Quem nos deu asas para andar de rastos? Quem nos deu olhos para ver os astros Sem nos dar braços para os alcançar?!
Frases de Florbela Espanca
180 frases
Amiga Deixa-me ser a tua amiga, amor, A tua amiga só, já que não queres
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Amiga Deixa-me ser a tua amiga, amor, A tua amiga só, já que não queres Que pelo teu amor seja a melhor A mais triste de todas as mulheres. Que só, de ti, me venha magoa e dor O que me importa a mim? O que quiseres É sempre um sonho bom! Seja o que for, Bendito sejas tu por mo dizeres! Beijá-me as mãos, amor, devagarinho... Como se os dois nascêssemos irmãos, Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho... Beija-mas bem!... Que fantasia louca Guardar assim, fechados, nestas mãos, Os beijos que sonhei pra minha boca!
Alma perdida Toda esta noite o rouxinol chorou, Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
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Alma perdida Toda esta noite o rouxinol chorou, Gemeu, rezou, gritou perdidamente! Alma de rouxinol, alma da gente, Tu és, talvez, alguém que se finou! Tu és, talvez, um sonho que passou, Que se fundiu na Dor, suavemente... Talvez sejas a alma, a alma doente Dalguém que quis amar e nunca amou! Toda a noite choraste... e eu chorei Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei Que ninguém é mais triste do que nós! Contaste tanta coisa à noite calma, Que eu pensei que tu eras a minh'alma Que chorasse perdida em tua voz!...
Conto De Fadas. Eu trago-te nas mãos o esquecimento Das horas más que tens vivido, Amor!
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Conto De Fadas. Eu trago-te nas mãos o esquecimento Das horas más que tens vivido, Amor! E para as tuas chagas o ungüento Com que sarei a minha própria dor. Os meus gestos são ondas de Sorrento... Trago no nome as letras duma flor... Foi dos meus olhos garços que um pintor Tirou a luz para pintar o vento... Dou-te o que tenho: o astro que dormita, O manto dos crepúsculos da tarde, O sol que é de oiro, a onda que palpita. Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez! Eu sou Aquela de quem tens saudade, A princesa de conto: "Era uma vez..."
Frieza Os teus olhos são frios como espadas, E claros como os trágicos punhais;
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Frieza Os teus olhos são frios como espadas, E claros como os trágicos punhais; Têm brilhos cortantes de metais E fulgores de lâminas geladas. Vejo neles imagens retratadas De abandonos cruéis e desleais, Fantásticos desejos irreais, E todo o oiro e o sol das madrugadas! Mas não te invejo, amor, essa indiferença, Que viver neste mundo sem amar É pior que ser cego de nascença! Tu invejas a dor que vive em mim! E quanta vez dirás a soluçar: "Ah! Quem me dera, irmã, amar assim!"
Caravelas Cheguei a meio da vida já cansada De tanto caminhar!Já me perdi!
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Caravelas Cheguei a meio da vida já cansada De tanto caminhar!Já me perdi! Dum estranho país que nunca vi Sou nesse mundo imenso a exilada. Tanto tenho aprendido e não sei nada E as torres de marfím que construí Em trágica loucura as destruí Por minhas próprias mãos de malfadada! Se eu sempre fui assim este Mar morto: Mar sem marés,sem vagas e sem porto Onde velas de sonhos se rasgaram! Caravelas doiradas a bailar... Aí quem me dera as que eu deitei ao Mar! As que eu lancei à vida,e não voltaram!...
Os versos que te fiz Deixa dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem para te dizer!
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Os versos que te fiz Deixa dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem para te dizer! São talhados em mármore de Paros Cinzelados por mim para te oferecer Têm dolência de veludos caros, São como sedas pálidas a arder... Deixa dizer-te os lindos versos raros Que foram feitos pra te endoidecer! Mas,meu Amor,eu não tos digo ainda. Que a boca da mulher é sempre linda Se dentro guarda um verso que não diz Amo-te tanto!E nunca te beijei... E nesse beijo,Amor,que eu não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Sem remédio Aqueles que me têm muito amor Não sabem o que sinto e o que sou
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Sem remédio Aqueles que me têm muito amor Não sabem o que sinto e o que sou Não sabem que passou, um dia, a Dor à minha porta e, nesse dia, entrou. E é desde então que eu sinto este pavor Este frio que anda em mim, e que gelou O que de bom me deu Nosso Senhor! Se eu nem sei por onde ando e aonde vou! Sinto os passos de Dor, essa cadência Que é já tortura infinda, que é demência! Que é já vontade doida de gritar! E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, A mesma angústia funda, sem remédio, Andando atrás de mim, sem me largar!
Minha Culpa Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem...
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Minha Culpa Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem... Sou um reflexo...um canto de paisagem Ou apenas cenário! Um vaivém Como a sorte: hoje aqui, depois além! Sei lá quem sou?Sei lá! Sou a roupagem De um doido que partiu numa romagem E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!... Sou um verme que um dia quis ser astro... Uma estátua truncada de alabastro... Uma chaga sangrenta do Senhor... Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, Num mundo de maldades e pecados, Sou mais um mau, sou mais um pecador...
O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se se…
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O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!
A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente.
