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Frases de Cecília Meireles

328 frases

Canção do Amor-Perfeito Eu vi o raio de sol beijar o outono.
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Canção do Amor-Perfeito Eu vi o raio de sol beijar o outono. Eu vi na mão dos adeuses o anel de ouro. Não quero dizer o dia. Não posso dizer o dono. Eu vi bandeiras abertas sobre o mar largo e ouvi cantar as sereias. Longe, num barco, deixei meus olhos alegres, trouxe meu sorriso amargo. Bem no regaço da lua, já não padeço. Ai, seja como quiseres, Amor-Perfeito, gostaria que ficasses, mas, se fores, não te esqueço.

Fui Mirar-me Cecília Meireles Fui mirar-me num espelho
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Fui Mirar-me Cecília Meireles Fui mirar-me num espelho e era meia-noite em ponto. Caiu-me o cristal das mãos como as lembranças do sono. Partiu-se meu rosto em chispas como as estrelas num poço. Partiu-se meu rosto em cismas - que era meia-noite em ponto. Dizei-me se é morte certa, que me deito e me componho, fecho os olhos, cruzo os dedos sobre o coração tão louco. E digo às nuvens dos anjos: "Ide-vos pelo céu todo, avisai a quem me amava que aqui docemente morro. Pedi que fiquem amando meu coração silencioso e a música dos meus dedos tecida com tanto sonho. De volta, achareis minha alma tranqüila de estar sem corpo. Rebanhos de amor eterno passarão pelo meu rosto

Na chácara do Chico Bolacha o que se procura nunca se acha!
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Na chácara do Chico Bolacha o que se procura nunca se acha! Quando chove muito, O Chico brinca de barco, porque a chácara vira charco. Quando não chove nada, Chico trabalha com a enxada e logo se machuca e fica de mão inchada. Por isso, com o Chico Bolacha, o que se procura nunca se acha. Dizem que a chácara do Chico só tem mesmo chuchu e um cachorrinho coxo que se chama Caxambu. Outras coisas, ninguém procura, porque não acha. Coitado do Chico Bolacha!

As Meninas Arabela abria a janela.
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As Meninas Arabela abria a janela. Carolina erguia a cortina. E Maria olhava e sorria: "Bom dia!" Arabela foi sempre a mais bela. Carolina, a mais sábia menina. E Maria apenas sorria: "Bom dia!" Pensaremos em cada menina que vivia naquela janela; uma que se chamava Arabela, uma que se chamou Carolina. Mas a profunda saudade é Maria, Maria, Maria, que dizia com voz de amizade: "Bom dia!"

O mosquito escreve O mosquito pernilongo trança as pernas, faz um M,
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O mosquito escreve O mosquito pernilongo trança as pernas, faz um M, depois, treme, treme, treme, faz um O bastante oblongo, faz um S. O mosquito sobe e desce. Com artes que ninguém vê, faz um Q, faz um U, e faz um I. Este mosquito esquisito cruza as patas, faz um T. E aí, se arredonda e faz outro O, mais bonito. Oh! Já não é analfabeto, esse inseto, pois sabe escrever seu nome. Mas depois vai procurar alguém que possa picar, pois escrever cansa, não é, criança? E ele está com muita fome.

Vigília das Mães Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida, pelas águas salgadas de muito longe,
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Vigília das Mães Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida, pelas águas salgadas de muito longe, pelas florestas que escondem os dias, pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro de seus próprios silêncios. Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram. Este vento que passa pode dar-lhes a morte. A vaga pode levá-los para o reino do oceano. Podem estar caindo em pedaços, como estrelas. Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima. Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma. Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir. Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade, não querem prisão, atraso, adeuses: deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos. Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos, querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam. Não sabemos quando morrem, quando riem, são pássaros sem residência nem família à superfície da vida. Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável, esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos. Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos. Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram, mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos, seu único presente, abundante e sem fim.

Se me contemplo, tantas me vejo, que não entendo
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Se me contemplo, tantas me vejo, que não entendo quem sou, no tempo do pensamento. Vou desprendendo elos que tenho, alças, enredos... Formas, desenho que tive, e esqueço! Falas, desejo e movimento — a que tremendo, vago segredo ides, sem medo?! Sombras conheço: não lhes ordeno. Como precedo meu sonho inteiro, e após me perco, sem mais governo?! Nem me lamento nem esmoreço: no meu silêncio há esforço e gênio e suave exemplo de mais silêncio. Não permaneço. Cada momento é meu e alheio. Meu sangue deixo, breve e surpreso, em cada veio semeado e isento. Meu campo, afeito à mão do vento, é alto e sereno: Amor. Desprezo. Assim compreendo o meu perfeito acabamento. Múltipla, venço este tormento do mundo eterno que em mim carrego: e, una, contemplo o jogo inquieto em que padeço. E recupero o meu alento e assim vou sendo. Ah, como dentro de um prisioneiro há espaço e jeito para esse apego a um deus supremo, e o acerbo intento do seu concerto com a morte, o erro... ( voltas do tempo — sabido e aceito — do seu desterro...)

Recado aos Amigos Distantes Meus companheiros amados, não vos espero nem chamo:
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Recado aos Amigos Distantes Meus companheiros amados, não vos espero nem chamo: porque vou para outros lados. Mas é certo que vos amo. Nem sempre os que estão mais perto fazem melhor companhia. Mesmo com sol encoberto, todos sabem quando é dia. Pelo vosso campo imenso, vou cortando meus atalhos. Por vosso amor é que penso e me dou tantos trabalhos. Não condeneis, por enquanto, minha rebelde maneira. Para libertar-me tanto, fico vossa prisioneira. Por mais que longe pareça, ides na minha lembrança, ides na minha cabeça, valeis a minha Esperança.

Contemplação Não acuso. Nem perdôo. Nada sei. De nada.
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Contemplação Não acuso. Nem perdôo. Nada sei. De nada. Contemplo. Quando os homens apareceram eu não estava presente. Eu não estava presente, quando a terra se desprendeu do sol. Eu não estava presente, quando o sol apareceu no céu. E antes de haver o céu, EU NÃO ESTAVA PRESENTE. Como hei de acusar ou perdoar? Nada sei. Contemplo.