Decifra- me a alma
Posso te seguir, adicionar,
mas do que isso adianta
se para mim não olhas
e persiste em me abandonar?
Espio- te de longe.
Não sois bela,
Sois a própria beleza encarnada,
mas o desprezo, que me é a pior dor,
te envolve, te alucina,
fazendo- me perguntar
Tu es mesmo minha frágil amada?
Desejo teus lábios mais que a minha própria vida,
mas após seu desprezo
a paz me deixou a alma,
o desespero me vem aos olhos
abrandando a calma,
fazendo pensar
que estas não são palavras no papel
e sim o próprio açoite
que me faz te amar ainda mais,
mas que em ilusões me enegrece o céu!
Elegia às ilusões
Se entendes o que digo
é porque da mesma enfermidade
padecemos.
Portanto falemos, falemos e falemos
Para ver se a ferida,
aberta,
vazia
Cicatrize e não mais ensista
em expor minhas doces desilusões.
Se o amor me parece assim lascivo,
incontido,
de volúpia envolvido,
só quero me lançar nessa ilusão,
iniciada em teus afagos, teus beijos,
na minha incansável solidão.
Amar não é perder,
é ganhar cada horizonte num sorriso,
é viver um inferno,
ofegar de calor
e receber em teu corpo o paraíso,
é mirar o céu,
desenhá- lo com pincel,
receber com fulgor
seu doce mel.
As lágrimas secaram
Olhando o horizonte, percebo o que vivi,
as dificuldades, os males,
as moléstias que sofri,
que na maioria das vezes
me trazia aos olhos lágrimas,
numa tristeza desleal,
num sentimento infiel.
Aparentemente não sou assim,
pareço alegre, altivo, espontâneo,
feliz em mim.
Mas essa é minha máscara,
meu traje fúnebre,
que esgotando meu sofrimento
me traz outro tormento
de não ser eu mesmo.
As lágrimas secaram,
meus olhos se cerraram
para nunca mais abrir.
Não sou mais aquela criança,
medrosa ingênua,
que não tinha esperança.
Sou um velho arrogante,
que observa o mundo
de sua cadeira de balanço e pensa:
- Tudo que sofri foi útil,
me fez assim.
Por que insiste em me dilacerar,
Mate- me, caso não possa esperar
minha regeneração,
pois se assim me encontro,
foste vós
que magoaste meu pobre coração.
Por que tem que ter fim?
A vida seria vazia sem vocês
e agora percebo que não vou ter outra vez
para vivenciar esse amor.
Bons momentos são suplícios de instantes,
nos retiram da realidade
em ternos momentos, infelizmente, inconstantes
enegrecendo a ilusão
de morar numa terna amizade,
num eterno verão.
Abro a janela e percebo a beleza do que vivi,
nos momentos singulares
que com meus amigos sorri,
sentimentos senti,
nesse coração que bombeia
e faz o meu sangue fluir.
Dolorosamente tais momentos não virão mais,
e com esses mesmos amigos
momentos tão ternos ficarão para traz,
fazendo da memória,
da lembrança,
diário vivo que se inflama
numa inabalável esperança.
Diálogo da noite
As estrelas caem nos meus sonhos
e de súbito acordo com o sussurro
da noite.
O silêncio sem resposta me adormece,
mas desperto esqueço do meu sono.
A insônia me embriaga sem medida
e me elevo transcendente a qualquer
plano.
Mas as linhas que escrevo sem sentido
são respostas às perguntas em que engano.
Quando a paz faz- se indiferente,
o homem não percebe que o tempo
é sopro sem direção.
Vaguear pelo universo
resume- se a existência.
Um simples encargo
de esperar a hora
de pedir perdão...
O cotidiano das coisas
Na fila dos trens, nos pontos de ônibus, no estresse do metrô,
o gado humano vai em busca do pasto seco pra num morrer de fome.
Multidão de operários, todos em comum acordo
de não levar pra casa a má notícia de mais um não.
A falta de oportunidades mina os recursos.
As crianças pedem incessantes
por um pedaço que seja dum pão sem gosto.
Mas o sol pungente esfacela a poeira da expectativa de qualquer futuro.
A vida é sina errante por uma estrada tortuosa.
Miserável cotidiano de sonhos destruídos pela dureza dum caminho
cheio de falhas e falta de sinalização.
A espera de mais uma chance pra tentar fazer diferente
e de novo o mesmo erro de pensar que tudo não é mais igual.
A cova dos meus penhores não atormenta a memória em desalento com a realidade.
Viva cada dia a seu próprio curso.
Mais que pseudo promessas são as realizações,
a concretude do destino, a terra sob os pés, o céu sobre a cabeça.
No final de mais um turno, a única certeza é que parados não vamos a lugar nenhum,
nunca.
Passos da caminhada
Quão insondáveis são os dias.
Indissolúveis em seus mistérios.
Verso marginal de uma poesia
Esquecida num canto de escrivaninha.
Rabiscos mal traçados,
Jogados em lata de lixo.
Assovio nos recônditos da escuridão.
O amor não é praça pública.
Não é pra todo mundo.
Alguns não tiveram sua senha sorteada.
É sina pungente e aflitiva.
Aceitar é o caminho da resignação.
Gotas de passado não fazem tempestades
no inviolável limite do futuro.
O silêncio é sentença fúnebre.
É frio de inverno.
Túmulo do arrependimento.
Viver é a melhor forma de dizer:
Oi, eu vim ao mundo.
Narciso
Viver de aparências não desfaz a verdade que você esconde.
Tão áspero e devastador quanto o sopro da tempestade
A desperdiçar as folhas,
Caídas e inanimadas,
O tempo se desmancha na insurreição das aparências.
O meu sorriso não é mais meu.
Reflexo quem sabe de outros rostos.
Quiçá a cópia fiel de outras personalidades.
Quão original pode ser o homem,
Irredutível em seus feitos,
Insondável nas atitudes,
Mas vaidoso em sua autocontemplação.
Vou além e digo insatisfeito,
Arrogante , sovina, individualista.
Indomável?
Seria pretensioso
assentir.
Sua pequenez o atormenta.
Somos limitados.
Criaturas à mercê da imensidão.
Prisioneiros de preconceitos,
Fruto da constância
De tudo saber,
No imaginário infantil
E adstrito
Frente a pluralidade do devir.
De encontro ao tênue tecido da (ir) realidade
Existe a razão.
Urge a desnecessidade ante a face de um novo dia?
A contemplação da vida é o fim máximo da existência.
Que sejam meus feitos resultado do esforço contínuo
Do meu conhecimento aplicado na utilidade e serventia adequada.
Que seja meu sorriso só meu.
Que minha opinião seja expressa na inocência da espontaneidade,
No jeito inconstante do inesperado,
Que chega de repente e surpreende.
Ilusória realidade da existência
Qual silente é o coração que não ouve o som da realidade. Foi-se o tempo da bonança. Em torrentes a tempestade revolve a ilusão. Brainstorming sem nexo, aquém do sentido, além do racional. Aqui e ali se faz história sem começo meio e fim. Acolá está a resposta à constante lacuna do saber. O que somos, afinal? Mentes indomadas. Imperialistas de opiniões. O mero acaso me faz sorrir sem motivo. Mas nem por isso me alivio à sombra de qualquer pensamento. As vezes a consciência me atormenta com meus erros do passado. Sepultado na escuridão se esvai o medo de alguma lembrança. Vivo o agora e não temo o meu futuro. Só não quero estar a mercê de alguns segundos que me faça desistir. Desistir de viver.
Insônia dos embriagados
O despertador do senso crítico já passa da hora de acordar do sono da ignorância ou da farsa do desconhecimento. Nu e cru revela- se o apogeu da insanidade, um mundo com um destino errante e essa gente sem juízo para viver. Quão enganosa pode ser a devassidão do acaso, ou o mero acontecimento sem previsão. Embriaguez desmedida de valores. Ressaca incessante da ilusão. Rota sem destino, não encontrada pelo GPS, diga-se de passagem. Deixe estar essa falácia sem nome, esse dizer sem escrito próprio. A montanha se ergue com a queda de gigantes. Ninguém pode ser bom o suficiente, que não possa ruir. O escopo da humanidade é a autossatisfação. O bêbado persegue a ebriedade. O sóbrio, a sombra de sua própria frustração, de enxergar e perceber que a vida é uma droga. Às vezes é melhor fechar os olhos pra não ver no escuro. Talvez seja melhor escutar o silêncio e refletir. A lentos passos chegamos até aqui. Não desperdice o que já passou. Siga em frente, mesmo que não vá dar em nada.
A única forma de fugir do tempo é elevar-se na negra nuvem da própria devassidão. Somos homens ávidos pela desgraça alheia, a espreita da oportunidade exata de ver o outro ruir. Somos quimeras famintas pelo ódio e degeneração. Criaturas mesquinhas e corruptas, incapazes de solidarizar-se com a dificuldade humana. A insensatez é desmedida. A insanidade atinge a marca do extraordinário. O que somos no mundo? Nada além de sombras do próprio desespero, escravos do ego e amantes da adulação a aparência. Viver em sociedade é saber equilibrar-se entre aqueles que ditam as regras do jogo. Nada além de estúpidos seres a buscar a fagulha inicial que culminou no fim.
Grão de terra
Eu sou a terra.
Sou a grama verde.
Sou o chão sob os meus pés.
Sou a brisa leve que oscila o cabelo da moça.
Sou a ave que voa rumo à liberdade.
Sou o claro do dia.
Sou paisagem escura do anoitecer.
Sou incansável viajante em busca de novas rotas.
Sou a melancolia das horas bucólicas.
Sou a realidade derramada no quotidiano.
Sou tudo e sou nada.
Eu sou atmosfera.
Um tal de "Australopithecus"
O homem é produto d’uma reunião multifatorial. Cada cromossomo carrega a carga que manifesta as características do que cada ser humano é. Em cada gene há a partícula da vida. Somos a associação de pequenas estruturas que sustentam todo esse arcabouço de sensações, emoções e sentimentos. Muito mais que isso, uma sistemática de funções orgânicas e inorgânicas. Um universo paralelo, aquém do sistema solar, tão incomparavelmente menor, mas nem por isso menos complexo. O DNA carrega segredos misteres e demasiado importantes, dignos da caixa de Pandora. Reunião de cariótipos numa ordem sequenciada e determinante. Numa visão geral somos homo sapiens. Descentes evoluídos de primatas. Talvez um “australopithecus” com um pouco de tecnologia e mobilidade para não cair na mesmice dos não civilizados. Mas que presunção a minha, dizer que tal ancestral era menos sofisticado que somos hoje. Não creio que na escala evolutiva o “homem sábio” seja dotado de maior razão. Se não acredita dá uma olhada em volta. A mim não parece perspicaz dizimar a própria espécie, destruir a farta biodiversidade, minar os recursos que motivam minha sobrevivência. Se o faziam o “australopithecus”, ou o “homo erectus“, o “homo de neanderthal” e tantos outros que construíram o passado da atual humanidade, o faziam por falta de informação ou necessidade. Afinal dizia o grande Charles Darwin (que nem era tão grande assim em altura) "os mais bem adaptados sobrevivem". Tal teoria cai por terra quando estagnamos na lama dos alienados.
Toda evolução retorna ao seu início. Engatinhamos na superação dos preconceitos, na mudança de mentalidade limitada. O homem é o conjunto de células, determinismos genéticos. Sopro de ventos de milhares de anos atrás.
De nada vale tanto conhecimento, se não usado com sabedoria.