Pinturas.
Hoje, no céu, as nuvens formaram,
como se tivessem combinado,
um meio arco em volta ao sol dourado.
Nuvens tintas de tons de cinza,
em um lindo céu de azul claro,
esculpido no ar por um artista raro.
Ao longe, desfez-se, fora do meu olhar,
em linhas finas de ouro e prata,
como se não fosse certa a hora e a data.
Esperei por horas novas pinturas,
a serem feitas pelas nuvens em tinturas,
mas, teimosas ou cansadas, não fizeram nada.
Na carreira.
Corredeira,
cordilheira
brincadeira
que besteira!
Suadeira,
corre e corre,
espanta e morre.
De repente,
num repente,
dançando forró ou baião
polícia, não!
Confusão,
por ai não!
O padre grita,
para o ladrão,
ô mulher aflita, ô bendita,
o filho foge,
pega o ladrão, armação,
foi cachaça, não foi não.
Café com pão.
Na minha solidão.
Preso na solidão de mim mesmo,
e definitivamente perdido,
continuo andando e tateio a esmo,
total e completamente incompreendido.
Será que era preciso, ter ido por estes atalhos,
pergunto-me tal qual um paspalho,
chego à conclusão que não, não era...
não era preciso nem necessário.
A propriedade.
Não, não nos pertence nosso maior bem,
a vida... a nossa vida; é de quem?
Então intuo não existir propriedade
em um sentimento de verdade.
Penso, e de mim suspeito,
que algumas dores que levamos no peito,
não passam de indizíveis vaidades,
das entregas feitas sem sinceridade.
Um pedaço de amor.
Ah, doce pequenina desta sina
de encontrar amor, ah, menina,
o verdadeiro, o que não se excede,
e que, soberano, não se impõe,
a ele nada perguntes, nem lhe peças,
talvez não queira trocas, nem promessas.
Bastará ficar em silêncio ao seu lado,
olhando-te, admirando, com cuidado,
seus olhos lhe serão profundas vistas,
seu corpo um santuário de prazer,
não haverá disputas, nem errado,
nos delírios e loucuras do querer.
Soneto bandoleiro.
Muito se tem dito,
pouco se tem feito,
e o tido como perfeito,
é, desastrosamente, desfeito.
Muito se tem falado,
pouco se tem agido,
e o que era tido como certo,
hoje se esgueira; na sombra escondido.
Seria da natureza do homem,
tamanha afronta que nem se dá conta
de seus semelhantes esfomeados que somem.
Os infortunados banidos, bandidos,
como se fossem bandoleiros,
porque acabou o dinheiro?
Encanto
Hoje quem canta
como ama, encanta,
na suave melodia,
ou no arfar do cansaço, da íngreme
subida da escadaria,
não importa! É poesia.
Acalanto para um coração
que se afasta da solidão,
e, traz a emoção, na beleza da canção.
Leva as mágoas para o relento,
aquelas que partiram
em pedaços, estilhaços,
tornando-o dividido e ferido,
ressentimentos de quem partiu
em um momento, e
sem se dar conta, encontrou-se,
com seu próprio sentimento.
A procura.
Ela procurava algo que não havia,
e talvez por isto sofria,
intencionava descobrir o que não existia,
e na sua imaginação se perdia.
Na busca alucinada que desanimava,
a cada luminosa manhã,
onde nenhuma palavra consolava,
desorientada e persistente procura vã.
Inverno eterno
Se me falta seu suave carinho,
terno como a rosa sem espinho,
me torno decerto incompleto,
e de angústia e solidão repleto.
Nestes tristes momentos etéreos
de solitários sentimentos férreos,
a mim infrinjo estranhos sofrimentos,
quais indiferentes rigorosos invernos.
Como se as estações de todos os anos,
em uma única estação de tristes enganos,
repetisse indefinidamente a solidão.
Não há céu, não há chão, tua mão...
teus carinhos que se vão, ficam somente,
saudades perdidas nesta emoção.
Raízes
Estreitam laços, laços estreitos
com as linhas do carinho, um choro,
entre nossos sentimentos, em coro,
no peito, antigos tristes lamentos.
Um choro enfeito, como confeito,
depois, o choro desfeito, perfeito,
que choramos sozinhos, conosco,
da saudade que tínhamos do chão fosco.