer fazer nós dois rirmos daquele jeito. E talvez nem precise entender. Algumas coisas ficam mais bonitas quando não podem ser traduzidas. Existem relações que podem ser explicadas e existem relações que só podem ser vividas. A nossa parece pertencer a segunda categoria. É por isso que nada se compara. Não porque não existam outras pessoas incríveis, mas porque nenhuma delas é você. Nenhuma carrega exatamente a nossa história, conhece a nossa língua ou sabe chegar naquele lugar específico dentro de mim. O que mais me impressiona é que nós já tentamos ficar fora da vida um do outro. E, ainda assim, quando voltamos a compartilhá-la, tudo parece fazer sentido rápido demais. Como se, apesar de todos os caminhos diferentes, alguma parte de nós ainda soubesse voltar. E talvez o mistério não seja entender por que continuamos sendo puxados um para o outro. Talvez seja perceber o que acontece quando paramos de resistir. O mundo fica mais leve. A conversa acontece. A vontade vence algumas distâncias. Os problemas diminuem de tamanho. A gente volta a falar aquela língua que só nós dois conhecemos. Por algumas horas, não existe passado, futuro ou necessidade de definir nada. Existe você. Existe eu. E existe a sensação quase inacreditável de que, entre todas as possibilidades da vida, estamos exatamente onde deveríamos estar. Quando estamos juntos, não parece que estamos começando de novo. Parece que, depois de tanto tempo tentando ficar longe, finalmente paramos de lutar contra algo que sempre soubemos juntos, existe paz. Existe paz quando abraçamos as nossas crianças internas, um refúgio. E talvez você não faça a minha vida parecer melhor. Talvez você faça a vida parecer o lugar certo.

Gabriel Parice Lopes

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Gabriel Parice Lopes

veneno. Sei como ele desce pela garganta e como parece ficar preso no meio do peito antes de chegar no estômago. No começo é quase nada, só um gosto amargo na boca. Depois vem o calor. A barriga começa a apertar, como se tivesse alguma coisa se espalhando por dentro, queimando d…
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veneno. Sei como ele desce pela garganta e como parece ficar preso no meio do peito antes de chegar no estômago. No começo é quase nada, só um gosto amargo na boca. Depois vem o calor. A barriga começa a apertar, como se tivesse alguma coisa se espalhando por dentro, queimando devagar. Eu sei que ele está ali porque começo a pensar diferente. Qualquer coisa ganha outro peso. Uma coisa pequena fica grande. Um silêncio parece esconder alguma coisa. Uma ausência começa a incomodar. Uma conversa que eu nem ouvi parece ter mil possibilidades dentro dela. E eu fico tentando descobrir o que aconteceu sem ter como saber. Quanto mais eu penso, mais ele queima. Quanto mais tento entender, mais parece que preciso entender outra coisa antes. Eu volto para os mesmos pensamentos, lembro de coisas que já aconteceram, misturo com coisas que poderiam acontecer e, quando percebo, já estou sentindo no corpo alguma coisa que ainda nem aconteceu de verdade. Minha boca fica seca. A respiração muda. O estômago fecha. Fica aquela sensação quente e ruim, como se eu tivesse engolido alguma coisa que meu corpo sabe que não deveria estar ali. E eu não sei exatamente do que tenho medo. Eu tenho medo do que não conheço, do que não consigo ver, do que acontece quando não estou perto. Tenho medo das coisas que não consigo controlar e das coisas que não consigo perguntar sem parecer que estou procurando um problema onde talvez não exista nenhum. Mas o corpo não entende muito de talvez. Ele sente primeiro. Sinto, eu. Sinto mesmo quando uma parte de mim sabe que pode não significar nada. Sinto mesmo quando não tenho uma resposta concreta. Sinto porque existem coisas que já vivi, coisas que ficaram em mim de algum jeito, e quando alguma coisa toca nesse lugar o gosto do veneno volta. Eu não escolho sentir isso. Queria conseguir simplesmente olhar para alguma coisa e deixar passar. Não ficar imaginando, não procurar significado, não sentir aquela pressão no estômago. Só que eu não consigo mandar a sensação embora só porque sei que ela pode estar errada. Eu sei o quanto esse veneno pode me fazer mal, mas não sei se vou conseguir impedir que ele entre. Porque não é só uma coisa que eu penso. Eu sinto no corpo. Sinto a garganta fechar um pouco, o peito pesar, a barriga queimar. Sinto vontade de me afastar, de ficar quieto, de não falar enquanto tento entender o que está acontecendo dentro de mim. Guerra interna e é só dentro que acontece tudo. Eu não quero viver assim. Não quero transformar tudo que não conheço em alguma coisa que preciso temer. Não quero que o medo faça com que eu enxergue perigo onde talvez exista apenas uma coisa que eu ainda não entendo. Mas também não consigo fingir que não sinto. Então acho aue é isso que eu ainda não sei fazer, sentir o gosto do veneno sem deixar que ele me convença de que tudo ao redor está contaminado. Porque algumas vezes ele vai voltar. E eu ainda não sei quanto tempo vou levar para aprender a sentir a queimação sem precisar descobrir de onde ela veio.

