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Frases de Augusto dos Anjos

99 frases

Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
Contrastes A antítese do novo e do obsoleto, O Amor e a Paz, o ódio e a Carnificina,
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Contrastes A antítese do novo e do obsoleto, O Amor e a Paz, o ódio e a Carnificina, O que o homem ama e o que o homem abomina, Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto, Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes, junta-se um hemisfério a outro hemisfério, As alegrias juntam-se as tristezas, E o carpinteiro que fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!

Ave dolorosa Ave perdida para sempre - crença Perdida - segue a trilha que te traça
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Ave dolorosa Ave perdida para sempre - crença Perdida - segue a trilha que te traça O Destino, ave negra da Desgraça, Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Lá, na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça, Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres, Empenhada na sanha dos abutres, Num desespero rábido, assassino... E hás de tombar um dia em mágoas lentas, Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino!

A árvore da serra — As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho...
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A árvore da serra — As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros, no junquilho. Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! — Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa: Não mate a árvore, pai, para que eu viva! E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Eterna mágoa O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
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Eterna mágoa O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada, pois, nada há que traga Consolo à Mágoa, a que só ele assiste. Quer resistir, e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Sabe que sofre, mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida, é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme; E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda!

Debaixo do tamarindo No tempo de meu Pai, sob estes galhos, Como uma vela fúnebre de cera,
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Debaixo do tamarindo No tempo de meu Pai, sob estes galhos, Como uma vela fúnebre de cera, Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje, esta árvore de amplos agasalhos Guarda, como uma caixa derradeira, O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida, e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri, Voltando à pátria da homogeneidade, Abraçada com a própria Eternidade, A minha sombra há de ficar aqui!

Volúpia imortal Cuidas que o genesíaco prazer, Fome do átomo e eurítmico transporte
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Volúpia imortal Cuidas que o genesíaco prazer, Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas, aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz radial, em que arde o Ser, Para a perpetuação da Espécie forte, Tragicamente, ainda depois da morte, Dentro dos ossos, continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados, Os nossos esqueletos descarnados, Em convulsivas contorções sensuais, Haurindo o gás sulfídrico das covas, Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais!

Versos a um cão Que força pode, adstricta a ambriões informes, Tua garganta estúpida arrancar
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Versos a um cão Que força pode, adstricta a ambriões informes, Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes?! Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes, Suficientíssima é, para provar A incógnita alma, avoenga e elementar Dos teus antepassados vermiformes. Cão! — Alma de inferior rapsodo errante! Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a A escala dos latidos ancestrais. . . E irá assim, pelos séculos, adiante, Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos seus pais!

Vozes da morte Agora, sim! Vamos morrer, reunidos, Tamarindo de minha desventura,
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Vozes da morte Agora, sim! Vamos morrer, reunidos, Tamarindo de minha desventura, Tu, com o envelhecimento da nervura, Eu, com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão, meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura, A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão, porém, tuas sementes! E assim, para o Futuro, em diferentes Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos, Na multiplicidade dos teus ramos, Pelo muito que em vida nos amamos, Depois da morte inda teremos filhos!

Último credo Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
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Último credo Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum, Amo o coveiro este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum, É a morte, é esse danado número Um, Que matou Cristo e que matou Tibério. Creio como o filósofo mais crente, Na generalidade decrescente Com que a substância cósmica evolue... Creio, perante a evolução imensa, Que o homem universal de amanhã vença O homem particular que eu ontem fui!

Vox Victimae Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou, dando-me ao corpo vão
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Vox Victimae Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou, dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino, No mar da humana proliferação, Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada, Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador ... E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador!

Sofredora Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola;
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Sofredora Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola; Chora - o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Quando o rosário de seu pranto rola, Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Tenta às vezes, porém, nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Mas volta logo um negro desconforto, Bela na Dor, sublime na Descrença. Como Jesus a soluçar no Horto!

Vítima do dualismo Ser miserável dentre os miseráveis — Carrego em minhas células sombrias
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Vítima do dualismo Ser miserável dentre os miseráveis — Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiosincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psiquê biforme, o Céu e o Inferno absorvo... Criação a um tempo escura e cor-de-rosa, Feita dos mais variáveis elementos, Ceva-se em minha carne, como um corvo, A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos!

O deus-verme Factor universal do transformismo. Filho da teleológica matéria,
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O deus-verme Factor universal do transformismo. Filho da teleológica matéria, Na superabundância ou na miséria, Verme — é o seu nome obscuro de batismo. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea, E vive em contubérnio com a bactéria, Livre das roupas do antropomorfismo. Almoça a podridão das drupas agras, Janta hidrópicos, rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão... Ah! Para ele é que a carne podre fica, E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção!

Vencido No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo, desde o mais prístino mito,
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Vencido No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo, desde o mais prístino mito, Por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito, Mergulhou a cabeça no Infinito, Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda, Pondo a áurea insígnia heráldica da farda A vontade do vômito plebeu... E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu.

Viagem de um vencido Noite. Cruzes na estrada. Aves com frio... E, enquanto eu tropeçava sobre os paus,
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Viagem de um vencido Noite. Cruzes na estrada. Aves com frio... E, enquanto eu tropeçava sobre os paus, A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho, uivando hoffmânnicos dizeres, Aprazia-me assim, na escuridão, Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. Eu procurava, com uma vela acesa, O feto original, de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre, era só O ocaso sistemático de pó, Em que as formas humanas se sumiam! Reboava, num ruidoso burburinho Bruto, análogo ao peã de márcios brados, A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas em embriões Prestes a rebentar, como vulcões, Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim, como num chão profundo, Choravam, com soluços quase humanos, Convulsionando Céus, almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes, Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar, No desespero de não serem grandes! Vinha-me à boca, assim, na ânsia dos párias, Como o protesto de uma raça invicta, O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio, A abstinência e a luxúria, o bem e o mal Ardiam no meu Orco cerebral, Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea, Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu, perdido no Cosmos, me tornara A assembléia belígera malsã, Onde Ormuzd guerreava com Arimã, Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas, Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu, de onde se vê o Homem de rastros, Brilhava, vingadora, a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas, Noite alta, com a sidérica lanterna, Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância, Maior que o olhar que perseguiu Caim, Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso muitas cartas Eu sofria, ao colher simples gardênia, A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Mas das árvores, frias como lousas, Fluía, horrenda e monótona, uma voz Tão grande, tão profunda, tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos, Desde a consciência à antítese dos sexos Vêm de um dínamo fluídico de gás, Se hoje, obscuro, amanhã píncaros galgas, A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe, enquanto Deus, Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir, Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras, do Equador aos pólos, Na prisão milenária dos subsolos, Rasgando avidamente o húmus malsão, Não trabalham, com a febre mais bravia, Para erguer, na ânsia cósmica, a Energia À última etapa da objetivação?! É inútil, pois, que, a espiar enigmas, entres Na química genésica dos ventres, Porque em todas as cousas, afinal, Crânio, ovário, montanha, árvore, iceberg, Tragicamente, diante do Homem, se ergue a esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande, Para esconder-se nessa esfinge grande, Deu-te (oh! Mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Lua! Por isto, oh! filho dos terráqueos limos, Nós, arvoredos desterrados, rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar... Rimos, isto é, choramos, porque, em suma, Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" Às vibrações daquele horrível carme Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir, a escalar Céus e apogeus, A voz cavernosíssima de Deus Reproduzida pelos arvoredos! Agora, astro decrépito, em destroços, Eu, desgraçadamente magro, a erguer-me, Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana, com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque, naquela noite de ânsia e inferno, Eu fora, alheio ao mundanário ruído, A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno!

Vencedor Toma as espadas rútilas, guerreiro, E à rutilância das espadas, toma
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Vencedor Toma as espadas rútilas, guerreiro, E à rutilância das espadas, toma A adaga de aço, o gládio de aço, e doma Meu coração — estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. E qual mais pronto, e qual mais presto assoma, Nenhum pôde domar o prisioneiro. Meu coração triunfava nas arenas. Veio depois de um domador de hienas E outro mais, e, por fim, veio um atleta, Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem... E não pôde domá-lo, enfim, ninguém, Que ninguém doma um coração de poeta!

Tempos idos Não enterres, coveiro, o meu Passado, Tem pena dessas cinzas que ficaram;
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Tempos idos Não enterres, coveiro, o meu Passado, Tem pena dessas cinzas que ficaram; Eu vivo dessas crenças que passaram, e quero sempre tê-las ao meu lado! Não, não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão, Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! - Quero abraçar o meu passado morto, - Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade, Ao dobre funeral dos tempos idos!

Vozes de um túmulo Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho Destes meus olhos apagou!... Assim
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Vozes de um túmulo Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho Destes meus olhos apagou!... Assim Tântalo, aos reais convivas, num festim, Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por quê?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse, do que este que palmilho E que me assombra, porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta, Hoje, porém, que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho, Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou!

Solilóquio de um visionário Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério,
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Solilóquio de um visionário Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério, Comi meus olhos crus no cemitério, Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto, Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente, Vaguei um século, improficuamente, Pelas monotonias siderais... Subi talvez às máximas alturas, Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras, É necessário que inda eu suba mais!

Versos d’um exilado Eu vou partir. Na límpida corrente Rasga o batel o leito d’água fina
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Versos d’um exilado Eu vou partir. Na límpida corrente Rasga o batel o leito d’água fina - Albatroz deslizando mansamente Como se fosse vaporosa Ondina. Exilado de ti, oh! Pátria! Ausente Irei cantar a mágoa peregrina Como canta o pastor a matutina Trova d’amor, à luz do sol nascente! Não mais virei talvez e, lá sozinho, Hei de lembrar-me do meu pátrio ninho, D’onde levo comigo a nostalgia E esta lembrança que hoje me quebranta E que eu levo hoje como a imagem santa Dos sonhos todos que já tive um dia!

Versos a um coveiro Numerar sepulturas e carneiros, Reduzir carnes podres a algarismos,
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Versos a um coveiro Numerar sepulturas e carneiros, Reduzir carnes podres a algarismos, Tal é, sem complicados silogismos, A aritmética hedionda dos coveiros! Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros, Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética, Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros, Porque, infinita como os próprios números A tua conta não acaba mais!

Última Visio Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante,
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Última Visio Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante, Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea, Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito... A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito!