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Frases de Florbela Espanca

180 frases

Se tu viesses ver-me Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços,
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Se tu viesses ver-me Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços… Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca… o eco dos teus passos… O teu riso de fonte… os teus abraços… Os teus beijos… a tua mão na minha… Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcíssimas dum beijo E é de seda vermelha e canta e ri E é como um cravo ao sol a minha boca… Quando os olhos se me cerram de desejo… E os meus braços se estendem para ti…

Nosso sonho morreu. Devagarinho, Rezemos uma prece doce e triste Por alma desse sonho! Vá… baixinho…
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Nosso sonho morreu. Devagarinho, Rezemos uma prece doce e triste Por alma desse sonho! Vá… baixinho… Por esse sonho, amor, que não existe! Vamos encher-lhe o seu caixão dolente De roxas violetas; triste cor! Triste como ele, nascido ao sol poente, O nosso sonho… ai!… reza baixo… amor… Foste tu que o mataste! E foi sorrindo, Foi sorrindo e cantando alegremente, Que tu mataste o nosso sonho lindo! Nosso sonho morreu… Reza mansinho… Ai, talvez que rezando, docemente, O nosso sonho acorde… mais baixinho…

Vulcões Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal Não tem a lividez sinistra da montanha
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Vulcões Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal Não tem a lividez sinistra da montanha Quando a noite a inunda dum manto sem igual De neve branca e fria onde o luar se banha. No entanto que fogo, que lavas, a montanha Oculta no seu seio de lividez fatal! Tudo é quente lá dentro… e que paixão tamanha A fria neve envolve em seu vestido ideal! No gelo da indiferença ocultam-se as paixões Como no gelo frio do cume da montanha Se oculta a lava quente do seio dos vulcões… Assim quando eu te falo alegre, friamente, Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

Ter um sonho, um sonho lindo, Noite branda de luar, Que se sonhasse a sorrir…
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Ter um sonho, um sonho lindo, Noite branda de luar, Que se sonhasse a sorrir… Que se sonhasse a chorar… Ter um sonho, que nos fosse A vida, a luz, o alento, Que a sonhar beijasse doce A nossa boca… um lamento… Ser pra nós o guia, o norte, Na vida o único trilho; E depois ver vir a morte Despedaçar esses laços!… …É pior que ter um filho Que nos morresse nos braços

Mistério Gosto de ti, ó chuva, nos beirados, Dizendo coisas que ninguém entende!
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Mistério Gosto de ti, ó chuva, nos beirados, Dizendo coisas que ninguém entende! Da tua cantilena se desprende Um sonho de magia e de pecados. Dos teus pálidos dedos delicados Uma alada canção palpita e ascende, Frases que a nossa boca não aprende, Murmúrios por caminhos desolados. Pelo meu rosto branco, sempre frio, Fazes passar o lúgubre arrepio Das sensações estranhas, dolorosas… Talvez um dia entenda o teu mistério… Quando, inerte, na paz do cemitério, O meu corpo matar a fome às rosas!

Aos olhos dele Não acredito em nada. As minhas crenças Voaram como voa a pomba mansa;
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Aos olhos dele Não acredito em nada. As minhas crenças Voaram como voa a pomba mansa; Pelo azul do ar. E assim fugiram As minhas doces crenças de criança. Fiquei então sem fé; e a toda a gente Eu digo sempre, embora magoada: Não acredito em Deus e a Virgem Santa É uma ilusão apenas e mais nada! Mas avisto os teus olhos, meu amor, Duma luz suavíssima de dor... E grito então ao ver esses dois céus: Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa Que criou esse brilho que m'encanta! Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

Fumo Longe de ti são ermos os caminhos Longe de ti não há luar nem rosas
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Fumo Longe de ti são ermos os caminhos Longe de ti não há luar nem rosas Longe de ti há noites silenciosas Há dias sem calor, beirais sem ninhos Meus olhos são dois velhos pobrezinhos Perdidos pelas noites invernosas Abertos sonham mãos cariciosas Tuas mãos doces, plenas de carinho Os dias são outonos: choram, choram Há crisântemos roxos que descoram Há murmúrios dolentes de segredo Invoco o nosso sonho, entendo os braços e é ele oh meu amor, pelos espaços fumo leve que foge entre os meus dedos.

Ser poeta Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija!
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Ser poeta Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!

Só Eu tenho pena da Lua! Tanta pena, coitadinha,
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Só Eu tenho pena da Lua! Tanta pena, coitadinha, Quando tão branca, na rua A vejo chorar sozinha!... As rosas nas alamedas, E os lilases cor da neve Confidenciam de leve E lembram arfar de sedas Só a triste, coitadinha... Tão triste na minha rua Lá anda a chorar sozinha... Eu chego então à janela: E fico a olhar para a lua... E fico a chorar com ela! ...

Fanatismo Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver!
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Fanatismo Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão de meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida! Não vejo nada assim enlouquecida... Passo no mundo, meu Amor, a ler No misterioso livro do teu ser A mesma história tantas vezes lida! Tudo no mundo é frágil, tudo passa... Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim! E, olhos postos em ti, vivo de rastros: "Ah! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste O encanto supremo que os ditou? Acaso, quando os leste, imaginaste
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Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste O encanto supremo que os ditou? Acaso, quando os leste, imaginaste Que era o teu esse olhar que os inspirou? Adivinhaste? Eu não posso acreditar Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo. Tu disseste para ti: “Por um olhar Somente, embora fosse assim tão lindo, Ficar amando um homem!… Que loucura!” - Pois foi o teu olhar; a noite escura, - (Eu só a ti digo, e muito a medo…) Que inspirou esses versos! Teu olhar Que eu trago dentro d’alma a soluçar! …………………………………………………. Aí não descubras nunca o meu segredo!

A Mulher Ó Mulher! Como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada!
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A Mulher Ó Mulher! Como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada! Como sabes fingir quando em teu peito A tua alma se estorce amargurada! Quantas morrem saudosa duma imagem. Adorada que amaram doidamente! Quantas e quantas almas endoidecem Enquanto a boca rir alegremente! Quanta paixão e amor às vezes têm Sem nunca o confessarem a ninguém Doce alma de dor e sofrimento! Paixão que faria a felicidade. Dum rei; amor de sonho e de saudade, Que se esvai e que foge num lamento!