Pássaro engaiolado
Eu quero ir embora
Bater minhas asas e voar
Deixar livre meu espírito
Que é nômade cigano
Aqui não é o meu lugar
E me sinto presa
Tal qual pássaro em gaiola
Que só faz trinar lamentos
Quero a imensidão dos céus
Sobrevoar o azul do mar
Pousar em florestas para descansar
Beber água dos rios
Sentir o sabor do vento
E nele me deixar planar
Sem pressa nenhuma de voltar
Para esse ou qualquer lugar
Eu quero ir embora
Abrir essa gaiola
E sem medo nenhum
Me lançar espaço afora
Há tanto tempo aprisionada
Estou perdendo minhas asas
O meu jeito de voar
Mas ainda assim...quero tentar
Abram essa gaiola
Me deixem ir embora
Meu canto é tão triste
Que já nem sei se ele existe
O que sei é que o tempo é pouco
E se não abrirem logo a gaiola
Não me restará forças sequer
Para eu tentar...ir embora...voar
...A sua luz é sua cruz
A estrela se apaga
É fria e solitária
Então finge ser feliz
Nos palcos da sua vida
Sem perceber que ela passa
E o tempo não volta atrás...
Só...
Me sinto só
Acompnhada de tantos
E no entanto...tão só
Sem vontade de falar
Com quem me cerca
Com quem me olha
Estou tão só
Quanto só está quem me cerca
E também não me sente
São universos solitários
Que caminham juntos
Em linhas paralelas
Olhos que se olham nos olhos
E no entanto não se enxergam
Ainda que se veem
Estou só como na morte
Que é destino geral
De quem caminha aqui
Talvez se estivesse só
Em retiro de corpo
Estivesse mais acompanhada
Estou só...
Com multidões a minha volta
Sem poderem me alcançar
Estou só...
Não por opção
Mas por determinação
Só acabará essa solidão
Quando a morte me libertar
Dessa incontestável...prisão
Coringa real
E numa mesa de carteado
Faço paralelo da vida
Onde os sonhos são coringas
Prontos para o jogo decidir
No momento exato da batida
E dar um xeque-mate na vida
Cartas que se não bem usadas
Faz nossos sonhos se dissiparem
E os tornam pesadelos
Por seguirmos utopias
E esquecermos o plausível
Que pulsa ao nossso lado
E se esvaem aos nossos olhos
Que quando de fato se abrem
O jogo estará perdido
E o coringa desperdiçado
Dos sonhos que sonhamos
Corra atrás do que é possível
Deixe a utopia voar sem direção
Para que o jogo não seja perdido
E o seu coração vencido
Saiba usar com maestria
Os coringas da sua vida
A cartada bem colocada
Te faz vencer essa batalha
Que numa mesa de carteado
Pode ser traçada a estratégia
De uma vida sem pesadelos
Nas cartas de um jogo embaralhado...
Mentes distorcidas
As vezes me perco
Sem saber definir
As mentiras e verdades
Que a vida apresenta
Talvez pra mim sejam mentiras
Mas pra quem as diz
São verdades inventadas
Que jamais serão mentiras
Para quem nelas acredita
Assim como as minhas verdades
São mentiras para tantos
Que nelas não acreditam
E me tomam por desvairada
Excêntrica, despirocada
São verdades e mentiras
Mentiras e verdades
De mentes sãs e dementes
Impossíveis disgnósticos
De poetas e filósofos
Que fazem das palavras
Armas de estudos
De outras mentes curiosas
Que na clausura de seus dons
Apreciam o embate
Apenas lendo e observando
A loucura e sanidade
De quem pensa ser mentira
O que escreve como verdade
O caminho
O caminho a seguir é longo
E só tuas pernas poderão andá-lo
A trilha é complicada e pedregosa
Mas ainda que te arranque sangue dos pés
Não desista do caminhar
Porque parar é retornar ao ponto zero
Que te esfolem a sola dos pés...persista
E atravesse sem pestanejar
Os caminhos tortuosos
Sem nenhum atalho tomar
Para que possas alcançar, enfim
O tapete de relvas macias
Que está do outro lado
A te esperar...
