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Frases de Amanda Seguezzi

109 frases

Um menino chamado... E tentando – ela milésima vez – ter um pouco de ti nos meus contos, percebo que o perco a cada maldita palavra, as mesmas que, por birra ou consentimento, fazem um carnaval em minha mente todos os dias. Percebia então a minha falta de respeito com o destino…
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Um menino chamado... E tentando – ela milésima vez – ter um pouco de ti nos meus contos, percebo que o perco a cada maldita palavra, as mesmas que, por birra ou consentimento, fazem um carnaval em minha mente todos os dias. Percebia então a minha falta de respeito com o destino não aceitando outras linhas tortas no meu caminho, justamente por me adaptar em tua linha, tão confusa, e conseguir me aninhar nela. Desespero, talvez. Ver-te assim, tão vivo, tão morto, tão seco, fingindo prazer no nada, letargia óbvia, consciência adormecida, olhar vazio, consegui distinguir do sonho qualquer zelo que a ti já dedique, qualquer adoração maluca que, por milhas do tempo, me acompanharam feito uma máscara de porcelana. Tinha uma boca na tua boca que não era a minha. Você provou outro gosto, outra espessura. Você arruinou qualquer possibilidade do nosso par – por mais sem sentido que fosse -, e todos os afetos que algum dia pensei em te presentear num embrulho dourado. Eu não chorei, porque, veja bem, por mais que sentisse a enxurrada de lembranças me dando pontapés no estômago, a fuga das borboletas, a vontade de verter tudo que um dia escapou junto com o sol naquele fim de tarde. Apesar das pernas bambas, do caos me consumindo, do impulso insano de sair correndo e não ver, de ficar parada e aplaudir. Apesar da inveja de quem não conheço, do sentimento de sorte por cair à ficha. Eu descobri que eu alimentava um monstro aqui dentro, o alimentava com a tua presença, que num piscar de olhos pareceu morrer. E ao final de tudo eu ainda conseguia sentir pena daquele menino ali tão amedrontado, tão vazio. Ele era só um menino. Ele era um menino tão só. Contemplei a inexatidão dos olhos que há muito me acompanhavam nas mais diversas formas de sonho. Eu admirava o medo transcendendo em silêncio, e posso até ousar ao dizer que eu sentia o cheiro do teu desespero e ele fedia. Compreendi então, num lapso, que não precisaria mover um dedo, encontrar um significado para tanto desalento ou um conforto para a tua desordem. Percebia através da nuvem negra no contorno do teu corpo que tua desconsolação iria te matar aos poucos e você iria seguir se depredando. Sumindo. Virando o pó de uma biblioteca com livros sem história alguma. E até me atrevo a dizer que Gabito Nunes lhe dedicou a frase:“Você mal deve ter uma alma, quanto mais gêmea de alguém.”. Caiu a ficha de que eu não preciso querer o mal de quem faz isso sozinho, sem precisar de alheios.Acho que você vai me acompanhar pra sempre a cada loucura, a cada gargalhada alta. Porque você preencheu um vazio em mim que eu nem sabia que existia, e agora eu me sinto vazia também. Vazia de nós. Depois de tudo, eu ainda te desejo um novo recomeço e uma nova perspectiva. Eu te desejo um infinito mais bonito, mesmo que nunca o tenha visto. Desejo nunca mais te ver de novo. E pode passar quanto tempo for, eu acho que ainda vou te dedicar os meus melhores versos. Um menino chamado... Desculpa, mas eu acho nem sei o teu nome direto.

O Conto de Alice Ele provavelmente não fazia à menor ideia de que, há algum tempo, eu havia passado por seis longos anos de aulas de dança, muito menos que em algum momento nos meus oito anos, jurei que seria a melhor professora do mundo. Ele me conhecia há tão pouco tempo, apen…
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O Conto de Alice Ele provavelmente não fazia à menor ideia de que, há algum tempo, eu havia passado por seis longos anos de aulas de dança, muito menos que em algum momento nos meus oito anos, jurei que seria a melhor professora do mundo. Ele me conhecia há tão pouco tempo, apenas sabia a cor dos meus olhos, se é que sabia. Porque eu o encarava – mesmo que inconscientemente – e via refletindo no mar cor de bronze a minha vida toda. Via um passado movediço, um futuro tão borrado quanto o presente incerto. Eu cobiçava a vontade de ser dele, de ser uma bailarina, uma professora. Eu só cobiçava. Queria abraçar o mundo num sufoco só, sem me dar conta que de ele estava me mudando e não ao contrário. E nas vezes que pensei em desistir do teu sorriso, lembrava das tantas outras vezes em que tu sussurrava meu nome no escuro como se conseguisse a proeza de fazer carinho nele. A mim me encantava a nossa poesia silenciosa, descompasso bonito de se admirar. E do dia para a noite eu não era apenas Alice, eu era a Alice do menino dos olhos cor de bronze e, sinceramente, eu nem me importava. Comparava a presença dele com uma manhã fria acompanhada de raios solares efêmeros, e num abraço, sentia a calmaria de uma noite de Natal. Acho que a felicidade tem exatamente o contorno da sua alma – de alguma forma -, acho também que nunca me imaginei feliz, mas se caso assim fosse, o imaginava do meu lado. Achava os nossos horizontes desproporcionais, nossas sinas tão distintas quanto. Não o queria pra sempre, apenas o queria por aqui, por perto. Porque descobri através dos dias sem notícia alguma que um lugar bom mesmo é aquele onde ele está. Nas horas a fio, procurando um antídoto para a falta de sossego, um equilíbrio entre o pensamento e o corpo, nas horas sem sentido, nos minutos sem ele, sem sentir o perfume tão presente na ausência, eu entrava em combate com o controle das minhas ações e o encontrava nelas também. Tinha urgência dos teus instintos persuadindo os meus, queria ouvir teus passos num rumo que você sequer cogitou conhecer. Acho que as estrelas não serão mais as mesmas sem o teu semblante, assim como as nuvens tão cinzas sem o teu disfarce. Eu nunca serei tão eu sem a parte de mim que foi embora. Num beijo salgado que nunca mais irei sentir, no desconforto das palavras que estão cansadas e querem repousar também. Eu devo ter te perdido a cada frase que nunca disse. A cada mudança de estação. Pegava-me desconsertada, olhando uma xícara quente e me perguntando o porquê de você não sentir a dor que eu sentia a cada gole que, a mim, vinha acompanhado do teu gosto. Encontrava-me desnorteada, perdendo tempo sentindo inveja de quem tu conheceste antes de mim, sentia ciúme do teu passado, das outras bocas, dos outros abraços. Desejava que você tivesse me conduzido as aulas de dança naqueles seis anos, que me incentivasse a ser a melhor professora do mundo. Desejava que você me conhecesse tempo suficiente para que já soubesse de cor os nuances dos meus olhos. Sabe, tive que me costurar na tua pele para descobrir que o teu avesso te revela muito mais, que os teus poros têm a necessidade que uma respiração desregulada que por infortúnio não é a minha. Nunca imaginei que o nosso final seria assim, uma roleta russa sem balas. Numa guerra silenciosa, sem escoriações visíveis. Eu só queria ter tido tempo de dizer que de todos os meus desamores,b’shert, você foi o mais bonito. Que a sorte te acompanhe, já que nem isso mais eu posso fazer. A história tão bonita de fim trágico fez a menina mudar de nome, mudar de tom. E tudo virou um amontoado de recordações. Um amontoado de causas perdidas. Tudo virou apenas mais um conto de Alice. Que chorou, chorou, conseguiu recolher seus pedaços e foi embora. Inveja de Alice.