Nunca fui como todos Nunca tive muitos amigos Nunca fui favorita
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Nunca fui como todos Nunca tive muitos amigos Nunca fui favorita Nunca fui o que meus pais queriam Nunca tive alguém que amasse Mas tive somente a mim A minha absoluta verdade Meu verdadeiro pensamento O meu conforto nas horas de sofrimento não vivo sozinha porque gosto e sim porque aprendi a ser só...
Eu não sou boa nem quero sê-lo, contento-me em desprezar quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um.
A UM MORIBUNDO Não tenhas medo, não! Tranqüilamente, Como adormece a noite pelo Outono,
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A UM MORIBUNDO Não tenhas medo, não! Tranqüilamente, Como adormece a noite pelo Outono, Fecha os teus olhos, simples, docemente, Como, à tarde, uma pomba que tem sono... A cabeça reclina levemente E os braços deixa-os ir ao abandono, Como tombam, arfando, ao sol poente, As asas de uma pomba que tem sono... O que há depois? Depois?... O azul dos céus? Um outro mundo? O eterno nada? Deus? Um abismo? Um castigo? Uma guarida? Que importa? Que te importa, ó moribundo? - Seja o que for, será melhor que o mundo! Tudo será melhor do que esta vida!...
Amar! Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: Aqui... além...
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Amar! Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: Aqui... além... Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente Amar! Amar! E não amar ninguém! Recordar? Esquecer? Indiferente!... Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguém Durante a vida inteira é porque mente! Há uma Primavera em cada vida: É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... pra me encontrar...
VAIDADE Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe,
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VAIDADE Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe, Que tem a inspiração pura e perfeita, Que reúne num verso a imensidade! Sonho que um verso meu tem claridade Para encher todo o mundo! E que deleita Mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! Sonho que sou Alguém cá neste mundo... Aquela de saber vasto e profundo, Aos pés de quem a Terra anda curvada! E quando mais no céu eu vou sonhando, E quando mais no alto ando voando, Acordo do meu sonho...E não sou nada!...
Escreve-me ... Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas,
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Escreve-me ... Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas, Suave como o teu nome e casta Como um perfume casto d'açucenas! Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo Que te não vejo, amor!Meu coração Morreu já,e no mundo aos pobres mortos Ninguém nega uma frase d'oração! "Amo-te!"Cinco letras pequeninas, Folhas leves e tenras de boninas, Um poema d'amor e felicidade! Não queres mandar-me esta palavra apenas? Olha, manda então...brandas...serenas... Cinco pétalas roxas de saudade...
Versos de orgulho O mundo quer-me mal porque ninguém Tem asas como eu tenho ! Porque Deus
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Versos de orgulho O mundo quer-me mal porque ninguém Tem asas como eu tenho ! Porque Deus Me fez nascer Princesa entre plebeus Numa torre de orgulho e de desdém. Porque o meu Reino fica para além ... Porque trago no olhar os vastos céus E os oiros e clarões são todos meus ! Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém ! O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ? __O jardim dos meus versos todo em flor ... A seara dos teus beijos, pão bendito ... Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ... __São os teus braços dentro dos meus braços, Via Láctea fechando o Infinito.
Ser Poeta Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija!
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Ser Poeta Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendos E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e cetim… É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma e sangue e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
Não és sequer a razão de meu viver, pois que tu és já toda a minha vida.
Silêncio No fadário que é meu, neste penar, Noite alta, noite escura, noite morta,
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Silêncio No fadário que é meu, neste penar, Noite alta, noite escura, noite morta, Sou o vento que geme e quer entrar, Sou o vento que vai bater-te à porta... Vivo longe de ti, mas que me importa? Se já não vivo em mim! Ando a vaguear Em roda à tua casa, a procurar Beber-te a voz, apaixonada, absorta! Estou junto de ti, e não me vês... Quantas vezes no livro que tu lês Meu olhar se pousou e se perdeu! Trago-te como um filho nos meus braços! E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos.. Silêncio, meu Amor!... Abre!... Sou eu!...
Bendita seja a Mãe que te gerou. Bendito o leite que te fez crescer. Bendito o berço aonde te embalou
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Bendita seja a Mãe que te gerou. Bendito o leite que te fez crescer. Bendito o berço aonde te embalou A tua ama, para te adormecer! Bendita essa canção que acalentou Da tua vida o doce alvorecer... Bendita seja a Lua, que inundou De luz, a Terra, só para te ver... Benditos sejam todos que te amarem, As que em volta de ti ajoelharem Numa grande paixão fervente e louca! E se mais que eu, um dia, te quiser Alguém, bendita seja essa Mulher, Bendito seja o beijo dessa boca!
Eu ... eu sou a que no mundo anda perdida, eu sou a que na vida nao tem norte,
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Eu ... eu sou a que no mundo anda perdida, eu sou a que na vida nao tem norte, sou a irmã do sonho, e desta sorte sou a crucificada ... a dolorida ... Sombra de névoa tênue e esvaecida, e que o destino amargo , triste e forte, impele brutalmente para a morte ! alma de luto sempre incompreendida !... sou aquela que passa e ninguém vê ... sou a que chamam de triste sem o ser ... sou a que chora sem saber por quê ... sou talvez a visão que alguém sonhou, alguém que veio ao mundo pra me ver, e que nunca na vida me encontrou !
"... longe de ti são ermos os caminhos."