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Frases de Cecília Meireles

328 frases

TODOS ACORDAMOS TRISTES Todos acordamos tristes e impacientes: que melancolia desceu na chuva da noite?
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TODOS ACORDAMOS TRISTES Todos acordamos tristes e impacientes: que melancolia desceu na chuva da noite? Que sonhos teve cada um de nós, já esquecidos e ainda atuantes? Que anjos amargos ficaram à nossa cabeceira? Todos acoradamos com o coração pesado e os lábios aflitos. Que bebida acerba nos foi vertida dos céus? Que confidências nos fizeram os mortos e os Santos? Nossos olhos abriram-se a custo, sob muito sal. Nossos braços estavam sem força, ao despertar do dia. Por que montanhas caminhamos, de íngreme pedra? Que desertos atravessamos, de vento e areia? Em que mares deixamos a sombra do nosso vulto? Acordamos despojados, divididos, dolentes, e, exaustos, começamos a recompor aquilo que, sem nenhuma certeza, supomos, no entanto, ser, em alma e esperança.

CONHEÇO A RESIDÊNCIA DA DOR Conheço a residência da dor. É um lugar afastado,
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CONHEÇO A RESIDÊNCIA DA DOR Conheço a residência da dor. É um lugar afastado, Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas, Com umas imensas vigílias, diante do céu. A dor não tem nome, Não se chama, não atende. Ela mesma é solidão: nada mostra, nada pede, não precisa. Vem quando quer. O rosto da dor está voltado sobre um espelho, Mas não é rosto de corpo, Nem o seu espelho é do mundo. Conheço pessoalmente a dor. A sua residência, longe, em caminhos inesperados. Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores. E ouço dizer: “Quem visse, como vês, a dor, já não sofria”. E olho para ela, imensamente. Conheço há muito tempo a dor. Conheço-a de perto. Pessoalmente.

Ó MEU DEUS Ó meu Deus, se esta é a distância
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Ó MEU DEUS Ó meu Deus, se esta é a distância que separa a mocidade da infância, se são teus estes modos de verdade, que outros hei de querer meus? Ó meu Deus, se este é o caminho que traça a tua bondade, devagarinho farei seus meu amor, minha saudade, e em tudo serei adeus.

ESPELHO CEGO Onde a face de prata e cristal puro, e aquela deslumbrante exatidão
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ESPELHO CEGO Onde a face de prata e cristal puro, e aquela deslumbrante exatidão que revela o mais breve aceno obscuro e o compasso das lágrimas, e a seta que de repente galga os céus do olhar e em margens sobre-humanas se projeta? Onde as auroras? Onde, os labirintos, - e o frêmito, que rasga o peso ao mar, - e as grutas, de áureos lustres e aéreos plintos? Ah, - que fazes do rosto que te entrego? - Musgos imóveis sobre a sua luz... Limos...Liquens - Opaco espelho cego!

O MUNDO DOS HOMENS ENVOLVE-ME O mundo dos homens envolve-me, porém não me abraça.
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O MUNDO DOS HOMENS ENVOLVE-ME O mundo dos homens envolve-me, porém não me abraça. Eu não tenho nada com a onda, mesmo que naufrague dentro dela. Se tu não sentes esta coisa simples que eu sinto, esta unidade que não se rompe, mesmo quando compreende e participa... (Então, ó deuses, de que somos, de quem somos, quem somos, e como provaremos sermos todos irmãos?)

Lamento do oficial por seu cavalo morto Nós merecemos a morte, porque somos humanos
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Lamento do oficial por seu cavalo morto Nós merecemos a morte, porque somos humanos e a guerra é feita pelas nossas mãos, pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra, por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens que trazemos por dentro, e ficam sem explicação. Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia, os cálculos do gesto, embora sabendo que somos irmãos. Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros! Que delírio sem Deus, nossa imaginação! E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada, recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno, ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração. Animal encantado - melhor que nós todos! - que tinhas tu com este mundo dos homens? Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada em carne e sonho, que os teus olhos decifravam... Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos... Como vieste morrer por um que mata seus irmãos! (in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.)

Imaginária serenata Vejo-te passando por aquela rua
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Imaginária serenata Vejo-te passando por aquela rua mais aquele amigo que encontraram morto. E pergunto quando poderei ser tua, se vens ter comigo, de tão negro porto. Ah, quem põe cadeias também nos meus braços? Quem minha alma assombra com tanto perigo? Em sonho rodeias meus ocultos passos. Ouve a tua sombra o que, longe, digo? Vejo-te na igreja, vejo-te na ponte, vejo-te na sala... Todo o meu castigo é que não me veja, também, no horizonte. Que ouça a tua fala sem me ver contigo. Na minha janela, pousa a luz da lua. lá não mais consigo descanso em meu sono. Pela noite bela, o amor continua. Deita-me consigo aos pés do seu dono.