efervescência. Uma estação meteorológica no meio do oceano passa os dias registrando o que acontece ao redor dela, embora ninguém esteja realmente ali para olhar. Ela fica sozinha, recebendo vento, chuva, mudança de pressão, correnteza, e mandando números para algum lugar muito…
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efervescência. Uma estação meteorológica no meio do oceano passa os dias registrando o que acontece ao redor dela, embora ninguém esteja realmente ali para olhar. Ela fica sozinha, recebendo vento, chuva, mudança de pressão, correnteza, e mandando números para algum lugar muito distante, onde alguém provavelmente olha para aqueles dados tentando descobrir se o que está acontecendo no meio do mar vai chegar até a costa. Gosto de imaginar que, em algum momento, alguém começou a perceber pequenas alterações nos registros e passou a acompanhá-las com mais atenção do que deveria, não porque houvesse uma tempestade, mas porque havia alguma coisa diferente acontecendo e a diferença, quando a gente não entende de onde veio, costuma ser suficiente para ocupar mais espaço do que deveria. Por isso que eu tenho tanta facilidade para me perder em pequenas coisas. Não é preciso que o céu fique preto ou que o mar se levante para eu começar a prestar atenção, as vezes basta uma mudança tão pequena que ninguém mais percebe, uma direção diferente do vento ou uma nuvem que parece estar se formando mais longe do que de costume, e de repente aquilo que era apenas parte da paisagem começa a parecer uma mensagem que eu ainda não consegui decifrar. Eu sei que existe uma diferença enorme entre observar e interpretar, mas quando alguma coisa importa de verdade parece que o cérebro esquece dessa diferença e começa a tratar qualquer detalhe como se tivesse sido colocado ali especialmente para ser encontrado. O curioso é que, quando a gente está longe, tudo parece maior do que realmente é. Um barco se transforma num ponto no horizonte e, justamente por ser pequeno demais para enxergar direito, passa a carregar todas as possibilidades que a distância permite. Você não sabe quem está dentro, não sabe para onde vai, não sabe se está indo embora ou apenas seguindo uma corrente que você não consegue ver, e mesmo assim existe uma vontade de continuar acompanhando aquele ponto até que ele desapareça, como se olhar por tempo suficiente pudesse finalmente revelar alguma coisa. Eu acho que é aí que começa a confusão, porque não existe nada de errado em querer entender o que está diante dos olhos, mas existe alguma coisa profundamente cansativa em sentir que só consegue ficar tranquilo depois de entender tudo. A pessoa passa a observar o próprio pensamento como se estivesse tentando encontrar uma rachadura numa parede, e quanto mais procura, mais pequenas imperfeições aparecem. Uma palavra que poderia ter sido dita de outro jeito, um intervalo que poderia ter sido menor, uma mudança que talvez nem tenha acontecido, e tudo isso vai sendo colocado lado a lado até formar uma imagem que parecia não existir antes. Depois vem aquela sensação desagradável de ter ido longe demais, e eu queria que fosse diferente. Queria conseguir deixar certas coisas simplesmente existirem sem precisar acompanhar o tempo inteiro, porque existe uma maturidade muito bonita em quem consegue confiar no que não está vendo e continuar vivendo sem transfomar a distância numa ameaça. admiro isso nas pessoas. Essa capacidade de deixar uma janela aberta sem precisar passar a noite inteira verificando se ainda está aberta, de saber que existe um mundo acontecendo fora do próprio campo de visão e não sentir que precisa conhecer inteiro para permanecer em paz. Ainda estou aprendendo essa parte, porque existe uma coisa muito estranha em perceber que, as vezes, a vontade de proteger alguma coisa começa a se parecer com a vontade de apertá-la. É parecido com uma sutura que você fica examinando porque está preocupado com a cicatrização e, sem perceber, passa a mão perto demais, encosta onde não devia, sente aquela