MINHA ALMA
A minha alma tem lagrimas
que outro ser não pode ver
é com tristeza n'essa cara
que mostro lagrimas a você.
São lagrimas causada de dor
a derramar-se no peito meu
águas que, se transformou em
sangue... Devido o seu adeus
Eu choro com a minha alma
lagrimas que não molha o chão
se meus olhos não vertem água
é porque choro com coração.
Minha alma também voa
com asas dos sentimentos
voa pelo norte, sul e a toa,
sob o tempo e os ventos.
Antonio Montes
INEXO
Os leões eleitos...
Rugem em seus tronos,
regem leis em suas alcovas
e chegam ao nirvana
com seus profanos planos.
Os leões eleitos...
Uma vez no comando
inicia o seu desabono...
Se propagam com a misera
dos outros, e tão logo no pedestal
entram em delírios com os ossos.
Antonio Montes
ENLAÇO
Eu me enleio
e me entorno em arrepios,
nesse arreio...
Duas taças ao meio
rebuliços nos entremeios
de dois seios...
Eis aqui,
os desejos
do alheio.
Antonio Montes
MEU QUINHÃO
Meu retrato na parede...
Não bebe água, nem sede
a esperança em seu olhar
todavia, vive verde.
É terra seca rachada
é pesadelo sob rede
cabo seco com enxada
e esperança, toda verde.
É vento secando sertão
estrada que passos prende
é fé amarrando coração
é aprende no seu alpendre.
E o velho prato da casa
sobre mesa, seu esmalte
tudo exposto na tabua
com tabuada de quilate.
Antonio Montes
RENDA DO SERTÃO
Mulher rendeira de renda
arrenda terra no sertão
a renda que tu propaga
não paga meu coração.
Vou arrendar a casaca
arremedando solidão
o remendo d'essa ingrata
remendou o meu coração.
Arremedarei essa vida
no verde dos planos meus
e se houver a partida
partirei lagrimas, adeus...
E nesse sertão tão vasto
reina a seca, junto ao sol
os passos por velhos pastos
passeiam pelo arrebol.
Antonio Montes
ONÇA SONSA
Uma onça sonsa...
Escondida na pedra
com sua roncada manca,
enquanto dorme, tonta...
Manda seus olhos de bronca
para aquilo que te afronta.
Com suas pálpebras de enfoco
jogada por cima da ires
não se atrapalha com focos
nem se enrosca em seus desvires.
Uma onça sonsa...
minguada... de sal, insossa
sem os inteiros temperos
olha o bocado fadado
já salgado em sua boca.
Se já viu, tem que pegar
tudo é seu em seu terreno
o seu bote é de amargar
sua dentada é de veneno.
Antonio Montes
JOÃO DO MUNDO
O João do mundo
já faltando parafusos...
Pegou o mundo furado,
bateu o seu cadeado
e jogou a chave no lago
das esperanças e sonhos...
De um mundo cheio de marca
e de um povo demarcado.
Depois saiu a rodar
pelo mundo, já cansado
rodando em passos sem fundo
e por tudo que tem no mundo
girava atrás de um futuro
de um mundo sem escuro
e de passos todos seguros.
Antonio Montes
BELA DOS SONHOS
A bela adormecida no meu jardim...
Um dia despertará do seu profundo
sono, sonhando...
Sonhando com suas reticências
seus adágios, substantivos, hiatos
e adjetivos.
Nesse dia a bela, se encherá de flor
e irá florir com seu encanto
irá cintilar em pétalas como estrelas
e colorir-se como cores do arco-íres.
A bela adormecida em meu jardim...
Terá a minha marca, será só minha,
e um dia se encherá, de notas, tremas,
frases, ditongos e fonemas,
Nesse dia... Navegará aos ouvidos dos
quatro cantos do mundo e transbordará
meu nome sobre o céu.
A bela adormecida em meu jardim...
Eclodirá em seu parto com seu recital
provocará lágrimas de sensações
aguçará sentimentos e arrastará
almas através das imaginações.
Antonio Montes
MIL AMORES
Esse olhar que me zomba...
Terá ondas que me tromba
como bala atirada das sombras
em miragem de léguas, que me leva
como restos de dejetos, sobre a terra.
Esse olhar que me enterra...
Me colocando nas trevas, aterra-me.
... Já esse olhar... Ah esse olhar!
Esse olhar que me olha como se eu fosse
um horizonte florido...
