Ao natural
Se desse pra te tirar da memória
Eu já teria te deletado do sistema
Só que eu lembro de quase tudo
E estou com um baita problema
Na areia da praia ou na calçada
A saudade leva o mesmo nome
Até no lado de lá deste planeta
Não há outra a quem eu chame
Política, economia e sociedade
Fico atento às novidades todas
Mas sem nenhuma notícia tua
De Dubai, as experiências boas
Sinto em segredo, sei esconder
Falar sobre tudo sem me expor
Evocando os teus olhos verdes
Crise fiscal só me causa torpor
Foi um prazer ter te conhecido
Na contramão da miopia geral
Uma observação atenta saberia
Que só por ti escrevo ao natural.
Desfilando na chuva
Certa vez, um aventureiro saiu a caminhar
Estava chovendo e ele permitiu se molhar
Sem apressar o passo, optou pela sensação
Enquanto todos corriam, ele era a exceção
Sabiamente, refletiu acerca da fuga alheia
Era como se cada um quisesse a sua aldeia
Muito calor no verão, muito frio no inverno
Sempre há o que reclamar, um ciclo eterno
Imaginou o que eles imaginaram ao vê-lo
Sozinho, encharcado, em total desmazelo
Sequer possuía um guarda-chuva: coitado!
Já que é tão comum se prevenir um bocado
A sua intenção era lógica: sentir a chuva
Ao mesmo tempo que tinha gente de luva
Que pecado! Que blasfêmia! Que heresia!
Não ser mais um desesperado em demasia
Ele poderia ter ficado gripado e não ficou
Ter optado por chegar antes, mas desfilou
Parecia insana a curtição naquele cenário
Mas a felicidade não tem prévio horário.
Espaçonave
De que adianta estar em uma nave espacial
Se a estrela mais bonita está do lado de fora?
De que adianta ser uma pessoa tão pontual
Se simplesmente nada ocorre àquela hora?
Deviam ser dez e quinze quando ela partiu
A nave voou, o tempo passou e tudo sumiu
Nova semana, outra era, mas isso se repete
A lacuna está aberta para que ela complete
São tantos astros em um espaço infinito
Disputando as atenções do fiel auditório
Que anseia por notícias, até por um grito
Um sinal qualquer que desfaça o ilusório
Os planetas distantes são mais misteriosos
Não tem novidade: eles atraem os curiosos
Trajetórias íngremes dispensam um atlas
Buracos negros não aparecem nos mapas
Os tripulantes foram avisados sobre o perigo
Entretanto, optaram valentemente por flutuar
Situação essa que remete ao conselho antigo
Dado às crianças em relação ao fundo do mar
Quem quer ficar na história, não tem medo
Busca as grandes conquistas, amplo enredo
Fica mais acessível confiar no improvável
Se até mesmo a protagonista é indecifrável.
Somos
Somos a ilusão da crença
E a desgostosa descrença
Somos à prova de amor
Não há escudo à dor
Somos todos, somos únicos
Somos bilhões, somos um
Cada qual, nada igual
Só mais um, bem comum
Somos número, somos um
Querendo ser dois, ser par
Ninguém vive no singular
Não sejas mais algum!
Somos o que rejeitamos
As escolhas desacreditadas
Somos falsos irmãos
Empunhando espadas
Somos mesmo sem sermos
O fruto da divina criação
Mas a laranja apodrece
E o corpo cai no caixão.
Caiu a ficha
Eu saí com ela depois de um tempo sem nos vermos. Conversamos, rimos, concordamos em muitas coisas e discordamos em outras. Ficamos horas nesta apreciação pura e mútua de um momento, até que chegou o instante em que ela teve que partir. Na ordem cronológica dos fatos, era só mais um lance a passar desapercebido pela maioria, mas o vazio que senti ao seu adeus foi bem perceptível para mim. Então, caiu a ficha: eu estava gostando dela.
Sufoco
Quando nunca tivemos algo
E temos medo de perder
Podemos estar agindo errado
Ao pensar, mas nada fazer
A ausência é também ação
Atrasando os fatos e fotos
Será que revelaremos ou não?
