Evos de solidão
És como águas mortas
de um bruto solipsismo...
que nasce do egocentrismo
nos teus diques e comportas
e impede-nos navegar
nos teus rasos oceanos...
reflui desse imo insano
ardis de cunho vulgar
e lastra em teu caminhar
vislumbres de escuridão
de juízos inumanos
porto que ninguém aporta...
dédalo de tantas portas
sendas a comuns engano
contemplações do ser ufano
sugerem indefinição...
viajor de histórias tortas
em teu destino há respostas
pros evos de solidão...
Das contrições
Entre o gostar e o querer
há um mal sofrível:
o se arrepender...
vem a tristezas atônita
e o peito vazio
vem sentimentos de noites
sem amanhecer
e as vísceras sangram, aflitas
à cruciação
não existe o que mais fazer...
toda dor traz suas sementes
nem todo céu é de encantos
nem todo rio é de encontros
nem todo verso quer rimas
nem todo chão dá poesia
nem há amor que se plante
em terreno baldio.
O amor
O amor é indefinível,
tem nele todo indizível,
difícil de se entender...
Tudo que dele se diga,
é, certamente, plausível,
mas não passa de clichê...
O amor vem de alma pura,
não veste-se de fuga ou medo
é forte tal qual um rochedo
não é doença, ele é cura.
Perene, pra sempre dura,
não divide, multiplica;
não se traduz nem se explica,
em palavras, sua essência,
mas se expressa na evidência
dos gestos de quem o sente...
A cor dos olhos não mente
quando irradia o seu lume;
no amor não cabe o ciúme,
mas sim respeito e lealdade.
O amor traz felicidades,
não a dor nem o sofrimento,
insegurança e tormento,
sentimentos doentios...
Se é amor tem que ser sadio,
ser livre e sem vencimento...
Troféu
Soo a pulsão estancada
sentimentos de robô
de flamas mortas, sem ardor
d'água salobra parada
do tudo que se fez nada
do azedo que já foi mel
do doce que fez-se em fel
deixaste de ser poesia
e o prêmio à tu'alma fria
é o desdém qual troféu.
Enquanto houver lucidez
Enquanto houver um mínimo de lucidez
nem tudo estará perdido
contraditório ou não
todo equilíbrio é possível...
toda loucura é cabível...
visto que tudo passa
viver não chega a ser insofrível
pois toda a vida é ilusão
a dor pode ser aprazível
pois todo martírio é vão
todo delírio é são
e a morte é iniludível.
Deixo pro mundo em meus versos provas da minha existência (II)
Espalho minhas sementes
pra que o mundo floresça
pra quando aqui pereça
meu nome não esteja ausente...
Deixo meu ar de presente
pra qu'exalem em permanência
e busquem a florescência
nos germens, de mim, aspersos...
deixo pro mundo em meus versos
provas da minha existência.
Deixo pro mundo em meus versos provas da minha existência
Cultivo frutos de agoras,
de horizontes e devenir
sóis nascentes no porvir
sementes de justa aurora...
no presente de minhas horas
rastros d'intensas vivências
vem n'alma a efervescência
de sentimentos abstersos...
deixo pro mundo em meus versos
provas da minha existência.
Morre, em mim, você
se extingue em mim
o olhar sedento
entreguei aos ventos
todo o meu fervor
em mim morre o amor
histórias em destempo
decurso de tempo
que venceu o querer
morre em mim a dor
saudades, castigo
hoje estou comigo
morre, em mim, você...
Invernal
Nas chuvas que caem sem horas
vêm vontades de lhe ter...
sentindo o viver doer
gradeado lá no passado...
brotam em meus olhos molhados
saudades mil de você
e o tempo a voar não passa
porque ainda há o querer...
são d'águas as tuas lembranças
torrentes balança o peito
e o efeito que à alma lança
é de aflições perecer...
