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Frase de Ary dos Santos

Desespero Não eram meus os olhos que te olharam Nem este corpo exausto que despi Nem os lábios sedentos que poisaram No mais secreto do que existe em ti. Não eram meus os dedos que tocaram Tua falsa beleza, em que não vi Mais que os vícios que um dia me geraram E me perseguem desde que nasci. Não fui eu que te quis. E não sou eu Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto, Possesso desta raiva que me deu A grande solidão que de ti espero. A voz com que te chamo é o desencanto E o espermen que te dou, o desespero.

Ary dos Santos

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Minha Mãe que não Tenho Minha mãe que não tenho meu lençol de linho de carinho de distância
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Minha Mãe que não Tenho Minha mãe que não tenho meu lençol de linho de carinho de distância água memória viva do retrato que às vezes mata a sede da infância. Ai água que não bebo em vez do fel que a pouco e pouco me atormenta a língua. Ai fonte que eu não oiço ai mãe ai mel da flor do corpo que me traz à míngua. De que Egipto vieste? De que Ganges? De qual pai tão distante me pariste minha mãe minha dívida de sangue minha razão de ser violento e triste. Minha mãe que não tenho minha força sumo da fúria que fechei por dentro serás sibila virgem buda corça ou apenas um mundo em que não entro? Minha mãe que não tenho inventa-me primeiro: constrói a casa a lenha e o jardim e deixa que o teu fumo que o teu cheiro te façam conceber dentro de mim.

Epígrafe De palavras não sei. Apenas tento desvendar o seu lento movimento
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Epígrafe De palavras não sei. Apenas tento desvendar o seu lento movimento quando passam ao longo do que invento como pre-feitos blocos de cimento. De palavras não sei. Apenas quero retomar-lhes o peso a consistência e com elas erguer a fogo e ferro um palácio de força e resistência. De palavras não sei. Por isso canto em cada uma apenas outro tanto do que sinto por dentro quando as digo. Palavra que me lavra. Alfaia escrava. De mim próprio matéria bruta e brava --- expressão da multidão que está comigo.

Cavalo à solta Minha laranja amarga e doce meu poema
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Cavalo à solta Minha laranja amarga e doce meu poema feito de gomos de saudade minha pena pesada e leve secreta e pura minha passagem para o breve breve instante da loucura. Minha ousadia meu galope minha rédea meu potro doido minha chama minha réstia de luz intensa de voz aberta minha denúncia do que pensa do que sente a gente certa. Em ti respiro em ti eu provo por ti consigo esta força que de novo em ti persigo em ti percorro cavalo à solta pela margem do teu corpo. Minha alegria minha amargura minha coragem de correr contra a ternura. Por isso digo canção castigo amêndoa travo corpo alma amante amigo por isso canto por isso digo alpendre casa cama arca do meu trigo. Meu desafio minha aventura minha coragem de correr contra a ternura.

Cantiga de Amigo Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto
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Cantiga de Amigo Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante --- o meu amigo está longe e a distância é bastante. Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante! --- o meu amigo está longe e a tristeza é bastante. Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante: o meu amigo está longe e a saudade é bastante!