Esse olhar me carrega sobre o céu,
me vê como diadema, e me enche de cores
Me olha cintilando como estrelas no ar
e me entorna em carinho de mil amores.
Antonio Montes
MINHA ESCADA
Meu viver n'essa vida
é escada cheia de degraus...
A cada passo uma ferida,
e a cada passada uma dita
... Me levando aos cambal.
Vou indo assim, sem pra que
em meio do bem e do mal
a cada rumo, do meu querer...
Eu adentro em meu carnaval
... Para esquecer esse viver.
E n'essa escada, as quinas
me reduz à minha dimensão
mostra-me que a vida rima
quando é amplo o tal quinhão.
Antonio Montes
CABOCLO
Eu sou caboclo,
e o meu feijão de toco...
com nó nas quatro pontas
Eu carrego para o terreiro.
No lençol todo bordado
com suor dos quatro lados
e bato as vagens no cambal.
Peneiro grãos com a peneira
ou com prato jogados aos ventos
e a tarde no fim da caseira
na cadeira, eu me assento.
Ali refaço meus planos
viajando em pensamentos
eu sinto o vento na área
com a felicidade por dentro.
Antonio Montes
FALAS DE FAIXAS
Essas faixas, contínuas
amarelas caladas, elas...
Falam, sem falar nada.
Falam e também guiam
pelos reles confins
dessas longas jornadas.
Essas faixas paralelas
desencontra sem afronta
e nuca mais se encontra.
Antonio Montes
PISA, PISA
Pisa menino, pisa...
Pisa porque se não, lhe dou uma pisa
para que possa voar nos passos
ir n'um pé e voltar n'outro
solto e leve como pássaro
rápido, como nave no espaço.
Pisa menino pisa...
E eu fico aqui com minha cisma
a muito, isso foi minha sina
voar como se tivesse asas...
Pisar como se pisasse em brasa.
Pisa menino pisa...
Não deixe o tempo lhe pisar
não se doe de bonzinho
nem ame, mais do que possa amar
porque se você não pisa
leva pisa pra respirar
e amando irão te esmagar.
Antonio Montes
ORDENS DESORDENS
As ordens todavia...
São para colocar ordens na ordem
ou até...
Para colocar desordens na ordem.
Se meu mundo gira,
em minha desordem...
Para que impor
a sua cansada ordem...
Se estamos na rua da desordem
o silvo e o grito, são ordem,
ao mesmo tempo, em que são...
Desordens para os hospitais
e pára o hospício.
Se estamos no atelier do artista...
a ordem, é a desordem
d'aquilo fora das vistas.
A ordem é assim pra mim
e a desordem para ti.
É preciso desordens...
P'ra se eleger, p'ra prometer
p'ra colocar, ordem na ordem.
Antonio Montes
MÁGICO SOPRO
Aquele moço, moco...
Que já não era assim, tão moço
de pensamentos poucos...
Meio broco, quase loco!
Por muito pouco!
Não deu pipoco fosco,
mas, fez promessas de enrosco
e colocou a vontade sobre o toco.
Depois... Ficou esperando
que o vento te lembrasse
com seu mágico sopro.
Antonio montes
TITUBEIO
Projetado pelo mar das lembranças
... Navego sobre o barco do vazio
e nas ondas da insônias, eu viajo
sob escuro do sinistro silencio...
Tudo é demarcação articulada...
Eu adentro no ponto vago da saudade
e no momento, flechas pontiagudas
são atiradas aos ventos, a esmo,
e o alvo, é sempre...
Uma ausência esculpida na vida,
aonde o escultor sem ponto,
vaga de posse a uma lamparina vã
e esta as cegas sob a neblina...
Titubeando pelos planos do amanhã.
Antonio Montes
NAS QUATRO PERNAS
Quantos pregos, na cadeira
quatro pernas sem quadris...
uma tabua para se sentar
Um encosto de segredos
Frases ecoaram d'ali...
É cedo...
E todo conto do mundo
contado ali por segundo
no café ou no almoço
momentos sem alvoroço
hoje, não mais profundo.
E os planos sobre a mesa!
em horas confusas das idas
ou até mesmo a alforria
contada depois da partida.
Tudo fica mais no jeito
sentados a quatro feito
nos feitos, feito da vida.
Antonio Montes
DEMANDA
Psiu! Hei, você?!
Você também, sim, sim!