Vinho
que venha
o sangue tinto das vinhas
num cálice de bom espírito
pra que dores sejam breves
pra que fardos sejam leves...
e a cada trago tomado
que nos traga cores
aromas, tatos, sabores...
sorrisos & brisas, calma
um afago
lá nos refolhos da alma
também para que nos leve
e nos retome de volta
à essência incorpórea
que faz-nos sentir-se ser...
e termos
vicissitude de amores
na sensatez de torpores
preamares de prazer...
Das consumições
No solo
à lágrima caída e fecunda
espinhos de um filho
em subversão
partir no desleixo
é que, à parte, sangra
esfarelam sonhos
e a alma parte
não é só no puxo de mãe
que se sente dor...
também por amor
sofre um viajor
em seus flutuantes dias
vão-se luas
vêm destempos
e à luz dos silêncios
desaparição...
na busca tardia
é que se torna fria
tal conexão
ao voo ingrato
desdéns, rebeldia
fenece-se às chamas
o que noutrora havia...
Tal tempo
são poças de remorsos à natureza prima
de sangue estagnado por dissipações
e sonhos esvoaçados de sujos vestígios
tristezas recorrentes à luz de involuções...
é o eterno que morre malsão entre os dedos
escolhas que convergem à insana escravidão
são dores, desencantos d'infeliz desejo
nos olhos que se atêm à própria escuridão...
e, de toda verdade, o cultivo insosso
dos muitos pesadelos qu'inda hão de vir
são pedras pequeninas por entre destroços...
medos que não dão trela d'alguém arguir
soluçam no vazio dum tal alvoroço
diz ser suma certeza que é chegado o fim.
Subversões
Dias instáveis
qual mar em subversões
é tudo que não queria...
seguir quase insuportável
por ser lobo solitário
em ocasos inconfessáveis...
poluto
e lotado de detritos
confuso
perdido em seus labirintos
no escuro de seu rude imaginário
contrito
com a alma em total conflito
viver
ocluso em seus sentimentos
morrer
escuso em seus marasmos...
Blandífluo
Como se fosse gotas de sorrisos
a garoar sobre os meus ramos secos
fez florescer poesias em meus becos
frutificar no peito regozijos...
fez dos abismos um lugar sereno
e dos venenos antídoto preciso
fez da loucura alicerces do siso
e dos meus gritos bulícios amenos
trouxe vigor ao que era sacrifício
deu mais valor aos encargos pequenos
menos assombros ao devir difícil
como um repuxo e de viço pleno
varri balouços encontrando o alívio
e pra tristura fiz somente um aceno.
Alma forra
Antes da delicada frieza
era devotado
também de atitudes arrojadas
com a deia em forma de mulher
que me arrebatou...
me fez, do mundo, declinado
um servo, aos seus pés, inclinado
de raios desembestados
que por fim surtou...
fui amante fiel endiabrado
de corpo, dessossegado
fui o louco mais apaixonado
e cativo do amor...
mas hoje sou barco imbicado
dali fui desacorrentado
co'as fenestras do ceticismo
que me alforriou...
Um grito em silêncio
Não há nada que aponte um recomeço
nem que aporte as cinzas a ressuscitar
se o agora é de cruz a carregar
qual pecado possui mais justo preço?
lavar as mãos ora não é o que ofereço
os meus pés andam cegos em desamor
sou tão caça quanto fui caçador
sem valor, sem nome nem endereço...
qual druida vestido pelo avesso
enfurnado em lamúrias colossais
ao furor dos arcanjos imparciais
singro à dor de um passado não travesso...
entre mortes & vida vingo os tropeços
e os arfantes estridores dos meus ais.
Conspirações
(É inútil toda peçonha porque o bem vem aos bons)
Inda que te finquem as garras
com todo ódio e furor
que te interrompam o labor
e que disto façam farra
que ostentem de toda marra
com ranços de dissabor
que exalem n'alma o fedor
d'egos sujos n'algazarra
que tentem meter-te amarras
d'infernos te interpor
e imputem a ti dor
de suas asserções bizarras
sairás por fim vencedor
inda que te finquem as garras
e mesmo com toda barra
só urdirão a teu favor...