“Uma vez inventei de limpar as gavetas do meu ego e jogar fora tudo o que não trouxesse paz. Encontrei então um mar de lembranças adormecidas num cantinho empoeirado que há muito não percorria os olhos. Toquei as flores secas tentando sentir o perfume ao qual eu já esquecera a co…
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“Uma vez inventei de limpar as gavetas do meu ego e jogar fora tudo o que não trouxesse paz. Encontrei então um mar de lembranças adormecidas num cantinho empoeirado que há muito não percorria os olhos. Toquei as flores secas tentando sentir o perfume ao qual eu já esquecera a composição. Tentei dançar ao som da música, aquela que tocava quando eu te beijava, contudo não acertei os passos. Esqueci das falas, dos nossos contrastes. Lembranças não gostam de visitas, este é o preço da memória boa. As pessoas melancólicas veem as situações que já ocorreram nos mesmos lugares, agora vazios. Saudade é o preço a se pagar pelos danos. Saudade é tortura boa de sentir enquanto relembra as cenas com um sorriso no rosto. Admirava nossa foto como se pudesse sentir de novo todas as sensações que sondavam o momento. A mão dele na minha cintura chegava a causar um leve choque no mesmo local a cada vez que eu a observava. Sentia o orvalho da noite fria, a dor nos músculos da face pelo sorriso de orelha à orelha. Ria alto com o brilho dos olhos dele e me perguntava o porquê de não ter durado por muito tempo. Eu me perdia nas respostas prováveis e em tudo que um dia ele já me disse. O guardei no baú da saudade como um sonho bom meio que por brincadeira, e quando vi, já o queria sem precauções. Eu percebia, de alguma forma, que não valia à pena desistir de nós, mesmo que os nós no pensamento por muitas vezes me sufocassem. Eu não precisava de amor, mas queria o teu afeto como quem sacia a sede. Via esperança num horizonte preto e branco ao qual apelidei carinhosamente com o teu nome. E nas horas sem ti eu respirava fundo, batia os pés no chão num ritmo desenfreado, estalava os dedos, cantarolava um blues antigo. Eu queria me deparar contigo nas repetições sem sentido, nas minhas guerras, na minha ansiedade, mas apenas podia te encontrar nos erros. E se era nas falhas que ocorriam os nossos confrontos, eu sempre pecaria pra te ter por perto. E, ora veja, ele me tinha até quando eu não sabia o que querer. E quem disse que agora eu sei? E eu ainda lembro. O beijo dele me declamava poesias."

“Olhar nos teus olhos e até pensar que já os vi em outras vidas.” Ficar sentada ao lado dele, apenas catando intenções no vento, era o tipo de silêncio que mais me confortava. Eu sentia o perfume cativante, mesmo na costumeira ausência. O encontrava em ruas que já havíamos frequ…
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“Olhar nos teus olhos e até pensar que já os vi em outras vidas.” Ficar sentada ao lado dele, apenas catando intenções no vento, era o tipo de silêncio que mais me confortava. Eu sentia o perfume cativante, mesmo na costumeira ausência. O encontrava em ruas que já havíamos frequentado de mãos dadas, assim como nos lugares aos quais já gargalhamos alto em alguma aresta do tempo. Não o amava, tampouco o queria pra sempre. Mas descobri nele um poderoso efeito de conseguir ser o meu “sempre” em todas as vezes que a vida me proporcionava escolhas. Ele não era daqueles cavalheiros que davam carona no guarda-chuva, muito menos do clube dos que ligavam no dia seguinte, mas eu nem me importava. Porque um sinal de vida, por mais tolo que fosse me arrepiava dos pés à cabeça. Entrei em acordo com todas as minhas sinas percebendo então que eu apreciava a companhia dele como quem saboreia uma taça vinho tinto. Sentia o peso do regresso, mas também não me importava. Fatiava o orgulho em vinte e quatro parcelas de culpa e jurava pagá-las em algum momento de sanidade. E nesses intervalos de carinho indiscreto, até parava para analisar aquelas expressões sacanas e me perguntar por onde diabos eu havia largado toda a minha sensatez. Ainda tem um pouco dele em cada verso, assim como em todas as palavras e a cada suspiro. É um imprestável, e eu não o emprestaria para mais ninguém nesse mundo. Não o amava, tampouco o queria pra sempre. Mas a vivacidade dele corrompia até fazer esquecer os meus critérios, os meus cuidados e as minhas leis, apenas para amenizar essa saudade que sinto o tempo todo a partir do momento em que não o vejo mais. Me desperta o desleixo de controlar as imprudências do apreço, encarar o corpo como quem se alimenta de uma presença, como quem decorou as trilhas do mau caminho em flashes de devassidão. Decorei. Anotei minuciosamente o quanto as horas voam enquanto ele me acomoda numa risada cheia de ecos. Conduto não se surpreenda, já que eu respiro ortografia, meu bem. Sou um buquê de meia composição e linhas sinuosas. Sabe também que escrevo poemas na minha pele rezando para que teus olhos corram por meu corpo sem que eu precise encarar a tua íris para soltar frases que jamais pensei dizer em voz alta. Você me ignora e continua construindo uma estrela a qual sequer pensa em morar. Eu fracasso e fico rindo feito uma tola sobre o quanto os rabiscos da parede do teu quarto me instigam. E nós nos envolvemos em um abstrato de palavras desconexas e desenhos desalinhados, eu fantasiando e você sentindo o peso do mundo real. É aí que você até esquece que eu sou a tua loira, mesmo que tantas outras tenham atravessado o teu caminho. E você é o meu moreno, e todos os meus carinhos são teus por regalia. Mas isso você já sabe... Eu sinto que me perco quando não abraço o teu pôr do sol. Confesso. Você me faz sentido.”

Ao clandestino. Eu só queria te dizer que me arrependo por ser o que você nunca cogitou apreciar. Que eu me engasgo toda vez que te vejo sem rumo por aí. Que quero o mesmo rumo, mesmo não entendendo por quais caminhos tu pretende demarcar os teus passos. Escrevo-te por não saber…
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Ao clandestino. Eu só queria te dizer que me arrependo por ser o que você nunca cogitou apreciar. Que eu me engasgo toda vez que te vejo sem rumo por aí. Que quero o mesmo rumo, mesmo não entendendo por quais caminhos tu pretende demarcar os teus passos. Escrevo-te por não saber exatamente o que fazer com esse amontoado de palavras que me despem num olhar feroz. Escrevo por vergonha ilícita de tragar saudade ao invés de amnésia. Beber doses de culpa, como se o gosto forte do álcool contracenasse com a tua saliva em uma luta brutal de engano e dívida e mesmo assim eu perdesse pra lembrança. Eu precisei esconder a tremura nas mãos, a pupila dilatada e qualquer outro sinal de fraqueza na tua última visita. Precisei costurar o meu todo em retalhos para que a minha estrutura não se rompesse. Fiz um trato com o acaso e alterei o tom do meu gargalhar. Abracei o travesseiro demoradamente como se aquele perfume me confortasse. Faz assim ó, fica parado enquanto eu passo as pontas dos dedos pelo contorno do teu nariz. Deixa eu rir daquela cicatriz no queixo, morder a ponta da tua orelha. Só fica. Fica quieto, não diz nada, eu não preciso. Só não negue um abraço a quem sente falta de se acomodar nos teus braços. Não sorria, eu nem prezo por você. Apenas finjo gostar enquanto te desejo. Apenas digo que gosto para não dizer que te amo. E foi assim. Meio sem sentido, meio torto. Eu vi numa aresta daquele sorriso algo que eu sempre quis, mas nunca pensei que pudesse existir. Eu vi num tom de pele mil tirinhas de diamantes e vibrei com a ganância e o brilho ilusório. Foi como olhar um dia nublado pela primeira vez. Conseguia sentir o cheiro de terra molhada como o aroma daqueles dias de chuva. Encontrava-me nas tempestades dos teus beijos e me adaptava nelas como se aqueles moinhos de ventania fossem feitos especialmente para mim. Assim como o perfume doce. Ao clandestino dos meus pecados, dos meus sonhos sem previsões. É como sorrir para o céu por te ver nele todas as manhãs. É negar, negar, negar. É descobrir que até as palavras usam a distração como rota de fuga. É descobrir que além do meu ontem, você também é a minha distração. É reconhecer dentre os esquecimentos que eu quero te colar nos meus amanhãs. Sim, moreno. Nas manhãs preguiçosas, estirados no sofá da sala, num domingo qualquer. Agora nem isso posso ter. Desculpa não conseguir empilhar nossos instantes numa prateleira qualquer. Desculpa esse dégradé de saudade, redemoinhos de ilusões que me alimentam e te distanciam. Eu sentia tua respiração distante, equilibrando-me na corda bamba que nos prendia, mesmo que nada te prendesse a mim agora. Desculpa não ter sido eu a pessoa que desabotoou o teu melhor sorriso. E eu ainda te dedico os meus versos mais sinceros. Ao clandestino.