A quem nós somos devotos
Os velhos tempos se foram
Para sempre, sem discussão
Tudo se vai... uns a mais
Na inexistência de opção
Que cultivemos bons amigos
Sejam eles poucos, loucos
Mas que tenhamos um amor
Único e onipresente sufoco.
Estilo underground
O destino me pregou uma peça
Depois de todos os dias idos
Ele dizia: 'cara, vamos nessa!'
E eu me encontrava perdido
Nunca acreditei na hora certa
Lugar exato, algo a acontecer
Até minha mente estar deserta
Sem pensar, comecei a fazer
Música alta como som de fundo
Alma gritando, um barulho mudo
Silêncio nítido, mas esclarecedor
Colocamos mais fogo nesse calor
Gostei daquele estilo underground
Diversão, loucura, beer and sound
Óculos revelando uma outra visão
Olhares cruzando-se na contramão
Sem Carnaval, tocava a marchinha
Animando os fiéis amantes noturnos
Revelações íntimas nas entrelinhas
Palavras suaves, desejos absurdos
Pra que pedir desculpa por estar feliz?
Tente, ao menos, fazer alguém sorrir
Acabe a noite melhor do que começou
E, não se esqueça: a vida é um show!
Somos o futuro
Mais uma noite acaba
Mas não acaba o sentir
Um sentido quase raro
A novidade está por vir
Todo dia é um novo ar
Alguma coisa pra respirar
Estando nessa plenitude
Na eminência de atitude
É claro que haverá então
Outra paisagem lá fora
Somos o futuro, irmão
Quer mesmo dar o fora?
Opto por prosseguir aqui
Um tanto longe de mim
Ainda refletindo comigo
Motivado, mesmo sem ti.
Reflexão (tardia)
Entre a insanidade e a lucidez
A sobriedade e a embriaguez
Eu pego apenas mais um copo
Se for pra apostar agora, topo
Crescemos e envelhecemos
Desaprendendo a usufruir
Trabalhamos e perdemos
A experiência de curtir
Entre o fim do dia e o de tudo
Algumas letras, alfabeto mudo
Eu mantenho-me em silêncio
Um disparo pro alto, inexato
Nos alimentamos da carne
De algum animal sacrificado
A reflexão chega sempre tarde
Depois do jovem ser assassinado
País, sociedade, razão e religião
Porre, porrada, falta de opção
A continuidade é um erro fatal
Em um amanhã de pleno temporal.
Parto do descontrole
Aqui intercala o nosso intercurso
Dispensando qualquer discurso
Apenas uma maneira de pensar
Rejeitando quem possa segurar
Falamos um pouco de futebol
Descansamos no nosso lençol
Uma tirania devassa e cruel
Tumba no eterno mausoléu
Estranhamente me aguarde
Mesmo que os dias parem
Estou cansado de esperar
Pela noite que me agrade
Um caso em diversos caos
Sujeito bom dentre maus
A menina que se diverte
Na lembrança das Chacretes
Estaremos na área de novo
Para tentar socorrer o povo
Esta sensatez está perversa
E a paranoia assim dispersa
Quero cantar em pleno torpor
Como em um coma induzido
Livre, leve, em um total vapor
O descontrole foi assim parido.
Ser humano
Chuva que cai no dia de calor
Sensação de paz momentânea
Violência instaura o terror
A realidade é instantânea
Há disparidade em altos níveis
O consumo diário no capitalismo
O avanço utópico do anarquismo
Tantas diferenças, todas incríveis
Enquanto jogamos conversa fora
E outros não podem se expressar
Ignoramos a chance de mudar
Mudança global? Não agora!
Estamos cheios das tolices
Corrompidos pelos poderosos
Seres férteis em bizarrices
Nossos ídolos estão mortos
Quem pensa diferente, é louco
Quem pensa igual, é pouco
Quem não pensa, é normal
O que Ele pensa? Erro fatal.