ACORDES
Queria te pintar em uma tela
Em cores
Em aquarela te dar forma
Ou quem sabe fazer acordes
Te transformar em música
Fosse pra rir ou chorar
Canção pra matar a saudade
Quando saudade quiser me matar.
PAÍS DE MUDOS
Nesse grande manicômio que se tornou o país
Das gargantas roubaram os gritos
Das bocas tiraram a voz
Silenciaram toda a gente
Meu Deus!
O que será de nós?!
MARGARIDAS & GIRASSÓIS
Quando criança
Por várias vezes acariciei margaridas
Tentava consolá-las por nunca se transformarem em girassóis
Os dedinhos infantis alisava as pétalas como se elas sonhassem
Nunca contei que girassóis não são margaridas crescidas
Tentava fazê-las se sentir queridas
E entender que eram lindas
Singelas assim
Só por serem elas
Quando criança
Eu pensava que cuidava das margaridas
Agora sei
As margaridas cuidaram de mim.
LETRAS
Transformo-me em textos
Há dias que sou uma palavra apenas
Em outros sou sentença
Já acho que sou mais letra que gente
Às vezes amanheço verso
Anoiteço poema
Adormeço toda prosa.
FLOR DA PERIFERIA
Se eu fosse flor
Queria ser flor do caminho
Daquelas que não se vende
Ninguém se preocupa em molhar a raiz
Cresce fincada à terra
Entre espinhos e pedras
Se eu fosse flor
Não gostaria de ser rosa, orquídea
Ou um frágil lírio
Queria ser flor que nasce em ruelas
Em becos
Flor de periferia
Daquelas que passam despercebidas
Rejeitadas
Quando se percebe já se espalhou
Tirou forças da terra seca
Cresceu sozinha
Espalhou sementes
Já não adianta arrancar.
CONSTRUÇÃO
Quero ser assim
Tal qual passarinho que constrói seu ninho
Um graveto por vez
Cada qual com seu tamanho
Uns fortes
Outros delicados
Pedacinhos de galhos que pareciam perdidos
Juntos viram ninho
Quero ser assim
Tal qual colcha de retalhos
Com tantos pedaços
Remendos
Que cresce aos pouquinhos
E sua beleza é trazer em si
Pedaços que não eram seus.
PENAS E GUERRAS
O homem em busca de paz
Escolhe armas para lutar
O poeta em busca de mais
Recolhe as penas que os escreve poemas
Transforma em asas
Para voar.
O PAÍS QUE EU QUERO PARA O FUTURO
O País que eu quero para o futuro
É onde os relógios não tenham ponteiros
Todos sejam poeta de alma
Onde os amores sejam inteiros
E a pressa tenha calma
O País que eu quero para o futuro
É onde a vidraça seja amiga da bola
Onde o talvez vire sim
Todo menino ganhe abraço da escola
E que não riam de mim por querer um País assim.
ESTAÇÕES, DIAS E CORES
Quero ser sábado
E gostar de ser uma quarta-feira
Um dia qualquer
Ser ensolarada
Também saber chover
Gotejar quando quiser
Quero ser azul infinito
E achar bonito me acinzentar
Quero ser cada dia da semana
Todas as estações
Saber ser todas as cores
Só não quero ser a mesma
Quando acordar amanhã.
ENTRE PEDRAS
Já não sou flor de jardim
Aprendi a crescer entre pedras
Hoje nasço em frestas de muro
Cresço em rachaduras de asfalto
Sem o regar do jardineiro
Sobrevivo das gotas de orvalho
Já não sou flor de jardim
Cresço até em terreno baldio
Se arrancarem minha raiz
Brotarei novamente
Minhas sementes dei para os passarinhos.
RIO, SONHOS E PEIXES
Eu gostaria de segurar os sonhos
Pena que sempre escapam
Parecem a truta a brincar com o pescador
Dança à sua frente
Parece até que sorri
Foje faceira por entre as águas do rio
Quando sonho com você é assim
Parece estar ao alcance das mãos
Some de repente em meu despertar
Fecho os olhos novamente
Tento voltar a sonhar
Lá se vai mais um sonho
Sorrindo de mim
Saltando no rio.
