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Frases de Fernando Namora

27 frases

Vou fazendo horas - metade da vida é uma perdulária expectativa. E tonta. E ansiosa. E inútil. Como quem se sentou numa gare de caminho-de-ferro, à espera de um comboio que não se sabe quando passará e qual o seu destino. Certeza, e relativa, está apenas no local de espera. E às…
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Vou fazendo horas - metade da vida é uma perdulária expectativa. E tonta. E ansiosa. E inútil. Como quem se sentou numa gare de caminho-de-ferro, à espera de um comboio que não se sabe quando passará e qual o seu destino. Certeza, e relativa, está apenas no local de espera. E às vezes na própria espera. Se chegamos a concretizar a viagem, o lugar aonde o comboio nos levou, desilude-nos. Isso, porém, não impede que tudo venha a repetir-se. Desperdiça-se o instante real e concreto, mas que, como areia, se nos escapa das mãos, em favor de uma ilusória vez seguinte.

Meu corpo estiraçado, lânguido, ao logo do leito. O cigarro vago azulando os meus dedos. O rádio... a música...
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Meu corpo estiraçado, lânguido, ao logo do leito. O cigarro vago azulando os meus dedos. O rádio... a música... A tua presença que esvoaça em torno do cigarro, do ar, da música... Ausência!, minha doce fuga! Estranha coisa esta, a poesia, que vai entornando mágoa nas horas como um orvalho de lágrimas, escorrendo dos vidros duma janela, numa tarde vaga, vaga...

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia pelo mundo, por todos os caminhos do mundo,
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A minha poesia é assim como uma vida que vagueia pelo mundo, por todos os caminhos do mundo, desencontrados como os ponteiros de um relógio velho, que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar num jardim nocturno, ora um deserto que o simum veio modificar, ora a miragem de se estar perto do oásis, ora os pés cansados, sem forças para além. Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe o rumo e a hora de o atingir, a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado de que a tempestade não lhe abalará o palácio, a doçura de quem nada tem a regatear, o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar. Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte. Que ninguém me peça nada. Nada. Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia, com a minha noite que nem sempre é noite como a alma quer. Não sei caminhos de cor.

Uma árvore está quieta, murcha, desprezada. Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
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Uma árvore está quieta, murcha, desprezada. Mas se o poeta a levanta pelos cabelos e lhe sopra os dedos, ela volta a empertigar-se, renovada. E tu, que não sabias o segredo, perdes a vaidade. Fora de ti há o mundo e nele há tudo que em ti não cabe. Homem, até o barro tem poesia! Olha as coisas com humildade.

Que ninguém hoje me diga nada. Que ninguém venha abrir a minha mágoa, esta dor sem nome
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Que ninguém hoje me diga nada. Que ninguém venha abrir a minha mágoa, esta dor sem nome que eu desconheço donde vem e o que me diz. É mágoa. Talvez seja um começo de amor. Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao [mundo. Pode ser tudo isso, ou nada disso. Mas não o afirmo. As palavras viriam revelar-me tudo. E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

Minhas mãos - duas chamas débeis de vela unidas no mesmo destino.
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Minhas mãos - duas chamas débeis de vela unidas no mesmo destino. Minhas mãos derretidas em cera que vai escorrendo, gota a gota, ao longo do corpo hirto da vela moribunda. Que vai escorrendo, lenta, na calmaria falsa e densa da luz delida e mortuária do meu quarto. E o livro de Anatomia, grave e inútil, aberto em frente. E todo o mundo, que me espera e desespera, nas páginas inúteis e graves do livro de Anatomia. E as horas morrendo, morrendo, como uma vela que se vai derretendo no quarto frio de um morto. Ai! minhas mãos, minhas mãos - duas chamas débeis de vela unidas no mesmo destino! - Que horas serão? A vida é uma vela de corpo hirto que se vai derretendo, derretendo, na calmaria falsa e densa de um quarto de morto.

Raro e vazio dia. Calmo e velho dia. Os membros lassos debruados deste cansaço sem porquê.
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Raro e vazio dia. Calmo e velho dia. Os membros lassos debruados deste cansaço sem porquê. Raro e vazio dia, assim inteiro e implacável na solidão grave e trágica do meu quarto nu. Perdido, perdido, este vagabundear dos meus olhos sobre os livros fechados e decorados, sobre as árvores roídas, sobre as coisas quietas, quietas... Raro e vazio dia na minha boca pálida e pouca, sem uma praga para quebrar a magia do ópio!

