A vida meu amor quer vivê-la
Na mesma taça, erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la
Que importa o mundo e As ilusões defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vãs?...
O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas
Amor que Morre
O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!
Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...
Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.
Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!
Sonho que sou Alguem cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no ceu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...
E não sou nada!...
"Gosto das belas coisas claras e simples, das grandes ternuras perfeitas, das doces compreensões silenciosas, gosto de tudo, enfim, onde encontro um pouco de Beleza e de verdade ...Porque há ainda no mundo, graças a Deus, almas-astros onde eu gosto de me refletir, almas de sinceridade e de pureza sobre as quais adoro debruçar a minha..."
Florbela Espanca
SER POETA
"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! morder como quem beija!
È ser mendigo e dar como quem seja
Rei do reino de Aquém e de Além dor!
È ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
È ter cá dentro um astro que flameja,
È ter garras e asas de condor!
È ter fome, e ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
È condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
È seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!