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Frases de Florbela Espanca

180 frases

É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres as garras que dilaceram.
És a filha dileta da noss´alma Da noss´alma de sonho e de tristeza Andas de roxo sempre, sempre calma
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És a filha dileta da noss´alma Da noss´alma de sonho e de tristeza Andas de roxo sempre, sempre calma Doce filha da gente portuguesa! Em toda a terra do meu Portugal Te sinto e vejo, toda suavidade Como nas folhas tristes dum missal Se sente Deus! E tu és Deus, saudade!… Andas nos olhos negros, magoados Das frescas raparigas, Namorados Conhecem-te também, meu doce ralo! Também te trago n´alma dentro em mim, E trazendo-te sempre, sempre assim, É bem a pátria qu´rida que eu embalo!

É noite pura e linda. Abro a minha janela E olho suspirando o infinito céu Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
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É noite pura e linda. Abro a minha janela E olho suspirando o infinito céu Fico a sonhar de leve em muita coisa bela Fico a pensar em ti e neste amor que é teu! D’olhos fechados sonho. A noite é uma elegia Cantando brandamente um sonho todo d’alma E enquanto a lua branca o linho bom desfia Eu sinto almas passar na noite linda e calma. Lá vem a tua agora. Numa carreira louca Tão perto que passou, tão perto à minha boca Nessa carreira doida, estranha e caprichosa. Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça Para seguir a tua, como a folha de rosa Segue a brisa que a beija… e a tua alma passa!

SÚPLICA Olha pra mim, amor, olha pra mim; Meus olhos andam doidos por te olhar!
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SÚPLICA Olha pra mim, amor, olha pra mim; Meus olhos andam doidos por te olhar! Cega-me com o brilho de teus olhos Que cega ando eu há muito por te amar. O meu colo é arrninho imaculado Duma brancura casta que entontece; Tua linda cabeça loira e bela Deita em meu colo, deita e adormece! Tenho um manto real de negras trevas Feito de fios brilhantes d`astros belos Pisa o manto real de negras trevas Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos! Os meus braços são brancos como o linho Quando os cerro de leve, docemente… Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te Nessa cadeia assim etemamente! … Vem para mim,amor…Ai não desprezes A minha adoração de escrava louca! Só te peço que deixes exalar Meu último suspiro na tua boca!

DIZERES ÍNTIMOS É tão triste morrer na minha idade! E vou ver os meus olhos, penitentes
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DIZERES ÍNTIMOS É tão triste morrer na minha idade! E vou ver os meus olhos, penitentes Vestidinhos de roxo, como crentes Do soturno convento da Saudade! E logo vou olhar (com que ansiedade! ... ) As minhas mãos esguias, languescentes, De brancos dedos, uns bebés doentes Que hão-de morrer em plena mocidade! E ser-se novo é ter-se o Paraíso, É ter-se a estrada larga, ao sol, florida, Aonde tudo é luz e graça e riso! E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova! ) Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! ... ” Responde a minha Dor: “Que linda a cova! ... ”

As quadras dele (II) Digo pra mim quando oiço O teu lindo riso franco,
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As quadras dele (II) Digo pra mim quando oiço O teu lindo riso franco, "São seus lábios espalhabdo, As folhas dun lírio branco..." Perguntei às violetas Se não tinham coração, Se o tinham, porque 'scondidas Na folhagem sempre estão?! Responderam-me a chorar, Com voz de quem muito amou: Sabeis que dor os desfez, Ou que traição os gelou? Meu coração, inundado Pela luz do teu olhar, Dorme quieto como um lírio, Banhado pelo luar. Quando o ouvido vier Teu amor amortalhar, Quero a minha triste vida, Na mesma cova, enterrar. Eu sei que me tens amor, Bem o leio no teu olhar, O amor quando é sentido Não se pode disfarçar. Os olhos são indiscretos; Revelam tudo que sentem, Podem mentir os teus lábios, Os olhos, esses, não mentem. Bendita seja a desgraça, Bendita a fatalidade, Bendito sejam teus olhos Onde anda a minha saudade. Não há amor neste mundo Como o que eu sinto por ti, Que me ofertou a desgraça No momento em que te vi. O teu grande amor por mim, Durou, no teu coração, O espaço duma manhã, Como a rosa da canção. Quando falas, dizem todos: Tem uma voz que é um encanto Só falando, faz perder Todo juízo a um santo. Enquanto eu longe de ti Ando, perdida de zelos, Afogam-se outros olhares Nas ondas dos teus cabelos. Dizem-me que te não queira Que tens, nos olhos, traição. Ai, ensinem-me a maneira De dar leis ao coração! Tanto ódio e tanto amor Na minha alma contenho; Mas o ódio inda é maior Que o doido amor que te tenho. Odeio teu doce sorriso, Odeio teu lindo olhar, E ainda mais a minh'alma Por tanto e tanto te amar! Quando o teu olhar infindo Poisa no meu, quase a medo, Temo que alguém advinhe O nosso casto segredo. Logo minh'alma descansa; Por saber que nunca alguém Pode imaginar o fogo Que o teu frio olhar contém. Quem na vida tem amores Não pode viver contente, É sempre triste o olhar Daquele que muito sente. Adivinhar o mistério Da tua alma quem me dera! Tens nos olhos o outono, Nos lábios a primavera... Enquanto teus lábios cantam Canções feitas de luar, Soluça cheio de mágua O teu misterioso olhar... Com tanta contradição, O que é que a tua alma sente? És alegre como a aurora, E triste como um poente... Desabafa no meu peito Essa amargura tão louca, Que é tortura nos teus olhos E riso na tua boca! Os teus dente pequeninos Na tua boca mimosa, São pedacitos de neve Dentro de um cálix de rosa. O lindo azul do céu E a amargura infinita Casaram. Deles nasceu A tua boca bendita!