pro dia cinza. E se os trovões bruscos fossem palavras de calmaria Que aos enamorados a tradução fosse uma canção de ninar
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pro dia cinza. E se os trovões bruscos fossem palavras de calmaria Que aos enamorados a tradução fosse uma canção de ninar Saberiam os outros decifrar as notas dos relâmpagos por aí? Se os trovões fossem um abraço esperando por aceitação Um estrondo procurando seu amor no eco inóspito Se os trovões pudessem sentir a amargura dos homens Cairia a tempestade Assim como lágrimas do céu Se os flashes fossem meros sorrisos Esperando outro sorriso A ventania então seria quem aproxima a solidão do dia Dia nublado, dia que não cessa A tempestade uniria nuvens Apaixonadas, quem sabe? E os trovões seriam apenas fagulhas Sinfonia de uma nota só Até o infinito cinza atravessa o céu De ponta a ponta feito obra-prima O relâmpago traz nas costas o peso O peso de não cair duas vezes no mesmo lugar Mostrando que até o impossível O impossível Não tolera segunda chance E é tudo um carnaval fúnebre Dança mal ensaiada Que borda o céu de tristeza Tristeza bonita de se apreciar Quando os trovões não são sentidos Eles choram E eu sou assim também A chuva cai e eu choro junto. E até a alma explode em tons de cinza

“Descobri por entre todos os meus receios que sou o meu pior inimigo, que não sou nada além de antecipações. Era como se a chuva fosse do chão de encontro ao céu num avesso majestoso. Era ver tudo invertido e se adaptar nesse compasso de tristeza bonita de se sentir. Saudade não…
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“Descobri por entre todos os meus receios que sou o meu pior inimigo, que não sou nada além de antecipações. Era como se a chuva fosse do chão de encontro ao céu num avesso majestoso. Era ver tudo invertido e se adaptar nesse compasso de tristeza bonita de se sentir. Saudade não é mais um sentimento, é uma veia colocada no lugar errado, dor de cabeça por tentar se transportar para onde o tambor do pulsar grita. Mas nunca dá. Porque você se tatuou em mim e eu me costurei em nós, desate um fio e o meu todo se esvai em desatinos. Já que não almejo encanto, separo então um canto para me reinventar. Mostro-me distraída com as paredes descascadas, perguntando-me se as paredes do ego também dispunham do mesmo formato concreto, impedindo as guerras emocionais de escapulirem pelos poros feito um inundar de amargura. Só queria esculpir o teu nu em estátuas, emoldurar os sorrisos para que nunca se dissipem do brilho dos olhos. Compreender que a nudez mesmo está escondida nos detalhes que só percebo depois dos seis lances de escada e um vinho barato. Confusa, talvez. Sentindo o incenso da tua presença, antes mesmo de sentir o afago do teu corpo. Ainda confusa, desvendando a incógnita de quão o mar sabe ser tão claro quanto teus olhos, que cerram atados diante de um fecho de luz. Tua serenidade não cobiçara os meus raios solares. Mudava de opinião como quem sucumbia às fases da lua, exibia a tristeza como quem rega flores artificiais, era pesaroso gostar do colorido de algo sem vida. Era desafiador despir as palavras para que fossem aceitas sem o desconfiar de um Cavalo de Troia. Eu me entreguei de coração aberto e alma limpa para virar apenas mais uma vítima corriqueira do “não era pra ser”. Esquece o roteiro, amor. Nem o aroma do teu perfume sabe a rota da saudade, mas mesmo assim sempre volta para me assombrar. Mais forte e incomum. Um recital fresco e perigoso como a madrugada, sem ecos e sem carnaval. Paralisa os meus sentidos e me faz perceber que comum mesmo são as outras pessoas que copiam o teu cheiro. Porque eu vejo poesia a cada esquina e a brisa me presenteia com o amargo da lembrança de um afeto bom. Eu sinto o murro na cara e encaro a fragrância insípida com lágrimas nos olhos e braços abertos. Tentando, ao menos, juntar as partes do perfume que há muito não me visita e comprimi-las no coração até transformá-las num cobertor de nostalgia bonita de se apreciar. Eu vou esquecer o teu nome, inventarei um bocado de outros pseudônimos que me façam cair na tapeação de caber em um amor do tamanho de um alfinete. Que não me faça sentir o pesar da despedida ou a melancolia de uma noite mal dormida. Eu vou esquecer a tua voz, e todas as palavras um dia proferidas irão caminhar para longe junto ao vento. Vou quitar qualquer compromisso com as manhãs nubladas e esquecer os teus vestígios escritos entre as nuvens. Eu quero uma passagem só de ida, bilhete de trem sem reembolso. Quero viver da sorte e não das possibilidades que prendem meus pés no chão.” Mas pra quê a pressa, amor? A eternidade é na rua de baixo, logo ali virando a esquina.

O tempo foi passando, voando, virando migalhas. Parecia que o meu corpo estava parado no mesmo lugar desde aquela última respiração profunda na praça. Era estático o efeito da paisagem bonita. Era o caos aguardar por uma companhia que virou as costas e foi embora sem contemplar…
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O tempo foi passando, voando, virando migalhas. Parecia que o meu corpo estava parado no mesmo lugar desde aquela última respiração profunda na praça. Era estático o efeito da paisagem bonita. Era o caos aguardar por uma companhia que virou as costas e foi embora sem contemplar a beleza das flores. E todos os dias eu admirava o verde vivo, a brisa rasteira, ansiosa para encontrar tua nota dó dentre os sussurros da ventania. Ficava sentada ali por horas, rabiscando, estrangulando o tempo. Cruzava as pernas, os braços e as ideias procurando, ao menos, uma posição confortável para as dores da alma, ou um motivo aceitável que me fizesse desviar desse caminho infindável. Percebi então o magnetismo do passado atuando como uma bússola que aponta apenas para o Norte. Descobri por entre cinco ou seis puxadas de ar que nunca fora a intenção ser o teu rumo fixo. E as possibilidades me deixavam inquieta, melodramática, desenhando cenas no vácuo como se pudesse pintar as situações e bordá-las num estado real. Chegava a roer as unhas, cantarolava sinfonias, coçava os olhos, entretanto não sentia vontade em voar pra longe. Acho que eu te procurei em todos os rostos que conheci desde o dia que te vi pela última vez. Nunca tive muita sorte na vida, mas tenho certeza que o teu gargalhar no escuro poderia facilmente ser confundido com um bilhete de loteria e isso me contentava. E ora veja, mesmo nas pausas sem graça eu ainda conseguia rir até a barriga doer pelo destino ter sido tão sacana a ponto de me fazer derreter a cada contração de intenções sutis. Tenho medo do escuro. Mas ainda lembro-me do sorriso sem esperança, sem luz que silenciava o último encontro. De quando colocou uma pulseira colorida estranha no meu pulso e deu dois nós. De quando me pegou pelas mãos, olhou no fundo dos meus olhos e disse que o amor era grande, mas o mundo era maior.Virou-me as costas e foi embora como quem sabia exatamente o que estava fazendo, como se planejasse há muito tempo. Comecei a escrever poesias sobre as cores estranhas, sobre como elas ficaram bonitas depois que ele me presenteou, sobre os dois nós. Sobre o nó no pensamento, que se transformou em nó no coração até se acomodar num clandestino nó na garganta. Ele nunca voltou à praça para pegar o que era dele por direito. Eu ou a pulseira, não sei ao certo. Arranquei-a do pulso com toda a força que tinha, joguei num canto, quis enterrar junto das flores bonitas para que o encanto nunca se perdesse. Tarde demais. Todos os dias as cores me assombram, assim como o aroma das flores, assim como o estranho corpo que imigrou ao longe. Cegueira inexpressiva. O pulso ainda pesa tanto quanto as palavras nunca ditas. E eu escrevo em preto e branco até hoje.