...Alma cega
Que sente a escuridão
Que grita em silêncio
Que sofre calada
É alma penada
Que vive sentindo
As dores de um nada
Esperando a passagem
Da sua liberdade
De volta à eternidade...
Minhas palavras
São minhas as palavras que digo
E só digo quando são minhas
São minhas, só minhas, de mais ninguém...
E se erradas estiverem
Ainda assim serão minhas
As coisas que eu falar
Serão verdades minhas
Nas palavras que eu disser...
E direi convicta
O que na mente me vier
Em palavras diretas
Que poderão ser enfeitadas
Ou simplesmente secas
Mas serão minhas...as palavras...
E conterão verdades
Ainda que profanas
Ainda que abençoadas
Direi tão somente
As minhas palavras
Ditadas pela conciência
De quem mora em mim
Sem ser convidado...
Mas de tudo o que eu sei
É que virão de mim
As palavras saídas
E pela minha boca proferidas...
Então serão minhas
Apenas minhas
E de mais ninguém...
De sonho à pesadelo
Sou eu teu pesadelo
Que um dia foi teu sonho
Espectro de um passado
Que vai e volta sem parar
Sou marola teimosa
Num vai e vem sem fim
Por vezes calmaria
Por outras furacão
Sou eu quem te faz bem
Para depois te trazer o mal
No vácuo de um tempo perdido
Que não mais poderá ser encontrado
Sou um sonho desfeito
Que tu querias ter vivido
Mas que se desfez ao vento
E se perdeu no tempo
Sou prisioneira dos teus sonhos
Transformado em pesadelos
E perdida entre dois mundos
Do presente e do passado
Então me ignoras simplesmente
E me deixa prisioneira
Oras sou um sonho
Por outras...o pior dos pesadelos
Sem estilo
Eu não tenho estilo
Rabisco o que quero
E como quero
Não me prendo a estilos
Até tentei ter um
Mas não tenho nenhum
Minha mão é livre
Discorre sem cabresto pelas palavras
Não se deixa dominar
Não se prende, só escreve
Tem seus dias de lirismo
Dramatiza meus momentos
Decanta amores e amigos
Inferniza quem se opõe no caminho
Eu não tenho estilo
Sou indefinido
E sem esse tal de estilo
Eu escrevo com estilo
Meus rabiscos descabidos
Eu quero ir embora
Bater minhas asas e voar
Deixar livre meu espírito
Que é nômade cigano
Aqui não é o meu lugar
E me sinto presa
Tal qual pássaro em gaiola
Que só faz trinar lamentos...
Tatoo
Vou me tatuar
Gravar na minha pele
As marcas do que vivi
As lágrimas que derramei
Os sonhos que sonhei
As alegrias que comemorei
As dores que senti...
Gravar cada instante que eu protagonizei
Com tintas rubras do meu sangue
Que derramado sobre as feridas abertas
Por agulhas pontudas fincadas nos poros
Deixarão marcas cravadas de uma filosofia
Que lágrimas salgadas fizeram doer
Ao na tatuagem escorrer...
Vou me tatuar
E gravar em mim as minhas dores
Meus momentos de grandes amores
Meus voos solos e sem direção
Minhas quedas de cara no chão
Minhas verdades e meus mistérios
Meus desejos e desencontros
Meus sonhos e pesadelos...
Vou me tatuar
De vida e de morte
De marcas de mim
Feito rês com brasa no couro
Delimitado por seu dono obtuso
Que o prende entre quatro riscados...
Vou me tatuar
De cada momento que eu viver
E fazer da minha existência
As linhas de um livro escrito
Por meu espírito contido
Num corpo tatuado de poesias...
Vou sim... me tatuar...