Marcha As ordens da madrugada romperam por sobre os montes:
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Marcha As ordens da madrugada romperam por sobre os montes: nosso caminho se alarga sem campos verdes nem fontes. Apenas o sol redondo e alguma esmola de vento quebram as formas do sono com a idéia do movimento. Vamos a passo e de longe; entre nós dois anda o mundo, com alguns vivos pela tona, com alguns mortos pelo fundo. As aves trazem mentiras de países sem sofrimento. Por mais que alargue as pupilas, mais minha dúvida aumento. Também não pretendo nada senão ir andando à toa, como um número que se arma e em seguida se esboroa, - e cair no mesmo poço de inércia e de esquecimento, onde o fim do tempo soma pedras, águas, pensamento. Gosto da minha palavra pelo sabor que lhe deste: mesmo quando é linda, amarga como qualquer fruto agreste. Mesmo assim amarga, é tudo que tenho, entre o sol e o vento: meu vestido, minha música, meu sonho e meu alimento. Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade; tenho visto muita coisa, menos a felicidade. Soltam-se os meus dedos tristes, dos sonhos claros que invento. Nem aquilo que imagino já me dá contentamento. Como tudo sempre acaba, oxalá seja bem cedo! A esperança que falava tem lábios brancos de medo. O horizonte corta a vida isento de tudo, isento... Não há lágrima nem grito: apenas consentimento.

A Última Cantiga Num dia que não se advinha, meus olhos assim estarão:
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A Última Cantiga Num dia que não se advinha, meus olhos assim estarão: e há de dizer-se: "Era a expressão que ela ultimamente tinha." Sem que se mova a minha mão nem se incline a minha cabeça nem a minha boca estremeça - toda serei recordação. Meus pensamentos sem tristeza de novo se debruçarão entre o acabado coração e o horizonte da língua presa. Tu, que foste a minha paixão, virás a mim, pelo meu gosto, e de muito além do meu rosto meus olhos te percorrerão. Nem por distante ou distraído escaparás à invocação que, de amor e de mansidão, te eleva o meu sonho perdido. Mas não verás tua existência nesse mundo sem sol nem chão, por onde se derramarão os mares da minha incoerência. Ainda que sendo tarde e em vão, perguntarei por que motivo tudo quanto eu quis de mais vivo tinha por cima escrito "Não". E ondas seguidas de saudade, sempre na tua direção, caminharão, caminharão, sem nenhuma finalidade.

CHAMA CHUVA Chama o Alexandre! Chama! Olha a chuva que chega!
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CHAMA CHUVA Chama o Alexandre! Chama! Olha a chuva que chega! É a enchente. Olha o chão que foge com a chuva ... Olha a chuva que encharca a gente. Põe a chave na fechadura. Fecha a porta por causa da chuva, olha a rua como se enche! Enquanto chove bota a chaleira no fogo: olha a chama! Olha a chispa. Olha a chuva nos feixes de lenha! Vamos tomar chá pois a chuva é tanta que nem de galocha se pode andar na rua cheia! Chama o Alexandre! Chama! ** "Enchente".

Máquina Breve O pequeno vaga-lume com sua verde lanterna,
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Máquina Breve O pequeno vaga-lume com sua verde lanterna, que passava pela sombra inquietando a flor e a treva - meteoro da noite, humilde, dos horizontes da relva; o pequeno vaga-lume, queimada a sua lanterna, jaz carbonizado e triste e qualquer brisa o carrega: mortalha de exíguas franjas que foi seu corpo de festa. Parecia uma esmeralda e é um ponto negro na pedra. Foi luz alada, pequena estrela em rápida seta. Quebrou-se a máquina breve na precipitada queda. E o maior sábio do mundo sabe que não a conserta.

"Serás possível um peito, comportar mais saudade que seu próprio tamanho? pois eu lhe juro, logo já, meu coração arrebenta minhas costelas e vai correndo ao encontro do teu de tanto não suportar mais você tão longe. tenho medo que meus braços durante a noite se rebelem, destaquem…
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"Serás possível um peito, comportar mais saudade que seu próprio tamanho? pois eu lhe juro, logo já, meu coração arrebenta minhas costelas e vai correndo ao encontro do teu de tanto não suportar mais você tão longe. tenho medo que meus braços durante a noite se rebelem, destaquem-se de mim e saiam correndo ao enlaço do teu pescoço e minha boca se recuse a fazer qualquer movimento que não seja atado à tua. ando de um lado pro outro o dia inteiro, só pra ver se meus pés aquietam e deixam de tentar correr na tua direção. Dear, a verdade é que sem você aqui comigo, meu corpo inteiro tenta dar jeito de te alcançar. é mais que consciente minha vontade de você. é involuntário como cada batida do meu coração - que sussurra seu nome, seu nome, seu nome, tum-tum, seu nome…"

Sou entre flor e nuvem, estrela e mar. Por que havemos de ser unicamente humanos,
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Sou entre flor e nuvem, estrela e mar. Por que havemos de ser unicamente humanos, limitados em chorar? Não encontro caminhos fáceis de andar. Meu rosto vário desorienta as firmes pedras que não sabem de água e de ar. E por isso levito. É bom deixar um pouco de ternura e encanto indiferente de herança, em cada lugar. Rastro de flor e de estrela, nuvem e mar. Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido: a sombra é que vai devagar.

Falai de Deus com a clareza - Cecília Meireles Falai de Deus com a clareza da verdade e da certeza:
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Falai de Deus com a clareza - Cecília Meireles Falai de Deus com a clareza da verdade e da certeza: com um poder de corpo e alma que não possa ninguém, à passagem vossa, não O entender. Falai de Deus brandamente, que o mundo se pôs dolente, tão sem leis. Falai de Deus com doçura, que é difícil ser criatura: bem o sabeis. Falai de Deus de tal modo que por Ele o mundo todo tenha amor à vida e à morte, e, de vê-Lo, O escolha como modelo superior. Com voz, pensamentos e atos representai tão exatos os reinos seus que todos vão livremente para esse encontro excelente. Falai de Deus.

Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, mas foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segr…
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Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, mas foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.