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Frase de Augusto dos Anjos

Viagem de um vencido Noite. Cruzes na estrada. Aves com frio... E, enquanto eu tropeçava sobre os paus, A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho, uivando hoffmânnicos dizeres, Aprazia-me assim, na escuridão, Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. Eu procurava, com uma vela acesa, O feto original, de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre, era só O ocaso sistemático de pó, Em que as formas humanas se sumiam! Reboava, num ruidoso burburinho Bruto, análogo ao peã de márcios brados, A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas em embriões Prestes a rebentar, como vulcões, Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim, como num chão profundo, Choravam, com soluços quase humanos, Convulsionando Céus, almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes, Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar, No desespero de não serem grandes! Vinha-me à boca, assim, na ânsia dos párias, Como o protesto de uma raça invicta, O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio, A abstinência e a luxúria, o bem e o mal Ardiam no meu Orco cerebral, Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea, Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu, perdido no Cosmos, me tornara A assembléia belígera malsã, Onde Ormuzd guerreava com Arimã, Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas, Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu, de onde se vê o Homem de rastros, Brilhava, vingadora, a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas, Noite alta, com a sidérica lanterna, Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância, Maior que o olhar que perseguiu Caim, Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso muitas cartas Eu sofria, ao colher simples gardênia, A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Mas das árvores, frias como lousas, Fluía, horrenda e monótona, uma voz Tão grande, tão profunda, tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos, Desde a consciência à antítese dos sexos Vêm de um dínamo fluídico de gás, Se hoje, obscuro, amanhã píncaros galgas, A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe, enquanto Deus, Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir, Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras, do Equador aos pólos, Na prisão milenária dos subsolos, Rasgando avidamente o húmus malsão, Não trabalham, com a febre mais bravia, Para erguer, na ânsia cósmica, a Energia À última etapa da objetivação?! É inútil, pois, que, a espiar enigmas, entres Na química genésica dos ventres, Porque em todas as cousas, afinal, Crânio, ovário, montanha, árvore, iceberg, Tragicamente, diante do Homem, se ergue a esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande, Para esconder-se nessa esfinge grande, Deu-te (oh! Mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Lua! Por isto, oh! filho dos terráqueos limos, Nós, arvoredos desterrados, rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar... Rimos, isto é, choramos, porque, em suma, Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" Às vibrações daquele horrível carme Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir, a escalar Céus e apogeus, A voz cavernosíssima de Deus Reproduzida pelos arvoredos! Agora, astro decrépito, em destroços, Eu, desgraçadamente magro, a erguer-me, Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana, com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque, naquela noite de ânsia e inferno, Eu fora, alheio ao mundanário ruído, A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno!

Augusto dos Anjos

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com | Fonte: ANJOS, A. Eu e Outras Poesias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. | Nota de autoria: A autoria desta frase foi verificada pelo Pensador.com.

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Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
Debaixo do tamarindo No tempo de meu Pai, sob estes galhos, Como uma vela fúnebre de cera,
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Debaixo do tamarindo No tempo de meu Pai, sob estes galhos, Como uma vela fúnebre de cera, Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje, esta árvore de amplos agasalhos Guarda, como uma caixa derradeira, O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida, e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri, Voltando à pátria da homogeneidade, Abraçada com a própria Eternidade, A minha sombra há de ficar aqui!

Eterna mágoa O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
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Eterna mágoa O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada, pois, nada há que traga Consolo à Mágoa, a que só ele assiste. Quer resistir, e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Sabe que sofre, mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida, é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme; E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda!