NECRÓPOLE ECUMÊNICA Fui ao campo esses dias, tenho ido para ocupar através da visão,
Continuar lendo
NECRÓPOLE ECUMÊNICA Fui ao campo esses dias, tenho ido para ocupar através da visão, aquilo que me esvazia. Ando sobre a grama cor de sangue e com a temperatura de meu inferno emocional, sem me preocupar com o modo que chegarei ao céu. Ouvir os pássaros cantando seus prantos, enquanto vejo as árvores balançarem contra o vento por teimosia do encanto, é um eterno espetáculo a ser visto de olhos fechados. Nesse campo, há flores mortas gritando um último suspiro de vida enfeitando toda a paisagem. Nas trilhas passeiam famílias, sempre com as mesmas roupas, mesmos rostos e mesmos sentimentos. Fui de forma contínua a três dias, tenho me sentado no mesmo banco, no mesmo horário, às três horas e trinta e três minutos da madrugada, para ser exato. Em cada dia, acendi um cigarro e sentou-se ao meu lado três senhoras, cada qual me dando um concelho... A primeira, vestida de todas suas mágoas e nós olhos talismãs, chegou como o vento batendo em meus cabelos. Pediu-me um cigarro e falou: "Guarda-te em teus olhos o alvorecer que está por vir, nele ira cantar os pássaros presos em sua garganta. A tempestade do seu oceano vai cessar, as tribulações se acalmarão no fim de teu choro. Não és hora de chuva, há uma primavera querendo teu nome, basta seguir a luz do farol que vem do consciente." Ela então se calou, acendeu o cigarro com a língua. No primeiro trago, sumiu com a fumaça, seguindo a ventania de seu vestido. A segunda senhora, essa no segundo dia, estava vestindo as lágrimas de sua culpa, tendo sangue nos lábios como batom. Chegou como a sombra de um pássaro pairando minha cabeça. Pediu-me um cigarro e falou: "Pare de golpear teu coração com o garfo que enche tua boca. O amor lhe nega, então aceite, já não és tempo de insistir. Quantas e quantas vezes tu recebeste um não ao convidar alguém para dançar!? Dança-te no salão de tuas frustrações, tendo como companhia teu reflexo. Quem te ama, não te entende. Assim, beije sua solidão e rasgue todos os convites." Ela então se calou e guardou o cigarro em sua bolsa, pediu para eu pensar na pessoa em que amo. E sumiu-se entre minhas ilusões. A terceira senhora, essa que vestia o desespero e usava como anel sentimentos, chegou como o calor de um dia sob minha pele. Pediu-me um cigarro e falou: "Onde nasce teus delírios, é o mesmo lugar onde jaz tua razão, então, cultive apenas o que cresce em tua terra. Não deseje a semente que estraga teu solo, saiba escolher o fruto. A colheita farta é aquela que enche teu peito, não a mesa de teu banquete, todos nós temos fome daquilo que não cresce em nossa plantação. Desse modo, aprenda a se satisfazer com o que tem em teu quintal." Ela então se calou e me devolveu o cigarro, como se não fosse digna de um. Então, sumiu com a lua quando viu o sol nascer. Nesse campo que se chama "Cemitério das Almas Perdidas", encontro o ar de meus pulmões e o sangue de minhas veias. Passeando calmamente por cada lápide de um ente indesejado, sinto-me completo de virtudes e conhecimento, assim, me reconhecendo. Continuarei indo, com o intuito de abrandar minha existência. Meu lugar é entre os mortos, aqueles que vivem de sua dor.