...Se vens
já vou antecipando a vinda
e ao chegares me pressentirás no ar claro
de signos que anunciam
a minha espera aflita
antechegando e inaugurando
o Encontro
que virá,
quando liberta
dos mmil TU com que me encontrarei
até chegar a TI
eu te encontrarei enfim..."
Poema em Solidão nº3
Ninguém pronuncia meu nome
e em tristeza, minhas horas teço.
A solidão nasce, em mim,
como uma grande e branca flor.
- Meus olhos são dois poentes,
- minhas mãos gestos de adeus.
A memória se insurge: houve uma aurora.
Meus olhos se tingem do apelo do azul.
Dúbia me instalo:
Palavra e eco divi-dida
face no espelho (re)produzida.
A rosa dos ventos permanece
como estrela única,
mas eu sempre restarei.
Em silêncio devoro minha dor..."
Poesias do livro O TEMPO REINVENTADO
Hoje
fui ontem em sua boca,
que num tempo de retorno
me fizeram
os teus olhos de longes e distâncias.
E assim
por ser de ontem e não
de agora,
e muito mais miragem do que
VIDA
a imagem na tela recomposta
no tempo recuado está perdida.
Ergo-me agora
contra o tempo e contra tu mesmo
despedaço os espelhos da memória
e grito meu nome
sem data
eu que fui-sou-e-serei
sendo agora.
reinvento
a imagem
que há detrás dos olhos
inverto os calendários
e sou o Agora."
Poema em Solidão nº1
Digo-te
Um cântico de verdade essencial.
Estou ilhada,
minha solidão criou barreiras
em torno de mim,
sou terra sem praias,
sou campo sem pouso
(não tentes o vôo)
Estou desligada,
nenhum roteiro termina em mim,
não há porto,
onde descanses a âncora..."
...E era tudo como antigamente
o que ansiosamente nós buscávamos
porque de antigamente nos nutríamos
e só
em antigamente
encontrávamos.
E assim buscando um tempo que ficara
(aprisionando mãos palavras sonhos)
e quanto nós quiséramos / amávamos
reinventando tudo como antigamente..."
As palavras compõem a paixão que inexiste
enquanto
A boca cala o amor que acontece.
O afago embriona na mão que descansa indiferente
e de repente se ergue
e escreve teu nome num poema de amor...
Ciclo da Solidão
Aviso:.
Esta solidão não é
somente minha. Nasceu em mim,
mas também tu a possues.
solidão, bem sabes, não se repartem nem se dividem.
Solidões não se somam
apenas ficam lado a lado.
Gerada em mim, em ti
dentro de todos nós gerada
o desamparo de nós todos, une."
Senhor,
dá-me esta noite,
eu quero - esta mansa noite.
Como poderei chorar
(até o fim)
toda minha mágoa
se não tiver, só para mim, uma noite?
Em seu mágico deslumbramento, eu navegaria,
carregando meus pobres destroços tecidos de
ausências e solidões."
Dual
É tempo de pressa.
É tempo de dor.
-Dá-me a chave,
ah, dá-me a chave
de ti,
que nas soleiras te decifro.
Inconclusa
te necessito
para ódio ou para o amor
que já me fui
e tanto
em ti
que já não sei
se Sou ou És:
se falas
ouço a minha voz
se te estranho
a mim repilo
e não sei se te amando
é a mim que amo.
Temo, pois, que
morrendo a ti desfaça
e se te perco,
onde a minha face?
...Andei
(muitas vezes)
o caminho que não fiz.
Repetidamente cheguei
ao lugar onde não fui.
Sou a intemporal
(a dúbia)
uma espada de fogo me div-diu:
há dia e noite em minha face dupla..."
De tempo e espaço
se faz o meu viver
o meu cansaço
que meu ofício é fiar meses e
já não sei
se quando teço estas distâncias
na ânsia de reter e
de trazer-te..."
Poema em Solidão nº2
Vem de mim
(essencialmente)
O que te digo:
Estou só e longínqua
e vós,
vois sois, apenas, os que assistis
o passeio da minha solidão.
ESTOU
e esta Árvore Verde
Verde-Vida,
que me descobre e me reclama.
Quando cessaren todos os apelos,
eu serei tranquila e neutra e
tomarei o cinza como minha cor.
(Mas, que farei dos meus olhos, feridos de sol?)
Meus olhos
são quietas janelas
abertas para a vida,
e atrás de meus olhos
Sou
ante a noite sem resposta..."
Poema em Solidão nº8
Todas as coisas estão realizadas.
Nada acontece
no silêncio opaco que
preside todas as horas.
Agora somos simples
- mas não felizes..."
Aqui - meu território
limitado ao norte e oeste
pelos ombros brancos do muro
e ao leste por um flamboyant que vomita vermelho
do alto de uma cratera acesa no meio
de um jardim verdeagrestino
incendiado de lavas.
Este território
onde finquei minhas raízes
onde me (mulher) plantaram
E me regaram com a água da vida
por isso que floresci
e hoje sou como uma ilha
cercada (de filhos) por todos os lados."
Dar (o poema)
como dar-se de corpo inteiro, como quem divide
pão amor dúvidas certezas
como quem comparte com doçura
de igual para.
Os EU nos fazem NÓS..."
Trago-te
uma face magoada
trago-te
a sombra de minha face.
A boca guarda em silêncio os gritos interiores
e os ocasos se sucedem
nos meus olhos.
Sinto meus dedos que rompem as grades
das janelas
e se ferem de azul.
Mas as mãos,
(que desejariam voar)
estão quietas..."
...O dia tomou conta de mim, a luz me torna boa.
O dia dói na minha carne.
(Ó Senhor, como poderei suportar
esse imenso fardo luminoso?)
Que farei do meu dia?
Que sentido darei a este dourado presente?
Abrirei, ao dia, um coração de cristal
e ficarei com um arco-íris na minha alma."
Aqui Estou, aqui estamos
e esse espelho que nos olha triste,
surpresos permanecemos e
mudos
ante o que somos e não sabemos que seja.
Revelai-nos, ah, REVELAI-NOS
AGORA, semeai-nos para que
germine a recôndita semente da
definitiva definição
(o mistério de nós)..."
...Em cada ser semeaste
um pouco da ternura de que és feita,
e ante ti
somos apenas filhos,
e irmãos uns dos outros,
ó ser múltiplo,
imenso como toda a terra,
ventre fecundo onde cabem os homens,
pobres e ricos, de todas as cores,
entranha geradora de onde o bem provém,
e já não há nenhum órfão..."
Do livro VERDE VIDA (1976)
Verde Vida
Ver a vida (verde)
Ver (ferida) a vida
ferida ver a vida (ferida)
ferida de verde ver a vida
Verde e Viva ver a vida."