queimadura fina que vem de dentro e imediatamente quer mexer outra vez para descobrir se está tudo bem. Só que a pele não entende preocupação como a gente entende. Ela só entende que foi tocada antes da hora, e aquilo que estava fechando começa a reclamar. pode ser que, certas partes de nós funcionem assim também. A gente sente uma coisa, tenta descobrir de onde veio, volta nela, procura outra explicação, encontra uma terceira, e quando percebe já está cansado de uma história que começou pequena demais para merecer tudo aquilo. O que torna tudo pior, porque ninguém gosta de admitir que passou tempo demais olhando para uma nuvem tentando descobrir se ela significava chuva quando talvez ela estivesse apenas passando. Eu gostaria de conseguir fazer diferente sem precisar deixar de sentir. Não quero me tornar alguém indiferente, porque acho que a indiferença seria uma solução muito fácil para um problema que não deveria precisar de solução. O que eu quero é aprender a não transformar aquilo que sinto em uma obrigação de agir, aprender que uma inquietação pode existir dentro de mim sem precisar virar pergunta, investigação ou resposta, e que nem toda coisa que queima precisa ser aberta para descobrir por que está queimando. E seja isso que o tempo faça quando finalmente consegue trabalhar sem a nossa interferência, ele pega aquilo que parecia impossível de deixar quieto e, pouco a pouco, ensina o corpo a não procurar mais a ferida. Enquanto isso, a estação continua no meio do oceano registrando o vento, a pressão e a temperatura, mandando seus números para algum lugar que não consegue enxergar o mar inteiro de uma vez. Alguém recebe aqueles registros e passa horas tentando descobrir o que eles significam, talvez alguém simplesmente arquive tudo e espere a próxima medição. O oceano continua existindo nos dois casos, indiferente à quantidade de atenção que recebe, e talvez haja alguma paz escondida justamente nisso, em entender que nem tudo precisa ser acompanhado para continuar sendo verdadeiro. Eu ainda olho para o horizonte mais vezes do que gostaria, ainda existe uma parte de mim que tenta encontrar formas nas nuvens e imaginar o que existe depois delas, mas estou começando a entender que crescer talvez não seja deixar de olhar. E sim olhar e conseguir permanecer onde estou, sem transformar aquilo que não alcanço em alguma coisa que preciso possuir, explicar ou impedir. E, quem sabe, depois de algum tempo, o céu volte a ser apenas céu, o mar volte a ser apenas mar e aquilo que hoje parece tão urgente consiga finalmente passar por mim sem deixar a mesma queimadura.

reamar. Enterro o que fomos sem negar o que fomos, deixo o antigo amor repousar sem pesar
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reamar. Enterro o que fomos sem negar o que fomos, deixo o antigo amor repousar sem pesar há coisas que morrem para que, entre os escombros, duas mãos diferentes se possam tocar. Não quero o retorno do mesmo começo, nem repetir promessas que o tempo desfez se ela vier, que eu saiba encontrá-la de novo, como quem conhece e descobre outra vez. Imagino nós dois numa mesa qualquer, ela contando alguma coisa e eu distraído, não pelo que diz, mas pelo jeito de dizer como se o amor tivesse enfim aprendido que amar não é saber quem o outro será, é ter curiosidade de vê-lo mudar. E talvez, quando a tarde cair sobre nós, eu perceba, sorrindo, uma coisa singela não foi o tempo que trouxe de volta a nós, foi o que aprendemos enquanto faltava ela. Porque ainda seremos estranhos em certas manhãs, ainda haverá perguntas que não saberemos fazer e eu quero justamente essas partes humanas: descobrir sua nova maneira de ser. Que ela também me encontre sem me procurar, nas versões antigas que um dia conheceu. Eu não quero que ela volte para o homem de lá, quero que ela conheça o homem que o tempo me deu. E se algum dia estivermos, sem perceber, em qualquer canto do mundo, sem nada especial, eu quero olhar para ela e finalmente entender o nosso amor não voltou. Ele começou de novo.

