Eu hoje estou cansada.
Cansada e com os olhos cerrados.
Cansada de sonhar, e de esperar.
Cansada de esperar
a paz que tanto procuro,
cansada de sonhar com
um mundo que não vejo.
Frágil como folha
de árvore caída no outono,
chora sem nem saber se precisa.
Sentimentos voam
atabalhoados
e confusos.
Certeza do que quer,
incerteza em acreditar
na vida de alegria
que acreditou, um dia.
Ela voa por aí,
como o sabiá.
Busca frutos no pomar.
Me entrego inteira
porque te quero
apagando a fogueira
que acendeu em mim,
quando te conheci.
Loucura é esse intento
e quase tormento quando,
em meus apelos atrevidos,
não te posso amar assim,
tão loucamente!
Voltei feliz, embora cansada.
O trânsito era infernal,
mas me deixava ver as vitrines.
Me ative às de lingerie,
pensei numa camisola nova.
Viajei pela janela molhada
e turva da chuva fraca
imaginando a sedução da seda.
Te vi, meus olhos sorriram.
Teus projetos já são mirabolantes
e grandiosos.
Veste-se bem, conversa muito e ri pouco.
Usas relógio de pulso e gel nos cabelos,
já mirrados pelas quedas.
Compensa-te a queda o novo bigode,
símbolo forte de tua sorte em crise.
Tens nova loja e novo carro.
Tens também uma facção.
Quanta imaginação!
Teu nome nem é limpo
e já queres dispender do que não tem.
Me assusto com o entulho deixado pelo teu rastro.
Papéis desordenados, outros amassados.
Porém todos atirados e jogados
no caminho do meu choro molhado.
Perde-te a cada dia e em apenas dois,
pensei ter me perdido junto.
Mas reconstruo-me agora,
busco lá no fundo a minha alegria
quase perdida, mas não ainda!
O JARDINEIRO DE MIM
Pernas cruzadas, arqueadas, medrosas.
Se abraçam, se fundem.
O Jardineiro nem semeia; mas colhe de mim cor e flor.
Sem fôlego, quer e espera.
Menos que eu,
já trôpega em meus gritos roucos.
Moça bonita, moço cheiroso... pele!!!!
Me refresquei num banho de sonho e, assim, adormeci.
Assola a melancolia inexplicável.
Solidão, saudades, medo.
Mente e coração fervilham,
se embaralham e se confundem
num emaranhado,
num nó de marinheiro.
Ei, seu moço!
Eu tô com frio
e pra me aquecer
preciso de você.
Me dá um trago
do seu cigarro?
Um gole da sua cerveja
e um abraço bem apertado?
Beijo molhado.
Sorriso minguado
de tão tímido e suado.
Tô ali na esquina,
"perando" o encontro adiado
e mal combinado.
Tem blusa de frio aí, seu moço?
Ou seus braços me aquecem?
Seu moço, eu "pero".
O dia era triste,
parecia não terminar.
Foi um suplício.
Nem um caniço
poderia erguê-lo
das profundezas
daquele mar...
Seu olhar era tenso
e nublado.
A feição estática,
apática.
Não se movia,
não era cria
daquele lugar!
Divagou,
caminhou
e perambulou
pelas trilhas
que já não
existiam.
Eu sou aquela borboleta
que se agarra
às paredes e ali
permanece, solitária.
Sobrevoei plantas,
muros,
lamas.
Renasci no barro
da lama
e do estrume:
cogumelo.
Vejo no céu uma estrela pequena e solitária.
Ela está triste e ninguém vê.
Vejo-a tentando brilhar, reluzir, irradiar luz e calor.
Mas não consegue, porque está triste e só.
Ela se sente um grão de areia, e não uma estrela.
Na ânsia de acertar, errei.
Mas acertei no conserto do que sou.
Troquei peças:
parafusos e porcas.
Me sinto viva, quando deveria estar morta.
Migalhas não me ofendem.
São migalhas e sou pássaro:
degusto farelos.
Às vezes sou frangalhos.
Restos de alguém
que pensa ser... alguém!