Sonho de menina
Sonhei
Um sonho de menina
Brincando com as estrelas
Dançando com um cometa
E me vi assim
Brincando com as estrelas
Pulando amarelinha
No cruzeiro do sul
Em pleno céu azul
Fiz festa com a lua
Que faceira flutua
Iluminando as cirandas
Das estrelas crianças
Contei as estrelinhas
Que me meteram medo
Prometendo uma verruguinha
Na ponta do meu nariz
Quantas peraltices eu fiz
Na noite em que fui feliz
Passeando na via láctea
Sem lembranças nebulosas
Em meio à nebulosa
E dancei...
No rastro de um cometa
Até o dia clarear
E eu, de felicidade me embriagar
Até a hora de acordar...
Durmo
Durmo...
Meu sono livre
É quando me sinto
de volta à vida
Leve e solta
Sem peso nenhum
Voando no espaço
Que conheço cada palmo
E vou de encontro
À quem me espera
Na calada da noite
Sem mais distância
Separando e impedindo
O olho no olho
O toque desejado
O amor enfim...
Durmo...
Meu sono libertador
E é quando me fortaleço
Ao te encontrar
Para quando amanhecer
Me restar forças
Na vida inócua
E sem sentido
Que me espera e me suga
À cada amanhecer...
Durmo...
Meu sono de luz
Onde encontro a paz
E a felicidade
Por estar livre
Sem pressa e sem peso
Enquanto te olho
E te sinto comigo
Selando o destino
Dos nossos espíritos
Separados na vida
De um amargo despertar
Então eu...durmo
Fatos&fotos
As vezes as fotos são fatos de fato
As vezes os fatos são fotos sem fato
E nesse vai e vem se misturam coisas
Numa efemeridade de fatos
Que fotos não provam os fatos
Nem fatos posam para as fotos
A subjetividade dos fatos
Também faz as fotos efêmeras
Já que a verdade de hoje
Se torna fugaz amanhã
E deixa de ser verdade
Sem nunca ter sido mentira
Apenas fotos efêmeras
De fatos que nunca foram de fato
Montagens que a vida se encarrega
De fazer e desfazer, de unir e separar
Na subjetividade efêmera
De fatos e de fotos
De fotos e de fatos
Sem fatos de fato
Montagens grosseiras
Que a vida interliga
E rasga a foto no meio
Colocando de fato
Cada um no seu lugar
São fotos sem fato
Verdades sem mentiras
Fotos sem fato...
Tempo que faço
Hoje eu tenho tempo
Para olhar e conseguir enxergar
Coisas que não via
Mas que insistia em olhar
Hoje eu tenho tempo
Para entender os erros que cometi
Por tanto querer acertar
E por nada..., me stressar
Hoje eu tenho tempo
Para não mais me deixar levar
Pela emoção descabida
Que só faz a mágoa acalentar
Hoje eu tenho tempo
Para sorrir e até para viver
Já não tenho amarras a me prender
E assim...aprendi a não sofrer
Hoje eu tenho tempo
Para com todos vir brincar
Sentar na mesa desse buteco
E com carinho, aos amigos rabiscar
Hoje eu tenho tempo
Para não mais perder meu tempo
Nada e nem ninguém merece que eu perca
Um só segundo do meu tempo
Estrela solitária
Acendam os holofotes
Joguem o foco na estrela principal
Que não sabe viver sem luz
Precisa do aplausos de seu público
Precisa se sentir deusa
Adorada e requisitada...
Que se faça apologia
Dos seus encantos no palco
Que se peçam seu sorriso
Que implorem sua atenção
Que se percebam seu desdenhar
Que venham em peso à louvar...
Que façam fila para a tocar
Enquanto ela passa sem à ninguém olhar
É estrela e precisa brilhar
Pois sabe que quando se fecham as cortinas
A realidade se expõe escondida
Na estrela entristecida
Sozinha e sem ninguém...
A sua luz é sua cruz
A estrela se apaga
É fria e solitária
Então finge ser feliz
Nos palcos da sua vida
Sem perceber que ela passa
E o tempo não volta atrás...
Inventa mil amores
Tenta mil faces
Se diz tão cortejada
Mas no fundo é solitária
E no fechar das cortinas
Sua verdade, nela...desaba