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Frases de Antonio Carlos Secchin

11 frases

Autorretrato A Flávia Ampan Um poeta nunca sabe
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Autorretrato A Flávia Ampan Um poeta nunca sabe onde sua voz termina, se é dele de fato a voz que no seu nome se assina. Nem sabe se a vida alheia é seu pasto de rapina, ou se o outro é que lhe invade, numa voragem assassina. Nenhum poeta conhece esse motor que maquina a explosão da coisa escrita contra a crosta da rotina. Entender inteiro o poeta é bem malsinada sina: quando o supomos em cena, já vai sumindo na esquina, entrando na contramão do que o bom senso lhe ensina. Por sob a zona da sombra, navega em meio à neblina. Sabe que nasce do escuro a poesia que o ilumina.

Arte Poemas são palavras e presságios, pardais perdidos sem direito a ninho.
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Arte Poemas são palavras e presságios, pardais perdidos sem direito a ninho. Poemas casam nuvens e favelas e se escondem depois no próprio umbigo. Poemas são tilápias e besouros, ar e água à beira de anzóis e riscos. São begônias e petúnias, isopor ou mármore nas colunas, rosas decepadas pelas hélices de vôos amarrados ao chão. Cinza do que foi orvalho, poema é carta fora do baralho, milharal pegando fogo pelo berro do espantalho.

Concorde com Freud Matou o analista e foi a Miami. Na fuga, levou a reboque
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Concorde com Freud Matou o analista e foi a Miami. Na fuga, levou a reboque a série inglesa de Hitchcock. Damas ocultas em jardim sem medo se ofereciam em zoom para levá-lo a lugar nenhum. Comparado a seu rosto, dir-se-ia negro qualquer giz; tal qual surge, intenso, um osso, no raio-x. Indagado na fila do passaporte, declarou que só trazia na mala a morte. A tudo respondeu solene e quieto com minúcias tediosas de um hemograma completo. Da mãe herdara um trono abandonado, escondido numa esquina da infância e no calibre três-oitão recuperado. Queria entrar no Reino da Fantasia, saudar Minnie, Pateta, Alice e a Madrasta, e com o mel do amor e o mal da teimosia suplicou à polícia a dádiva de um dia. Voltou algemado, em classe econômica, sendo também proibido de ligar até um fone de ouvido. Desejou marcar nova sessão, mas no Paraíso não se dá plantão. Caju, Catumbi, João Batista, num deles mora hoje o analista. Órfão pela terceira vez, passa o dia jogando damas na cela do xadrez. Viver, agora, quando tantos dissecaram sua história, lhe parece bem mais fácil: ele, sem qualquer ajuda, conseguiu escrever o posfácio.

Linguagens Notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora,
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Linguagens Notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora, e mais notara, se não fora a enálage, e mais voara, se não fosse a anáfora. Chorei dois oceanos de hipérbole, duas velas cortaram a metonímia. O pé da catacrese já marchava no compasso toante dessa rima. Verteu prantos a anímica floresta, mas entramos dentro do pleonasmo, ‘stamos em pleno oceano da aférese... Vai-se um expletivo, outro e outro mais... Os poetas somos muito silépticos; os poemas, elípticos demais.

"Estou ali..." Estou ali, quem sabe eu seja apenas a foto de um garoto que morreu.
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"Estou ali..." Estou ali, quem sabe eu seja apenas a foto de um garoto que morreu. No espaço entre o sorriso e o sapato há um corpo que bem pode ser o meu. Ou talvez seja eu o seu espelho, e olhar reflete em mim algum passado: o cheiro das goiabas na fruteira, o barulho das águas no telhado. No retrato outra imagem se condensa: percebo que apesar de quase gêmeos nós dois somos somente a chama inútil contra o escuro da noite que nos trai. Das mãos dele eu recolho o que me resta. Chamo-lhe de menino. E é meu pai.

"DE CHUMBO ERAM SOMENTE DEZ SOLDADOS" A José Maurício Gomes de Almeida De chumbo eram somente dez soldados,
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"DE CHUMBO ERAM SOMENTE DEZ SOLDADOS" A José Maurício Gomes de Almeida De chumbo eram somente dez soldados, plantados entre a Pérsia e o sono fundo, e com certeza o espaço dessa mesa era maior que o diâmetro do mundo. Aconchego de montanhas matutinas com degraus desenhados pelo vento, mas na lisa planície da alegria corre o rio feroz do esquecimento. Meninos e manhas, densas lembranças que o tempo contamina até o osso, fazendo da memória um balde cego vazando no negrume do meu poço. Pouco a pouco vão sendo derrubados as manhãs, os meninos e os soldados.

Cinzas Talvez o verão tenha queimado os frutos. As mãos, ressequidas, apenas recolhem restos.
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Cinzas Talvez o verão tenha queimado os frutos. As mãos, ressequidas, apenas recolhem restos. Cinzas, ardores, ossos. Havia ali, não se lembra?, um rumor de desejo, que nenhuma palavra salva: todo poema é póstumo. Botei a boca no mundo, não gostei do sabor. Ostras e versos se retraem ao toque ácido das coisas tardias. Na sombra insone do meu quarto, o vazio vigia, na espreita do que não há: por aqui passaram pássaros que não pousaram. Fui traído por ciganas, arlequins e cataclismos. De nada me valeram guardar relâmpagos no bolso, agarrar nas águas as garrafas náufragas.

Linha de fundo Assim meio jogado pra escanteio, volto ao poema, este local do crime.
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Linha de fundo Assim meio jogado pra escanteio, volto ao poema, este local do crime. Mas é o desprezo que melhor exprime aquilo que no verso eu trapaceio. Se pouco do que digo me redime, cópia pirata de um desejo alheio, revelo a ti, leitor, o que eu anseio: um abutre no cadáver do sublime. A matéria é talvez muito indigesta, me obriga a convocar um mutirão para acabar com toda aquela festa de pétalas e plumas de plantão. Memória derrubada pelo vento, quero aqui só lembrar o esquecimento.