“Eu queria caber num segundo teu. Naquele sorriso bem demorado, assim como na palma da tua mão. Queria fazer parte das entrelinhas dos teus versos, entre as linhas tortas do teu caminho. Ah como eu queria! Ah como eu queria entender como consigo acomodar tanto de ti no meu um me…
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“Eu queria caber num segundo teu. Naquele sorriso bem demorado, assim como na palma da tua mão. Queria fazer parte das entrelinhas dos teus versos, entre as linhas tortas do teu caminho. Ah como eu queria! Ah como eu queria entender como consigo acomodar tanto de ti no meu um metro e sessenta e três de altura. O problema dos encontros são os desencontros ao final de tudo. E agora passo pela cena difícil te desenhar em uma máquina de escrever. Se eu te dissesse que a palavra despedida tem exatamente o formato das tuas mãos, você ficaria para mais uma valsa? Que a meia-luz da sala me incomoda. Que o sofá não está aonde eu queria nem com quem eu gostaria. Adiantaria? Prender a brisa do teu perfume em porta-retratos, o sorriso na cabeceira da cama, os teus cotovelos na mesa de jantar. Eu desabafo com a televisão ligada, trocando os canais como se fosse encontrar teu rosto em algum comercial de margarina. Bebo café para sentir teu gosto, tomo banho quente para murmurar junto ao vapor sobre as curvas do teu corpo. Descobrindo que quanto mais o tempo passa mais tudo perde a graça, que até tuas palavras eram macias e confortáveis. E acho que, sinceramente, eu me acomodaria até num “bom dia” seu. O que me consta que tenho acordado tarde para evitar esses tais “bom dia” que há muito não me confortam. Tenho também um bocado de sotaque bonito preservado no canto do ouvido ecoando na primeira hora da manhã na varanda. O chimarrão me arrepiava a nuca e eu percebia, enfim, que estava num inferno e ele era o meu próprio corpo. As lembranças eram bombas relógio, a explosão unilateral de um afeto platônico. Moreno, só queria te dizer que eu apostei todas as fichas em você e perdi. E talvez as casualidades do universo ainda te recoloquem no meu jogo. E você vem. Claro que um dia vem. Primeiro escuto os teus passos, logo após a essência do perfume, o corpo provocativo, contudo nunca a alegria das pulsões. Pergunto-me então se a tristeza lhe acompanha a qualquer segundo. Se for assim, fique por aí. A monomania de sentir a tua tristeza como um ombro amigo que me puxa para dançar em dias difíceis, que rodopia meus sentidos até eu cogitar ser algo bom. Tua tristeza acena pra mim e eu me conforto. Qualquer sensação compartilhada do teu corpo é navalha e, sinceramente, eu me acostumei com o latejar das ideias e dormência da alma. Convencendo-me, pra variar, que não é pecar errar pelo excesso, mas sim pela falta. Encarava-me com meio sorriso, dois tapas nas costas e um "Acalme-se, menina, essas consternações acontecem nas melhores almas.". Mas e as tremuras do corpo? Falência múltipla dos sentimentos, um AVC de remorso e o latejar do silêncio. ♦Um dia ele me disse: “Vamos ser mais do que montinhos de areia no tempo?” E eu não fui.

“Eu acho que a gente se acerta. Na mesma fagulha, no mesmo teto. Na correnteza contrária, no elo infinito. Num beco da vida, num banco de praça. Ah, a gente se ajeita. Num cômodo pequeno, em foto 3x4. Em ideias fúnebres, em um blues anos 60. A gente se ampara até nos desencontro…
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“Eu acho que a gente se acerta. Na mesma fagulha, no mesmo teto. Na correnteza contrária, no elo infinito. Num beco da vida, num banco de praça. Ah, a gente se ajeita. Num cômodo pequeno, em foto 3x4. Em ideias fúnebres, em um blues anos 60. A gente se ampara até nos desencontros. Nos contrapontos, rumo contra o tempo. A gente se restringe a uma história por dia e três sorrisos por mês. Matamos quatro lembranças e dois dragões por sonho. A gente se acerta nos erros, na curva do engano, na rota do ego, na estrada dos ensejos. Ah! Sim. E chegamos a fingir que os sentimentos suspiram como balas perdidas inesperadas, e nos enganamos, pela milésima vez, de quê somos de naipes diferentes, peças de quebra-cabeças totalmente distintos que se encaixam de vez em quando. Que não ligamos para a laceração do orgulho ou pro precipício da eternidade. Acho que a gente se acerta. Você aí e eu aqui. Evitando os olhares certos, os lugares errados, a hora hipotética apenas para não se render aos encantos de um perfume doce. E posso até cogitar que a gente se equilibra. Na solidão das queixas, no vazio ao qual o preenchimento ainda é uma incógnita. Na carência flamejante, na cama desarrumada, respiração desregulada. Percebo então a falta do xeque-mate, da surpresa que não surpreende mais, nos carinhos intermitentes. Porque eu aceito as circunstâncias da confusão para que o segredo das mordidas no pescoço continue oculto. Eu suporto o peso regresso, as sensações anacrônicas, mas nunca a risada sarcástica das despedidas que pesam os teus ombros, e nos meus olhos. E assim eu acho que a gente se acerta. Você com os olhos negros distantes e eu poetiza dissimulada. Ambos sonhadores e criminosos. Ah, a gente se ajeita. Quando dá, a gente até se fantasia de criadores de caso e adoradores do caos pra nunca se perder de vez.” - Ao regresso que odeia despedida.

“Somos pequenas granadas de hesitação, não somos? Quem sabe até bombas atômicas implosivas. Flertes impulsivos, cartas que não foram enviadas, quiçá escritas. Somos lençóis de aromas distintos, hálitos, diferentes hálitos. Pra você o céu é vermelho, já o meu um cintilante lilás.…
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“Somos pequenas granadas de hesitação, não somos? Quem sabe até bombas atômicas implosivas. Flertes impulsivos, cartas que não foram enviadas, quiçá escritas. Somos lençóis de aromas distintos, hálitos, diferentes hálitos. Pra você o céu é vermelho, já o meu um cintilante lilás. E continuamos assim, um camuflado de folhas caídas. Calmaria que esvai junto ao vento. Tão leve... Somos as somas dos erros e as sobras das palavras. Somos o diminutivo de carinho: que não existe. Por que não sermos um? Somos aquelas frases clichês ditas no calor da hora, as malditas risadas durante um beijo. Um furacão que não cessa. Paz que não se acomoda, somos um trilho sem fim que não aceita paradas bruscas dentre as estações. E o que eu faço? Se procuro qualquer rastro teu nos variados desatinos dos querubins, em rostos indiferentes, eu procuro. Descubro então que tenho tratado a dor e não a causa dela, que não encontro a melodia que tanto preciso se não for me arrastando por tua rodovia de quase-estrelas. Até o tempo está me perdendo e parece não se importar. Em todos os sentidos, os opostos, os corretos, os incertos. Não acompanha meus rastros, minhas pegadas num sentido torto ou noutro que eu desconheça. Não se convence de que, por sentir demais, minhas direções se tornaram incontáveis. E era assim, apesar do teu todo ser uma tempestade infindável eu sempre me perguntava como conseguira roubar todo o brilho do sol só para si. Aí, entre as queixas, entre a curva do teu queixo, eu compreendo que também somos criminosos, eu com a selvageria imprudente do coração e tu com as gotas de mal-me-quer escorrendo pela boca disfarçadas de veneno doce. Rodopiávamos na mesma sinfonia, contudo não no mesmo ritmo. Os teus olhos expressavam a pressa, os meus procuravam conforto na eternidade de apenas um segundo. Eu até podia supor que éramos os suspeitos habituais de uma pesarosa mágoa que não traz culpa nem vontade, mas sim voracidade e descaso. Entendi que nossos laços, sanguíneos, sarcásticos, abrasadores não se encontravam nas mesmas vielas. Porque nós somos um camuflado de folhas caídas que correm por veias diferentes. Coágulos de finitos desamores.” ♦ No último segundo de vida a gente pensa em quem?

“Tem gente que deixa a nossa vida mais bonita, e chego até a suspeitar que morem em algum beco do arco-íris. Acho que os invejo de certa forma, porque do meu ponto de vista as estrelas estão espalhadas ao chão e eu nunca teria a capacidade que pregá-las junto ao céu de novo. Vejo…
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“Tem gente que deixa a nossa vida mais bonita, e chego até a suspeitar que morem em algum beco do arco-íris. Acho que os invejo de certa forma, porque do meu ponto de vista as estrelas estão espalhadas ao chão e eu nunca teria a capacidade que pregá-las junto ao céu de novo. Vejo um mundo antagônico com cores invertidas, ventos contrários e até me acomodo no avesso. Já não me reconheço e isso é uma das piores sensações que se pode existir. Tem gente que é tão linda por dentro que chego até a cogitar que tomem perfume doce. Elas não conhecem conversas, muito menos sentimentos unilaterais, e eu também as invejo, uma vez que sempre acabo confirmando a teoria de que o mundo é uma fábrica de chateações. A partir disto, vou me enchendo de coisas inacabadas, meia garrafa de vinho barato, meio cigarro, meia-vida. Valorizando objetos inanimados e seres humanos do mesmo escalão, evitando a refração dos raios solares e até me aliando aos redemoinhos convidativos que passam por aqui de vez em quando. E não há o que me comova ou fé que aguente, paz em outros tons, esperança de cheiro afetivo. Porque assim que a solidão me surra eu a encaro com pesar, ela até sorri com os olhos e me faz acreditar que meu coração apenas acordou mal humorado. E com a mesma frequência com a qual eu tento me reinventar, percebo que sou parte de um todo indivisível, que apenas mostro aos outros o que os cativa e encanta. Na verdade, sinto a podridão de dentro e o recesso da alma, sinto uma verdade escondida bem no fundo de onde nunca pensei em procurar. E eu sinto muito, mas não por mim. Partindo do pressuposto que de nada me importa e que por muitas vezes até consegui me imaginar sendo feliz com alguém nesse muro de lamentações. Mas não importa. Saúde é o que importa. Saúde absoluta que não se compra em farmácia, amor muito menos. E saúde e amor nem sempre são relativos, o que me intriga, porque eu me sinto saudável quando as pessoas que me rodeiam se encaixam em metáforas que ouso até afirmar como amores reais. E até que gosto. Porque meu coração palpita esperança repentina quando vem o cheiro de calmaria dentro de um livro. Porque o meu coração fareja doses inconstantes de confiança de quem está disposto a ser lido e não ter medo do resultado. Tem gente que traz nos olhos milhares de fogos de artifícios e eu até desconfio que eles cultivem furacões. E se as tempestades da alma forem igual um pré-temporal de fim de tarde, eu até consigo encher o meu vazio de sentimento bom e ser feliz por alguns minutos. Ou horas.”

