Avatar
Pesares e abstrações
nos sorrisos que se fecham
como flores que emurchecem
e que brota escuridão...
às horas
de carrascais, solidão
que medram qual mata anã
e espinham o ser tão sertão...
Hoje
se abriu uma nova sazão
e fustigou madrugadas
a dor fez-se em refração...
ao despertar nova aurora
trouxe alma e um novo albor
e à luz, ser que novo aflora
com faíscas de manhãs...
afora
o nevoeiro insepulto
veio cores pelo ar
flores e azuis quintais
e o vento sem mais tropeços
levou o singulto embora...
A solidão é meu nome
convém-me ossos roer
e sem visão d'outro norte
lastimo a dor de meus cortes
desditoso por aceder
vegetando, sem viver
me amofinando entre enfados
há cada dia há um fado
d'invernos que me consome
a solidão é meu nome
d'infernos fui apenado.
No tempo muitas saudades
O encanto nunca é só plástico
se o sentimento é não perecível
não é crueldade o tempo
se há ócio em continuidade
em cada ciclo de um dia
milhões de oportunidades
e o sangue que se fundiu
formou-se em profecia,
sacerdócio e poesia...
grãos de ambíguas verdades
vontades são instrumentos
o tempo , um tênue fio
e um pacto, sem vencimento...
Recônditos
Moram em celas sombrias
de um coração baldio
remorsos sem fins
angústias
e ressentimentos
de mornos perjúrios
de afrontas
às boas venturas
por entes
carentes de luz...
sós
como sóis poentes
morrem os poetas
por pudores insepultos
e rogam perdão
prum renascimento...
navegam mares de solidões
bradam às verdades
num hermético cubículo
mas dormem em silêncio...
e em cada gota de tempo
rios de prantos
indiferenças
rebuscas em secas...
por eternidades
vão
por trilhos retorcidos
mortos que se arrastam
por céus já descoloridos...
e sós
arfam
brisas sem movimentos
em climas de objeções
nas aversões de prazeres
e desejos ressequidos.
Sem visão d'outro norte
À solidão condenada
E inane, refém da dor
por não saber dar valor
a quem se deu qual morada...
inconsequentes pancadas
me fez aquém de poder
além de excluir querer
também me pôs contra a sorte
e sem visão d'outro norte
convém-me ossos roer...
Mergulho
Não conheci profundezas
sem que ousasse um mergulho
desvelei embrulhos
de alvas belezas...
vivi mil proezas
soçobrando orgulhos
britei pedregulhos
grilhões de avarezas
em simplicidades
busquei alegrias
de vida & entrevindas
renovei folhagem
desprezei bagagens
de vãs incertezas
no mais, em asperezas
não saí dos trilhos...
se em tudo há um brilho
a tristeza é linda
quando o seu traje
se faz de poesias.
Coração de pedra
Pedras perpetuam-se
e, em sua passividade, rolam
transformam-se
mudam de histórias
mas nunca perdem sua essência...
e o homem
com seu coração de pedra
tem inversa sua trajetória
e de inglória em inglória
em sua mortal existência
transforma o mundo
promove guerras
vêm pestes, fome...
no escuro
de sua parca consciência
e em sua operosidade
desmata e mata a terra
e a si destrói...
Viver é lutar
viver é sempre lutar
com garra e com coragem
perder, ganhar, sem se haurir
sempre focado prum norte...
ter porte pra prosseguir
e não se queixar da sorte
é ser teimoso e tentar
sem hesitar desistir...
é ser forte pra se erguer
a cada vez que cair
crescer à dor de seus cortes
contudo sobreviver
a meio passo da morte...
Sem regras
desenho
círculos sem compasso,
quadrados sem régua,
paredes sem prumo
e vãos sem esquadro...
rabisco poemas
sem nenhuma regra,
navego entre letras
sem remos nem rimas...
sem mote, sem métrica,
no papel, meu porto,
dou o meu recado
e morro entrelinhas...
sem nenhum dilema
minha regra é o rigor
em não ser quadrado
nem em regras ancorado...
Dos corolários
Hoje __ um vão solitário
com raízes de passado __
por laço que foi desfeito
com extrema obsessão...
forçou-se em excomunhão
mesmo em lancinante dor
e abnegou-se do amor
ao se abster do prazer...
cativa, morta e à mercê
da própria escravidão
vestiu-se de escuridão
incursa em sua estolidez...
seu nome é solidão
sua alcunha é insensatez
amuo e indisposição;
seu mundo vil: pequenez.