Escute o silêncio,
porque ele fala;
em linguagem rara,
tanto responde.
No silêncio,
a verdade não se cala,
não se mascara,
não se esconde.
Escute o silêncio,
a palavra ausente,
o verbo, em si, fechado,
tão mudo.
Em silêncio,
a resposta se sente;
é ato revelado
em que se diz tudo.
Poetizei a densa agonia
que ao peito enchia,
ao coração inundava.
Em rubra ironia,
em escarlate palavra,
tornei poesia minha ira,
minha dor, minha raiva.
Janelas da alma
É janela escancarada da alma o olhar,
que revela o que se deseja esconder.
Sinceros os olhos fazem transbordar
o mais íntimo segredo do nosso ser.
E há quem tente disfarçar o drama
e há quem ouse se fingir bem feliz.
Não sabe que o olhar sagaz reclama
da dor que esculpe no peito a cicatriz.
E tudo o que se verbaliza em ensaio
e tudo o que se interpreta em cena,
o olhar arauto, ainda que de soslaio,
externa e extrai e expõe sem pena.
Quando navegar não é preciso
Sou barco, à deriva,
levado pelas ondas,
ao gosto das marés,
de forte correntezas.
Sou barco sem amarras,
em vasto mar aberto,
em águas de oceano,
deserto de certezas.
Sou barco desgarrado,
em risco de naufrágio,
desejando alcançar,
da alma, as profundezas.
Insetos?
Amo os mais coloridos:
Borboletas, joaninhas, esperanças...
Além da sorte, do bom presságio,
bem me trazem doces lembranças
do tempo em que eu vivia na roça,
pé descalço, fazendo arte...
Feliz, no meu reino encantado de criança.
Mortuus est
Onde está meu coração,
em qual lugar o deixei?
Em que canto o esqueci?
Não faço ideia, não sei.
Eu o procuro ansiosa!
Quem saberá me dizer?
Dentro de mim não está,
pois já não o sinto bater.
Talvez tenha ido embora,
talvez o tenham roubado...
Não te iludas – diz meu peito –
ele já morto, enterrado.