“Ali estava eu, construindo árvores com suspiros, girando na órbita errada e tendo espasmos dos sentimentos mais variados possíveis. Bukowski, com profunda certeza, estaria me fitando com uma mão na testa e certo ar de desapontamento do outro lado da praça. E ali estava você. Daq…
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“Ali estava eu, construindo árvores com suspiros, girando na órbita errada e tendo espasmos dos sentimentos mais variados possíveis. Bukowski, com profunda certeza, estaria me fitando com uma mão na testa e certo ar de desapontamento do outro lado da praça. E ali estava você. Daquilo que não temos controle, senti dores musculares como se tivesse carregado um peso de cem quilos nas costas, mas, na verdade, apenas fiquei lendo os seus pensamentos em posições desconfortáveis. Estranho, você tem cheiro de poesia mansa que me dá a motivação errada para fazer a coisa certa. Tem cara de gente que dá carona no guarda-chuva, que não dorme com o barulho da tempestade. Olhar incisivo, rugas cansadas, expressão vacilante de quem soletra os clichês de trás pra frente. O rosto descarregava pieguice na escrita e frieza nas ações. Será que estaria disposto a compartilhar um silêncio confortável comigo? Tinha cara de quem aparecia, parecendo até que gostava que ficar, daqueles que gosta quando a pessoa chama pelo nome como se fizesse carinho nele. Então vamos numa apresentação de circo, num bosque de ecos convictos e alívios imediatos conversar e “sentimentar” sem compromisso, sem descaso. Ne me quitte pas dançando com a saudade, não deixe a solidão sem par. Vamos compartilhar dessas motivações que renascem do nada, vasculhar gavetas, estantes, instantes, coisas que a gente pode empilhar. Dormir para adiar dores, quem sabe até amores. Vale a pena, não vale a pressa. Olhei dos pés à cabeça e disse: “Moço, até que você é abraçável.” E ele sorriu de volta. Minha alegria naquela tarde me embalou num sussurro e não queria soltar mais.

Uma vez ele me falou que sou tão previsível tanto as Estrelas do Norte, disse também que sou feita de instantes, que fui um bem súbito em sua vida. Eu espero que tenha sido a estrela mais brilhante que orbitou naquele mundo sombrio. O admirava dormindo e apenas lamentava o gosto…
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Uma vez ele me falou que sou tão previsível tanto as Estrelas do Norte, disse também que sou feita de instantes, que fui um bem súbito em sua vida. Eu espero que tenha sido a estrela mais brilhante que orbitou naquele mundo sombrio. O admirava dormindo e apenas lamentava o gosto ácido da dúvida, meus olhos vacilantes denunciavam um “por que” a cada contratempo de sua respiração. Então me atingiu de inesperado o dia que o conheci, ele usava botas de couro, aquelas botas de motociclista, sabe, e um chapéu engraçado, me falou que estava terminalmente apaixonado por mim usando o termo “razões óbvias”. E eu não compreendia, mas apreciava que dançávamos no mesmo ritmo e sabíamos até descarrilar o mundo no mesmo compasso. Então, passo a passo, reconhecia um pouco de mim naquele enclave e me sentia confortável por isso, por fazer parte de um reduto de paz e, quem sabe até, ser a fonte desta sensação. Daí percebo que talvez ele seja o “de repente” que eu tanto aguardava e o frio na barriga que jamais cogitei provar. Mas como? Tantas perguntas e não esbarro com resposta alguma e sinceramente, eu não preciso. Daí descubro que também o encontro no meu “onde”. Na direção concreta, no ponto de referência confiável e exato, desvendo por trás do sorriso largo uma alegria recíproca, e na constelação de euforia, o desenho como Estrela do Sul. Minha estrela, jóia rara. E nós somos um. Por quanto tempo? Eu não sei, mas desculpa a falta de jeito, é que eu não posso resistir à tentação de pecar pelo excesso de desconfiança com o destino por ter o atravessado como um meteoro no meu céu. Era o tempo que cura fazendo cócegas no umbigo e ressaltando o meu gargalhar frouxo. E eu sentia isso também, todos os dias. Sentia as cócegas daquele riso baixo, do sopro leve na curva da minha orelha, sentia cócegas no olhar infame e até ousava a desvendá-lo. - Razões óbvias? – Indaguei. - Razões nucleares, menina, seu coração é uma bomba atômica e não sei se aguento o peso das explosões. Tarde demais. Acho que foi amor à primeira crise de riso.

"Fiquei até tarde da noite questionando o porquê de te eternizar em cada pensamento meu. Tentava com persistência e coragem admitir que do fim não restara mais nada e que teus acenos subentendidos, tampouco eram sinais. Comecei anotando os teus trejeitos em pequenos pedaços de pa…
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"Fiquei até tarde da noite questionando o porquê de te eternizar em cada pensamento meu. Tentava com persistência e coragem admitir que do fim não restara mais nada e que teus acenos subentendidos, tampouco eram sinais. Comecei anotando os teus trejeitos em pequenos pedaços de papel. Depois decorei tuas manias estranhas, tuas gírias, teus olhares. Eu me reestruturei só para não perder qualquer gesto que me permitisse te esquecer. Encontrava-te uma letra de música, numa poesia pela metade e até mesmo naquele abismo de incertezas que nos afastava. Saudade do tempo em que eu tinha por quem lutar. Que eu esquecia o precipício que reside em mim apenas para dar apoio ao teu. Não sei se vais compreender, sei lá, sabe. Sinto falta do que poderíamos ter sido, enquanto aprecio o peso de um futuro que eu mesma desenhei ao te admirar de longe. O erro exala simpatia até distorcer-se em inexatidão. E é sempre a mesma coisa, um texto se acaba e nossa história torta permanece, o que me causa palpitações, baby, uma vez que no contorno de cada letra o nosso dueto não parece fazer tanto sentido assim. E eu ainda insisto no plural, usando como argumento o arrepio que a tua presença me proporciona e os imprevistos que te atraem para o meu mundo. E há tantos imprevistos por aí, meu bem. Tua subjetividade é um imprevisto, dotado de sentimentos sem nome e efeitos colaterais. Saudade de ser aquela desequilibrada que esquece roupas, lembranças e sentimentos pelos cantos da existência como se nada mais importasse. Sinto a nostalgia de um ser esquecido e a melancolia dos infortúnios que esbarram a todo o tempo nos meus ombros já cansados. Sinto falta de não sentir falta, de não temer o gosto de ilusão a cada traço irreversível e desconhecido que trilho rumo ao norte de lugar algum. E nesse prefácio de pulsações involuntárias eu descobri que o azar bate à minha porta a cada dez segundos." E num décimo desse instante eu ainda tenho a esperança de que você seja o azar da vez. Mas nunca é.

