DOCE DESPEDIDA
Hoje vou deixar nosso amor morrer com poesia
Escorrer dos olhos todo desmedido
Encontrar beleza no que me fez perdido
Transbordar do peito límpido e sereno
Toda essa agonia que me corrói por dentro.
Hoje sorrirei com tranquilidade
Pingando a saudade banhando os lençóis
Nessa terna beleza
De candura e singeleza
Derretendo a tristeza
Da tão atroz partida.
Hoje vou valsar bem leve
A inquietude que o momento pede
Cantarolar suave
Enquanto minh`alma se abre
Transformando em música toda essa dor.
Nessa leve despedida vou seguir a vida
Vazando a tristeza
Levando a certeza
Que é assim que se faz.
SEGREDO DAS FOLHAS EM BRANCO
Nas folhas em branco há sempre algo escondido
Parece até que guardam segredos
Uma poesia
Um conto
Uma prosa
Às vezes até uma carta de amor
Em outras uma despedia
Gosto das folhas em branco
Acho que elas imitam a vida.
Elis Barroso
Livros abertos
Quando menina gostava de livros abertos
Parecia que a qualquer instante bateriam asas, alçariam voo pela janela
Suas folhas me lembravam gaivotas
Aquelas que desenhávamos em nossos pores de sol no papel
Cresci!
Descobri que não era imaginação
Livros abertos sabem voar
Quando menina eu tinha razão.
EM CONSTRUÇÃO
Sou resultado das minhas andanças
De pessoas que encontrei no caminho
Das que me ofertaram sorrisos
Me emprestaram o ombro
Das que me ensinaram a ouvir NÃO
Ou a rir de mim mesma
Sou resultado das muitas conversas
Das águas salgadas que lavaram meus olhos
Dos amigos que se foram deixando saudades
Dos que chegaram trazendo esperança
De cada um que deixou um pouco de si
Só assim construo quem sou.
FOI UMA FLOR
A flor vive tão pouco
Algumas por dias
Outras apenas uma manhã
Logo murcha
Logo cai
A flor não se importa com o tempo
O quanto de vida terá
A flor aproveita o momento
Lhe dado para desabrochar
Foi uma flor que me ensinou
Que há vidas de pedra
E vidas de flor.
SE UM DIA...
Se um dia te encontrares no olhar perdido de um menino de rua
Se deres a ele seu melhor sorriso
Se derrubares o muro
E enfim permitires um toque de peles
Descobrirás então o sentido da vida.
MARÉ CHEIA
Em dia de maré cheia
Descubras como é ser embarcação
Se perderes o leme
Navegue à velas
Sejas um simples barquinho
Jamais sejas âncora no cais.
ARTE DO ENCONTRO
Poesia é a arte do encontro
A caneta encontra-se com o papel
O papel com a palavra
A palavra com o poema
O poema com o leitor
Poesia é a arte do encontro
Encontro-me com Ela
Com o outro
Encontro comigo mesma
Mas há vezes que na poesia consigo me perder.
ÁPICES
As horas se vão uma a uma
É Terra que meus pés já não pisam
Tic-tac surdo que me suga
Pisa
Que me rouba
Cada qual carrega o que deixei de fazer
Esse verdugo que é o Tempo me açoita
Por páginas não lidas de um livro
Pelo prato frio que já não pode ser comido
O que deveria ser vivido
O que lancei no amanhã
Um Sim que deixei no Talvez
Tudo aquilo que adiei
Corri atrás do Tempo!
Mas Ele já havia virado à esquina.
OS HIBISCOS E O TEMPO
Talvez, só talvez, ainda estejam lá,
os hibiscos vermelhos da minha infância,
em algum lugar.
Talvez, à espera da criança que não mais os visitou,
provou de sua doçura em panelinhas de plástico,
partilhou segredos sem importância,
coisas que ninguém mais queria saber,
segredos entre menina e flores,
sem palavras, apenas sentires.
Talvez, só talvez,
os hibiscos vermelhos ainda estejam lá,
em algum lugar na memória,
bordados em calmaria pelo gracioso fio da história.
MARGARIDAS NO PEITO
Fincou raízes na poesia,
dela, somente dela se nutria.
Via beleza na gota perdida em uma folha na calçada,
sorria.
Sentia a tristeza do asfalto cinza,
chorava, se condoia.
Trazia em seu ventre um amargor pelas ausências,
e pelas coisas que nunca seriam,
pelo dia feliz que se perdeu no caminho,
pela dureza do talvez,
pelo botão que secou sem ser flor.
De seu peito brotavam margaridas,
bem nutridas pelo esterco da dor que sentia.
Regadas por lágrimas que teimavam em seu peito chover,
fosse manhã, ou já fosse tarde demais.