O futuro é imprevisível em termos: pode-se traçar objetivos, calcular os riscos e até minimizar algumas perdas.
Mas e quanto ao passado?
O passado, imutável, guarda os segredos que talvez jamais serão expostos.
Vive à mercê de fatos e versões contadas pelos que dominam tribos.
E nos ameaça com revelações surpreendentes, (re) iluminando o tempo presente. Dito isso, sugiro respeito e devoção atenta ao passado.
Há um certo momento em que as noites e as manhãs se fundem. Mesclam-se as cores da aurora com o breu da madrugada. Juntam-se a paz inquietante e a inquietude mais pacífica. Surge a quimera verdadeira, que nos encanta e aterroriza. Noites e manhãs concomitantes formam o enigma da esfinge.
A deliciosa gastronomia da senzala guarda em seus aromas intensos a brutalidade do que foi a maior cicatriz na história daquela enorme colônia portuguesa nas américas; a candura com a qual as pretas embalavam os meninos dos senhores; a volúpia covarde das noites adentro, dos abusos e dos destemperos; o mercado do Valongo; capoeira nos canaviais; febre selvagem do ouro das Minas; cafezais já florescendo em São Paulo; o cacau baiano, amarelo; peixe na rede de manhã cedinho; cantorias e batuques; a coragem do enfrentamento; alforrias; Eusébio; ventre livre; sexagenários; a conquista da liberdade, depois de navegar um oceano inteiro de puro sangue.
Não me interessa se você gostou ou não da minha crítica.
Acontece que o meu direito de o fazer é consagrado.
E se você faz valer a sua prerrogativa de expor a sua arte e a sua filosofia ao mundo, deve estar já preparado para a crítica.
Acredite: se você recebe uma crítica, agradeça aos céus, porque ainda goza de atenção e de algum respeito.
Não há nada pior que o ostracismo e a irrelevância de uma vida – sobretudo se você for um vaidoso petulante, dos que acham que somente escutarão dos outros louvores e elogios.
Com efeito, é preciso dar um basta a pessoas e a situações que chegaram a um limite, porque nos anulam. Porém, isso não funciona apenas ligando um interruptor simplório, fazendo parecer que tudo ocorreu em função do outro, e que nós seríamos apenas o passivo. Isso nos coloca em condição de vítima, que nos infantiliza e fragiliza. Se chegamos a tal ponto de infelicidade é porque nossos hábitos e concessões assim permitiram. A mudança verdadeira parte para um olhar primeiro a nós mesmos e, em segundo plano, a uma mudança sincera de hábitos e vícios. Não os hábitos e vícios dos outros. Os nossos!
O realismo fantástico é um conceito aplicado às produções artísticas em que elementos da realidade, da fantasia e do sonho, todos misturados, geram um conjunto harmônico em meio a fatos históricos, lendas e folclore. Uma narrativa lógica, sem a ordenação lógica/científica. Ou seja: realismo fantástico é a nossa própria vida!!!
Todos somos personagens inventados por Gabriel Garcia Márquez.
Então o próprio Criador é Gabriel Garcia Márquez disfarçado em humano, e que esteve aqui de férias contemplando o mundo.
Fazer carreata em automóveis confortáveis, buzinando enquanto desfruta do sistema de som e do ar-condicionado e protestando para que pessoas pobres sejam compelidas a voltar ao trabalho (não essencial) em plena pandemia, espremendo-se em trens e ônibus lotados é de uma cretinice inacreditável; típica atitude escrota de quem não dá a mínima para a vida humana.
As pessoas mais traiçoeiras são aquelas que normalmente aparentam altruísmo e benevolência ao extremo, sempre estando prontas a ajudar em tudo, mas que na primeira oportunidade, cobra cada mínima atitude tomada. Jogam em nossa cara os atos, que em tese, deveriam ter sido praticados com amor e sem qualquer tipo de troca. Essas “boas” pessoas acreditam que, assim, conseguem exercer controle sobre as outras. Mas conseguem, na verdade, desprezo.
Bater panelas na janela em protesto contra alguma coisa é de uma jecura gigantesca; tão breguinha quanto bater palmas para o pôr-do-sol na Pedra do Arpoador, no Rio de Janeiro. E ineficaz sob o ponto de vista político. Porque o sol vai nascer com ou sem as suas palmas. E mudanças sociais não se definem com panelas na janela.
Em todas as vezes que alguém puxa para baixo a tela de seu smartphone a fim de atualizar o feed de notícias de uma determinada mídia social, (função chamada pull-to-refresh), na verdade, está apenas repetindo o mesmíssimo movimento de uma alavanca de caça- níqueis de cassino. Esse movimento tende a explorar a idêntica suscetibilidade psicológica que leva à compulsão pelo jogo e pela busca de uma recompensa. E o vício gera uma reação em cadeia, infinita, e que deve ser quebrada.