“Eu te perdi em algum erro meu, eu acho Deixei-te sangrando em algum labirinto, larguei tua pose em algum canto de beco. Não que eu me culpasse, contudo, sei lá. Seria o crime perfeito assassinar qualquer boa lembrança que te trouxesse para mais perto. Acho que eu nunca te julga…
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“Eu te perdi em algum erro meu, eu acho Deixei-te sangrando em algum labirinto, larguei tua pose em algum canto de beco. Não que eu me culpasse, contudo, sei lá. Seria o crime perfeito assassinar qualquer boa lembrança que te trouxesse para mais perto. Acho que eu nunca te julgaria por omitir, não mentir, apenas mudar de ideia sobre nós. Até porque eu não sou o passado que você tanto gosta de esconder ou o nome que tu evitas a cada esquina. Eu não sou o vulto que tem aprisiona ou a música chata que fica repetindo na tua mente. Não, eu sou mais do que isso. Sou aquela que não conserta os erros, a que você não deixou permanecer. Sou a esquecida lembrada nos momentos de ausência. Sou aquela que te pediu um cigarro e não uma carona pelas curvas da vida. A menina que te impulsiona a criar asas, mas não o real motivo que te faz flutuar. Encaixo-me naquele banho de água fria que tu precisas a cada estação do ano quando o lapso de escassez lhe vem. Aquele vento leve que te faz querer algo bom, mas que não altera tua direção. Enfim. Tu querias abraçar tudo de uma vez, teus braços pareciam ter três metros perante novas situações fúteis. E eu gostava de te ver sorrir, mesmo que o pretexto não fosse a minha voz desafinada ou o tropeço que eu deixei naquela calçada. Apreciava a tua forma de ver o mundo, tão desajustado, eloquente. Eu cedia os meus maus modos e me transtornava por dentro, apenas para entender as tuas camadas de desordem e, quem sabe por sorte, desvendar o enigma que te esconde, que tanto me intriga. Talvez eu lhe dê motivos demais, espaço demais, frases demais. Talvez você não mereça, ou o que parece ser realmente é. E o que é? Eu te perdi porque, além de desunir meus pensamentos, mudaste o meu ritmo. Eu já não pensava mais na mesma frequência e evitava os rostos nas ruas com medo que o teu estivesse entre eles. E os outros seriam apenas os outros quando o martírio me tomava e eu desejava uma banalidade nessas vielas das ruas que te aproximasse das minhas queixas. E eu custei a associar que o efeito está no teu sabor que há tempo não provo.Descobri que te perdi nos acertos, nos passos certos, no sentido contrário. Eu ganhava na sorte e não te trazia junto, mas não se ofenda. Fiz-te de equívoco, resultado falso, delito, imprecisão, imperfeição, punição. Eu precisava compreender o porquê da tua amargura de fazer tão bem. E eu só fui te pedir um cigarro. Só ainda não me acostumei com o fardo de tempo que atrofia os meus batimentos a cada vez que tu tiras o meu sossego. Acomodei-me um pouco, confesso. Já me conformei de que, se o meu coração fica apertado ou se eu choro por dentro, de alguma forma, o problema é só meu.”

Eu te usei. Usei mesmo, sem dó ou prestações. Usei tuas manias desajeitadas nos trejeitos dos nossos pequenos. Eu criei a cor dos olhos teus, transformando-o em remédio para um mundo melhor. Sim. Prenda-me. Eu explorei o teu vazio e inventei edifícios de sentimentos aí por dent…
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Eu te usei. Usei mesmo, sem dó ou prestações. Usei tuas manias desajeitadas nos trejeitos dos nossos pequenos. Eu criei a cor dos olhos teus, transformando-o em remédio para um mundo melhor. Sim. Prenda-me. Eu explorei o teu vazio e inventei edifícios de sentimentos aí por dentro. Desenhei as tuas impressões digitais em algum cantinho do meu corpo e até ousei desabotoar tua cara amarrada com a largura do meu sorriso. Eu te usei das piores formas possíveis, b’shert. E até quem via de longe podia perceber que era eu quem manejava os nossos caminhos para que os mesmos rasurassem as linhas do destino. Porque eu te admirava como quem tira a sorte grande na loteria da vida. Perdoa-me por persuadir as coisas a tua volta e decorar tuas mil e uma manias, por fingir ter medo das trovoadas apenas para conseguir um abraço teu. Eu te usei como válvula de escape por sempre fugir de algo que tenho medo de conhecer, entende? Estar contigo, te reinventando, invertendo os sentidos, criando monomanias é o que ainda me matem viva, controlando o teu pulsar, as minhas costumeiras reações... Tenho medo de nunca mais encontrar o conforto que a tua íris proporciona, medo de vasculhar lembranças e não colidir com um “Pare de ser assim, tão amavelmente bonita”, mesmo que eu tenha inventado isto também. Acho que te peço desculpas, pela falta de jeito, pelo sufoco do inexistente, pelo sopro de insistência e acima de tudo, pelas fichas apostadas. E eu te usei até como moeda de troca com o infortúnio, b’shert, de anjo protetor, de floresta incendiária. Eu te usei. Desculpa revidar a indiferença dos ombros com a chuva dos olhos, o tapa de realidade com um beijo no cenho, desculpa diluir o medo da senescência na paz do teu sossego. Desculpa se transformei o teu perfume num ponto de serenidade. Perdoa ser o antônimo dos teus acasos, enfim, chegou a hora de voar com as próprias asas, não é? E mesmo depois de tudo, eu ainda te desejo o incalculável. E uma rua iluminada de lembranças nossas. Se é que tenha algum. ♦Olhava-me com o queixo baixo e dizia: “Você não gostaria de estar na minha pele”. Ah como eu queria.

“La Petite Fille O espelho diz todo dia que tenho uma aura branca envolta no corpo, mas como? Por que não reconheço o reflexo que parece tão vívido diante de mim? E ali está quem não conheço, ela possui os olhos grandes de excitação e não dispõe de nenhuma marca de ressentimento…
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“La Petite Fille O espelho diz todo dia que tenho uma aura branca envolta no corpo, mas como? Por que não reconheço o reflexo que parece tão vívido diante de mim? E ali está quem não conheço, ela possui os olhos grandes de excitação e não dispõe de nenhuma marca de ressentimento. Sim, fille, tua farsa começa nas pontas dos teus cabelos, desce pelos becos que percorrem teu corpo e chega ao teu coração, mostrando a todos que tua vontade de vencer e ser sempre a última a mover as peças do tabuleiro era maior do que qualquer vício de presença, e que tuas intenções vazias de serenidade acertavam em cheio os corações desesperados por manhãs ensolaradas. E tu eras uma esfinge, menina, surgia como manhã ensolarada, tarde fria, noite seca, ou qualquer outra forma que se adaptasse ao que tu ambicionavas. Teu mundo era uma mentira, assim como a fraude dos olhos doces que sucumbia os enamorados, teu vestido vermelho justo apresentava o paraíso inconsciente para os amantes insensatos. O sorriso de Mona Lisa que trazia exorbitante enfeitiçava os imaturos e persuadia os inquietos. E eu não me encontrava nessas horas de impetuosidade. E por dentro a bile esgotava-se, e a carnificina do próprio ego me destruía em pequenas frações de luto. Refluxo, refluxo, refluxo. Como o movimento da maré que se afasta da margem, como se carne e alma não estivessem mais nas pregas da mesma costura. E a sensação intrínseca que não surte mais deliberado efeito corrói a animália do ponto de não-retorno, alimentando a fera devoradora de males errantes. Aí eu me dou conta de quê guerra mesmo ocorre aqui por dentro, e as paredes do corpo não permitem a notoriedade do eco, e eu até me conformo de que minha parte sombria não seja exposta contando que a máscara de “mundo justo que no final não vale a pena” ainda instigue. E mesmo com mantras desconexos e o veneno do bálsamo escarlate, o meu arsenal de desafeto implica a morte uma fase bonita, contudo não dos sentimentos necrosados. E para continuar viva, eu precisava morrer um pouco por dentro apenas para que a minha subjetividade não alternasse. O espelho pode assumir diversos significados simbólicos e quase todos estão ligados à verdade, à sinceridade e à pureza. E eu ficava aliviada quando os seres à minha volta acreditavam na aparência do olhar que não vê direito. A porta abriu sozinha com a força do vento, e pela primeira vez pensei: “Fique tranquila, fille, os fantasmas cá estão dentro de nós”.”

