Quem disser que pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente.
Frases de Florbela Espanca
180 frases
Ódio? À Aurora Aboim Ódio por ele?Não…Se o amei tanto,
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Ódio? À Aurora Aboim Ódio por ele?Não…Se o amei tanto, Se tanto bem lhe quis no meu passado, Se o encontrei depois de o ter sonhado, Se à vida roubei todo o encanto… Que importa se mentiu? E se hoje o pranto Turva o meu triste olhar, marmorizado, Olhar de monja, trágico, gelado Como um soturno e enorme Campo Santo! Ah! Nunca mais amá-lo é já o bastante! Quero senti-lo doutra, bem distante, Como se fora meu, calma e serena! Ódio seria em mim saudade infinda, Mágoa de o ter perdido, amor ainda. Ódio por ele? Não…não vale a pena… Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade
Crepúsculo Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes Borboletas de sol, de asas magoadas,
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Crepúsculo Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes Borboletas de sol, de asas magoadas, Pousam nos meus, suaves e cansadas Como em dois lírios roxos e dolentes… E os lírios fecham… Meu amor não sentes? Minha boca tem rosas desmaiadas, E a minhas pobres mãos são maceradas Como vagas saudades de doentes… O silêncio abre as mãos… entorna rosas… Andam no ar carícias vaporosas Como pálidas sedas, arrastando… E a tua boca rubra ao pé da minha É na suavidade da tardinha. Um coração ardente palpitando…
...há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo. Pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada. Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade; sei lá de quê!
O mundo quer-me mal porque ninguém tem asas como eu tenho. Porque meu reino fica para além... Porque eu sou eu e porque eu sou alguém!
No gelo da indiferença ocultam-se as paixões.
Frémito do meu corpo... Frémito do meu corpo a procurar-te, Febre das minhas mãos na tua pele
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Frémito do meu corpo... Frémito do meu corpo a procurar-te, Febre das minhas mãos na tua pele Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, Doido anseio dos meus braços a abraçar-te, Olhos buscando os teus por toda a parte, Sede de beijos, amargor de fel, Estonteante fome, áspera e cruel, Que nada existe que a mitigue e a farte! E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma Junto da minha, uma lagoa calma, A dizer-me, a cantar que me não amas... E o meu coração que tu não sentes, Vai boiando ao acaso das correntes, Esquife negro sobre um mar de chamas...
Realidade Em ti o meu olhar fez-se alvorada E a minha voz fez-se gorgeio de ninho...
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Realidade Em ti o meu olhar fez-se alvorada E a minha voz fez-se gorgeio de ninho... E a minha rubra boca apaixonada Teve a frescura pálida do linho... Embriagou-me o teu beijo como um vinho Fulvo de Espanha, em taça cinzelada... E a minha cabeleireira desatada Pôs a teus pés a sombra dum caminho... Minhas pálpebras são cor de verbena, Eu tenho os olhos garços, sou morena, E para te encontrar foi que eu nasci... Tens sido vida fora o meu desejo E agora, que te falo, que te vejo, Não sei se te encontrei... se te perdi...
VOZ QUE SE CALA Amo as pedras, os astros e o luar Que beija as ervas do atalho escuro,
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VOZ QUE SE CALA Amo as pedras, os astros e o luar Que beija as ervas do atalho escuro, Amo as águas de anil e o doce olhar Dos animais, divinamente puro. Amo a hera que entende a voz do muro E dos sapos, o brando tilintar De cristais que se afagam devagar, E da minha charneca o rosto duro. Amo todos os sonhos que se calam De corações que sentem e não falam, Tudo o que é Infinito e pequenino! Asa que nos protege a todos nós! Soluço imenso, eterno, que é a voz Do nosso grande e mísero Destino!... "Há uma primavera em cada vida é preciso cantá-la assim florida." Quem disser que pode amar alguém pela vida inteira é porque mente". "O meu mundo não é como o dos outros, Quero demais, exijo demais, Há em mim uma sede de infinito, Uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, Pois estou longe de ser uma pessimista; Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada. Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... Sei lá de quê!"
O meu desejo Vejo-te só a ti no azul dos céus, Olhando a nuvem de oiro que flutua.
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O meu desejo Vejo-te só a ti no azul dos céus, Olhando a nuvem de oiro que flutua. Ó minha perfeição que criou Deus E que num dia lindo me fez sua! Nos vultos que diviso pela rua, Que cruzam os seus passos com os meus... Minha boca tem fome só da tua! Meus olhos têm sede só dos teus! Sombra da tua sombra, doce e calma, Sou a grande quimera da tua alma E, sem viver, ando a viver contigo... Deixa-me andar assim no teu caminho Por toda a vida, Amor, devagarinho, Até a morte me levar consigo...