Hoje
Abrigarei soluços no peito
Afogarei o travesseiro
Direi adeus sem palavras
Sem abraços
Sem seu reflexo em meus olhos
Hoje
Dividirei o copo com a tristeza
Tomarei um porre de saudade
Beberei do vazio que ficou
Só hoje
Amanhã passarei batom vermelho
Darei novos sorrisos
Se não der...
Viverei de improviso.
COR & GOSTO
Eu queria que poema tivesse cor
Escreveria um bem vermelho
Que lembrasse gosto de beijo
Se poema tivesse gosto
Escreveria um salgado
Meio molhado
Com gosto de corpo suado
Só pra lembrar de você.
INTEIROS
Só gosto do todo
Sem reservas
Sem pedaços
Já não quero nada partido
Sem meias verdades
Meias palavras
Meias certezas
Meias entregas
Nunca fui metade
Sem você sou inteira
Com você eu transbordo.
FOLHAS DE PAPEL
Os meus olhos de menina
Enxergavam arco-íris através de cacos de vidro
Viam gafanhotos vestidos à rigor
Eles estavam sempre prontos pra festa
Em meus sonhos de menina os personagens dos livros ganhavam vida
Era possível sentar para um chá
Dividir uma toalha de piquenique
Em minhas mãos de menina as folhas de papel se transformavam
Em gaivotas que ganhavam os céus
Viravam barquinhos que navegavam em poças d’água deixadas pela chuva
Em minhas mãos de mulher
Basta pena e papel
Pra guardar a vida em poemas.
SÓ EU SEI
Só eu conheço o peso de minhas bagagens
As trilhas que percorri
Cada beco
Encruzilhada em que me perdi
Cada vale que cruzei
Estradas que me achei e me perdi outra vez
Só eu sei de minhas andanças
E cada mudança que sofri no caminho
Cada vez que deixei de lado a razão
E ter a sensação de se estar sozinho
Sim! Só eu sei
Da delícia e da tortura
De jamais voltar a ser quem fui.
SOU FÃ
Sou fã das pontuações
Elas mudam os versos
As orações
Mudam até minhas preces
Com as vírgulas fico leve
Às vezes sou admiração (!!)
Encantamento
Por um momento sou dúvida (??)
Aliás, na maioria do tempo
Contrariada preciso por ponto final
Só assim vem novos textos
Recomeços
Sou fã das pontuações
Mas vou contar um segredo
Que as outras não saibam
Adoro fazer reticências...
RESULTADO
Sou a soma de tanta coisa
De todos os meus medos
Meus dias nublados
Dos meus equívocos
Resultado dos livros que li
Cada pensamento louco
Todos os papos bobos que me fizeram sorrir
Sou a soma de cada imagem que guardei na retina
Cada palavra que resolveu morar em mim
Cada amigo
Cada sim que me acalentou
Cada não que me fez crescer
Cada beijo doado
Dos roubados também
O resultado ainda não sei
Em pequenas doses posso ser cura
Em grandes talvez seja veneno.
ONTEM, AGORA E DEPOIS
Meu Passado querido
Trago as lembranças
Um pedacinho de ontem
Pra não esquecer de ti
Foi bom o quanto durou
Precisei partir
Ah Futuro indeciso!
Parece que não sabe escolher
Tão cheio de caprichos
Nem sei o que esperar
Por isso te deixo de lado
Não vou mais te namorar
Ando flertando com o Agora
Apaixonei-me de repente
Ele é tão espontâneo
O Hoje me deu presente.
MINHAS ESTAÇÕES
Que nem meus outonos
Quando caírem minhas folhas secas
Nem meus invernos
Quando eu precisar que me aqueça
Tirem de mim a beleza de um novo dia de sol
Nem a delícia de ser visitada pelo beija-flor
Quando eu voltar a florir.