“Aqui jaz o que parecia ser e nunca foi. Dos piores passatempos do mundo descobri que olhar pela mesma janela todos os dias envelhecia-me vinte ou trinta anos. Era basicamente como todos os outros dias, entende? Acordar pela manhã, passar o café amargo, ler Bukowski, empacotar l…
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“Aqui jaz o que parecia ser e nunca foi. Dos piores passatempos do mundo descobri que olhar pela mesma janela todos os dias envelhecia-me vinte ou trinta anos. Era basicamente como todos os outros dias, entende? Acordar pela manhã, passar o café amargo, ler Bukowski, empacotar lembranças e sentar numa cadeira de balanço. Todos os dias. A mesma xícara sobre a mesa de mármore que há anos ilustrava o cômodo da casa. Perdia-me numa fase ao qual não possuía muito que se perder. As horas pareciam rasgadas ao meio e a cada tique-taque do relógio de parede, um grito de tempo perdido inundava a sala. Deduzi então que o arco-íris ficava lá fora por não saber lidar com a tristeza que alagava os hiatos dos meus pensamentos. Transcrevia então sonhos para o papel e nunca os vivia. Dotava que recordações asperamente jogadas nos cantos da aparência, esquecidas nos becos da saudade e nos lapsos de realidade, o azar agregava-se como um ombro amigo. Não sentia a vibração da alma, tampouco a sensação de liberdade multicolorida que a submergia. Vivia então num paraíso bordado em preto e branco, tal qual dos instintos mais puros, a percepção de espírito livre há muito não me arrepiava. E era isso, eu era um fantoche do passado e de certa forma o que eu já conhecia sempre me encantou, não que fosse encanto, mas o conhecido é sempre mais confortável e palpável, o que não entendemos com clareza vai além do intuito de medo.Medo do inesperado, do que parece certo, medo de não se livrar dos grilhões de um período que ainda habita no presente. Eu era um prisioneiro do tempo e nessa ida e vinda de apreensão a estímulos imediatos a coragem retraia-se até findar. O sentimento de bravura sentia-se num prato fundo de escassez e valentia. Meia-vida representara o rompimento dos valores que antes me moviam, nada estava no devido lugar. Incógnitas nunca entrariam no paraíso e, consequentemente, eu não pisaria nas nuvens dos céus. E isso não me importava, de alguma forma. Hipnotizado, não permiti sentir os pedaços de caco de vidro espalhados ao chão. Minha falha fora pensar que só o teu semblante me sustentaria e que o caminho ainda não percorrido equivaleria às lacunas ainda não preenchidas, as que eu desconhecia, contudo, sabia que as encontraria num ser perfeito. Podias ter sido esse ser, amor. Sou refém da minha memória e de tudo que ainda não vivi, porque mesmo que os anos passem eu ainda vou lembrar a cor do teu vestido, e isso era para me fazer bem. Era. As lembranças que nos cercam podem ser classificadas como containers nas prateleiras da memória e os teus milhares de trejeitos espremessem nas quatro paredes de aço como o que não pode ser contido. É como eu te falei um dia em alguma conversa à toa, me encanta tudo aquilo que não compreendo, que escapa pelos meus dedos. Nós gostávamos dos mesmos contos de Edgar Allan Poe. Nada que surpreendesse muito, a tragédia virava doce quando mastigada por tua voz, e as tragédias de hoje preenchiam minha brechas. Sutura. Eu caçava o pretérito pelas vielas de lugar algum todos os dias e não te encontrava. Tinha esperança em colidir os últimos capítulos da nossa história e até esbarrar com tua presença em formas irregulares no vento, uma vez que não precisava ser sólido para que eu te sentisse. E morreu, sabe. Vivíamos ansiando o fim, sendo assim concluí que o desencontro nos pesava as costas e as situações que nos prendiam não passavam de um breve elogio fúnebre. E nas artimanhas na rotina colateral uma voz me dizia que epitáfio também é arte." - E eu escrevo até hoje só pra te encontrar.

“Querido alguém que eu ainda não conheço. Queria dizer que você está demorando, viu? Talvez já tenhamos nos esbarrado por aí, entretanto ainda não te senti. Você já me notou? Sua história já colidiu com a minha? Querido estranho por qual aguardo, sabe-se lá por que o espero, quem…
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“Querido alguém que eu ainda não conheço. Queria dizer que você está demorando, viu? Talvez já tenhamos nos esbarrado por aí, entretanto ainda não te senti. Você já me notou? Sua história já colidiu com a minha? Querido estranho por qual aguardo, sabe-se lá por que o espero, quem sabe o teu mais puro sorriso eu transforme em notícia boa. E eu anseio por notícias boas, meu bem. Acho que já imaginei como o teu abraço deve ser e até o perfume que você usa. Você também deve possuir alguma mania, de morder os lábios, eu espero. Tua risada ainda é uma incógnita, contudo já a imagino contagiando um dos meus filhos. Teu rosto é um mistério. Os olhos são castanhos ou azuis? Esquece, tudo em você será perfeito. E eu aguardo ansiosamente o ressoar dos sinos, os coros de “Aleluia”, nossos sonhos compartilhados, até mesmo minhas lágrimas depois de uma briga. Eu já imagino as costas macias das tuas mãos secando os meus prantos, tua boca calando a minha, o choque das nossas incertezas. Que demora hein, estranho. Estou dividindo a minha solidão em parcelas de quarenta e três vezes, pois sei que, depois de tropeçar na tua presença, o caminho até o primeiro abismo é quase que um pulo. Estou poupando as quedas. Ou não. Mal te conheço e já sinto aquele ciúme bobo, um frio na barriga indesejado, um sentimento até então abstrato. Já sei também que traz consigo o velho hábito de jogar a toalha molhada em cima da cama, de não ouvir uma música até o final, de pular dois degraus a cada vez que subir e descer as escadas. Posso idealizar você odiando o pôr do sol, uma vez que eu te contarei sobre o meu passado, e você entenderá porque tanta luz já me fez tão mal. Perderá o controle ao ver-me num vestido justo, mas saberá que a exclusividade de tirá-lo será só tua. E seremos felizes. Você com o os pés no chão e eu um rabisco errante de pensamentos mal articulados. Ou vice versa. Vamos combinar assim, você vai anunciar em rádios e jornais que procura a garota com o cabelo loiro que não sai da tua mente, a menina dos teus olhos, cujo nome desconhece, mas sente que é real. E eu estarei aqui, te aguardando em poesia, te perpetuando e te desenhando pelas entrelinhas. Estou na expectativa de lhe dar “bom dia” a cada dia até o fim dos tempos. Então vamos?" Me dê o ar da graça e me faça perder o fôlego.

Decidi fazer algo diferente por mim. "Dormi do outro lado da cama, inverti a mania de colocar primeiro o café depois o leite e até estampei um sorriso no rosto em plena manhã de segunda-feira. Dei bom dia pra quem não gosto muito, mudei a estação do rádio e não dei seta para dob…
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Decidi fazer algo diferente por mim. "Dormi do outro lado da cama, inverti a mania de colocar primeiro o café depois o leite e até estampei um sorriso no rosto em plena manhã de segunda-feira. Dei bom dia pra quem não gosto muito, mudei a estação do rádio e não dei seta para dobrar a esquina. Decidi orar por um dia melhor, colocar meias de outras cores e atravessar a cidade a pé para trabalhar. Acordei de madrugada por medo das trovoadas, coisa que nunca fiz. Tive uma conversa de meia hora com o porteiro, comi coisas saudáveis pela manhã e acordei cedo para correr. Decidi fazer algo diferente por mim. Gorjeta alta pro garçom, chá das cinco em pleno sol do meio dia, mandei flores pra quem há muito não me dava notícias. Saí sozinha sexta à noite e parei num bar que nem sabia que existia, conheci alguém e não me apaixonei no primeiro canhão de palavras apaixonantes, tampouco peguei o seu telefone. Deixei a televisão desligada e fui ler um livro, cochilei no sofá da sala e despertei rindo por perder a noção do tempo e espaço. De tanto me sacrificar por ti, decidi fazer algo diferente por mim. De tanto morrer por nós, decidi não me importar, esquecer tua mania de dormir de bruços e com os pés descobertos, de gostar de café amargo, do mau humor de segunda-feira. Decidi esquecer tuas músicas favoritas, tua descrença com o mundo e os teus maus modos. Decidi fazer algo por mim te matando nos detalhes, fatiando em pedacinhos para que o meu inteiro não fosse afetado de forma alguma. E era só a gente, viu, do início ao fim, sem meio termo ou carinho pela metade. Tua tristeza era minha agonia. E as tuas idas também. Decidi fazer algo diferente por mim, evitando ao máximo tuas chegadas incertas, os aromas que exalam da tua inquietude e o vício de presença. Decidi fazer algo diferente por mim não me encantando com o brilho do Sol e modificando minhas ideias a cada fase da Lua. Decidi fazer por mim, o que nunca pensastes em fazer por ninguém, decidi me tornar algo diferente do que você se transformou. Não por você, por mim. E eu ainda lembro o dia que te conheci. Lembro também que não gostava de chuva, mas até me atrevia a pular nas poças das ruas para arrancar um sorriso teu. Qual das máscaras estavam no teu rosto? Quantos sorrisos diferentes tens aí? Decidi fazer algo diferente por mim preenchendo as lacunas da solidão com meios que não me deixassem mais triste, que não me oprimissem. Decidi fazer algo diferente por mim te encarando com outros olhos. Você preencheu um vazio e não uma necessidade. Agora a necessidade é vazia de ti, amor." Ainda que eu altere minha rotina ou pensamento, tudo volta pra você.