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja
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Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!

A Vida É vão o amor, o ódio, ou o desdém; Inútil o desejo e o sentimento...
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A Vida É vão o amor, o ódio, ou o desdém; Inútil o desejo e o sentimento... Lançar um grande amor aos pés de alguém O mesmo é que lançar flores ao vento! Todos somos no mundo" Pedro Sem", Uma alegria é feita dum tormento, Um riso é sempre o eco dum lamento, Sabe-se lá um beijo de onde vem! A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... Uma saudade morta em nós renasce Que no mesmo momento é já perdida... Amar-te a vida inteira eu não podia. A gente esquece sempre o bem de um dia. Que queres, meu Amor, se é isto a vida!

Lágrimas Ocultas Se me ponho a cismar em outras eras Em que ri e cantei, em que era querida,
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Lágrimas Ocultas Se me ponho a cismar em outras eras Em que ri e cantei, em que era querida, Parece-me que foi outras esferas, Parece-me que foi numa outra vida... E a minha triste boca dolorida Que dantes tinha o rir das primaveras, Esbate as linhas graves e severas E cai num abandono de esquecida! E fico, pensativa, olhando o vago... Toma a brandura plácida dum lago O meu rosto de monja de marfim... E as lágrimas que choro, branca e calma, Ninguém as vê brotar dentro da alma! Ninguém as vê cair dentro de mim!

Inconstância Procurei o amor, que me mentiu. Pedi à Vida mais do que ela dava;
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Inconstância Procurei o amor, que me mentiu. Pedi à Vida mais do que ela dava; Eterna sonhadora edificava Meu castelo de luz que me caiu! Tanto clarão nas trevas refulgiu, E tanto beijo a boca me queimava! E era o sol que os longes deslumbrava Igual a tanto sol que me fugiu! Passei a vida a amar e a esquecer... Atrás do sol dum dia outro a aquecer As brumas dos atalhos por onde ando... E este amor que assim me vai fugindo É igual a outro amor que vai surgindo, Que há-de partir também... nem eu sei quando...

Mais Alto Mais alto, sim! mais alto, mais além Do sonho, onde morar a dor da vida,
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Mais Alto Mais alto, sim! mais alto, mais além Do sonho, onde morar a dor da vida, Até sair de mim! Ser a Perdida, A que se não encontra! Aquela a quem O mundo não conhece por Alguém! Ser orgulho, ser águia na subida, Até chegar a ser, entontecida, Aquela que sonhou o meu desdém! Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível Turris Ebúrnea erguida nos espaços, A rutilante luz dum impossível! Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber O mal da vida dentro dos meus braços, Dos meus divinos braços de Mulher!

Desalento Às vezes oiço rir, é ’ma agonia Queima-me a alma como estranha brasa
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Desalento Às vezes oiço rir, é ’ma agonia Queima-me a alma como estranha brasa Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa! Tenho sede d’amar a humanidade… Eu ando embriagada… entontecida… O roxo de maus lábios é saudade Duns beijos que me deram n’outra vida! Ei não gosto do Sol, eu tenho medo Que me vejam nos olhos o segredo Que só saber chorar, de ser assim… Gosto da noite, imensa, triste, preta, Como esta estranha e doida borboleta Que eu sinto sempre a voltejar em mim!

Simples Fatos É tão difícil calar quando se tem que calar, e falar quando se tem que falar.
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Simples Fatos É tão difícil calar quando se tem que calar, e falar quando se tem que falar. Abrir e soltar; Falar e pensar. Cantar e sonhar, Parar e tocar. Por pra fora sentimentos contidos Expressar momentos vividos, Cogitar idéias, Trocar matérias, Reviver momentos profundos Impedir ou pedir pra que parem o mundo. Retomar o rumo, Reerguer os muros, Gritar alto, Correr, pular Respirar fundo Voar, andar. Ver a vida passar Esquecer, relembrar. Não olhar para trás, Jamais. Aprender com os erros Sempre. Reclamar, rejeitar Renegar, ressurgir. Esses relatos São simples fatos, Fatos contados, fatos vividos, Fatos mudados, fatos lembrados Isso nos mostra que a vida é feita de Simples fatos. Porém, não tão simples quanto aparentam ser.

Anseios Meu doido coração aonde vais, No teu imenso anseio de liberdade? Toma cautela com a realidade;
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Anseios Meu doido coração aonde vais, No teu imenso anseio de liberdade? Toma cautela com a realidade; Meu pobre coração olha cais! Deixa-te estar quietinho! Não amais A doce quietação da soledade? Tuas lindas quimeras irreais Não valem o prazer duma saudade! Tu chamas ao meu seio, negra prisão!... Ai, vê lá bem, ó doido coração, Não te deslumbre o brilho do luar! Não estendas tuas asas para o longe... Deixa-te estar quietinho, triste monge, Na paz da tua cela, a soluçar!