Vocês ai...
Se achegue, passe aqui?!
Venha ver os preços bons
Guloseima, filé mignon
p'ra você, p'ra ele e p'ra ti.
Psiu! É você mesmo...
E tu também, até ti
venha aqui!
Se esbaldar na promoção
arroz, feijão, sal e bombons
sabão, macarrão e feijão
aproveite o preço bom.
Psiu! Você dai, você de lá,
venha p'ra cá, a hora é essa...
Faça a sua compra, venha comprar
... Venha aproveitar as ofertas
veja, tudo aqui é de ponta.
Psiu! Você ouviu?
É com você!
Venha ver, aproveitar e confira!
Você não vai se arrepender.
Antonio montes
MENINO SEM PINO
João com seu menino
... Tinha pino
tinha, tino...
João ensinava o menino
o menino lhe trazia desatino.
Menino fera, sinistro
menino por todos visto
menino na controversa de Cristo
Menino! Menino...
O menino, em noite de estio
escondido, ninguém viu
pegou o candeeiro, foi ao rio
nas águas apagou as chamas
molhando o pavio.
Antonio Montes
ENTRE LAÇOS
É no meu sapato
com tanto talco
que vou p'ro palco!
E vou de salto
na mímica e tato
e os meus atos.
É no meu sapato
com embaraços
que tanto faço!
Com meus braços
entrelaço regaços
me acho e desfaço.
É no meu sapato
que recebo recado
da quebra de pratos...
Depois, ouço calado
do saco ingrato
desse mundo chato.
Antonio Montes
CAMINHOS DA SOLIDÃO
Em noites escuras
na procura da cura,
e me deparo com a solidão...
Essa lamina esse gume!
que afiados corta e sangra
esse meu esquecido coração.
Turvo minha saudade com lagrimas
as quais, como acido...
Caem deteriorando a minha alma,
estou só, e só, compartilho meu silencio
... Com ladrar de um cães famintos
silvos congelados dos ventos
e as estridentes notas dos grilos.
O medo do amanhã me faz companhia,
para a incerteza do meu sufoco...
Nesse ínterim, o futuro é nebuloso
vou até o céu, para falar com Deus
mas sou barrado pelo meu ateísmo.
Acabo de algumas horas, o dia amanhece
o sol aparece espantado o mistifório
a claridade, o voar, volta brilhar pelo ar
e tudo começa outra vez.
Antonio Montes
POEMA INEXISTENTE
O poema que não sei,
adormecido...
Perpetua as paginas brancas
da vida.
Eu nunca vi
se não vi, não sei
ainda não chegou a hora
da sua partida.
Antonio Montes
AVAL DA CHUVA
Essa chuva, que me molha sem guarda chuva
nas encolhas, muita gente me olha
as águas que me molha, no meio da chuva.
Essa chuva, embebeda minhas luvas
umedece minhas curvas que no vento...
Apruma se desarruma no meio da rua.
Como no cio, ela desce correndo chiando
vai quebrando, desarrumando fazendo frio
atirando sonhos dos pobres, dentro do rio.
Eu quero ficar no ar e chorar nessa chuva
camuflar as minhas lagrimas, com águas
essa saudade, esse sentimentos, me ajuda.
Essa chuva esta desmoronando barranco
dando aval p'ra político, tornando encanto
amarrando esperanças, desse seu pranto.
Deus me acuda d'essa chuva e enxurrada
bueiro entupido, casa sendo arrastadas
ruas alagadas... Tantos planos por nada!
Antonio Montes
MEU CAMARADA
Oh meu camarada!
Eu vendi todos os meus garrotes
Já comprei o meu passaporte
Vou meter os meus pés na estrada.
Ser feliz nessa jornada
Não se importe
Apenas porte
Se comporte
Eu sou forte
Vou conhecer o sul
Eu vou conhecer o norte.
Se me der na teia
Vou correndo
Vou de trote
Ah... Eu ia me esquecendo
Não é que eu comprei
Duas pernas de garrote!
KKKKK E não vou fazer geleia...
Não é mocotó!
Eu vou fazer estilingue!
Atirar pedra no mundo
Sem pena nem dó
Isso não é nó.
Talvez eu derrube uma estrela
Lá do céu
Uma estrela linda! Mais que flor
Brilhante com seu pó cintilante
Só para dá-la ao meu amor
Rô, rô, rô.
Antonio Montes