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Frases de Ary dos Santos

8 frases

Soneto de Inês Dos olhos corre a água do Mondego os cabelos parecem os choupais
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Soneto de Inês Dos olhos corre a água do Mondego os cabelos parecem os choupais Inês! Inês! Rainha sem sossego dum rei que por amor não pode mais. Amor imenso que também é cego amor que torna os homens imortais. Inês! Inês! Distância a que não chego morta tão cedo por viver demais. Os teus gestos são verdes os teus braços são gaivotas poisadas no regaço dum mar azul turquesa intemporal. As andorinhas seguem os teus passos e tu morrendo com os olhos baços Inês! Inês! Inês de Portugal.

Ecce Homo Desbaratamos deuses, procurando Um que nos satisfaça ou justifique.
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Ecce Homo Desbaratamos deuses, procurando Um que nos satisfaça ou justifique. Desbaratamos esperança, imaginando Uma causa maior que nos explique. Pensando nos secamos e perdemos Esta força selvagem e secreta, Esta semente agreste que trazemos E gera heróis e homens e poetas. Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo Malhando-nos a carne, até que em brasa Nossos sexos furiosos se confundam, Nossos corpos pensantes se entrelacem E sangue, raiva, desespero ou asa,

Desespero Não eram meus os olhos que te olharam Nem este corpo exausto que despi
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Desespero Não eram meus os olhos que te olharam Nem este corpo exausto que despi Nem os lábios sedentos que poisaram No mais secreto do que existe em ti. Não eram meus os dedos que tocaram Tua falsa beleza, em que não vi Mais que os vícios que um dia me geraram E me perseguem desde que nasci. Não fui eu que te quis. E não sou eu Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto, Possesso desta raiva que me deu A grande solidão que de ti espero. A voz com que te chamo é o desencanto E o espermen que te dou, o desespero.

Meu amor, meu amor Meu amor meu amor meu corpo em movimento
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Meu amor, meu amor Meu amor meu amor meu corpo em movimento minha voz à procura do seu próprio lamento. Meu limão de amargura meu punhal a escrever nós parámos o tempo não sabemos morrer e nascemos nascemos do nosso entristecer. Meu amor meu amor meu nó e sofrimento minha mó de ternura minha nau de tormento este mar não tem cura este céu não tem ar nós parámos o vento não sabemos nadar e morremos morremos devagar devagar.

Cantiga de Amigo Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto
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Cantiga de Amigo Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante --- o meu amigo está longe e a distância é bastante. Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante! --- o meu amigo está longe e a tristeza é bastante. Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante: o meu amigo está longe e a saudade é bastante!

Cavalo à solta Minha laranja amarga e doce meu poema
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Cavalo à solta Minha laranja amarga e doce meu poema feito de gomos de saudade minha pena pesada e leve secreta e pura minha passagem para o breve breve instante da loucura. Minha ousadia meu galope minha rédea meu potro doido minha chama minha réstia de luz intensa de voz aberta minha denúncia do que pensa do que sente a gente certa. Em ti respiro em ti eu provo por ti consigo esta força que de novo em ti persigo em ti percorro cavalo à solta pela margem do teu corpo. Minha alegria minha amargura minha coragem de correr contra a ternura. Por isso digo canção castigo amêndoa travo corpo alma amante amigo por isso canto por isso digo alpendre casa cama arca do meu trigo. Meu desafio minha aventura minha coragem de correr contra a ternura.

Epígrafe De palavras não sei. Apenas tento desvendar o seu lento movimento
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Epígrafe De palavras não sei. Apenas tento desvendar o seu lento movimento quando passam ao longo do que invento como pre-feitos blocos de cimento. De palavras não sei. Apenas quero retomar-lhes o peso a consistência e com elas erguer a fogo e ferro um palácio de força e resistência. De palavras não sei. Por isso canto em cada uma apenas outro tanto do que sinto por dentro quando as digo. Palavra que me lavra. Alfaia escrava. De mim próprio matéria bruta e brava --- expressão da multidão que está comigo.

Minha Mãe que não Tenho Minha mãe que não tenho meu lençol de linho de carinho de distância
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Minha Mãe que não Tenho Minha mãe que não tenho meu lençol de linho de carinho de distância água memória viva do retrato que às vezes mata a sede da infância. Ai água que não bebo em vez do fel que a pouco e pouco me atormenta a língua. Ai fonte que eu não oiço ai mãe ai mel da flor do corpo que me traz à míngua. De que Egipto vieste? De que Ganges? De qual pai tão distante me pariste minha mãe minha dívida de sangue minha razão de ser violento e triste. Minha mãe que não tenho minha força sumo da fúria que fechei por dentro serás sibila virgem buda corça ou apenas um mundo em que não entro? Minha mãe que não tenho inventa-me primeiro: constrói a casa a lenha e o jardim e deixa que o teu fumo que o teu cheiro te façam conceber dentro de mim.