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Frases de Cecília Meireles

328 frases

O vento é o mesmo. Mas sua resposta é diferente em cada folha. Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar par poder voltar sempre inteira.
Modinha Tuas palavras antigas Deixei-as todas, deixei-as,
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Modinha Tuas palavras antigas Deixei-as todas, deixei-as, Junto com as minhas cantigas, Desenhadas nas areias. Tantos sóis e tantas luas Brilharam sobre essas linhas, Das cantigas — que eram tuas — Das palavras — que eram minhas! O mar, de língua sonora, Sabe o presente e o passado. Canta o que é meu, vai-se embora: Que o resto é pouco e apagado.

Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vent…
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Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos. Eu levaria o…
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E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos. Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica. Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

Não se chora apenas com a noite estendida sobre o sono dos homens, com o silêncio pulsando em poros de imperceptíveis silvos
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Não se chora apenas com a noite estendida sobre o sono dos homens, com o silêncio pulsando em poros de imperceptíveis silvos trêmulos, sussurrantes, urdindo a trama de inúmeros aléns. Não se chora apenas com a solidão concentrada em firmes bosques, num chão de sombras por onde as lágrimas se embebam, e nem a palidez das estrelas seja um breve indício de presença. Não se chora sempre de cara virada para um tranquilo muro. Nem sempre se pode dizer: é da ausência, é da noite, é do silêncio, é do deserto... da planície vazia, do mar fatigante, do assombro enorme da treva... Chora-se em pleno dia, à luz do sol, diante do mundo povoado. Caem lágrimas em pedras quentes, com borboletas, flores, gorjeios, nuvens brancas, moças cantando, janelas abertas, ruas alegres. Alguma coisa em nós é maior e mais grave que as expansões da vida, alguma coisa é maior que o candelabro azul do dia com flores, pássaros, canções entrelaçados nos seus doze braços. Nem é de nós, nem nos pertence. Sentimos que é da terra e dos homens, da desordem do tempo, da espada das paixões sobre o peito do sonho.

HORÁRIO DE TRABALHO Depois da treze poderei sofrer: antes, não.
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HORÁRIO DE TRABALHO Depois da treze poderei sofrer: antes, não. Tenho os papéis, tenho os telefonemas, tenho as obrigações, à hora-certa. Depois irei almoçar vagamente para sobreviver, para aguentar o sofrimento. Então, depois das treze, todos os deveres cumpridos, disporei o material da dor com a ordem necessária para prestar atenção a cada elemento: acomodarei no coração meus antigos punhais, distribuirei minhas cotas de lágrimas. Terminado esse compromisso, voltarei ao trabalho habitual.

Recordação Agora, o cheiro áspero das flores leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.
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Recordação Agora, o cheiro áspero das flores leva-me os olhos por dentro de suas pétalas. Eram assim teus cabelos; tuas pestanas eram assim, finas e curvas. As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo, tinham a mesma exaltação de água secreta, de talos molhados, de pólen, de sepulcro e de ressurreição. E as borboletas sem voz dançavam assim veludosamente. Restitui-te na minha memória, por dentro das flores! Deixa virem teus olhos, como besouros de ónix, tua boca de malmequer orvalhado, e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios, com suas estrelas e cruzes, e muitas coisas tão estranhamente escritas nas suas nervuras nítidas de folha, - e incompreensíveis, incompreensíveis.

É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz? Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível Precisamos acreditar, ter fé e lutar
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É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz? Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível Precisamos acreditar, ter fé e lutar para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos, realidade!

HUMILDADE Tanto que fazer! livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
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HUMILDADE Tanto que fazer! livros que não se lêem, cartas que não se escrevem, línguas que não se aprendem, amor que não se dá, tudo quanto se esquece. Amigos entre adeuses, crianças chorando na tempestade, cidadãos assinando papéis, papéis, papéis... até o fim do mundo assinando papéis. E os pássaros detrás de grades de chuva. E os mortos em redoma de cânfora. (E uma canção tão bela!) Tanto que fazer! E fizemos apenas isto. E nunca soubemos quem éramos, nem pra quê.

DAS MINHAS MÃOS, QUE SÃO TÃO FIRMES Das minhas mãos, que são tão firmes, cai-me o espelho, que era tão claro,
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DAS MINHAS MÃOS, QUE SÃO TÃO FIRMES Das minhas mãos, que são tão firmes, cai-me o espelho, que era tão claro, e à meia-noite se divide, com meus olhos cheios de teatro. Nas grandes sedas do vestido, ficam meditando meus braços. E de longe correm antigos pássaros cheios de presságios. Há um cristal de sonho e de lua cobrindo com serenidade as adormecidas criaturas. Uma mulher no alto da noite pensa que é solidão, que é tarde, e que o cristal levou seu rosto.

GATO NA GARAGEM Que imensa preguiça! Um gato se estica
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GATO NA GARAGEM Que imensa preguiça! Um gato se estica longo, de pelica, de pluma e peliça. A noite é de tubos de rodas e cubos borracha e aço curvos em subsolos turvos. Que noite! uma poça de sombra na boca. Cega, se alvoroça e infla, a pupila oca. Luminosos manda seus olhos; verde anda em luz; anda e nada e é dono do nada. A noite postiça! E o gato se estica em sua pelica, em sua peliça.

OS MORTOS SOBEM AS ESCADAS Os mortos sobem as escadas, sorrindo com seus claros dentes.
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OS MORTOS SOBEM AS ESCADAS Os mortos sobem as escadas, sorrindo com seus claros dentes. Alegrias que nunca tiveram quando eram vivos e presentes, felicidades que apenas sonharam e foram lágrimas somente. Os mortos sobem as escadas: inesperados visitantes vindos dos reinos sem fronteiras às nossas casas, dessemelhantes. Ai, bem se vê que não estão vendo que um vivo é um morto mais distante!