a parte mais bonita de mim. Eu não sei em que momento você deixou de ser apenas alguém que eu amava e passou a ser um lugar. Talvez tenha sido aos poucos, como essas coisas importantes costumam acontecer, primeiro na maneira como sua presença mudava o peso dos meus dias, depois…
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a parte mais bonita de mim. Eu não sei em que momento você deixou de ser apenas alguém que eu amava e passou a ser um lugar. Talvez tenha sido aos poucos, como essas coisas importantes costumam acontecer, primeiro na maneira como sua presença mudava o peso dos meus dias, depois na falta que fazia quando não estava, até chegar ao ponto em que já não era possível distinguir saudade de vontade, lembrança de esperança, passado de alguma coisa que ainda insistia em nascer. Existem amores que chegam como tempestade. O nosso nunca me pareceu assim. O nosso sempre teve mais a ver com a luz entrando devagar pela janela de manhã, com aquela paz estranha de encontrar alguém e sentir que, por alguns minutos, o mundo finalmente parou de exigir alguma coisa. Você tinha esse efeito sobre mim. Não precisava fazer nada extraordinário. Bastava existir perto o suficiente para que as coisas comuns ganhassem outro tipo de beleza. É o que mais me assusta. Porque eu poderia esquecer uma conversa, uma data, uma tarde específica. Poderia até tentar convencer a memória de que determinados momentos não foram tão importantes assim. Mas como se esquece a sensação de ter encontrado alguém diante de quem a própria alma parecia descansar? Eu te amo também nas pequenas coisas. No silêncio que não precisava ser preenchido. No jeito como eu imaginava seus olhos encontrando os meus depois de um dia difícil. Na vontade de te contar alguma coisa quando acontecia, mesmo que fosse absolutamente insignificante. No desejo de dividir contigo não apenas as grandes conquistas, mas também as partes mais complicadas da vida, o cansaço, a preguiça, uma música, uma rua bonita, uma noite qualquer. Porque amar você nunca foi somente querer você. Foi querer a vida quando ela tinha você dentro. E talvez por isso tenha existido tanta gratidão. Gratidão por ter conhecido uma pessoa capaz de despertar em mim uma ternura que eu nem sabia que ainda possuía. Gratidão pelos momentos em que o mundo parecia pequeno o bastante para caber entre duas pessoas. Gratidão por cada instante em que eu olhei para você e pensei, quase sem perceber como pode alguém ser tão bonita quando simplesmente está sendo ela mesma? Eu não precisava de uma versão perfeita sua. Nunca precisei. Queria que você se enxergasse pelos meus olhos... Queria justamente aquilo que não podia ser ensaiado, seus defeitos, suas contradições, seus dias bons e seus dias difíceis, o que você escondia e o que deixava escapar sem perceber. Queria conhecer aquilo que existia por trás daquilo que todo mundo conseguia enxergar. Porque há uma intimidade maior do que tocar alguém. É ser autorizado a conhecer seus lugares inacessíveis. E eu teria ficado ali. Mesmo quando você não soubesse o que dizer. Mesmo quando o mundo pesasse demais. Mesmo quando você duvidasse de si. Eu teria querido ser aquela presença que não exige que você seja forte o tempo inteiro. Aquela espécie de abrigo silencioso onde você pudesse simplesmente existir. A fita de amar alguém é isso, olhar para uma pessoa e, em vez de desejar que ela se torne aquilo que você imaginou, desejar que ela tenha liberdade suficiente para continuar sendo aquilo que é. E ainda assim permanecer. Ainda assim escolher. Ainda assim olhar. Porque algumas pessoas não são apenas desejadas. São reconhecidas. Como se alguma parte nossa dissesse, antes mesmo que a razão consiga explicar, é você. E eu reconheci você. Reconheci na primeira vez e reconheceria em outras vidas, em outras cidades, em outros nomes, sob outras versões de nós mesmos. Reconheceria sua maneira de existir mesmo que tudo ao redor mudasse. Talvez porque certas coisas não sejam guardadas pela memória, mas por uma região muito mais profunda da gente. Por isso, se um dia tudo aquilo que fomos virar apenas uma lembrança distante, eu ainda vou considerar bonito o fato de ter existido. Não porque tenha sido perfeito. Mas porque foi verdadeiro enquanto aconteceu. E se o amor tiver mesmo alguma forma de eternidade, talvez ela não esteja em permanecer para sempre ao lado de alguém. Talvez esteja em conseguir carregar uma pessoa dentro de si sem precisar aprisioná-la. Então eu não quero transformar o que senti em posse. Quero transformar em permanência. Daquelas que não fazem barulho. Que continuam existindo numa música qualquer, numa noite silenciosa, numa lua cheia, numa vontade repentina de olhar para o céu e lembrar que, em algum lugar do mundo, alguém já fez você enxergar beleza onde antes havia apenas escuridão. E se algum dia você se perguntar se foi amada de verdade, espero que a resposta encontre você antes mesmo da pergunta terminar. Porque houve alguém que olhou para você e não viu apenas uma pessoa bonita. Viu casa. Viu oceano. Viu a parte mais delicada de si mesmo refletida em outros olhos. E, por um instante raro e inexplicável, teve a sensação de que finalmente tinha encontrado aquilo que tantas músicas tentam descrever quando falam sobre amor. Não tô falando do amor que grita. Não tô falando do amor que prende. Mas aquele que simplesmente olha para alguém e pensa se for para existir alguma coisa bonita neste mundo, que seja o tempo que eu tiver ao seu lado.