Há em todas as coisas a marca estranha da minha presença.
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Há em todas as coisas a marca estranha da minha presença. Sons, palavras, imagens, tudo eu desfiguro e torno falso. As pessoas, à minha volta, deslizam vagamente como sonâmbulos - fantoches ocos de lenda... Os sons, se logram atravessar portas e janelas, partem-se no lajedo frio dos meus olhos. Vai-se o sol Onde o meu pensamento das trevas se poisa. Oh! as minhas ilusões de claridade!

Dia que vais escoando como os rios e empalideces rostos e cabelos, traze a palavra para a incerteza
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Dia que vais escoando como os rios e empalideces rostos e cabelos, traze a palavra para a incerteza dos que vagueiam à deriva; Ó dia correndo e findando, some-te lá no cimo da fraga mas deixa que no teu rasto fique o sangue anunciando a esperança noutro dia. Sê como a onda que morre para outra começar.

a terra é estéril, a arca vazia, o gado minga e se fina!
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a terra é estéril, a arca vazia, o gado minga e se fina! António, é preciso partir! A enxada sem uso, o arado enferruja, o menino quere o pão; a tua casa é fria! É preciso emigrar! O vento anda como doido – levará o azeite; a chuva desaba noite e dia – inundará tudo; e o lar vazio, o gado definhando sem pasto, a morte e o frio por todo o lado, só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António! É preciso embarcar! Badalão! Badalão! – o sino já entoa a despedida. Os juros crescem; o dinheiro e o rico não têm coração. E as décimas, António? Ninguém perdoa – que mais para vender? Foi-se o cordão, foram-se os brincos, foi-se tudo! A fome espia o teu lar. Para quê lutar com a secura da terra, com a indiferença do céu, com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra, com tudo! Árida, árida a vida! António, é preciso partir! António partiu. E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio.

Pilotagem E os meus olhos rasgarão a noite; E a chuva que vier ferir-me nas vidraças
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Pilotagem E os meus olhos rasgarão a noite; E a chuva que vier ferir-me nas vidraças Compreenderá, então, a sua inutilidade; E todos os sinos que alimentavam insónias hão-de repetir as horas mortas só para os ouvidos da torre; E os outros ruídos abafar-se-ão no manto negro da noite; E a mão alva que me apontava os nortes e ficou debruçada no postigo amortalhada pela neve reviverá de novo; E todas as luzes que tresnoitaram os homens apagar-se-ão; E o silêncio virá cheio de promessas que não se cansaram na viagem; E os caminhos se abrirão para os homens que seguirem de mãos dadas; E assim terão começo os sonhados dias dos meus dias!

A vida reparte-se por ciclos, cujas fronteiras são por vezes de uma perturbadora nitidez. Parece, no entanto, ilusório que nos caiba escolher. Talvez a opção tenha sido feita desde o princípio, isto é: talvez haja uma ordem íntima que deva ser cumprida através de uma dessas manif…
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A vida reparte-se por ciclos, cujas fronteiras são por vezes de uma perturbadora nitidez. Parece, no entanto, ilusório que nos caiba escolher. Talvez a opção tenha sido feita desde o princípio, isto é: talvez haja uma ordem íntima que deva ser cumprida através de uma dessas manifestações, mesmo quando a escolhida se nos afigura incoerente.

Nem me disseram ainda para o que vim. Se logro ou verdade,
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Nem me disseram ainda para o que vim. Se logro ou verdade, se filho amado ou rejeitado. Mas sei que quando cheguei os meus olhos viram tudo e tontos de gula ou espanto renegaram tudo — e no meu sangue veias se abriram noutro sangue... A ele obedeço, sempre, a esse incitamento mudo. Também sei que hei-de perecer, exangue, de excesso de desejar; mas sinto, sempre, que não posso recuar.

Balada de Sempre Espero a tua vinda a tua vinda,
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Balada de Sempre Espero a tua vinda a tua vinda, em dia de lua cheia. Debruço-me sobre a noite a ver a lua a crescer, a crescer... Espero o momento da chegada com os cansaços e os ardores de todas as chegadas... Rasgarás nuvens de ruas densas, Alagarás vielas de bêbados transformadores. Saltarás ribeiros, mares, relevos... - A tua alma não morre aos medos e às sombras!- Mas..., Enquanto deixo a janela aberta para entrares, o mar, aí além, sempre duvidoso, desenha interrogações na areia molhada...