Maria do Carmo Barreto Campello de Melo nasceu no Recife em 21 de julho de 1924-2008.Passou parte da infância no antigo Engenho da Torre e no Rio de Janeiro.Jornalista, escritora, poetisa.Principais obras poéticas: Música do Silêncio; O Tempo Reinventado; Verde Vida; Partitura sem Som; De Adeus e Borboletas; Solidão Compartilhda; A Consoada e muitas outras. Ocupava a cadeira de nº29 na Academia Pernambucana de Letras.
Meu poema é mudo
meu poema é opaco
não te vislumbrem subjacentente
entre as palavras que te cercam.
Mítico e indecifrável
é o poema pelo avesso que te contruo
íntima muralha que te construo.
Enquanto te pensava
um poema se ergueu no chão das minhas mãos
ereto e insondável
como uma flor noturna.
Passaste
e me revesti de ti
atingiste minha substância íntima: quem me vê
não se sabe que está vendo
uma parte de ti que me adere.
Interira e lúcida
perco-me e me revigoro no poema
que me recompuseste o teu nome no meu nome
com sílabas e vogais acesas.
Assina-me
sou teu texto
Poema em Solidão nº5
SOU
e a tua angústia me pressente
e a meus olhos tristes abertos para a vida.
Tua busca
rompe a solidão em que me envolvo
e me revela ao teu olhar inquieto e lúcido.
Desperta e atenta
te percebo e me descubro
a mim, que me construo e me adivinho..."
Poemapranto
Não há mais lágrimas para chorar.
Todas as palavras foram ditas e crestaram
como folhas secas.
A dor cresce
- dura e forte -
como as árvores definitivas.
A dor se instala.
Os olhos, porém, vêem e assistem e testemunham
para além e para aquém da fronteira do homem.
Que fazer desta dor?
Nossas mãos nos escavam e tentam arrancá-la
como a um fruto maldito.
- Amigo,
que vento mau dispersou
o que colhemos juntos?
Do sonho, só a semente do Azul ficou.
Mil punhais varam os ares:
- do homem só restou o que ele não queria."
E restamos nós
e a nossa verdade,
de repente estranha
e real como um fruto maduro em nossas mãos.
E restamos nós os sobreviventes,
açoitados pelo vento da vida.
(Agora há antes e há depois)..."
Por trás de vidraças
te pressinto
e em eco escuto tua voz
- onde as mãos
dize-me
que um encontro tenho
marcado
com tua sombra.
Como buscar-te
se os relógios ficaram sem memória
e num tempo indiviso estou
perdida..."
Não saberei de ti
nem do galope de cavalos no teu sangue.
Do teu mistério
(da dor do amor do sonho)
não saberei,
só saberei de paz
e das searas de nuvens que apascento..."
Venho
como o fim das coisas
os últimos acontecimentos.
Meu signo é o
do desespero e
só há uma face
- e é amarga.
No entanto
sou como as coisas
nascentes
e há um sol
tentando irromper
no horizonte do
meu âmago.
Cheiro a grama fresca
e meus olhos não têm tempo..."
Poema em Solidão nº9
1º tempo:
Elegia - Ai, que hoje te encontro
e te perco hoje.
Da noite milenar vens
me confessar teu amor dói
em mim como um claro punhal.
- Vinte vezez possuis a minha alma
e me deixas mais-só-na-solidão
que nem a mim mais possuo.
- Ai, hoje que vens,
hoje me deixas,
hoje te encontro
e te perco hoje..."
Poema em Solidão nº10
...Olho-te de olhos limpos
com minha face lavada e triste
Olho-te com o rosto da verdade.
É chegada a hora do encontro definitivo.
Nenhum artifício deverá presidir
esse momento em que eu serei tu e estarás em mim.
Olhar-nos-emos, então, como se nunca e sempre
nos conhecêssemos
olhar-nos-emos como se fossemos morrer.
Nenhuma palavra será pronunciada
porque nos diremos tudo
tudo e depressa
porque o tempo perdeu as referências ante o amor...
Poema em Solidão nº7
Agora longe (agora perto)
Somos
em solidão.
...
Agora sós / agora ilhados
em nós mesmos debruçados,
nos perguntamos sobre nossos sonhos
mortos, e no entanto vivos
- ramo decepado e florido
em nossas mãos..."
...Lança teu grito no meu silêncio
descobre-me
dá-me um nome.
Quero olhar-te com
a última-face-oculta
emergida de mim.
Crava tua verdade em minha verdade.
Revela-me
ou destrói-me..."
...Amigo,
haverá um lugar onde possamos descansar
as nossas sombras
que alguma coisa está nascendo do meu
para teu amor por mim
e que possamos chamar nosso..."
Aqui estou.
Digo meu nome
me espanto da moldura no meu rosto
me coloco na vida
e não me sei...
...Aqui estou.
Compondo os dias e
esse espelho que me olha triste.
Em começos e fins me interponho
- pergunta e resposta de mim mesma -
de mim que me inicio e me concluo
no gemido só
que me unifica..."
...Mas, secretamente sabemos
que retornaremos à paisagem primitiva,
onde a certeza será uma âncora
para o espírito disperso nas mutações.
Na paisagem primeira a nós encontraremos e restaremos."
As circunstâncias
E era eu
e minhas circunstâncias
e elas eram EU (que delas faço parte)
e juntas - eu e elas - somos talvez
uma Circunstância-Só
ou nelas sou mais EU:
Me amplio / Me acrescento."
Quedo-me e
te contemplo.
Vens vindo, então, em teu olhar
e te apossas da minha alma
e já não sou minha
(nem sou tua)
Estou vazia de mim mesma
e só possuo os meus olhos
onde tua imagem fez morada.
(Esta manhã nasceu um ramo de tristeza
nos meus olhos e te oferto
com um pouco daquilo de que se nutre
o azul)..."
Poema em Solidão nº6
E assim,
- tão de repente -
o silêncio habitou em nós.
Em solidão
Estou
(vestida de silêncio)
Meu silêncio,
eu o construirei como uma torre:
palpável e presente
o edificarei.
...
Entre ti e mim
construirei silêncio
e o silêncio é a ponte
por onde o amor caminha..."