Isso mesmo: tente “fugir” do mundo, vá para uma ilha deserta ou no meio da floresta. Só que eu já lhe antecipo: a sua concepção de “mundo”, aquela que é fruto do conhecimento adquirido e de experiências pretéritas, acompanham você por toda a vida.
E daí a sua grande “fuga” tornar-se-á, imediatamente, a mais tola das utopias.
Tal qual a história do menino que foge de casa escondendo-se no sótão de sua própria casa, levando consigo alguns refrigerantes e biscoitos de chocolate.
A bagagem que você carrega em sua mente é mais um volume do instinto de sobrevivência.
E você o utilizará por certo.
Se quiser salvar a humanidade faça algo realmente produtivo: leia e estude em primeiríssimo lugar.
Em segundo, valorize a pesquisa e o desenvolvimento sustentável.
Cuide do meio ambiente, mas com o mínimo de sensatez e de inteligência.
E aceite o fato de que você não vai curar a fome no planeta e alimentar 7 bilhões de habitantes com a mini-horta orgânica plantada no cantinho do quintal de casa.
O vapor Benjamim Guimarães, que durante décadas transportou os sonhos e as esperanças de milhares de sertanejos, jaz ali no município de Pirapora, às margens do Velho Chico, sob a indiferença de passantes que jamais imaginaram o quanto ele forjou suas próprias histórias.
Mas não há de demorar o dia em que o São Francisco o reclamará às suas profundezas mais escuras, no seu único e derradeiro naufrágio.
Porque aquelas águas já incorporaram a estrutura centenária.
E porque o “Benjamim” não mais pertence aos homens.
“Benjamim” pertence ao rio.
Impossível olhar de maneira complacente alguém que diz que lhe ama, mas que convive harmoniosamente com pessoas que você tem certeza de que lhe detestam e que lhe sabotam. Algumas lições disso: não existe “meio virgem”; não existe “meio grávida”; não existe “meio leal”; não existe “meio amor”.
Tenha cuidado.
O autoconhecimento pressupõe, normalmente, o isolamento, o distanciamento de tudo e de todos.
Mas também, viajando em outra direção, pode-se chegar ao autoconhecimento por meio da interação social intensa.
Conhecer a si próprio envolve a maneira com a qual você reage perante ao mundo a às suas idiossincrasias; como você lida com os outros.
Autoconhecimento necessita de parâmetros.
DISSE-ME O CAPITÃO DO BARCO
Disse-me o capitão do barco Que eu navegasse
Sem a afoiteza dos que amam Mais do que
Intensamente.
Disse-me o capitão do barco
Que na direção ajuizada
Eu chego ao Mediterrâneo que tem ondas Que não batem tão
Intensamente.
Disse-me o capitão do barco
Que no mar do Japão
Não existe a salinidade exacerbada
Tal qual a desilusão que, indigesta, queima tão Intensamente.
Disse-me o capitão do barco
Que na escuridão do oceano
O farol se torna invisível
Aos que teimam em amar sozinhos e Intensamente
Disse-me o capitão do barco
Que a perda do amor eterno
Eterniza igualmente flutuada melancolia
Do marinheiro que embriagado há de afogar-se
Intensamente
O conceito da palavra “ironia” configura-se em uma maneira de expressão com base em afirmações opostas àquilo que se almeja expressar, zombando, censurando, criticando, atacando ou denunciando algo ou alguém. Trata-se de um modus operandi amplamente utilizado e observável nos diálogos platônicos, segundo os quais a técnica de Sócrates, em diversas passagens, se baseava na simulação de certa ignorância sobre um determinado tema, com a formulação de questionamentos e a posterior aceitação das respostas proferidas pelos interlocutores, fazendo-os entrar em divergência (contradição) entre si próprios, desnudando os raciocínios obsoletos. O problema é quando a escuridão sequer permite ao interlocutor a diferenciação entre as comédias e as tragédias da vida.
O que seria de Ulisses sem as guerras e as aventuras imortalizadas por Homero?
Seria um bufão preguiçoso, obeso e soberbo, e que tomaria vinho em demasiado e que dormiria todo dia em excesso.
E não haveria a Ilíada.
E muito menos a Odisseia.
Todos nós devemos merecer ao menos uma citação heroica em nossas biografias.
E as citações heroicas decorrerem da capacidade de superação de desafios.
Se eu publico, logo existo.
A necessidade patológica de busca pela aceitação nas redes sociais retrata personalidades tímidas e infantilizadas.
No fundo, são crianças impúberes amedrontadas, feiosinhas, solitárias, desesperadas por um elogio de quem quer que seja – ainda que bem mentiroso – como acontece em regra.
Capacidade de adaptação é uma virtude ou um defeito deplorável do ser humano? Adaptação é sobreviver às adversidades, é o improviso, é o jazz da vida. Só que adaptação rima, também, com acomodação, que é a resiliência somada a mais perversa ineficiência. É a sublime elevação de espírito ou apenas mais uma de muitas e reiteradas tragédias?