Frase de Antonio Carlos Secchin
Ao ver o não que sai da dor O som da voz já vai no sim No tom do céu não vi mais luz Do que no sol que há em mim...
No pensador.ai desde
Ao ver o não que sai da dor O som da voz já vai no sim No tom do céu não vi mais luz Do que no sol que há em mim...
No pensador.ai desde
Autorretrato A Flávia Ampan Um poeta nunca sabe
Autorretrato A Flávia Ampan Um poeta nunca sabe onde sua voz termina, se é dele de fato a voz que no seu nome se assina. Nem sabe se a vida alheia é seu pasto de rapina, ou se o outro é que lhe invade, numa voragem assassina. Nenhum poeta conhece esse motor que maquina a explosão da coisa escrita contra a crosta da rotina. Entender inteiro o poeta é bem malsinada sina: quando o supomos em cena, já vai sumindo na esquina, entrando na contramão do que o bom senso lhe ensina. Por sob a zona da sombra, navega em meio à neblina. Sabe que nasce do escuro a poesia que o ilumina.
"Estou ali..." Estou ali, quem sabe eu seja apenas a foto de um garoto que morreu.
"Estou ali..." Estou ali, quem sabe eu seja apenas a foto de um garoto que morreu. No espaço entre o sorriso e o sapato há um corpo que bem pode ser o meu. Ou talvez seja eu o seu espelho, e olhar reflete em mim algum passado: o cheiro das goiabas na fruteira, o barulho das águas no telhado. No retrato outra imagem se condensa: percebo que apesar de quase gêmeos nós dois somos somente a chama inútil contra o escuro da noite que nos trai. Das mãos dele eu recolho o que me resta. Chamo-lhe de menino. E é meu pai.
Linguagens Notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora,
Linguagens Notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora, e mais notara, se não fora a enálage, e mais voara, se não fosse a anáfora. Chorei dois oceanos de hipérbole, duas velas cortaram a metonímia. O pé da catacrese já marchava no compasso toante dessa rima. Verteu prantos a anímica floresta, mas entramos dentro do pleonasmo, ‘stamos em pleno oceano da aférese... Vai-se um expletivo, outro e outro mais... Os poetas somos muito silépticos; os poemas, elípticos demais.
Concorde com Freud Matou o analista e foi a Miami. Na fuga, levou a reboque
Concorde com Freud Matou o analista e foi a Miami. Na fuga, levou a reboque a série inglesa de Hitchcock. Damas ocultas em jardim sem medo se ofereciam em zoom para levá-lo a lugar nenhum. Comparado a seu rosto, dir-se-ia negro qualquer giz; tal qual surge, intenso, um osso, no raio-x. Indagado na fila do passaporte, declarou que só trazia na mala a morte. A tudo respondeu solene e quieto com minúcias tediosas de um hemograma completo. Da mãe herdara um trono abandonado, escondido numa esquina da infância e no calibre três-oitão recuperado. Queria entrar no Reino da Fantasia, saudar Minnie, Pateta, Alice e a Madrasta, e com o mel do amor e o mal da teimosia suplicou à polícia a dádiva de um dia. Voltou algemado, em classe econômica, sendo também proibido de ligar até um fone de ouvido. Desejou marcar nova sessão, mas no Paraíso não se dá plantão. Caju, Catumbi, João Batista, num deles mora hoje o analista. Órfão pela terceira vez, passa o dia jogando damas na cela do xadrez. Viver, agora, quando tantos dissecaram sua história, lhe parece bem mais fácil: ele, sem qualquer ajuda, conseguiu escrever o posfácio.