“Acho que das dezoito primaveras que já vivi essa expressa com clareza que o colorido da veracidade depende do estado impulsivo da alma. O meu brilho estava camuflado, baby, assim como qualquer tipo de realce infame que me abatia. Percebi que a estação mudou e você também, compre…
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“Acho que das dezoito primaveras que já vivi essa expressa com clareza que o colorido da veracidade depende do estado impulsivo da alma. O meu brilho estava camuflado, baby, assim como qualquer tipo de realce infame que me abatia. Percebi que a estação mudou e você também, compreendi do mesmo modo que era o teu lampejo que fatiava a felicidade em vinte e quatro horas e os dias em semitons. Dependia dos teus batimentos para que minha respiração regulasse, encontrava minhas vontades na curva da tua boca. Espalhei alguns pedaços de medo por cima da mesa e descobri que unindo esses fragmentos de fobia o teu rosto era facilmente identificado nas entrelinhas. Selvageria talvez nos definisse de alguma forma. Não que importasse a cama vazia durante a noite, mas sim as lacunas incompletas que me sondavam os dias. Cravei minhas unhas nas tuas costas para mostrar às outras que aquela pele já era arranhada por minhas mãos. E a marca dos teus dentes expôs a mordida não cicatrizada no meu braço esquerdo. Estaria você incitando aos outros que alguma coisa ali lhe pertencia? Tirando tuas vindas o resto era monotonia. É que eu não sei amar pelo avesso, entende? Eu não sei sair dos labirintos das tuas palavras sem escoriações visíveis. Eu não sei te amar pela metade, muito menos evitar a desgraça de cair na armadilha que tu inventas para o mundo, que faz dela tua verdade. Eu não sei mais conjugar os verbos sem ao menos pensar na consequência de encaixar o teu nome nos espaços ininteligíveis. Teu nome comum que dobra cada esquina aparece de repente quando eu me desprendo do que aflige, e sinto o arrepio do ultraje em conhecer outros corpos que trazem as sete letras que me congelam dos pés a cabeça. Sete letras, estas que se encaixam em uma frase que você nunca ousaria em dizer. Não pra mim. Admiti a perda, contudo não constatei o erro, forjei alívio e atribuí ausência à nostalgia. Saudade da tua respiração, saudade de perder o fôlego contigo. Porque saudade vai ser sempre a palavra por trás do que ninguém conheceu e nunca ousou em pensar que existiu. Eu transpiro saudade, e a primavera o teu perfume. Só vamos supor que eu não te ame. Se eu amar, que você não saiba. Que nossa história nunca acabe. Que a necessidade nunca cesse. Teorias. Suposições à prática de perder um pouquinho de ti a cada frase, querendo gritar aos quatros cantos que o calor da temperatura amena me causava calafrios pelo entrelaçar das nossas pernas e não por culpa do equinócio. Não venha me dizer que fez tudo o que podia, pois não fez. Não encontrei buquês de flores espalhados pela minha casa ou tuas frases batidas pintadas em forma de protesto nos muros. Não que eu precisasse de provas de amor, mas eu só precisava de alguma prova. Não que eu precisasse de você inteiro, eu só queria uma fatia do teu sorriso ou um pedaço de alegria e pronto, me bastava. Agora nem um quarto disso posso conseguir." A primavera já fora mais florida - pensei. E a vida também.

E o “Mas é claro que ele tem sentimentos, só que nenhum deles é por ti” atravessou os meus poros como uma rajada de vento frio
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E o “Mas é claro que ele tem sentimentos, só que nenhum deles é por ti” atravessou os meus poros como uma rajada de vento frio ecoou nas paredes de euforia que me protegiam e eu tombei no abismo da verdade, que o meu olhar não era o que buscavas tampouco tinha a cor dos que antes te sucumbiam que o meu perfume era mais doce o qual ele ansiava que o meu sorriso era mais largo minhas piadas as mais sem graça meus olhos mais fechados o tom da minha pele um oitavo mais claro mas foi pra mim que um “lembro do dia que vi você pela primeira vez” saiu quase que num sussurro rasgando a madrugada fria e eu não tinha certeza se o que te chamou a atenção em mim fora o meu perfume enjoado minha risada desafinada até mesmo as anedotas sem sentido mas eu sabia que eu lutaria por você mesmo que não fosse eu o alegrar dos teus dias porque tu é uma confusão dos pés à cabeça e eu me perco no teu vazio fico boba com a forma como tu ambicionas o mundo só queria pegar na tua mão entrelaçar os nossos pés e te mostrar que incerteza é um dos males da alma queria te dizer que o teu sorriso fica mais bonito quando teus olhos brilham mais e eu só percebia esse efeito quando minhas palavras faziam cócegas no teu pensamento e tu sorrias por dentro e eu só presenciava essa sina celeste a partir da hora em que passavas pela porta e a faísca dos teus olhos acertavam as minhas e eu acho que quando estamos juntos até faço-te acreditar que sou a meninas dos teus sonhos será que sou? Um poema torto refletindo a nossa história do começo ao fim. Fim?

Pra Ela "Então ali está, a menina do sorriso misterioso que transcende os dias. Ela é dotada de vários vícios e o sonho lhe inunda os olhos a cada hora do dia. Ah os olhos. Traz com si duas esferas de céu azul e a cor rosada da fruta proibida do paraíso nos lábios. Ela é a Branc…
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Pra Ela "Então ali está, a menina do sorriso misterioso que transcende os dias. Ela é dotada de vários vícios e o sonho lhe inunda os olhos a cada hora do dia. Ah os olhos. Traz com si duas esferas de céu azul e a cor rosada da fruta proibida do paraíso nos lábios. Ela é a Branca de Neve que não precisou morder a maçã para descobrir os venenos do mundo. Bem no fundo, ela compreendia que quando o coração apertava, um amor de meia estação atravessava o vento como possibilidade seca, e que se uma lágrima lhe escapasse, parte de uma frase não dita saía junto. E ela é feita de mares de frases não ditas, amor. É a tempestade intensa e tanto quanto intempestiva que abala as estruturas de quem não ousa ser atingido por tal sensação. Ah o sentimentalismo visível que exala por seus poros como cheiro de poesia fresca. Porque a Branca de Neve deste conto não precisa de castelos para que a felicidade lhe capte, tampouco da brutalidade do mal-me-quer para que a tristeza lhe instigue. A Branca de Neve não precisa de meias palavras, mas gosta delas. A menina destes versos eu encontro num conceito textual de Caio F. Abreu e até ouso cogitar que a expressão “Que seja doce” fora escrita especialmente para quando o gosto amargo e efêmero da incerteza a raptasse. E ela gosta de ser desafiada pelas incertezas, não? E até se sente extraordinariamente sagaz assim que o efeito de tendenciosidade lhe atiça os sentidos e o proibido agrada a saliva úmida. Pra ela, que ainda acredita na boa fé do mundo, que deixa um pedacinho de verdade jogada pelos cantos da existência. É ela que tem esperança no que já é invisível, assim como não exibe sua armadura cética uma vez que ainda acredita no amor. Ah ela, que me cativa quando se mostra frágil, que almeja um afeto imensurável. Acho que escreveria outras dúzias de frases para cada tristeza que lhe consome justamente para que as palavras nunca a ferissem. Eu estancaria feito sutura, uma vez que sua tristeza é parecida com a minha nas diversas lacunas de hesitação, a diferença, a sutil diferença é que, os olhos dela meio que lampejam a qualquer sinal de notícia boa. O que a muito não me consolidava. Mas ora veja, quando ela sorria eu até conseguia ficar contente. A Branca de Neve desta história não faz a menor ideia de quê é mais forte e autossuficiente do que imagina." Pra ela.