VERSOS Versos! Versos! Sei lá o que são versos… Pedaços de sorriso, branca espuma,
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VERSOS Versos! Versos! Sei lá o que são versos… Pedaços de sorriso, branca espuma, Gargalhadas de luz. cantos dispersos, Ou pétalas que caem uma a uma. Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar, Um verso é teu sorriso e os de Dante Eram o seu amor a soluçar Aos pés da sua estremecida amante! Meus versos!… Sei eu lá também que são… Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração Partido em mil pedaços são talvez… Versos! Versos! Sei lá o que são versos.. Meus soluços de dor que andam dispersos Por este grande amor em que não crês!…
Li um dia, não sei onde Li um dia, não sei onde, Que em todos os namorados
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Li um dia, não sei onde Li um dia, não sei onde, Que em todos os namorados Uns amam muito, e os outros Contentam-se em ser amados. Fico a cismar pensativa Neste mistério encantado... Diga prá mim: de nós dois Quem ama e quem é amado?...
Se alguém disser que pode amar uma pessoa a vida inteira, é porque mente!
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada, que seja minha noite uma alvorada, que eu saiba me perder para me encontrar...
FLi um dia, não sei onde,/ Que em todos os namorados/ Uns amam muito, e os outros/ Contentam-se em ser amados.
Trago no olhar visões extraordinárias, de coisas que abracei de olhos fechados...
Triste Passeio Vou pela estrada, sozinha. Não me acompanha ninguém.
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Triste Passeio Vou pela estrada, sozinha. Não me acompanha ninguém. Num atalho, em voz mansinha: "Como está ele? Está bem?" É a toutinegra curiosa; Há em mim um doce enleio... Nisto pergunta uma rosa: "Então ele? Inda não veio?" Sinto-me triste, doente... E nem me deixam esquecê-lo!... Nisto o sol impertinente: "Sou um fio do seu cabelo..." Ainda bem. É noitinha. Enfim já posso pensar! Ai, já me deixam sozinha! De repente, oiço o luar: "Que imensa mágoa me invade, Que dor o meu peito sente! Tenho uma enorme saudade De ver o teu doce ausente!" Volto a casa. Que tristeza! Inda é maior minha dor... Vem depresa. A natureza Só fala de ti, amor!
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens!
RUÍNAS Se é sempre Outono o rir das primaveras, Castelos, um a um, deixa-os cair...
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RUÍNAS Se é sempre Outono o rir das primaveras, Castelos, um a um, deixa-os cair... Que a vida é um constante derruir De palácios do Reino das Quimeras! E deixa sobre as ruínas crescer heras. Deixa-as beijar as pedras e florir! Que a vida é um contínuo destruir De palácios do Reino de Quimeras! Deixa tombar meus rútilos castelos! Tenho ainda mais sonhos para erguê-los Mais altos do que as águias pelo ar! Sonhos que tombam! Derrocada louca! São como os beijos duma linda boca! Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...
A Vida e a Morte O que é a vida e a morte Aquela infernal inimiga
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A Vida e a Morte O que é a vida e a morte Aquela infernal inimiga A vida é o sorriso E a morte da vida a guarida. A morte tem os desgostos A vida tem os felizes A cova tem as tristezas A vida tem as raízes A vida e a morte são O sorriso lisonjeiro E o amor tem o navio E o navio o marinheiro
ESTE LIVRO Este livro é de mágoas. Desgraçados Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
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ESTE LIVRO Este livro é de mágoas. Desgraçados Que no mundo passais, chorai ao lê-lo! Somente a vossa dor de Torturados Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo. Este livro é para vós. Abençoados Os que o sentirem, sem ser bom nem belo! Bíblia de tristes... Ó Desventurados, Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo! Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades! Livro de Sombras... Névoas e Saudades! Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...) Irmãos na Dor, os olhos rasos de água, Chorai comigo a minha imensa mágoa, Lendo o meu livro só de mágoas cheio!... in Livro de Mágoas
Gosto da noite imensa, triste,preta,como esta estranha borboleta Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...
Se tu viesses ver-me... Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços,
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Se tu viesses ver-me... Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços... Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abraços... Os teus beijos... a tua mão na minha... Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcíssimas dum beijo E é de seda vermelha e canta e ri E é como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus braços se estendem para ti...
NOITE DE SAUDADE A Noite vem poisando devagar Sobre a Terra, que inunda de amargura...
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NOITE DE SAUDADE A Noite vem poisando devagar Sobre a Terra, que inunda de amargura... E nem sequer a bênção do luar A quis tornar divinamente pura... Ninguém vem atrás dela a acompanhar A sua dor que é cheia de tortura... E eu oiço a Noite imensa soluçar! E eu oiço soluçar a Noite escura! Por que és assim tão escura, assim tão triste?! É que, talvez, ó Noite, em ti existe Uma Saudade igual à que eu contenho! Saudade que eu sei donde me vem... Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém... Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!